Archive for maio, 2012

Baudelaire e a dor

Dá um tempo, ó minha dor, controla tua agressividade.

Tu querias a noite; Aí está; ela vem descendo;

Uma atmosfera sombria já envolve quase toda a cidade,

Uns encontram a paz; outros seguem padecendo.

Enquanto dos mortais a multidão vil,

Sob o chicote do prazer, esse impiedoso carrasco,

Vai colhendo remorsos na festa servil,

Minha dor, me dá a mão, vamos por aqui, sem asco,

Ver, longe deles, debruçaram-se os anos defuntos,

Sobre os balcões do céu, usando velhos conjuntos;

Emergir a saudade, do fundo das águas, sorridente;

O sol moribundo adormecer atrás da arcada mansa,

E, como uma longa mortalha arrastando-se no Oriente,

Ouve, minha cara, ouve a doce noite que avança.

(Charles Baudelaire in Les Fleurs du Mal)

Karina

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A insustentável leveza do ser

Um livro instigante, filosófico e inesquecível. Eis alguns fragmentos de “A insustentável leveza do ser”, do escritor tcheco Milan Kundera:

“Viver na verdade.

É uma fórmula que Kafka usou em seu diário ou numa carta. Franz não se lembra muito bem. Está seduzido por essa fórmula. O que é viver na verdade? Uma definição negativa é fácil: é não mentir, não se esconder, não dissimular nada. Desde que conheceu Sabina, vive na mentira. Conversa com sua mulher sobre congressos em Amsterdam e conferências em Madri que jamais aconteceram, tem medo de passear com Sabina nas ruas de Genebra. Acha divertido mentir e se esconder, justamente porque nunca o fez antes. Sente o prazer de um primeiro da classe que decide um dia, finalmente, cabular.
Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem para si nem para os outros, só é possível se vivermos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada mais do que fazemos é verdadeiro.Ter um público, pensar num público, é viver na mentira. Sabina despreza a literatura em que o autor revela  toda a sua intimidade, e também a de seus amigos. Quem perde sua intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso, Sabina não sofre por ter que esconder o seu amor. Ao contrário, para ela essa é a única forma de viver “na verdade”.
Quanto a Franz, está convencido de que na separação da vida em domínio privado e em domínio público está a fonte de toda a mentira: a gente é uma pessoa em particular e outra em público. Para Franz, “viver na verdade” é abolir a barreira entre o privado e o público. Menciona com prazer a frase de André Breton, em que ele dizia que gostaria de viver  “numa casa de vidro”, onde nada é segredo e que está aberta a todos os olhares.”

(…)

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa . Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.

O que escolher, então? O peso ou a leveza?

(…)

Sentado na cama, olhava a mulher deitada ao seu lado, que, dormindo, apertava-lhe a mão. Sentia por ela um amor inexprimível. Nesse momento ela sem dúvida dormia um sono muito leve, porque abriu os olhos e olhou-o com ar espantado.
– O que você está olhando? – perguntou ela.
Sabia que não devia acordá-la, mas fazê-la adormecer. Tentou responder com palavras que fizessem nascer em seu pensamento a centelha de um novo sonho.
– Estou olhando as estrelas – respondeu.
– Não minta, você não está olhando as estrelas, está olhando para o chão.
– É que estamos num avião, as estrelas estão abaixo de nós.
– Ah, bem! – murmurou Tereza. Apertou com mais força a mão de Tomas e continuou a dormir. Tomas sabia que Tereza olhava agora pela janela de um avião que voava muito alto, por cima das estrelas.

 

Karina

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Caio

Vai passar, tu sabes que vai passar.
Talvez não amanhã, mas dentro de
uma semana, um mês ou dois, quem
sabe? O verão está aí, haverá sol
quase todos os dias, e sempre resta
essa coisa chamada “impulso vital”.
Pois esse impulso às vezes cruel,
porque permite que a dor insista
por muito tempo, te empurrará
quem sabe para o sol, para o mar,
para uma nova estrada qualquer e,
de repente, no meio de uma frase
ou de um movimento te surpreenderás
pensando algo assim como “estou
contente outra vez.”

(Caio Fernando Abreu)

Karina

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Adélia Prado

Falando da falta de inspiração, com muita inspiração…

 

Paixão

Imagem

De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo. O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando solta no espaço.

(Adélia Prado)

 

Karina

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Clarice

… Então a borboleta

abre lentamente

suas asas sobre a folha

E sai a borboletear feito

uma doidinha

levíssima e alegríssima.

Sua vida é breve, mas intensa….

 

(Clarice Lispector)

Karina

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