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A cultura do terror

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“A cultura do terror /2

A extorsão
o insulto,
a ameaça
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa,
a proibição de fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.

–Os direitos humanos deveriam começar em casa – comenta comigo, no Chile, Andrés Dominguez.”

(Eduardo Galeano in O Livro dos Abraços)

Karina

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Frase da Semana

“É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade.”

(Virginia Woolf)

 

Karina

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Esperança

O temor combate-se com a Esperança

Não haverá razão para viver, nem termo para as nossas misérias, se for mister temer tudo quanto seja temível. Neste ponto, põe em ação a tua prudência; mercê da animosidade de espírito, repele inclusive o temor que te acomete de cara descoberta. Pelo menos, combate uma fraqueza com outra: tempera o receio com a esperança. Por certo que possa ser qualquer um dos riscos que tememos, é ainda mais certo que os nossos temores se apaziguam, quando as nossas esperanças nos enganam. Estabelece equilíbrio, pois, entre a esperança e o temor; sempre que houver completa incerteza, inclina a balança em teu favor: crê no que te agrada. Mesmo que o temor reuna maior número de sufrágios, inclina-a sempre para o lado da esperança; deixa de afligir o coração, e figura-te, sem cessar, que a maior parte dos mortais, sem ser afetada, sem se ver seriamente ameaçada por mal algum, vive em permanente e confusa agitação. É que nenhum conserva o governo de si mesmo: deixa-se levar pelos impulsos, e não mantém o seu temor dentro de limites razoáveis. Nenhum diz:

– Autoridade vã, espírito vão: ou inventou, ou lho contaram.

Flutuamos ao mínimo sopro. De circunstâncias duvidosas, fazemos certezas que nos aterrorizam. Como a justa medida não é do nosso feitio, instantaneamente uma inquietude se converte em medo.

 

Sêneca, in “Dos Reveses”

 

Karina

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Lições de Montaigne II

Confiram hoje palavras de Montaigne sobre o medo:

Do medo


Obstuoui, steteruntque comae, et vox faucibus haesit.

(Fiquei estupefato, meus cabelos eriçaram-se, minha voz prendeu-se na garganta. Virgílio)

Não sou bom naturalista (como se diz) e mal sei por quais mecanismos o medo age em nós; mas de qualquer maneira essa é uma estranha paixão e dizem os médicos que não há outra que mais depressa tire nosso discernimento fora de sua devida compostura. De fato, vi muitas pessoas que se tornaram insensatas de medo; mesmo nos mais serenos é indiscutível que, enquanto seu acesso dura, provoca terríveis perturbações. Deixo de lado o vulgo, a qual ela mostra ora os bisavôs saindo do túmulo, envoltos em seus sudários, ora lobisomens, duendes e quimeras. Mas, entre os próprios soldados, onde deveria encontrar menos espaço, quantas vezes transformou um rebanho de ovelhas em esquadrão de couraceiros? juncos e caniços em homens armados e lanceiros? nossos amigos em nossos inimigos? e a cruz branca na vermelha?

(…)

Ora ele nos dá asas nos pés; ora nos prega os pés e os entrava. (…)

Ele expressa sua extrema força quando para seu serviço nos impulsiona novamente para a valentia que subtraiu de nosso dever e de nossa honra. Na primeira batalha regular que os romanos perderam conta Aníbal, sob o comando do cônsul Semprônio, uma tropa de bem dez mil solados de infantaria, tomando-se de pavor e não vendo outro lugar por onde dar passagem à sua covardia, foi lançar-se em meio ao grosso dos inimigos, que atravessou com espantosa bravura, com grande mortícínio da cartagineses, comprando uma fuga vergonhosa pelo mesmo preço que teria por uma gloriosa vitória. É disso que tenho mais medo do que do próprio medo.

Ademais ele suplanta em violência todas as outras ocorrências.

(…)

Os que tiverem sido bastante maltratados em algum embate de guerra, no dia seguinte são levados de volta ao ataque, ainda feridos e ensanguentados. Mas os que tiverem concebido um grande medo do inimigo, não os faríeis sequer olhá-los de frente. Os que estão em opressivo temor de perder seus bens, de ser exilados, de ser subjugados, vivem em contínua angústia, perdendo o gosto pela comida, pela bebida e pelo descanso; ao passo que os pobres, os banidos, os servos amiúde vivem tão alegremente quanto os outros. E tantas pessoas que por não poderem suportar os aguilhões do medo enforcaram-se, afogaram-se, atiraram-se no abismo, ensinaram-nos que ele é ainda mais importuno e insuportável do que a morte.

Os gregos reconhecem uma outra espécie de medo, que não é causada por erro de nosso julgamento, surgindo, dizem eles, sem causa aparente e por impulso celeste.  Povos inteiros frequentemente se vêem tomados por ele, e exércitos inteiros. Assim foi o que levou a Cartago uma extrema aflição. Só se ouviam gritos e vozes apavoradas. Viam-se os habitantes sair de suas casas, como ante o alarme, e se atacarem, ferirem e matarem uns aos outros, como se fossem inimigos a ocupar sua cidade. Tudo nela estava em desordem e em tumulto, até que, por orações e sacrifícios, eles apaziguaram a ira dos deuses. Os gregos chamam isso de terrores pânicos.

Karina

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Frase da Semana

“Quem teme o sofrimento sofre já aquilo que teme.”

(Michel de Montaigne)

Karina

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Considerações sobre o medo

Abaixo, seguem algumas frases acerca do medo, da lavra de diversos pensadores. Boa reflexão sobre esse sentimento que tanto abala e oprime o ser humano. Confira:


“O medo segue o crime, e é o seu maior castigo.” (Voltaire)

“É o medo  o mais ignorante, o mais injusto e o mais cruel dos conselheiros.” (Edmund Burke)

“O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam o tempo é eterno.” (William Shakespeare)

“Não te inspirem medo nem a pobreza, nem o exílio, nem a prisão, nem tampouco a morte. Só do medo é que deves ter medo.” (Epicteto)

“É triste o estado de alma de quem pouco tem que desejar, e muito que temer.” (Francis Bacon)

“O medo do perigo é dez vezes mais terrível que o próprio perigo.” (Daniel Defoe)

“O medo é um mestre de grande sagacidade, e arauto de todas as revoluções.” (Ralph Waldo Emerson)

“Quem tem medo de ti na tua presença, odeia-te na tua ausência.” (Thomas Fuller)

“Escravo do medo: eis a pior forma de escravidão.” (G. B. Shaw)

“Os fantasmas assustam mais de longe que de perto.” (Maquiavel)

“O medo está sempre inclinado a ver tudo pior que a realidade.” (Tito Lívio)

“O que temes sucede mais depressa do que esperas.” (Publílio Siro)

“O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito, desfaz-se; basta a simples reflexão.” (Machado de Assis)

“Nos perigos grandes o temor
é maior muitas vezes que o perigo.” (Luís Vaz de Camões)

“Olhai que o torpe medo é crocodilo
que costuma, a quem foge, persegui-lo.” (Bento Teixeira)

“Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência de medo.” (Mark Twain)

“O maior erro que você pode cometer é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum.” (William Shakespeare)

“A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão.” (Mário Quintana)
Telma

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Frase da Semana

“Antes de se ter medo, vê-se o normal; quando se tem medo, vê-se o dobro; e depois de se ter tido medo, vê-se tudo turvo.”

(Alexandre Dumas, em O Conde de Monte Cristo – Ed. Martin Claret)

Karina

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O Medo, por Drummond

Trazemos aos leitores do blog mais um instigante poema do grande poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, extraído da obra A Rosa do Povo.

O poema aborda o medo, sentimento que aprisiona, oprime e afasta as pessoas.  Simplesmente magnífico:

 

 

 

 

 

 

 

O Medo

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.


Karina

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