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Fernando Pessoa

A criança que fui chora na estrada.

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I

 

A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem

Amanhã não veremos. Hora a hora

Nosso diverso e sucessivo alguém

Desce uma vasta escadaria agora.

 

E uma multidão que desce, sem

Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.

Ah, que horrorosa semelhança têm!

São um múltiplo mesmo que se ignora.

 

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.

E a multidão engrossa, alheia a ver-me, Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

 

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,

E, inúmero, prolixo, vou descendo

Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço

O que sinto que sou? Quem quero ser

Mora, distante, onde meu ser esqueço,

Parte, remoto, para me não ter.

Fernando Pessoa – 22-9-1933

(Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. Direção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno. Lisboa: Ática, 1973

 

Karina

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Fernando Pessoa

COMO É POR DENTRO OUTRA PESSOA

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Como é por dentro outra pessoa

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo

Com que não há comunicação possível,

Com que não há verdadeiro entendimento.

 

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;

As dos outros são olhares,

São gestos, são palavras,

Com a suposição de qualquer semelhança

No fundo.

 

(Fernando Pessoa in Poesias Inéditas)

Karina

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Frase da Semana

“A renúncia é a libertação. Não querer é poder.”

 

(Fernando Pessoa)

Karina

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A Esperança de Fernando Pessoa

O ano de 2011 está findando. Um novo porvir se inicia agora. Nada como ler Fernando Pessoa, em seu heterônimo Álvaro de Campos, para acreditar que a esperança move o mundo. O texto abaixo é a reprodução da primeira parte do Poema de Canção Sobre a Esperança, escrito em 1929 pelo maravilhoso autor português.


“Dá-me lírios, lírios,

E rosas também.

Mas se não tens lírios

Nem rosas a dar-me,

Tem vontade ao menos

De me dar os lírios

E também as rosas.

Basta-me a vontade,

Que tens, se a tiveres,

De me dar os lírios

E as rosas também,

E terei os lírios —

Os melhores lírios —

E as melhores rosas

Sem receber nada.

A não ser a prenda

Da tua vontade

De me dares lírios

E rosas também.”

Telma

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Poema em linha reta

Fernando Pessoa, na pele do heterônimo Álvaro de Campos. Ou Álvaro na pele de Pessoa? Seja como for, é genial:


POEMA EM LINHA RETA

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

 

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

Karina

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Foi um momento – Fernando Pessoa

FOI UM MOMENTO


Foi um momento

O em que pousaste

Sobre o meu braço,

Num movimento

Mais de cansaço

Que pensamento,

A tua mão

E a retiraste.

Senti ou não ?


Não sei. Mas lembro

E sinto ainda

Qualquer memória

Fixa e corpórea

Onde pousaste

A mão que teve

Qualquer sentido

Incompreendido.

Mas tão de leve !…


Tudo isto é nada,

Mas numa estrada

Como é a vida

Há muita coisa

Incompreendida…


Sei eu se quando

A tua mão

Senti pousando

Sobre o meu braço,

E um pouco, um pouco,

No coração,

Não houve um ritmo

Novo no espaço ?

Como se tu,

Sem o querer,

Em mim tocasses

Para dizer

Qualquer mistério,

Súbito e etéreo,

Que nem soubesses

Que tinha ser.


Assim a brisa

Nos ramos diz

Sem o saber

Uma imprecisa

Coisa feliz.

Karina

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Poema em Linha Reta

A seguir,  reproduzimos o clássico “Poema em Linha Reta”, de Fernando Pessoa na faceta do heterônimo Álvaro de Campos. Angústia, dúvidas existenciais e uma desenfreada emoção marcam a primorosa obra de Álvaro de Campos. Vale a pena conferir.

POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!


Não, são todos os Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Telma

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Poema para o Dia dos Namorados

Dedicaremos os próximos dias aos namorados , postando trechos românticos, poemas e dicas de livros que narram belas estórias de amor.

Comecemos com trecho de “A Falência do Prazer e do Amor”, do mestre Fernando Pessoa:

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“Quando te vi amei-te já muito antes:

Tornei a achar-te quando te encontrei.

Nasci pra ti antes de haver o mundo.

Não há cousa feliz ou hora alegre

Que eu tenha tido pela vida fora,

Que o não fosse porque te previa,

Porque dormias nela tu futuro.

 

E eu soube-o só depois, quando te vi,

E tive para mim melhor sentido,

E o meu passado foi como uma ‘strada

Iluminada pela frente, quando

O carro com lanternas vira a curva

Do caminho e já a noite é toda humana.”

Karina

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“Segue o teu destino”, por Ricardo Reis

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A genialidade de Fernando Pessoa o levou à criação dos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Ricardo Reis é o poeta clássico, que aceita estoicamente a fugacidade da vida que, para ele, deve ser vivida de forma tranquila e equilibrada já que é impossível vencer o implacável destino. É adepto do “carpe diem” de Horácio, pois crê que a vida é feita apenas de momentos. O bucolismo e o paganismo aparecem com frequência em sua poesia.

Abaixo reproduzimos um poema que demonstra bem o estilo de Ricardo Reis:

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(Odes de Ricardo Reis, 1-6-1916)

Karina

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Vamos sentir como Alberto Caeiro

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Fernando Pessoa é indispensável; leitura obrigatória. O mais interessante na obra desse português nascido em 1888, é o fenômeno da heteronímia. Como é sabido, o inigualável autor criou três personalidades literárias distintas, cada qual com seu nome próprio, suas características pessoais e seus atributos peculiares, distintos daqueles referentes a ele mesmo, Fernando Pessoa, seu criador.

Assim, ler Fernando Pessoa é ler quatro autores (no mínimo) diferentes ao mesmo tempo, ao gosto do leitor, que pode escolher entre Fernando Pessoa “ele-mesmo”, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Utilizando-se do recurso dos heterônimos, a obra de Fernando Pessoa pode ser classificada como multifacetada e completamente original, já que cada um dos “autores” criados escreve à sua maneira e sobre temas diferentes. Coisas de gênio, é claro.

Para hoje, selecionamos um trecho da série de  49 poemas intitulada “Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, escrita entre 1911 e 1912.

O heterônimo Alberto Caeiro é a criação de Fernando Pessoa que vive em absoluto contato com a natureza e sua filosofia de vida é sentir, sem muito pensar. Sua busca incessante é pela total naturalidade no viver. Procura ver as coisas como elas são, sem tentar atribuir-lhes significados ou razões de ser.

Abaixo, reproduzimos excerto de “Guardador de Rebanhos”.

“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

 

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

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Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós,  que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber o que não sabem?” 

Telma

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