Archive for junho, 2012

Mário Quintana para Bambina

O poema transcrito abaixo é uma homenagem à nossa gatinha Bambina, que partiu há dois meses mas continua viva em nossos corações:

Parece um Sonho…

 Imagem

“Parece um sonho que ela tenha morrido!”

diziam todos… Sua viva imagem

tinha carne!… E ouvia-se, na aragem,

passar o frêmito do seu vestido.

E era como se ela houvesse partido

e logo fosse regressar da viagem…

– até que em nosso coração dorido

a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora

menos dos olhos, mais do coração.

Nossa saudade te sorri: não chora…

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.

E ao relembrar-te a gente diz, então:

“Parece um sonho que ela tenha vivido!”

 

(do livro Quintana de bolso – Ed. L&PM Pocket)

Karina e Telma

Anúncios

Comments (3) »

Mais Saramago

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:

“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre”.

(José Saramago in Viagem a Portugal)

 

Karina

Leave a comment »

Se

 

(Rudyard Kipling)

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando

Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,

E para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

E não parecer bom demais, nem pretensioso;

/

Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,

De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires

Tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas

Em armadilhas as verdades que disseste,

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

E refazê-las com o bem pouco que te reste;

/

Se és capaz de arriscar numa única parada

Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

Resignado, tornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo

A dar seja o que for que neles ainda existe,

E a persistir assim quando, exaustos, contudo

Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

/

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes

E, entre reis, não perder a naturalidade,

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

Se a todos podes ser de alguma utilidade,

E se és capaz de dar, segundo por segundo,

Ao minuto fatal todo o valor e brilho,

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo

E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!

(“If”, de Rudyard Kipling com tradução de Guilherme de Almeida)

Joseph Rudyard Kipling nasceu em 30/12/1865 em Bombaim, na Índia no ápice do império britânico. Foi o primeiro escritor inglês a receber o prêmio Nobel de literatura.  Escreveu contos, fábulas, romances de aventura e poemas. Sua obra mais famosa é O Livro da Selva, um dos clássicos da literatura infanto-juvenil, que conta a estória de Mogli, o menino-lobo. Faleceu em Londres, no ano de 1936, deixando belos textos como o poema acima.

Karina

Leave a comment »

Se você fosse você, o que faria?

Crônica genial de Clarice Lispector, extraído do livro Aprendendo a Viver – Editora Rocco:

Se eu fosse eu

 Imagem

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”.

 

Karina

 

Comments (2) »

O amor…

Imagem

“A experiência amorosa exige sacrifício. Não se ama para ser  recompensado. O amor é sua própria recompensa. Não resisto em citar Drummond falando da poesia coisa parecida: “Poesia, o perfume que exalas é tua justificação”. Não há amor fácil, mas todo amor é maravilha, saúde, “remédio contra a loucura”, coisa que Guimarães Rosa ensinou. É a experiência humana mais exigente. Não é contrato, troca de favores, investimento, é entrega  e compromisso.. Do “sacrifício” de amar nasce a mais perfeita alegria. Ninguém faz cara feia quando se sacrifica por amor. Não se trata de anulação, subserviência de quem ama, trata-se da morte do ego, tarefa a ser feita até o último suspiro.”

(Adélia Prado)

Karina

Leave a comment »

Receita de feijoada, por Vinicius de Moraes

    Feijoada à Minha Moda

    (Amiga Helena Sangirardi)

    Conforme um dia prometi
    Onde, confesso que esqueci
    E embora — perdoe — tão tarde

/
    (Melhor do que nunca!) este poeta
    Segundo manda a boa ética
    Envia-lhe a receita (poética)
    De sua feijoada completa.

/
    Em atenção ao adiantado
    Da hora em que abrimos o olho
    O feijão deve, já catado
    Nos esperar, feliz, de molho

/
    E a cozinheira, por respeito
    À nossa mestria na arte
    Já deve ter tacado peito
    E preparado e posto à parte
/
    Os elementos componentes
    De um saboroso refogado
    Tais: cebolas, tomates, dentes
    De alho — e o que mais for azado
/
    Tudo picado desde cedo
    De feição a sempre evitar
    Qualquer contato mais… vulgar
    Às nossas nobres mãos de aedo.
/
    Enquanto nós, a dar uns toques
    No que não nos seja a contento
    Vigiaremos o cozimento
    Tomando o nosso uísque on the rocks
/
    Uma vez cozido o feijão
    (Umas quatro horas, fogo médio)
    Nós, bocejando o nosso tédio
    Nos chegaremos ao fogão
/
    E em elegante curvatura:
    Um pé adiante e o braço às costas
    Provaremos a rica negrura
    Por onde devem boiar postas
/
    De carne-seca suculenta
    Gordos paios, nédio toucinho
    (Nunca orelhas de bacorinho
    Que a tornam em excesso opulenta!)
/
    E — atenção! — segredo modesto
    Mas meu, no tocante à feijoada:
    Uma língua fresca pelada
    Posta a cozer com todo o resto.
/
    Feito o quê, retire-se o caroço
    Bastante, que bem amassado
    Junta-se ao belo refogado
    De modo a ter-se um molho grosso
/
    Que vai de volta ao caldeirão
    No qual o poeta, em bom agouro
    Deve esparzir folhas de louro
    Com um gesto clássico e pagão.
/
    Inútil dizer que, entrementes
    Em chama à parte desta liça
    Devem fritar, todas contentes
    Lindas rodelas de lingüiça
/
    Enquanto ao lado, em fogo brando
    Dismilingüindo-se de gozo
    Deve também se estar fritando
    O torresminho delicioso
/
    Em cuja gordura, de resto
    (Melhor gordura nunca houve!)
    Deve depois frigir a couve
    Picada, em fogo alegre e presto.
/
    Uma farofa? — tem seus dias…
    Porém que seja na manteiga!
    A laranja gelada, em fatias
    (Seleta ou da Bahia) — e chega
/
    Só na última cozedura
    Para levar à mesa, deixa-se
    Cair um pouco da gordura
    Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.
/
    Que prazer mais um corpo pede
    Após comido um tal feijão?
    — Evidentemente uma rede
    E um gato para passar a mão…
/
    Dever cumprido. Nunca é vã
    A palavra de um poeta…— jamais!
    Abraça-a, em Brillat-Savarin
    O seu Vinicius de Moraes

Texto extraído do livro “Para viver um grande amor”

Karina

Leave a comment »

Mais de “A insustentável leveza do ser”

Nos trechos a seguir, extraídos do capítulo O sorriso de Karenin, Milan Kundera fala sobre o relacionamento entre os homens e os animais:

Imagem

No caminho encontraram uma vizinha que está indo para o estábulo, calçada com galochas. A vizinha pára: “O que aconteceu com seu cachorro? Parece que está mancando!”

Tereza responde: “Está com câncer. Está condenado!” , e sente a garganta se apertando, quase não consegue falar.

A vizinha percebe as lágrimas de Tereza e fica indignada: “Pelo amor de Deus, você não vai chorar por causa de um cachorro, vai?” . Não disse isso por maldade, é uma boa mulher, foi mais para consolar Tereza. Tereza, sabe disso, mora na aldeia há tempo suficiente para entender que se os camponeses gostassem de seus coelhos como ela gosta de Karenin, não poderiam matá-los e acabariam morrendo de fome com seus bichos. No entanto, a observaçao da vizinha lhe parece hostil. – “Não, não vou”, responde sem prostestar, mas se apressa em lhe dar as costas e seguir seu caminho.

Sente-se sozinha em seu amor pelo cão. Pensa com um sorriso triste que deve escondê-lo mais secretamente do que se escondesse uma infidelidade. O amor que se tem por um cachorro escandaliza as pessoas. Se a vizinha ficasse sabendo que ela enganava Tomas, daria tapinhas em suas costas com ar cúmplice!

Nunca se poderá determinar com certeza em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor ou não-amor, de nossa benevolência ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de antemão pelas relações de força entre os indivíduos.

A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras.”

Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada num tronco, acariciando a cabeça de Karenin e pensando na falência da humanidade. Ao mesmo tempo surge para mim uma outra imagem: Nietzsche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo e um cocheiro lhe dando chicotadas. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço sob o olhar do cocheiro e explode em soluços.

Isso aconteceu em 1889 e Nietzsche já estava, também ele, distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão, por Descartes. Sua loucura (portanto, seu divórcio com a humanidade) começa no instante em que chora pelo cavalo.

É esse Nietzsche que amo, da mesma maneira que amo Tereza, acariciando em seus joelhos um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho em que a humanidade, “proprietária e senhora da natureza”, prossegue sua marcha adiante.

Do caos confuso dessas ideias, germina na mente de Tereza uma idéia blasfematória de que ela não consegue se desvencilhar: o amor que a liga a Karenin é melhor que o amor que existe entre ela e Tomas. Melhor, mas não maior.

(…) É um amor desinteressado: Tereza não quer nada de Karenin. Nem mesmo amor ela exige. Nunca precisou fazer as perguntas que atormentam os casais humanos: será que ela me ama? será que gosta mais de mim do que eu dela? terá gostado de alguém mais do que de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, avaliam-no, investigam-no, examinam-no, talvez o destruam no instante em que nascem. Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reinvindicações, desejando apenas sua simples presença.

E mais uma coisa: Tereza aceitou Karenin tal qual é, não procurou transformá-la para que ficasse semelhante a si prórpia, aceitou de antemão seu universo de cachorra, não quer lhe confiscar nada, não sente ciúmes de seus desejos secretos. Se a educou, não foi para mudá-la (como um homem quer mudar sua mulher e uma mulher seu homem), mas apenas para lhe ensinar a linguagem elementar que lhes permitisse se compreender e conviver.”

Karina

Comments (1) »

Frase da Semana

“É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade.”

(Virginia Woolf)

 

Karina

Leave a comment »

A morte dos girassóis

Mais uma pequena epifania do maravilhoso Caio Fernando Abreu. Bom proveito!

 

“Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido.

Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira.” Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo,e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado:enfim um lugar sem baixo-astral.”

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa. Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita,parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho.

Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então,como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

 Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo.

Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda.

Não havia como endireitá-lo.

 Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro.Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

 Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?

Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo. “

 

 

Telma

Leave a comment »

Fragmentos de um Evangelho Apócrifo

Abaixo texto do notável escritor argentino Jorge Luis Borges, extraído do livro Elogio da Sombra, de 1969. Sem dúvida traz muita sabedoria:

Imagem

3. Desgraçado o pobre de espírito, porque sob a terra será oque agora é sobre a terra.

4. Desgraçado o que chora, porque já adquiriu o hábito miserável do pranto.

5. Felizes os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.

6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.

7. Feliz aquele que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem e todos a têm.

8. Feliz o que perdoa aos outros e o que perdoa a si mesmo.

9. Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia.

10. Bem-aventurados os que não têm fome de justiça, porque sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.

11. Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia, e não na esperança de um prêmio.

12. Bem-aventurados os de coração limpo, porque enxergam Deus.

13. Bem-aventurados os que padecem perseguição por causada justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu destino humano.
 
14. Ninguém é o sal da terra, e ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.

15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, ainda que ninguém a veja. Deus a verá.

16. Não há mandamento que não possa ser infrigido, e também os que aqui digo e os que os profetas disseram.

17. O que matar por causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.

18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.

19. Não odeies teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.

20. Se a tua mão direita te ofender, perdoa-a; tu és teu corpo e tu és tua alma, e é árduo, impossível, fixar a fronteira que os divide…

24. Não exageres no culto à verdade; não existe homem que,ao fim de um dia, não tenha mentido com razão muitas vezes.

25. Não jures, porque todo juramento é uma ênfase.

26. Resiste ao mal, mas sem assombro e sem ira. A quem te ferir a face direita, podes oferecer a outra, desde que não te mova o medo.

27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.

28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça e não é difícil; amá-lo, tarefa de anjos, e não de homens.

29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor meio de alimentar a tua vaidade.

30. Não acumules ouro na Terra, porque o ouro é o pai do ócio, e este da tristeza e do tédio.

31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se assim não é, não é teu o erro.
 
32. Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.

33. Dá o que é santo aos cães, atira tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.

34. Busca pelo prazer de buscar, e não pelo de encontrar…

39. A porta é que escolhe, não o homem.

40. Não julgues a árvore por seus frutos nem o homem por sua sobras; podem ser piores ou melhores.

41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia; porém nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia…

47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.

48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou a palma.

49. Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.

50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.

51. Felizes os felizes.

Karina

Leave a comment »