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Trecho para reflexão

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“Já perscrutamos bastante as profundezas dessa consciência e é chegado o momento de continuarmos a examiná-la. Não o fazemos sem emoção ou estremecimento. Nada existe mais terrível que esse tipo de contemplação. Os olhos do espírito não podem encontrar em nenhum lugar nada mais ofuscante, nada mais tenebroso que o homem; não poderão fixar-se em nada mais temível, mais complicado, mais misterioso e mais infinito. Existe uma coisa que é maior que o mar: o céu. Existe um espetáculo maior que o céu: é o interior de uma alma.”

 (Victor Hugo, Os Miseráveis)

 

Karina

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Platão e o mito da Caverna

No Mito ou Alegoria da Caverna (passagem que faz parte da obra, A República), o filósofo grego Platão nos traz, através de um diálogo entre Sócrates, Glauco e Dimato e metáforas, a visão distorcida dos homens diante da realidade em que vivem, cercados de influências culturais, preconceitos, crendices e regras. Uma bela visão da nossa ignorância e alienação. Vejam:

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Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco – Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco — É bem possível.

Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco — Sim, por Zeus!

Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

Glauco — Assim terá de ser.

Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco – Muito mais verdadeiras.

Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco – Com toda a certeza.

Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco – Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates – Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco – Sem dúvida.

Sócrates – Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco – Concordo.

Sócrates – Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates – Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco – Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco – Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates – Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco – Por certo que sim.

Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco – Sem nenhuma dúvida.

Sócrates – Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco – Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão. A República. Livro VII)

 

Karina

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Reflexão

“Em muitos dias de ócio lamentei o tempo perdido. Mas ele não foi de todo perdido. O Senhor guardou em suas mãos cada instante de minha vida.

Escondido no coração as coisas, Ele estava alimentando as sementes para que sejam rebentos, os botões para que sejam flores e amudrecendo as flores para que sejam frutos.

Eu dormia cansado em meu leito, indolente, julgando que todo o trabalho tivesse cessado. Acordei de manhã e encontrei repleto de milhares de flores o meu jardim.”

(Tagore)

Karina

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Esperança

O temor combate-se com a Esperança

Não haverá razão para viver, nem termo para as nossas misérias, se for mister temer tudo quanto seja temível. Neste ponto, põe em ação a tua prudência; mercê da animosidade de espírito, repele inclusive o temor que te acomete de cara descoberta. Pelo menos, combate uma fraqueza com outra: tempera o receio com a esperança. Por certo que possa ser qualquer um dos riscos que tememos, é ainda mais certo que os nossos temores se apaziguam, quando as nossas esperanças nos enganam. Estabelece equilíbrio, pois, entre a esperança e o temor; sempre que houver completa incerteza, inclina a balança em teu favor: crê no que te agrada. Mesmo que o temor reuna maior número de sufrágios, inclina-a sempre para o lado da esperança; deixa de afligir o coração, e figura-te, sem cessar, que a maior parte dos mortais, sem ser afetada, sem se ver seriamente ameaçada por mal algum, vive em permanente e confusa agitação. É que nenhum conserva o governo de si mesmo: deixa-se levar pelos impulsos, e não mantém o seu temor dentro de limites razoáveis. Nenhum diz:

– Autoridade vã, espírito vão: ou inventou, ou lho contaram.

Flutuamos ao mínimo sopro. De circunstâncias duvidosas, fazemos certezas que nos aterrorizam. Como a justa medida não é do nosso feitio, instantaneamente uma inquietude se converte em medo.

 

Sêneca, in “Dos Reveses”

 

Karina

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Cecília Meireles

Única sobrevivente

de uma casa desabada

– só eu me achava acordada.

 

E recordo a minha gente,

na noite sem madrugada.

Só eu me achava acordada.

 

Minha morte é diferente:

eles não souberam nada.

Só eu me achava acordada.

 

Mas quem sabe o que se sente,

entre ir na casa afundada

e ter ficado – acordada!?


Cecília Meireles in Canções (1956)
Karina

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Reflexão

Trazemos hoje uma reflexão do saudoso escritor José Saramago sobre o ser humano. A opinião do autor português infelizmente se encaixa no que vemos acontecer todos os dias no mundo:

“Ou a razão, no homem, não faz mais do que dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre os animais, é, também indubitavelmente, o mais irracional de todos eles. Vou-me inclinando cada vez mais para a segunda hipótese, não por ser morbidamente propenso a filósofos pessimistas, mas sim porque o espectáculo do mundo é, na minha fraca opinião, uma demonstração explícita e evidente daquilo a que chamo de irracionalidade humana.”

(texto extraído do site http://caderno.josesaramago.org/)

Karina

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Sobre o Riso

Abaixo, selecionamos alguns pensamentos sábios a respeito do riso. E você, nobre leitor, como definiria essa expressão do sentimento humano?

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Nada melhor do que ver as coisas de que se riem os homens, para lhes aquilatar o caráter.” (Goethe)


“Quando os homens riem às gargalhadas, superam todos os outros animais em vulgaridade.” (Nietzsche)


“Neste mundo, fala-se muito levianamente do riso, que, para mim, é uma das mais sérias questões humanas.” (W. Raabe)


“É merecedor do paraíso quem faz rir os companheiros.” (Maomé)


“Quase nunca rimos de nós próprios. Contudo, raro é o dia em que não fazemos coisa digna de provocar o riso. Outros, mais sinceros, riem de nós, e nós não lhe perdoamos tamanha sinceridade.” (Vargas Vila)


“Ri, ri, que o riso é próprio do homem.” (Jean Racine)


“Que haverá de mais vil do que ser objeto de riso?” (Cícero)


“Quem ri de si próprio não se torna objeto de riso.” (Sêneca)


“Ri-te, ri-te, que o mundo

não se pode levar de outra maneira.” (Visconde de Almeida Garret)


“O riso é a mais útil forma de crítica, porque é a mais acessível à multidão.” (Eça de Queirós)

Telma

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Reflexão de Murilo Mendes

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Reflexão n°1
“Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.”

Karina

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Para pensar: Clarice Lispector

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A incomparável escritora Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920, mas veio para o Brasil em 1922. Portanto, podemos dizer que se trata de uma autêntica autora brasileira.

Faleceu em 1977, deixando um maravilhoso legado para a literatura do nosso país.

Trata-se de uma pensadora, uma mulher extremamente culta, com uma visão de mundo muito ampla. Escreveu obras magníficas, como Laços de Família; Perto do Coração Selvagem; A Hora da Estrela;  A Paixão segundo G.H; A Descoberta do Mundo;  e Um Sopro de Vida: pulsações, este último publicado postumamente.

Clarice procurou desvendar a alma humana em seus escritos, bem como seu próprio eu interior, numa busca incessante de se entender e entender os outros.

Abaixo, postamos alguns pensamentos da escritora que certamente servirão de reflexão ao leitor do blog.

“Liberdade é pouco.

O que eu desejo ainda não tem nome”.

 

“Sou como você me vê.

Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania.

Depende de quando e como você me vê passar”.

 

“E se me achar esquisita, respeite também.

Até eu fui obrigada a me respeitar”.

 

“Que minha solidão me sirva de companhia.

Que eu tenha a coragem de me enfrentar.

Que eu saiba ficar com o nada.

E mesmo assim me sentir

Como se estivesse plena de tudo”.

 

“Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:

A salvação é pelo risco.

Sem o qual a vida não vale a pena”.

 

“A única verdade é que vivo.

Sinceramente, eu vivo.

Quem sou?

Bem, isso já é demais…”

 

“Corro perigo

Como toda pessoa que vive.

E a única coisa que me espera

É exatamente o inesperado”.

 

“Minha força está na solidão.

Não tenho medo nem de chuvas tempestivas

Nem de grandes ventanias

Pois eu também sou o escuro da noite”.

 

“Amor será dar de presente a outro a própria solidão?

Pois é a coisa mais última que se pode dar de si”.

“E nem entendo aquilo que entendo.

Pois estou infinitamente maior que eu mesma

E não me alcanço”.

 

Telma

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