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Mais de “A insustentável leveza do ser”

Nos trechos a seguir, extraídos do capítulo O sorriso de Karenin, Milan Kundera fala sobre o relacionamento entre os homens e os animais:

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No caminho encontraram uma vizinha que está indo para o estábulo, calçada com galochas. A vizinha pára: “O que aconteceu com seu cachorro? Parece que está mancando!”

Tereza responde: “Está com câncer. Está condenado!” , e sente a garganta se apertando, quase não consegue falar.

A vizinha percebe as lágrimas de Tereza e fica indignada: “Pelo amor de Deus, você não vai chorar por causa de um cachorro, vai?” . Não disse isso por maldade, é uma boa mulher, foi mais para consolar Tereza. Tereza, sabe disso, mora na aldeia há tempo suficiente para entender que se os camponeses gostassem de seus coelhos como ela gosta de Karenin, não poderiam matá-los e acabariam morrendo de fome com seus bichos. No entanto, a observaçao da vizinha lhe parece hostil. – “Não, não vou”, responde sem prostestar, mas se apressa em lhe dar as costas e seguir seu caminho.

Sente-se sozinha em seu amor pelo cão. Pensa com um sorriso triste que deve escondê-lo mais secretamente do que se escondesse uma infidelidade. O amor que se tem por um cachorro escandaliza as pessoas. Se a vizinha ficasse sabendo que ela enganava Tomas, daria tapinhas em suas costas com ar cúmplice!

Nunca se poderá determinar com certeza em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor ou não-amor, de nossa benevolência ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de antemão pelas relações de força entre os indivíduos.

A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras.”

Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada num tronco, acariciando a cabeça de Karenin e pensando na falência da humanidade. Ao mesmo tempo surge para mim uma outra imagem: Nietzsche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo e um cocheiro lhe dando chicotadas. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço sob o olhar do cocheiro e explode em soluços.

Isso aconteceu em 1889 e Nietzsche já estava, também ele, distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão, por Descartes. Sua loucura (portanto, seu divórcio com a humanidade) começa no instante em que chora pelo cavalo.

É esse Nietzsche que amo, da mesma maneira que amo Tereza, acariciando em seus joelhos um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho em que a humanidade, “proprietária e senhora da natureza”, prossegue sua marcha adiante.

Do caos confuso dessas ideias, germina na mente de Tereza uma idéia blasfematória de que ela não consegue se desvencilhar: o amor que a liga a Karenin é melhor que o amor que existe entre ela e Tomas. Melhor, mas não maior.

(…) É um amor desinteressado: Tereza não quer nada de Karenin. Nem mesmo amor ela exige. Nunca precisou fazer as perguntas que atormentam os casais humanos: será que ela me ama? será que gosta mais de mim do que eu dela? terá gostado de alguém mais do que de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, avaliam-no, investigam-no, examinam-no, talvez o destruam no instante em que nascem. Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reinvindicações, desejando apenas sua simples presença.

E mais uma coisa: Tereza aceitou Karenin tal qual é, não procurou transformá-la para que ficasse semelhante a si prórpia, aceitou de antemão seu universo de cachorra, não quer lhe confiscar nada, não sente ciúmes de seus desejos secretos. Se a educou, não foi para mudá-la (como um homem quer mudar sua mulher e uma mulher seu homem), mas apenas para lhe ensinar a linguagem elementar que lhes permitisse se compreender e conviver.”

Karina

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Frase da Semana

“Penso que, para voltar a falar do paraíso,  eu só consideraria um paraíso aceitável se pudesse encontrar lá os animais (…)”

José Saramago

Karina

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Lições de Montaigne sobre o homem e os animais

Hoje, dia 04 de outubro, é comemorado o Dia do Animal.  Aproveitamos, então, para trazer novamente aos leitores do blog interessantes reflexões do grande pensador francês Michel de Montaigne.

Nos trechos a seguir Montaigne fala sobre a presunção do homem com relação aos animais.  A conclusão cada um pode tirar por si próprio. Vejam:

“A presunção é nossa doença natural e original. A mais calamitosa e frágil de todas as criaturas é o homem, e ao mesmo tempo a mais orgulhosa. Ele se sente e se vê instalado aqui, em meio ao lodo e ao esterco do mundo, amarrado e pregado à parte pior, mais morta e infecta do universo, no pavimento mais baixo da casa e mais afastado da abóbada celeste, com os animais da pior das três condições; e pela imaginação vai se implantando acima do círculo da lua e trazendo o céu para baixo de seus pés. E por vaidade dessa imaginação que ele se iguala a Deus, que se atribui as características divinas, que seleciona a si mesmo e se separa da multidão das outras criaturas,  divide em grupos os animais seus confrades e companheiros e distribui-lhes a porção das faculdades e de forças que bem lhe parece. Como conhece ele, por obra da inteligência, os movimentos internos e secretos dos animais? por qual comparação entre eles e nós conclui sobre a estupidez que lhes atribui?”

(…)

“Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se distrai comigo mais do que eu com ela?”

(…)

“Essa deficiência que impede a comunicação entre eles e nós, por que não será tanto nossa quanto deles? É de conjecturar a quem cabe a falha de não nos entendermos; pois não os entendemos mais do que ele a nós. Por essa mesma razão, eles podem considerar-nos estúpidos, como consideramos a eles.”

(…)

“De resto, percebemos muito claramente que entre eles existe uma comunicação plena e integral e que se compreendem mutuamente – não apenas os da mesma espécie como também de espécies diferentes.

Em um determinado latido do cão o cavalo reconhece que existe cólera; com um certo outro som seu ele não se assusta.”

(…)

“De resto, qual tipo de competência nossa não reconhecemos nos atos dos animais? Haverá sociedade governada com mais ordem, diversificada em mais cargos e serviços e mais inalteravelmente mantida que a das abelhas? Essa disposição tão ordenada de ações e funções, podemos imaginá-la se desenrolando sem raciocínio e sem previsão?”

As andorinhas, que ao voltar a primavera vemos esquadrinahrem todos os cantos de nossas casas, procuram sem discernimento e escolhem sem ponderação, entre mil lugares, o que lhes é mais cômodo para se alojarem? E na bela e admirável textura de suas construções poderiam os pássaros utilizar uma forma quadrada em vez de uma redonda, um ângulo obtuso em vez de um ângulo reto, sem conhecer-lhes as características e os efeitos? Usam ora da água ora da argila, sem pensar que a rigidez amolece ao ser umedecida? Atapetam de musgo seu palácio, ou de penugem, sem prever  que os tenros membros de seus filhotes ficarão assim em maior maciez e conforto? Protegem-se do vento chuvoso e erguem o seu abrigo no lado leste sem conhecer as diferentes características desses ventos e considerar que um lhes é mais salutar que o outro? (…) Reconhecemos suficientemente, na maioria de suas obras, quanta superioridade os animais têm sobre nós e o quanto nossa arte é fraca em imitá-los. Entretanto vemos nas nossas, mais grosseiras, as faculdades que nelas empregamos, e que nelas nossa alma se serve de todas suas forças; por que não julgamos da mesma forma as deles? por que atribuímos a não sei que inclinação natural e inferior as obras que superam tudo o que conseguimos por natureza e por arte? Nisso, sem pensarmos, lhes damos sobre nós a grande vantagem de fazer que a natureza, por uma doçura maternal, os acompanhe e guie, como pela mão, para todas as ações e facilidades de sua vida; e quanto a nós ela nos abandona ao acaso e à fortuna, e para procurarmos, por arte, as coisas necessárias à nossa preservação; e ao mesmo tempo nos recusa os meios para podermos chegar, por uma educação e tensão de espírito, à habilidade natural dos animais; de tal maneira que em todas as aptidões sua estupidez animal supera tudo o que pode nossa divina inteligência.”

(…)

“e os que possuem animais devem antes dizer que os servem e não que são servidos por estes.

E ainda eles têm de mais nobre isto: que nunca por falta de coragem um leão tornou-se servo de um outro leão, nem um cavalo de um outro cavalo.”

(…)

” Condenamos tudo o que nos parece estranho e o que não entendemos; assim também nos acontece no julgamento que fazemos sobre os animais.”

(…)

Observemos, de resto, que somos o único animal cujos defeitos chocam nossos próprios companheiros, e os únicos que temos de nos esconder dos de nossa espécie em nossos atos naturais.”

(…)

“Temos como quinhão nosso a inconstância, a irresolução, a incerteza, a dor, a superstição, a inquietação das coisas por vir (mesmo depois de nossa vida), a ambição, a avareza, o ciúme, a inveja, os apetites desregrados, loucos e indomáveis, a guerra, a mentira, a deslealdade, a difamação e a curiosidade. Por certo pagamos extraordinariamente caro essa bela razão de que nos vangloriamos e essa capacidade de julgar e conhecer, se as adquirimos à custa desse infinito de paixões a que estamos incessantemente expostos.”

(Michel de Montaigne in Os Ensaios – Livro II)

Karina

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Perde o gato

Perde o gato

Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu  e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenônemo se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio,  pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não seqüestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
(Carlos Drummond de Andrade)

Karina

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Mila

MILA

Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a no peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?

Amá-la – foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.

Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

Carlos Heitor Cony (As Cem Melhoras Crônicas Brasileiras – Ed. Objetiva)

 

Carlos Heitor Cony nasceu em 1926 na cidade do Rio de Janeiro e é colunista do Jornal Folha de S.Paulo desde 1983, além de comentarista da Rádio CBN e da Band News. Escreveu diversos livros e mantém um lugar na prestigiada Academia Brasileira de Letras.

Karina

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Para os amantes dos gatos

Aqui vão alguns trechos do livro “O gato por dentro”, de William S. Burroughs, célebre escritor americano da geração beat (movimento literário e comportamental do final dos 50 e início dos anos 60), considerado polêmico e referência do movimento contracultural.

O livro traz reflexões do escritor sobre os felinos que passaram por sua vida e do impacto que essa passagem causou:

(…) “Ronronando enquanto dorme, Fletch estica as patinhas pretas para tocar minhas mãos, as garras encolhidas, um toque bem suave para assegurá-lo de que estou ali ao seu lado enquanto ele dorme. Ele provavelmente me vê no sonho. Dizem que os gatos não distinguem as cores: um preto-e-branco granulado, um filme de prata tremeluzente cheio de falhas quando saio do quarto,volto, o apanho e o ponho na cama. Quem poderia ferir uma criatura como essa? Treinar seu cão para matá-lo! O ódio pelos gatos reflete um espírito feio, estúpido, grosseiro e intolerante. Não pode haver acordo com esse Espírito Feio.”

(…)

“Quando penso no início de minha adolescência, eu me recordo da sensação recorrente de aninhar e acariciar uma criatura contra meu peito. É bem pequena, mais ou menos do tamanho de um gato. Não é um bebê humano, nem um animal. Não exatamente. É parte humana e parte outra coisa. Lembro-me de uma ocasião em que isso aconteceu lá na casa da Prince Road. Eu devia ter doze ou treze anos. Eu me pergunto o que era… um esquilo?… não exatamente. Não consigo ver direito. Não sei de que ela precisa. Sei apenas que confia plenamente em mim. Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos.”

(…)

“Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agora reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar. Sem dúvida compartilha coisas com o gato, e também com outros animais: raposas voadoras, lêmures ai-ais, lêmures-voadores com olhos amarelos enormes que vivem em árvores e são indefesos no chão, lêmures de cauda anelada e os pequeninos lêmures microcebos, martas, guaxinins, minks, lontras, gambás e raposas da areia.”

(…)

“Indícios apontam que os gatos foram  domesticados pela primeira vez no Egito. Os egípicios armazenavam grãos, que atraíam roedores, que atraíam gatos. (Não há prova de que isso tenha acontecido com os maias, apesar de haver um grande número de gatos selvagens nativos na área.) Não acho que isso seja exato. Sem dúvida não é a história toda. Gatos não começaram como caçadores de ratos. Doninhas, cobras e cães são mais eficientes como agentes de controle de roedores. Eu postulo que os gatos começaram como companheiros psíquicos, como Familiares, e nunca se afastaram dessa função.”

(…)

“O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos.”

(…)

“Um dia, na Casa de Pedra, antes que qualquer dos gatos fosse morar lá dentro, eu estava dando uns tiros no celeiro quando olhei para o topo de uma pilha de madeira atrás do meu alvo e vi um gatinho branco. Guardei minha arma no coldre, fui até lá devagar, e então vi a mãe gata ali no alto da pilha de madeira, cercada por três filhotes. Ela se aproximou e esfregou a cabeça na minha mão.

– Estou vendo que o senhor é um homem bom, Xerife. Tome conta de mim e dos meus bebês.

A simplicidade do gesto foi muito emocionante. Milhares de anos de gatas naquele gesto, e os bebês atrás dela:

– Esta é a minha criação… o melhor que posso fazer…  o que tenho de fazer.”

(…)

“Todos vocês que amam gatos lembrem que os milhões de gatos que miam pelos quartos do mundo depositam toda sua esperança e confiança em vocês, da mesma maneira que a gatinha mãe da Casa da Pedra repousava a cabeça em minha mão, que Calico Jane botou os bebês em minha valise, que Fletch pulou nos braços de James e Ruski corria para mim arrepiado de alegria”.

(O gato por dentro, William Burroughs, Editora LPM)

Karina

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