Archive for maio, 2009

Canção do Exílio Moderna

Todos conhecem a famosíssima poesia romântica de Gonçalves Dias, denominada “Canção do Exílio”. Gonçalves Dias foi considerado o maior poeta indianista da literatura brasileira e escreveu a mencionada poesia quando estava longe de sua pátria. Ele cursava Direito em Coimbra e, saudoso do Brasil, resolveu elogiar a natureza de nossa terra.

Pois bem. Na fase literária do Modernismo, já em 1983, o também consagarado poeta Murilo Mendes decidiu reescrever a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, sob o ponto de vista dos tempos atuais, com mais críticas e sem o nacionalismo de outrora.

Vejam o resultado:

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Canção do Exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia

Onde cantam gaturamos de Veneza

Os poetas da minha terra

São pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo as prestações.


A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.


Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

Nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia


Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Telma

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Cântico IV, por Cecília Meireles

O poema trazido hoje nos mostra a incontestável sabedoria de Cecília Meireles que, com suavidade e profundidade, nos ensina sobre a vida.

Em “Cântico IV”, Cecília nos revela que a eternidade se sobrepõe ao efêmero.

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Cântico IV

“Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.”

(poema pertencente ao livro Cânticos, de 1927)

Karina

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Para cada dia uma palavra

Escolhemos uma crônica divertida e leve para descansar a mente do caríssimo leitor nesse meio de semana. O autor é o incomparável Luis Fernando Verissimo e o texto escolhido, da excelente série “Comédias da Vida Privada”, traz uma sagaz brincadeira com as palavras.  Boa leitura!

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DE DOMINGO

– Outrossim…

– O quê?

– O que o quê?

– O que você disse.

– Outrossim?

– É.

– O que é que tem?

– Nada. Só achei engraçado.

– Não vejo a graça.

– Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias.

– Ah, não é. Aliás, eu só uso domingo.

– Se bem que parece mais uma palavra de segunda-feira.

– Não. Palavra de segunda-feira é “óbice”.

– “Ônus”.

– “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquício”.

– “Resquício” é de domingo.

– Não, não.Segunda, no máximo terça.

– Mas “outrossim”, francamente…

– Qual é o problema?

– Retira o “outrossim”.

– Não retiro. É uma ótima palavra. Aliás, é uma palavra difícil de usar. Não é qualquer um que usa “outrossim”. tem que saber a hora certa. Além do dia.

– Aliás, uma palavra que uso pouco é “aliás”.

– Pois você não sabe o que está perdendo. “Aliás” é ótimo. Muito bom também é “não obstante”.

– “Não obstante”! Acho que essa eu nunca usei.

– “Não obstante” é de sábado.

– Quais são as outras palavras de domingo?

-Bem, tem “bel-prazer”.

– “Bel-prazer” é fantástico.

– “Trâmites”, “paulatino” ou “paulatinamente”, “destarte”…

– “Amiúde” é de domingo?

– Não, meio de semana. De domingo é “assaz”.

– Mas o que é que você estava dizendo?

– O que era mesmo? Eu parei no outrossim…

– Não. Eu não aceito outrossim.

– Como, não aceita?

– Não quero. Outrossim, não. Usa outra palavra.

– Mantenho o outrossim.

– Então é fim de papo.

– Você vai me tirar o outrossim da boca? Eu tive um trabalho danado para arranjar uma frase para encaixar o outrossim e agora não posso usar?

– Pra cima de mim, não.

– Deveras, eu…

– Deveras não!

– Mas deveras é de domingo.

– Não. Retira o deveras. Retira o deveras!

Telma

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Domingo com Clarice Lispector

Conto maravilhoso de Clarice Lispector. Quem ama ler, certamente já se sentiu assim como a personagem do texto…

Felicidade Clandestina

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Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberto, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Pareceu que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Karina

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Atendendo a pedidos: mais poesia para crianças

As Flores

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Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.
Umas, criadas com arte,
Outras, simples e modestas,
Há flores por toda a parte
Nos enterros e nas festas,
Nos jardins, nos cemitérios,
Nos paúes e nos pomares;
Sobre os jazigos funéreos,
Sobre os berços e os altares,
Reina a flor! pois quis a sorte
Que a flor a tudo presida,
E também enfeite a morte,
Assim como enfeita a vida.
Amai as flores, crianças!
Sois irmãs nos esplendores,
Porque há muitas semelhanças
Entre as crianças e as flores…

(Olavo Bilac)

—x—

Sonhos da Menina

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A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha  . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

(Cecília Meireles)

Karina

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Indicação de livro para os fãs de Victor Hugo

Indicamos aos admiradores do genial Victor Hugo o  livro do escritor e historiador francês  Max Gallo que mostra aos leitores,  além do poeta, o homem Victor Hugo com suas ambições, paixões e temores.

vol IA obra é dividida em dois volumes. O primeiro – “Eu sou uma força que avança” – mostra a trajetória de Victor Hugo desde a infância até a metade de sua vida, revelando ao leitor a genialidade precoce do escritor francês – que aos 12 anos de idade já escrevia belíssimos versos -, seus amores e também seu engajamento político desde cedo, ao denunciar a miséria do povo e ao lutar contra a pena de morte e contra todas as injustiças que presenciava.

vol II

O segundo volume – “Esse um sou eu” – acompanha a segunda metade da vida de Victor Hugo e  retrata a continuidade do poeta na política ao ocupar cargos de relevância e o prosseguimento no combate às injustiças cometidas contra o povo. Revela ainda os momentos vividos por Victor Hugo no exílio, ocasião em que escreveu obras-primas como “Os Miseráveis”, “Os Trabalhadores do Mar”, “Os Castigos”, entre outras.

O livro também traz diversos fragmentos de manuscritos e poesias do escritor francês. Simplesmente imperdível.

Karina

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As Borboletas e As Abelhas de Vinicius

Adoramos a literatura infantil: ensina ao mesmo tempo em que diverte. Faz a criança pensar e estimula a criatividade.

Hoje, trazemos ao blog mais dois poemas para crianças, ambos fruto da imaginação de um grande autor brasileiro: Vinicius de Moraes.

Em comentários a posts do blog, uma leitora pediu  que colocássemos a poesia “As Borboletas” e nós atenderemos à sua solicitação. Aproveitamos a oportunidade e também oferecemos aos frequentadores do Literatura em Conta- Gotas o poema “As Abelhas”, também do mestre Vinicius de Moraes.

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AS BORBOLETAS

Brancas

Azuis

Amarelas

E pretas

Brincam

Na luz

As belas

Borboletas.


Borboletas brancas

São alegres e francas.


Borboletas azuis

Gostam muito de luz.


As amarelinhas

São tão bonitinhas!


E as pretas, então…

Oh, que escuridão!


AS ABELHAS

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A AAAAAAABELHA mestra

E aaaaaaas abelhinhas

Estão tooooooodas prontinhas

Pra iiiiiiir para a festa.


Num zune que zune

Lá vão pro jardim

Brincar com a cravina

Valsar com o jasmim.


Da rosa pro carvo

Do cravo pra rosa

Da rosa pro favo

Volta pro cravo.


Venham ver como dão mel

As abelhinhas do céu!


Telma

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Belo poema de J. G. de Araújo Jorge

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“Orgulho “

Quando todos começarmos do chão como as sementes,

como as árvores fortes, como as árvores úteis,

e não houver parasitas dos ramos alheios;


quando a terra pertencer aos homens, como aos rios

que a fecundam sem ver cercados nem fronteiras;

e tudo o que existir, e o que for encontrado,

a água pura, o petróleo, o ouro, o fruto agreste,

não tiver donos também, como as auroras e os

crepúsculos,


como as estrelas e a noite, como as nuvens e o sol;

quando houver sempre um teto sobre todas as cabeças

resguardando-as das chuvas, protegendo-as dos

ventos,

como há sempre sobre nós o côncavo dos céus;


quando todos tiverem jardins, flores e pássaros,

ou crianças barulhentas, sadias e tagarelas,

e tiverem a horas certas, na mesa branca, o pão,

e a horas incertas no leito, o remédio necessário;


quando o trabalho for leve, alegre como a música

nas horas de prazer e despreocupação,

e em verdade, for a alegria e a música da vida;


quando a boca que se abre pela primeira vez

tiver um seio farto e o cuidado da ciência;

e a infância, liberdade, brinquedos e recreios,

e a juventude, livros, planos e companheiras,

e os homens todos, os mesmos meios de conquista,

e já não existir medo do mundo nem da vida

porque a vida e o mundo estarão ao nosso alcance;


quando a velhice não tiver mais receio do tempo

porque o tempo a levará em segurança ao fim;

quando já não houver trabalhos dignos e indignos

porque todas as parcelas estarão na mesma soma,

e o sábio e o operário, o artista e o camponês,

seguirem, paralelamente, os seus caminhos,

sem nunca se encontrar, mas sem humilhações;


quando as gramáticas e as raças não separarem os

homens

porque todos se entenderão sem raças nem

gramáticas,

e verão que mais além das cores e dos idiomas

está o Homem –  e só por isso, somos iguais e

irmãos;


quando nossos filhos crescerem sem a angústia do

futuro

e nós vivermos em paz sem as incertezas do presente,

e já não restar vestígios do ódio perdido no passado;


quando todos os templos erguerem sobre a terra

suas torres, minaretes, cruzes ou abóbadas,

e sobre eles, mais alto, o céu se desdobrar

para que todos os olhos se encontrem e se

compreendam;

quando todos começarmos do chão como as sementes

embora os galhos se elevem às mais várias alturas

e façam sobre o solo as sombras mais diversas;

e todos forem donos de seus próprios pés

e todos forem donos de suas próprias mãos,

e do seu pensamento, e do seu coração;


quando, enfim, nos tornarmos Senhores de nós

mesmos,

e não houver falsas leis servindo aos poderosos

e a justiça socorrer, na rua, aos homens todos;


quando chegar o momento em que a força será inútil,

porque todos seremos fortes e nada nos vencerá,

e não houver grades nos olhos, e não houver ferros

nos pulsos,

nem morais absurdas que nos deformem e domem:


– então, sim, bendirei o instante em que nasci

e sentirei o orgulho de ser homem!

José Guilherme de Araújo Jorge nasceu em 20 de maio de 1914, no Acre. Realizou os estudos primários em Rio Branco e depois partiu para o Rio de Janeiro, onde concluiu os estudos secundários. Cursou a Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, na qual foi fundador e presidente da Academia de Letras.

J. G. era colaborador de vários jornais e revistas da época e também orador oficial de diversas entidades universitárias, como a  UNE e a Associação Universitária.

Em 1965 se tormou professor de literaratura e história do famoso colégio Pedro II.

Muito ligado à politica, o poeta foi deputado federal por três vezes. Sua atuação política defendendo o socialismo e a democracia lhe rendeu perseguições.

J.G. de Araújo Jorge tem sua obra caracterizada pela temática social e política e pelo romantismo.

Faleceu em janeiro de 1987 e ficou conhecido como o “Poeta do Povo e da Mocidade”.

O poema acima foi retirado do livro Antologia Poética – Volume I – Editora Novo Tempo Edições.

Karina

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Hino à Beleza, por Charles Baudelaire

Les_Fleurs_du_Mal_w (a tela acima veio daqui: http://spaceintext.wordpress.com/2010/04/10/the-flowers-of-evil-baudelaire/)

Charles Baudelaire – considerado um dos maiores poetas franceses de todos os tempos- nasceu em 1821 em Paris e a sua obra influenciou a poesia moderna do século XX. O reconhecimento absoluto do talento de Baudelaire, no entanto, se deu somente após a sua morte em 1867. O escritor, “avançado” para a época, teve que lidar com críticas e hostilidades durante toda a sua carreira.
O poema reproduzido abaixo pertence ao livro “As Flores do Mal” (Les Fleurs du Mal), publicado em 1857. A obra causou grande polêmica na França, tendo sido apreendida na época pelas autoridades francesas, que a consideraram imoral. O livro contém cerca de cem poemas e é marcado pelo tom sombrio, com textos que trazem como tema a luxúria, a morte, a volúpia, a imundície etc.
“As Flores do Mal” só voltou a circular na íntegra após a morte do poeta.
Charles Baudelaire introduziu inovações na poesia ao misturar elementos sublimes e grotescos em seus textos. Os críticos literários consideram “As Flores do Mal” uma obra-prima e leitura obrigatória.
Carlos Drummond de Andrade, em seu livro “O Sentimento do Mundo” aconselha: “é preciso ler Baudelaire/ é preciso colher as flores/ de que falam velhos autores.”
Nada mais é preciso dizer. Vamos a Charles Baudelaire:

HINO À BELEZA

Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se por isso comparar-te ao vinho.

Em teus olhos refletes toda a luz diuturna;
Lanças perfumes como a noite tempestuosa;
Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna
Que torna o herói covarde e a criança corajosa.

Provéns do negro abismo ou da esfera infinita?
Como um cão te acompanha a Fortuna encantada;
Semeias ao acaso a alegria e a desdita
E altiva segues sem jamais responder nada.

Calcando mortos vais, Beleza, a escarnece-los;
Em teu escrínio o Horror é a jóia que cintila,
E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos,
Sobre teu ventre em amorosa dança oscila.

A mariposa voa ao teu encontro, ó vela,
Freme, inflama-se e diz: “Ó clarão abençoado!”
O arfante namorado aos pés de sua bela
Recorda um moribundo ao túmulo abraçado.

Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo!
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que amo e que jamais desvendo?

De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Que importa, se é quem fazes – fada de olhos suaves,
Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! –
Mais humano o universo e as horas menos graves?

Karina

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Reflexão sobre a brevidade da vida

Trazemos aos leitores do blog fragmentos extraídos do tratado “Sobre a brevidade da vida”, escrito pelo filósofo Sêneca e com tradução de Lúcia Sá Rebello. Ellen Itanajara Neves Vranas e Gabriel Nocchi Macedo.
Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba- Espanha, em meados de 4 a.C., mas foi educado em Roma, onde estudou retórica e filosofia.
Foi filósofo,advogado, escritor, dramaturgo e político, tendo se tornado uma das figuras mais célebres da época.
Sêneca morreu no ano de 65 d.C., nos deixando um legado de ideias inspiradoras e sábias.

Vejam:
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“Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas.
(…)
Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano.
(…)
Observa os que a sorte abençoou: eles se sentem sufocados pelos seus bens. As riquezas são pesadas para muitos! A preocupação com a eloquência e a necessidade de mostrar talento tirou o sangue de muitos! Outros enfraqueceram devido a uma vida de libertinagens!
(…)
a insaciável ganância domina um; outro, desperdiça sua energia em trabalhos supérfluos; um encharca-se de vinho, outro fica entorpecido pela inércia; um está sempre preocupado com a opinião alheia, outro por um irreprimido desejo de comerciar, é levado a explorar terras e mares na esprença de obter lucro. O desejo de guerrear tortura alguns, que não se mostram apreensivos em relação aos perigos alheios ou ansiosos aos seus próprios; há aqueles que, voluntariamente, se sujeitam à ingrata adulação dos superiores. Também há os que se ocupam invejando o destino alheio e desprezando o seu próprio.
(…)
Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estava perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu?
(…)
Ninguém valoriza o tempo, faz-se uso dele muito largamente como se fosse gratuito. Porém, quando doentes, se estão próximos da morte, jogam-se aos pés dos médicos.
(…)
Se pudéssemos apresentar a cada um a conta dos anos futuros, da mesma forma que se faz com os que já passaram, como temeriam aqueles que vissem restar-lhes poucos anos e como os economizariam!
(…)
A expectativa é o maior impedimento para viver: Leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente.
(…)
Ninguém te devolverá aquele tempo, ninguém te fará voltar a flecha a ti próprio. Uma vez lançada, a vida segue o seu curso e não o reverterá nem o interromperá, não o elevará, não te avisará de sua velocidade, transcorrerá silenciosamente.”

Karina

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