Posts tagged Mário Quintana

Quintana

PEQUENO ESCLARECIMENTO

“Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio – um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio… Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.”

(Mário Quintana)

 

Karina

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Mário Quintana para Bambina

O poema transcrito abaixo é uma homenagem à nossa gatinha Bambina, que partiu há dois meses mas continua viva em nossos corações:

Parece um Sonho…

 Imagem

“Parece um sonho que ela tenha morrido!”

diziam todos… Sua viva imagem

tinha carne!… E ouvia-se, na aragem,

passar o frêmito do seu vestido.

E era como se ela houvesse partido

e logo fosse regressar da viagem…

– até que em nosso coração dorido

a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora

menos dos olhos, mais do coração.

Nossa saudade te sorri: não chora…

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.

E ao relembrar-te a gente diz, então:

“Parece um sonho que ela tenha vivido!”

 

(do livro Quintana de bolso – Ed. L&PM Pocket)

Karina e Telma

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O Mapa

O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

(Mário Quintana)

Karina

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“Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso…”

CANÇÃO DE BARCO E DE OLVIDO

Não quero a negra desnuda.

Não quero o baú do morto.

Eu quero o mapa das nuvens

E um barco bem vagaroso.

Ai esquinas esquecidas…

Ai lampiões de fins de linha…

Quem me abana das antigas

Janelas de guilhotina?

Que eu vou passando e passando,

Como em busca de outros ares…

Sempre de barco passando,

Cantando os meus quintanares…

No mesmo instante olvidando

Tudo o de que te lembrares.

(Mário Quintana)

Karina

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A vida é bela!

A canção da vida

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio…
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí…
como um salso chorando
na beira do rio…
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Mário Quintana

Karina

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Ah! Os Relógios

Reproduzimos abaixo um poema inspirador do maravilhoso Mario Quintana , extraído do livro  A Cor do Invisível, publicado em 1989.

O sábado com poesia é mais doce.

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios

quando um dia eu me for de vossas vidas

em seus fúteis problemas tão perdidas

que até parecem mais uns necrológios…


Porque o tempo é uma invenção da morte:

não o conhece a vida – a verdadeira –

em que basta um momento de poesia

para nos dar a eternidade inteira.


Inteira, sim, porque essa vida eterna

somente por si mesma é dividida:

não cabe, a cada qual, uma porção.


E os Anjos entreolham-se espantados

quando alguém – ao voltar a si da vida –

acaso lhes indaga que horas são…


Telma

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Mário Quintana

BEM-AVENTURADOS

Bem-aventurados os pintores escorrendo luz

Que se expressam em verde

Azul

Ocre

Cinza

Zarcão!

Bem-aventurados os músicos…

E os bailarinos

E os mímicos

E os matemáticos…

Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia…

A impura linguagem dos homens!

Karina

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Frase da Semana

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.” (Mário Quintana)

Telma

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Mário Quintana para crianças

O poeta gaúcho Mário Quintana além de escrever para adultos, dedicou seu talento também ao público infantil. Quintana escreveu para as crianças de forma simples e bem-humorada e soube, como poucos, adentrar facilmente o universo infantil.

Confiram:


Canção de nuvem e vento


Medo da nuvem

Medo Medo

Medo da nuvem que vai crescendo

Que vai se abrindo

Que não se sabe

O que vai saindo

Medo da nuvem Nuvem Nuvem

Medo do vento

Medo Medo

Medo do vento que vai ventando

Que vai falando

Que não se sabe

O que vai dizendo

Medo do vento Vento Vento

Medo do gesto

mudo

Medo da fala

Surda

Que vai movendo

Que vai dizendo

Que não se sabe

Que bem se sabe

Que tudo é nuvem que tudo é vento

Nuvem e vento Vento Vento!

A GENTE AINDA NÃO SABIA


A gente ainda não sabia que a Terra era redonda.

E pensava-se que nalgum lugar, muito longe,

Deveria haver num velho poste uma tabuleta qualquer

— uma tabuleta meio torta

E onde se lia, em letras rústicas: FIM DO MUNDO.

Ah! Depois nos ensinaram que o mundo não tem fim

E não havia remédio senão irmos andando às tontas

Como formigas na casca de uma laranja.

Como era possível, como era possível, meu Deus,

Viver naquela confusão?

Foi por isso que estabelecemos uma porção de fins de mundo…

Karina

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De gramática e de linguagem

Mário Quintana escreveu poesia, prosa, livros infantis e fez traduções. Foi um grande autor, inteligente, sensível e multifacetado.  Abaixo, segue mais um brilhante texto poético do escritor, extraído do livro “Prosa & Verso” e intitulado “De gramática e de linguagem”. Imperdível!

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De gramática e de linguagem


E havia uma gramática que dizia assim:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica

Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.

Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!…

As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.


As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.

Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,

Ovo pode estar choco: é inqueitante…)

As cousas vivem metidas com as suas cousas.

E não exigem nada.

Apenas que não as tirem do lugar onde estão.

E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.

Para quê? não importa: João vem!

E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,

Amigo ou adverso… João só será definitivo

Quando esticar a canela. Morre, João…

Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,

Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.

Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.

Sonoro. Lento. Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

Ainda mais:

Eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor

Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:

Basta provares o seu gosto…

Telma

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