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Negrinha

O conto reproduzido abaixo foi escrito por Monteiro Lobato em 1920 e retrata a terrível rotina de uma criança negra e orfã de pais escravos.

Ao mesmo tempo pungente e odioso.

NEGRINHA


Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

— Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

— Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer…

Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

— Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

— Braços cruzados, já, diabo!

Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste…

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta…

A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”…

O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!…

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.

— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.

Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.

— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.

— Traga um ovo.

Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

— Venha cá!

Negrinha aproximou-se.

— Abra a boca!

Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida… Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!

— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.

— Sim, mas cansa…

— Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

— Inda é o que vale…

Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também… Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?

Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.

— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus… Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.

— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.

Chegaram as malas e logo:

— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.

Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.

Que maravilha! Um cavalo de pau!… Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais… Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos… que falava “mamã”… que dormia…

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

— É feita?… — perguntou, extasiada.

E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo.

— Nunca viu boneca?

— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?

Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?

— Negrinha.

As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:

— Pegue!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente… era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.

Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:

— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.

Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha…

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!

Assim foi — e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.

Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.

Brincara ao sol, no jardim. Brincara!… Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.

Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou…

E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados…

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.

— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”

Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.

— “Como era boa para um cocre!…”

Karina

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Evento cultural imperdível

casa-das-rosasQuem mora na cidade de São Paulo não pode perder a exposição da Casa das Rosas nesse mês de abril: o tema é literatura infanto-juvenil e Monteiro Lobato.

A Casa das Rosas, localizada na Avenida Paulista, é um espaço cultural dedicado à poesia, à leitura e à cultura em geral. Até o dia 30 desse mês, a homenagem é ao grande escritor Monteiro Lobato. São palestras e discussões sobre a obra de Monteiro Lobato, realização de oficinas para confecção de livros de pano e outros trabalhos manuais, leitura de histórias e poemas, apresentação teatral, entre outras atividades.

O evento certamente agradará crianças e adultos e é uma excelente forma de difundir a maravilhosa obra de Monteiro Lobato.

Para maiores informações: fone: (11) 3285-6986/3288-9447 e site
www.poiesis.org.br/casadasrosas

Karina

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Um homem de consciência

1117715_aloneO conto abaixo é de autoria de Monteiro Lobato, integra o livro “Cidades Mortas” e pertence à era pré-modernista da literatura brasileira.

Monteiro Lobato é nome de irrefutável destaque em obras relacionadas ao regionalismo e à denúncia da realidade brasileira. O texto reproduzido nesse post tem como personagem central um homem simples, do meio rural, que se defronta com os problemas ocorridos na região onde vive e não dá valor a si mesmo. Interessante crítica à inversão de valores e ao desprezo à moralidade que costumam ocorrer no Brasil.

Um homem de consciência

Chamava-se João teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.

Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.

Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o deperecimento visível de sua Itaoca.

 – Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons – agora só um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está acabando…

João Teodoro entrou a incubar a idéia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.

 – É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.

Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada…

Ser delegado numa cidadezinha daquelas é coisa seríssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado – e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca!…

João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada, botou-as num burro, montou no seu cavalo magro e partiu.

 – Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?

 – Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.

 – Mas, como? Agora que você está delegado?

 – Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. Adeus.

E sumiu.”

Telma

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A torneirinha da Emília

Em post anterior falamos um pouco a respeito da obra de Monteiro Lobato e sobre a personagem mais atrevida de todos os tempos: a boneca de pano Emília.

Narizinho dizia que Emília era uma torneirinha de asneiras. No entanto, as ideias da boneca são sem dúvida o que há de  mais divertido e interessante nas aventuras dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo.

Neste post vamos uma vez mais abrir a torneirinha da Emília para divertir os leitores. Aproveitem:

Inventando palavras:

(…) – Crocotó é uma coisa que a gente não sabe o que é. Crocotó é tudo que sai para fora de qualquer coisa lisa. O seu nariz, por exemplo, é um crocotó da sua cara – mas como sabemos que nariz é nariz, não dizemos crocotó. Mas se nunca tivéssemos visto o seu nariz, nem soubéssemos o que é nariz, então poderíamos dizer que o seu nariz era um crocotó…

Sobre si mesma:

– “Mas afinal de contas, Emília, que é que você é?”
Emília levantou para o ar aquele implicante narizinho de retrós e respondeu:
– Sou a Independência ou Morte.” (Memórias da Emília)

 “- Sou de pano, sim, mas de pano falante, engraçado paninho louco, paninho aqui da pontinha. Não tenho medo de vocês todos reunidos. Aguento qualquer discussão. A mim ninguém embrulha nem governa. Sou do chifre furado – bonequinha de circo. Dona Quixotinha …” (Dom Quixote das Crianças)

“Eu nasci boneca de pano, muda e feia, e hoje sou até marquesa. Subi muito. Cheguei muito mais que vintém. Cheguei a tostão.” (Fábulas)

Filosofando sobre a verdade:

” (…) Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.” (Memórias da Emília)

Sobre a loucura:

“(…) – A loucura é a coisa mais triste que há…
– Eu não acho – disse Emília – Acho-a até bem divertida. E, depois, ainda não consegui distinguir o que é loucura do que não é. Por mais que pense e repense, não consigo diferençar quem é louco de quem não é. Eu, por exemplo, sou ou não sou louca?
– Louca você não é Emília – respondeu Dona Benta. – Você é louquinha, o que faz muita diferença. Ser louca é um perigo para a sociedade; daí os hospícios onde se encerram os loucos. Mas ser louquinha até tem graça. Todas as crianças do Brasil gostam de você justamente por esse motivo – por ser louquinha.
– Pois eu não quero ser louquinha apenas – disse Emília. – Quero ser louca varrida, como D. Quixote – como os que dão cambalhotas assim…” (Dom Quixote das Crianças).

A ideia da leitura para ser devorada:

” – Pois eu tenho uma ideia muito boa, disse Emília: Fazer o livro comestível.
(…) Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pelos químicos – uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura, está almoçado ou jantado.”  (A reforma da natureza)

Aguardem mais da Emília em breve.

Karina

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A inesquecível Emília

Caros leitores:

No post anterior indicamos vários livros infantis do grande Monteiro Lobato, mas não poderíamos deixar de falar mais detalhadamente de Emília, a boneca falante.

Emília, a pesonagem mais marcante do Sítio do Picapau Amarelo, é considerada pelos críticos o alter-ego de Monteiro Lobato e merece destaque especial por seu carisma e “espírito libertário”.

emilia

Na obra de Lobato, Emília foi feita por Tia Nastácia, que a deu a Narizinho. Emília é feita de pano e recheada de macela, além de ter “olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa”. Em diversos trechos das histórias, Narizinho (ou Tia Nastácia) é obrigada a consertar a boneca, enxertando-lhe mais “recheio” no corpo ou pregando-lhe novos olhos, uma vez que os seus vivem a arrebentar pois Emília os arregala demais.

Emília era muda, mas toma uma pílula do Dr. Caramujo e desanda a falar. A primeira frase dita pela boneca foi: “Estou com um horrível gosto de sapo na boca!” e falou “três horas sem tomar fôlego”.  Narizinho ao ver que Emília pode falar conclui que “a fala de Emília não estava bem ajustada” e que “era de gênio teimoso e asneirenta, pensando a respeito de tudo de um modo especial todo seu.” Narizinho vive dizendo que Emília é uma “torneirinha de asneiras”, já que a boneca tem mania de arrumar explicações pouco comuns sobre todas as coisas, além de mudar o nome de tudo quanto vê.

Sobre a vida:

“…a vida, Senhor Visconde, é um pisca – pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre – perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”
  (em Memórias de Emília)

emi

Extremamente esperta e teimosa,  Emília nunca dá o braço a torcer, mesmo quando não sabe sequer do que está falando. Vejam:

“Emília tinha idéias de verdadeira louca.

– Vou lá – dizia ela – e agarro nas orelhas de dona Carocha e dou um pontapé naquele nariz de papagaio e pego o Polegada pelas pelas botas e venho correndo.

Narizinho ria-se, ria-se…

– Vai lá onde, Emília?

– Lá onde mora a velha.

– E onde mora a velha?

A boneca não sabia, mas não se atrapalhava na resposta. Emília nunca se atrapalhou nas suas respostas. Dizia as maiores asneiras do mundo, mas respondia.

– A velha mora com o Pequeno Polegada.

– Polegar, Emília!

– PO-LE-GA-DA.

Era teimosa como ela só. Nunca disse doutor Caramujo. Era sempre doutor Cara de Coruja. E nunca quis dizer Polegar. Era sempre Polegada.” (trecho de Reinações de Narizinho)

Muito intrometida, Emília vive querendo solucionar a seu modo problemas e situações urgentes que ocorrem no sítio. Foi ela também que levou Narizinho a viver sua primeira aventura: as duas, a convite do Príncipe Escamado, vão conhecer o fantástico Reino das Águas Claras.

As aventuras de Emília são inúmeras e o que mais nos faz amá-la, além de seu carisma incontestável, é  o seu espírito de liderança,  a sua obstinação em manter seus pontos de vista e a sua eterna curiosidade acerca de todas as coisas.

Através de Emília, Monteiro Lobato, conseguiu passar sua visão de mundo para as crianças, de forma divertida, reflexiva e, muitas vezes, crítica.

Quem nunca se divertiu com as estripulias de Emília não sabe o que está perdendo…

Karina

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Monteiro Lobato e Literatura Infantil

lobatoJosé Bento Monteiro Lobato nasceu na cidade paulista de Taubaté no dia 18 de abril de 1882. Cursou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formado, exerceu a Promotoria Pública durante alguns anos na região do Vale do Paraíba. Em 1911 recebe uma fazenda de herança de seu avô e passa a se dedicar à agricultura.

 Desde a faculdade Monteiro Lobato participava de grupos literários, mas a sua veia literária se concretizou de fato após o envio por ele de uma reclamação sobre as queimadas ao jornal O Estado de S.Paulo. A carta de Lobato causou polêmica e deu ensejo a elaboração de outros artigos. A partir de então, o escritor não parou mais de escrever: publicou diversos livros de contos tais como: Urupês, Idéias de Jeca Tatu, Cidades Mortas e Negrinha, todos com temas adultos e tendo como principais características o regionalismo e a preocupação social. Foi Lobato quem fundou a primeira editora nacional, a Editora Monteiro Lobato & Cia e posteriormente a Companhia Editora Nacional e a Editora Brasiliense.

Mas o que nos interessa hoje é a extensa obra dedicada ao público infantil que nos deixou Monteiro Lobato. Seu primeiro livro para crianças foi publicado em 1921 com o título Narizinho Arrebitado, que depois seria renomeado como Reinações de Narizinho. Os livros infantis de Lobato possuem caráter pedagógico e moralista. A maior parte das histórias contadas por  Monteiro Lobato se passa no famoso Sítio do Picapau Amarelo, um sítio no interior do Brasil. Os personagens principais são Dona Benta -proprietária do sítio e avó de Pedrinho e Narizinho, a empregada – Tia Nastácia e outros personagens que ganham vida através da imaginação das crianças, como Emília, a irreverente boneca falante, o boneco de sabugo de milho, Visconde de Sabugosa, o porquinho Rabicó, dentre outros.

Vale a pena ler para as crianças, tanto pela diversão como pelo caráter educativo:

Coleção Sítio do Picapau Amarelo:

– O Saci;
– Fábulas;
– As aventuras de Hans Staden;
– Peter Pan;
– Reinações de Narizinho;
– Viagem ao céu;
– Caçadas de Pedrinho;
– História do mundo para as crianças;
– Emília no país da gramática;
– Aritmética da Emília;
– Geografia de Dona Benta;
– História das invenções;
– Dom Quixote das crianças;
– Memórias da Emília;
– Serões de Dona Benta;
– O poço do Visconde;
– Histórias de Tia Nastácia;
– O Picapau Amarelo;
– O minotauro;
– A reforma da natureza;
– A chave do tamanho;
– Os doze trabalhos de Hércules;
– Histórias diversas.

Há também outros livros que foram incluídos, posteriormente, no volume Reinações de Narizinho:

– A menina do narizinho arrebitado;
– Fábulas de Narizinho;
– Narizinho arrebitado (incluído em Reinações de Narizinho);
– O marquês de Rabicó (incluído em Reinações de Narizinho);
– A caçada da onça;
– Jeca Tatuzinho;
– O noivado de Narizinho (incluído em Reinações de Narizinho);
– Aventuras do príncipe (incluído em Reinações de Narizinho);
– O Gato Félix (incluído em Reinações de Narizinho);
– A cara de coruja (incluído em Reinações de Narizinho);
– O irmão de Pinóquio (incluído em Reinações de Narizinho);
– O circo de escavalinho (incluído em “Reinações de Narizinho);
– A pena de papagaio (incluído em Reinações de Narizinho);
– O pó de pirlimpimpim (incluído em Reinações de Narizinho);
– Novas reinações de Narizinho;
– O museu da Emília.

Títulos não faltam. É diversão garantida!

Karina

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Indicação de Livros para Crianças

Como já dissemos neste blog, as crianças estão lendo cada vez menos! Precisamos incentivá-las a adotar o hábito da leitura por prazer. A seguir indicamos alguns livros e autores interessantes  que agradam aos pequenos e aos adultos também!

– Fábulas de Esopo e Fábulas de La Fontaine: breves estórias, onde os principais personagens são animais. No desfecho, sempre uma lição de moral.

– Monteiro Lobato: nem é preciso dizer muito sobre esta indicação. Monteiro Lobato, reúne educação e diversão em seus livros. A coleção Sítio do Pica-Pau Amarelo é imperdível e no livro “Fábulas”, Lobato reescreve as fábulas de Esopo e La Fontaine, mas com comentários dos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo – Emília, Pedrinho, Narizinho, Dna. Benta etc.

Outros livros interessantes:

– A Fada que tinha idéias, de Fernanda Lopes de Almeida – o livro conta a estória da revolucionária fadinha Clara Luz, que se rebela contra o superado livro de lições das fadas. Num texto muito divertido e com ótimas ilustrações, o que a autora pretende é levar o leitor a uma reflexão sobre o poder da capacidade de “inventar” e sobre a importância de ter idéias e opiniões próprias.

– Raul da Ferrugem Azul, de Ana Maria Machado – conta a estória do menino Raul que, intrigado com as manchas azuis que lhe saem frequentemente no corpo (e que só ele vê), resolve ir atrás de respostas para solucionar o problema. Acaba percebendo que a “ferrugem” aparece toda vez que ele se omite diante de alguma situação em que seria correto agir. É um ótimo livro que, com simplicidade, ensina as crianças a não se acovardarem diante dos obstáculos.

– O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha – conta a estória de um rei mimado e autoritário que obriga todos os seus súditos a se calarem. Fala sobre autoritarismo e da importância da liberdade de expressão.

– A Bolsa Amarela, de Lígia Bojunga – estória de uma menina – Raquel – que vive conflitos interiores. Ela tem 3 vontades: ser homem, crescer e escrever. A bolsa amarela é o local onde Raquel guarda as suas vontades secretas. O livro prossegue com muita fantasia e principalmente muitas metáforas que ensinam a criança a superar os medos e a assumir seus desejos e sonhos.

Estes são alguns exemplos de títulos e de autores que realmente entendem de crianças. Mas o adultos também costumam se encantar com a leveza e com as lições que eles passam.

Boa leitura a todos!

Karina

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