Archive for dezembro, 2011

A Esperança de Fernando Pessoa

O ano de 2011 está findando. Um novo porvir se inicia agora. Nada como ler Fernando Pessoa, em seu heterônimo Álvaro de Campos, para acreditar que a esperança move o mundo. O texto abaixo é a reprodução da primeira parte do Poema de Canção Sobre a Esperança, escrito em 1929 pelo maravilhoso autor português.


“Dá-me lírios, lírios,

E rosas também.

Mas se não tens lírios

Nem rosas a dar-me,

Tem vontade ao menos

De me dar os lírios

E também as rosas.

Basta-me a vontade,

Que tens, se a tiveres,

De me dar os lírios

E as rosas também,

E terei os lírios —

Os melhores lírios —

E as melhores rosas

Sem receber nada.

A não ser a prenda

Da tua vontade

De me dares lírios

E rosas também.”

Telma

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Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me agora, antes
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

III

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heróicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento

Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

IV

Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.

(Hilda Hilst in Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

Karina

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Uma História de Fadas

As autoras do blog Literatura em Conta-Gotas  desejam a todos um Feliz Natal e um 2012 espetacular! Acreditem sempre!

De presente aos leitores oferecemos mais um belo texto de Caio Fernando Abreu.

UMA HISTÓRIA DE FADAS

                                                                                                                                                                        Era comum, que nem a gente

                                                                                                                                                                        A única diferença é que ele

                                                                                                                                                                        era um Homem Que Acreditava.

 

Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor ideia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.

Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.

Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras. O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.

Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.

Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.

De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.

De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?

(O Estado de S. Paulo, 30/1/1988 – Pequenas Epifanias)

Karina

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Adélia Prado

Belíssima declaração de amor da escritora Adélia Prado a um homem. Amor sincero, sem orgulho, como deve ser. Vejam:

 

Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como

toda vida quis e não sabia,

eu que já amava de extremoso amor

o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos

de bordado, onde tem

o desenho cômico de um peixe — os

lábios carnudos como os de uma negra.

Divago, quando o que quero é só dizer

te amo. Teço as curvas, as mistas

e as quebradas, industriosa como abelha,

alegrinha como florinha amarela, desejando

as finuras, violoncelo, violino, menestrel

e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito

pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo

o teu coração, o que é, a carne de que é feito,

amo sua matéria, fauna e flora,

seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas

perdidas nas casas que habitamos, os fios

de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo

pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:

“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas

o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não

ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.

Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama

fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.

Te alinho junto das coisas que falam

uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como

o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,

tira de mim o ar desnudo, me faz bonita

de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,

me dá um filho, comida, enche minhas mãos.

Eu te amo, homem, exatamente como amo o que

acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando

os panos, se alargando aquecido, dando

a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.

Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,

o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,

te amo do modo mais natural, vero-romântico,

homem meu, particular homem universal.

Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.

Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,

a luz na cabeceira, o abajur de prata;

como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:

com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,

me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles

eu beijo.

 

Adélia Luzia Prado Freitas nasceu na cidade de Divinópolis – MG no ano de 1935. Sua obra traz temas do cotidiano e bastante religiosidade. Sobre Adélia, assim escreveu Carlos Drummond de Andrade: é um fenômeno poético.

A escritora se mantém em plena atividade até os dias atuais. Seu último livro, “Carmela vai à escola”, foi publicado neste an0.

Karina

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Cruz e Sousa

Semana passada publicamos um post sobre o poeta Alphonsus de Guimaraens. Hoje trazemos um poema de Cruz e Souza, precursor do Simbolismo no Brasil e que influenciou a obra de Guimaraens. Sua poesia se destaca pela linguagem requintada e pelo transcendentalismo típico dos simbolistas.

O autor é considerado um dos grandes poetas brasileiros, mas infelizmente não teve o devido reconhecimento enquanto viveu, até os 36 anos de idade.

Confiram:

ABRIGO CELESTE

Estrela triste a refletir na lama,

raio de luz a cintilar na poeira,

tens a graça sutil e feiticeira,

a doçura das curvas e da chama.


Do teu olhar um fluido se derrama

de tão suave, cândida maneira

que és a sagrada pomba alvissareira

que para o Amor toda a minh’alma chama.


Meu ser anseia por teu doce apoio,

nos outros seres só encontra joio,

mas só no teu todo o divino trigo.

 

Sou como um cego sem bordão de arrimo

que do teu ser, tateando, me aproximo,

como de um céu de carinhoso abrigo.

(Últimos Sonetos)

Karina

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