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Eterno retorno

“O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem  – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.  – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela.”
(Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341)
Karina

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Platão e o mito da Caverna

No Mito ou Alegoria da Caverna (passagem que faz parte da obra, A República), o filósofo grego Platão nos traz, através de um diálogo entre Sócrates, Glauco e Dimato e metáforas, a visão distorcida dos homens diante da realidade em que vivem, cercados de influências culturais, preconceitos, crendices e regras. Uma bela visão da nossa ignorância e alienação. Vejam:

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Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco – Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco — É bem possível.

Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco — Sim, por Zeus!

Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

Glauco — Assim terá de ser.

Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco – Muito mais verdadeiras.

Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco – Com toda a certeza.

Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco – Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates – Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco – Sem dúvida.

Sócrates – Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco – Concordo.

Sócrates – Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates – Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco – Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco – Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates – Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco – Por certo que sim.

Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco – Sem nenhuma dúvida.

Sócrates – Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco – Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão. A República. Livro VII)

 

Karina

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Frase da Semana

nietzsche

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

(Friedrich Nietzsche)

 

Karina

 

 

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A insustentável leveza do ser

Um livro instigante, filosófico e inesquecível. Eis alguns fragmentos de “A insustentável leveza do ser”, do escritor tcheco Milan Kundera:

“Viver na verdade.

É uma fórmula que Kafka usou em seu diário ou numa carta. Franz não se lembra muito bem. Está seduzido por essa fórmula. O que é viver na verdade? Uma definição negativa é fácil: é não mentir, não se esconder, não dissimular nada. Desde que conheceu Sabina, vive na mentira. Conversa com sua mulher sobre congressos em Amsterdam e conferências em Madri que jamais aconteceram, tem medo de passear com Sabina nas ruas de Genebra. Acha divertido mentir e se esconder, justamente porque nunca o fez antes. Sente o prazer de um primeiro da classe que decide um dia, finalmente, cabular.
Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem para si nem para os outros, só é possível se vivermos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada mais do que fazemos é verdadeiro.Ter um público, pensar num público, é viver na mentira. Sabina despreza a literatura em que o autor revela  toda a sua intimidade, e também a de seus amigos. Quem perde sua intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso, Sabina não sofre por ter que esconder o seu amor. Ao contrário, para ela essa é a única forma de viver “na verdade”.
Quanto a Franz, está convencido de que na separação da vida em domínio privado e em domínio público está a fonte de toda a mentira: a gente é uma pessoa em particular e outra em público. Para Franz, “viver na verdade” é abolir a barreira entre o privado e o público. Menciona com prazer a frase de André Breton, em que ele dizia que gostaria de viver  “numa casa de vidro”, onde nada é segredo e que está aberta a todos os olhares.”

(…)

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa . Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.

O que escolher, então? O peso ou a leveza?

(…)

Sentado na cama, olhava a mulher deitada ao seu lado, que, dormindo, apertava-lhe a mão. Sentia por ela um amor inexprimível. Nesse momento ela sem dúvida dormia um sono muito leve, porque abriu os olhos e olhou-o com ar espantado.
– O que você está olhando? – perguntou ela.
Sabia que não devia acordá-la, mas fazê-la adormecer. Tentou responder com palavras que fizessem nascer em seu pensamento a centelha de um novo sonho.
– Estou olhando as estrelas – respondeu.
– Não minta, você não está olhando as estrelas, está olhando para o chão.
– É que estamos num avião, as estrelas estão abaixo de nós.
– Ah, bem! – murmurou Tereza. Apertou com mais força a mão de Tomas e continuou a dormir. Tomas sabia que Tereza olhava agora pela janela de um avião que voava muito alto, por cima das estrelas.

 

Karina

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Lições de Montaigne sobre o homem e os animais

Hoje, dia 04 de outubro, é comemorado o Dia do Animal.  Aproveitamos, então, para trazer novamente aos leitores do blog interessantes reflexões do grande pensador francês Michel de Montaigne.

Nos trechos a seguir Montaigne fala sobre a presunção do homem com relação aos animais.  A conclusão cada um pode tirar por si próprio. Vejam:

“A presunção é nossa doença natural e original. A mais calamitosa e frágil de todas as criaturas é o homem, e ao mesmo tempo a mais orgulhosa. Ele se sente e se vê instalado aqui, em meio ao lodo e ao esterco do mundo, amarrado e pregado à parte pior, mais morta e infecta do universo, no pavimento mais baixo da casa e mais afastado da abóbada celeste, com os animais da pior das três condições; e pela imaginação vai se implantando acima do círculo da lua e trazendo o céu para baixo de seus pés. E por vaidade dessa imaginação que ele se iguala a Deus, que se atribui as características divinas, que seleciona a si mesmo e se separa da multidão das outras criaturas,  divide em grupos os animais seus confrades e companheiros e distribui-lhes a porção das faculdades e de forças que bem lhe parece. Como conhece ele, por obra da inteligência, os movimentos internos e secretos dos animais? por qual comparação entre eles e nós conclui sobre a estupidez que lhes atribui?”

(…)

“Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se distrai comigo mais do que eu com ela?”

(…)

“Essa deficiência que impede a comunicação entre eles e nós, por que não será tanto nossa quanto deles? É de conjecturar a quem cabe a falha de não nos entendermos; pois não os entendemos mais do que ele a nós. Por essa mesma razão, eles podem considerar-nos estúpidos, como consideramos a eles.”

(…)

“De resto, percebemos muito claramente que entre eles existe uma comunicação plena e integral e que se compreendem mutuamente – não apenas os da mesma espécie como também de espécies diferentes.

Em um determinado latido do cão o cavalo reconhece que existe cólera; com um certo outro som seu ele não se assusta.”

(…)

“De resto, qual tipo de competência nossa não reconhecemos nos atos dos animais? Haverá sociedade governada com mais ordem, diversificada em mais cargos e serviços e mais inalteravelmente mantida que a das abelhas? Essa disposição tão ordenada de ações e funções, podemos imaginá-la se desenrolando sem raciocínio e sem previsão?”

As andorinhas, que ao voltar a primavera vemos esquadrinahrem todos os cantos de nossas casas, procuram sem discernimento e escolhem sem ponderação, entre mil lugares, o que lhes é mais cômodo para se alojarem? E na bela e admirável textura de suas construções poderiam os pássaros utilizar uma forma quadrada em vez de uma redonda, um ângulo obtuso em vez de um ângulo reto, sem conhecer-lhes as características e os efeitos? Usam ora da água ora da argila, sem pensar que a rigidez amolece ao ser umedecida? Atapetam de musgo seu palácio, ou de penugem, sem prever  que os tenros membros de seus filhotes ficarão assim em maior maciez e conforto? Protegem-se do vento chuvoso e erguem o seu abrigo no lado leste sem conhecer as diferentes características desses ventos e considerar que um lhes é mais salutar que o outro? (…) Reconhecemos suficientemente, na maioria de suas obras, quanta superioridade os animais têm sobre nós e o quanto nossa arte é fraca em imitá-los. Entretanto vemos nas nossas, mais grosseiras, as faculdades que nelas empregamos, e que nelas nossa alma se serve de todas suas forças; por que não julgamos da mesma forma as deles? por que atribuímos a não sei que inclinação natural e inferior as obras que superam tudo o que conseguimos por natureza e por arte? Nisso, sem pensarmos, lhes damos sobre nós a grande vantagem de fazer que a natureza, por uma doçura maternal, os acompanhe e guie, como pela mão, para todas as ações e facilidades de sua vida; e quanto a nós ela nos abandona ao acaso e à fortuna, e para procurarmos, por arte, as coisas necessárias à nossa preservação; e ao mesmo tempo nos recusa os meios para podermos chegar, por uma educação e tensão de espírito, à habilidade natural dos animais; de tal maneira que em todas as aptidões sua estupidez animal supera tudo o que pode nossa divina inteligência.”

(…)

“e os que possuem animais devem antes dizer que os servem e não que são servidos por estes.

E ainda eles têm de mais nobre isto: que nunca por falta de coragem um leão tornou-se servo de um outro leão, nem um cavalo de um outro cavalo.”

(…)

” Condenamos tudo o que nos parece estranho e o que não entendemos; assim também nos acontece no julgamento que fazemos sobre os animais.”

(…)

Observemos, de resto, que somos o único animal cujos defeitos chocam nossos próprios companheiros, e os únicos que temos de nos esconder dos de nossa espécie em nossos atos naturais.”

(…)

“Temos como quinhão nosso a inconstância, a irresolução, a incerteza, a dor, a superstição, a inquietação das coisas por vir (mesmo depois de nossa vida), a ambição, a avareza, o ciúme, a inveja, os apetites desregrados, loucos e indomáveis, a guerra, a mentira, a deslealdade, a difamação e a curiosidade. Por certo pagamos extraordinariamente caro essa bela razão de que nos vangloriamos e essa capacidade de julgar e conhecer, se as adquirimos à custa desse infinito de paixões a que estamos incessantemente expostos.”

(Michel de Montaigne in Os Ensaios – Livro II)

Karina

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Lições de Montaigne

Pretendemos postar, pelo menos a cada quinze dias,  alguma lição do pensador francês Michel de Montaigne.

Os trechos, extraídos do livro Os Ensaios – Editora Martins Fontes – são de uma sabedoria singular. Confiram hoje palavras sobre a educação das crianças e de como o preceptor – hoje poderíamos chamar educador – deve se conduzir nesse mister:

Da educação das crianças


(…) Assim como na agricultura as regras que vêm antes do plantio são fixas e fáceis, e também o próprio plantio, mas depois que o que está plantado começa a tomar vida há uma grande variedade de regras e dificuldades para criá-lo, da mesma forma com os homens há pouca engenhosidade em plantá-los; mas depois que nascem sobrecarregamo-nos de um cuidado diferente, cheio de trabalhos e de temor, para formá-los e criá-los.

Nessa pouca idade a manifestação de suas inclinações é tão frágil e tão obscura, as promessas tão incertas e falsas que é difícil estabelecer sobre elas um julgamento firme.

(…) Os filhotes dos ursos, dos cães, mostram inclinação natural; mas os homens, entregando-se incontinenti a costumes, a ideias, a leis, mudam ou se disfarçam facilmente.

No entanto é difícil forçar as propensões naturais. Disso advém que, por falta de ter escolhido bem o caminho delas, frequentemente nos afainamos por nada e empregamos muito tempo em formar crianças em coisas nas quais não podem tomar pé. Entretanto, nessa dificuldade, minha opinião é a de encaminhá-las para as coisas melhores e mais proveitosas, e que pouco devemos nos empenhar nessas levianas adivinhações e prognósticos que extraímos das iniciativas de sua infância.

(…)

Não cessam de martelar em nossos ouvidos, como quem despejasse em um funil, e nossa tarefa é apenas  repetir o que nos disseram. Gostaria que ele (preceptor) corrigisse esse ponto e que já desde o início, dependendo do alcance da alma que tiver nas mãos, começasse a colocá-la na parada, fazendo-a experimentar as coisas, escolhê-las e discernir por si mesma; às vezes abrindo-lhe o caminho, às vezes deixando-a abri-lo. Não quero que ele invente e fale sozinho, quero que escute o discípulo falar por sua vez.

É bom que ele o faça trotar à sua frente para julgar-lhe a andadura, e julgar até que ponto deve conter-se para se acomodar à sua força. Por falta dessa proporção estragamos tudo; e saber escolhê-la é uma das tarefas mais árduas que conheço; e é a ação de uma alma elevada e muito forte saber condescender com seus passos infantis e guiá-los. Ando com mais segurança e mais firmeza ao subir que ao descer.

Que ele lhe peça contas não apenas das palavras de sua lição mas sim do sentido e da substância, e que julgue sobre o benefício que tiver feito não pelo testemunho de sua memória e sim pelo de sua vida. Aquilo que tiver acabado de ensinar, faça a criança colocá-lo em cem facetas e adaptar a tantos outros diversos assuntos, para ver se ela realmente o captou e incorporou (…)

É prova de crueza e de indigestão regurgitar o alimento que foi engolido. O estômago não realizou sua operação, se não fez mudar a característica e a forma do que lhe deram para digerir.

(…)

Que ele o faça passar tudo pelo crivo e nada aloje em sua cabeça por simples autoridade e confiança; (…) Que lhe proponham essa diversidade de opiniões; ele escolherá se puder; se não, permanecerá em dúvida. Seguros e convictos só os loucos.

Pois se ele abraçar as opiniões de Xenofonte e de Platão por seu próprio julgamento, não serão mais as opiniões deles, serão as suas. Quem segue um outro nada segue. Nada encontra, e até mesmo nada procura. Que ele saiba que sabe, pelo menos. É preciso que se impregne dos humores deles, não que aprenda seus preceitos. E que, se quiser, esqueça de onde os obtém, mas que saiba assimilá-los. A verdade e a razão são comuns a todos, e não pertencem a quem as disse primeiramente mais do que a quem as diz depois. Não é segundo Platão mais do que segundo eu mesmo, já que ele e eu o entendemos e vemos da mesma forma. As abelhas sugam das flores aqui e ali, mas depois fazem o mel, que é todo delas: já não é tomilho nem manjerona. Assim também são as peças emprestadas de outrem que ele irá transformar e misturar, para construir uma obra toda sua: ou seja, seu julgamento. Sua educação, seu trabalho e estudo visam tão-somente a formá-lo.

(…)

Ensina-lo-ão a só entrar em argumentação ou discussão quando encontrar um campeão digno de sua luta, e mesmo então não empregar todas as estratégias que lhe possam servir, mas apenas as que lhe possam servir mais. Que o tornem escrupuloso na escolha e triagem de suas razões, e amando a pertinência, e consequentemente a brevidade. Que o instruam principalmente a render-se e a entregar as armas à verdade, tão logo a divise, quer nasça nas mãos de seu adversário, quer nasça em si mesmo por alguma reconsideração.

(…)

Que o façam compreender que admitir o erro que descobriu em seu próprio raciocínio, ainda que seja percebido apenas por ele, é um ato de discernimento e de sinceridade, que são as principais qualidades que ele procura; que obstinar-se e contestar são características comuns, que se manifestam nas almas mais baixas; que reconsiderar e corrigir-se, abandonar no ímpeto do ardor uma opinião errônea são características raras, fortes e filosóficas.

(…)

Essa educação deve conduzir-se por uma severa doçura, e não como se faz. Em vez de incitar as crianças para as letras, não lhes apresentam, na verdade, mais do que horror e crueldade. Eliminai a violência e a força; não há nada, em minha opinião, que degenere e estupidifique tão fortemente uma alma bem nascida. Se desejais que ele tema a desonra e o castigo, não o calejeis para eles. Calejai-o para o suor e o frio, o sol  e os riscos que deve menosprezar; tirai-lhe toda a frouxidão e delicadeza no vestir e no deitar, no comer e no beber; acostumai-o a tudo.

(…)

Não há nada como alimentar o apetite e a afeição; de outra forma fazemos apenas burros carregados de livros. A golpes de chicote, dão-lhes para guardar a bolsinha cheia de ciência – a qual, para ser  eficaz, não deve somente ser guardada em casa; é preciso desposá-la.

Karina

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Reflexão sobre a brevidade da vida

Trazemos aos leitores do blog fragmentos extraídos do tratado “Sobre a brevidade da vida”, escrito pelo filósofo Sêneca e com tradução de Lúcia Sá Rebello. Ellen Itanajara Neves Vranas e Gabriel Nocchi Macedo.
Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba- Espanha, em meados de 4 a.C., mas foi educado em Roma, onde estudou retórica e filosofia.
Foi filósofo,advogado, escritor, dramaturgo e político, tendo se tornado uma das figuras mais célebres da época.
Sêneca morreu no ano de 65 d.C., nos deixando um legado de ideias inspiradoras e sábias.

Vejam:
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“Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas.
(…)
Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano.
(…)
Observa os que a sorte abençoou: eles se sentem sufocados pelos seus bens. As riquezas são pesadas para muitos! A preocupação com a eloquência e a necessidade de mostrar talento tirou o sangue de muitos! Outros enfraqueceram devido a uma vida de libertinagens!
(…)
a insaciável ganância domina um; outro, desperdiça sua energia em trabalhos supérfluos; um encharca-se de vinho, outro fica entorpecido pela inércia; um está sempre preocupado com a opinião alheia, outro por um irreprimido desejo de comerciar, é levado a explorar terras e mares na esprença de obter lucro. O desejo de guerrear tortura alguns, que não se mostram apreensivos em relação aos perigos alheios ou ansiosos aos seus próprios; há aqueles que, voluntariamente, se sujeitam à ingrata adulação dos superiores. Também há os que se ocupam invejando o destino alheio e desprezando o seu próprio.
(…)
Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estava perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu?
(…)
Ninguém valoriza o tempo, faz-se uso dele muito largamente como se fosse gratuito. Porém, quando doentes, se estão próximos da morte, jogam-se aos pés dos médicos.
(…)
Se pudéssemos apresentar a cada um a conta dos anos futuros, da mesma forma que se faz com os que já passaram, como temeriam aqueles que vissem restar-lhes poucos anos e como os economizariam!
(…)
A expectativa é o maior impedimento para viver: Leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente.
(…)
Ninguém te devolverá aquele tempo, ninguém te fará voltar a flecha a ti próprio. Uma vez lançada, a vida segue o seu curso e não o reverterá nem o interromperá, não o elevará, não te avisará de sua velocidade, transcorrerá silenciosamente.”

Karina

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