Archive for julho, 2009

Baudelaire e os felinos

Baudelaire era mesmo um admirador dos felinos, tendo dedicado a eles diversos fragmentos e poesias, todos exaltando os seus atributos. Trazemos hoje mais um belo poema extraído do livro As Flores do Mal em homenagem aos gatos.

Vejam:

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O GATO

I

Dentro em meu cérebro vai e vem

Como se a sua casa fosse

Um belo gato, forte e doce.

Quando ele mia, mal a quem


Lhe ouça o fugaz timbre discreto;

Seja serena ou iracunda,

Soa-lhe a voz rica e profunda.

Eis seu encanto mais secreto.


Essa voz que se infiltra e afina

Em meu recesso mais umbroso

Me enche qual verso numeroso

E como um filtro me ilumina.


Os piores males ele embala

E os êxtases todos oferta;

Para enunciar a frase certa,

Não é com palavras que fala.


Não, não existe arco que morda

Meu coração, nobre instrumento,

Ou faça com tal sentimento

Vibrar-lhe a mais sensível corda


Que a tua voz, ó misterioso

Gato de místico veludo,

Em que, como um anjo, tudo

É tão sutil quanto gracioso!


II

De seu pêlo louro e tostado

Um perfume tão doce flui

Que uma noite, ao mima-lo, fui

Por seu aroma embalsamado.


É a alma familiar da morada;

Ele julga, inspira, demarca

Tudo o que seu império abarca;

Será um deus, será uma fada?


Se neste gato que me é caro,

Como por ímãs atraídos,

Os olhos ponho comovidos

E ali comigo me deparo,


Vejo aturdido a luz que lhe arde

Nas pálidas pupilas ralas,

Claros faróis, vivas opalas,

Que me contemplam sem alarde.

Karina

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Vale a pena ler Ruth Rocha

Mais um estória divertida de Ruth Rocha para mostrar que as crianças são bem mais espertas do que se imagina e que a sua inteligência não pode ser subestimada.

COMO SE FOSSE DINHEIRO

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Todos os dias Catapimba levava dinheiro para escola para comprar o lanche.

Chegava no bar, comprava um sanduíche e pagava seu Lucas.

Mas seu Lucas nunca tinha troco.

Um dia, Catapimba reclamou de seu Lucas:

– Seu Lucas, eu não quero bala, quero meu troco em dinheiro.

– Ora, menino, eu não tenho troco. Que é que eu posso fazer?

– Ah, eu não sei! Só sei que quero meu troco em dinheiro!

– Ora, bala é como se fossa dinheiro, menino? Ora essa…

Catapimba ainda insistiu umas duas ou três vezes.

A resposta era sempre a mesma:

– Ora, menino, bala é como se fosse dinheiro… Então, leve um chiclete, se não gosta de bala.

Aí, Catapimba resolveu dar um jeito.

No dia seguinte, apareceu com um embrulhão de baixo do braço. Os colegas queriam saber o que era. Catapimba ria e respondia;

– Na hora do recreio, vocês vão ver…

E, na hora do recreio, todo mundo viu.

Catapimba comprou o seu lanche. Na hora de pagar, abriu o embrulho. E tirou de dentro… uma galinha.

Botou a galinha em cima do balcão.

– Que é isso, menino? – perguntou seu Lucas.

– É pra pagar o sanduíche, seu Lucas. Galinha é como se fosse dinheiro… o senhor pode me dar troco, por favor?

Os meninos estavam esperando para ver o que seu Lucas ia fazer.

Seu Lucas ficou um tempão parado, pensando…

Aí colocou uma moedas no balcão:

– Está aí seu troco, menino!

E pegou a galinha, para acabar com a confusão.

No dia seguinte, todas as crianças apareceram com embrulhos debaixo do braço.

No recreio, todo mundo foi comprar lanche.

Na hora de pagar…

Teve gente que queria pagar com raquete de pingue-pongue, com papagaio de papel, com vidro de cola, com geléia de jabuticaba…

O Armandinho quis pagar um sanduíche de mortadela com o sanduíche de goiabada que ele tinha levado…

Teve gente que também levou galinha, pato, peru…

E, quando seu Lucas reclamava, a resposta era sempre a mesma;

– Ué, seu Lucas, é como se fosse dinheiro…

Mas seu Lucas ficou chateado mesmo quando apareceu o Caloca puxando um bode.

Aí, seu Lucas correu e chamou a diretora.

Dona Júlia veio e contaram pra ela o que estava acontecendo.

E sabe o que ela achou?

Pois achou que as crianças tinham razão..

– Sabe, seu Lucas – ela falou -, bode não é como se fosse dinheiro. Galinha também não é. Até aí o senhor tem razão. Mas bala também não é como se fosse dinheiro muito menos chiclete.

Seu Lucas se desculpava:

– É, mas eu não tive troco?

– Aí, o senhor anota, e no outro dia paga.

Os meninos fizeram uma festa, deram pique-pique pra dona Júlia e tudo.

Naquele dia, nem houve mais aula.

Mas o melhor de tudo é que todos do bairro ficaram sabendo do caso.

E, agora, seu Pedro da farmácia não dá mais comprimidos de troco, seu Ângelo do mercado não dá mais mercadoria como se fosse dinheiro.

Afinal, ninguém quer receber um bode em pagamento, como se fosse dinheiro. É, ou não é?

(Fonte: http://www.uol.com.br/ruthrocha/home.htm)

Karina

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O rouxinol e a rosa, por Oscar Wilde

O rouxinol e a rosa

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“Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas”, exclamou o jovem Estudante, “mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha.”

Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.

“Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!”, exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. “Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz.”

“Finalmente, eis um que ama de verdade”, disse o Rouxinol. “Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca.”

“Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe”, murmurou o jovem Estudante, “e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado.”

“Sim, ele ama de verdade”, disse o Rouxinol. “Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro”.

“Os músicos no balcão”, disse o jovem Estudante, “tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar.” E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.

“Por que chora ele?”, indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.

“Sim, por quê?”, perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.

“Sim, por quê?”, sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.

“Ele chora por uma rosa vermelha”, disse o Rouxinol.

“Uma rosa vermelha?”, exclamaram todos. “Mas que ridículo!” E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.

Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.

De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.

No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.

“Dá-me uma rosa vermelha”, exclamou ele, “que cantarei meu canto mais belo para ti”.

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

“Minhas rosas são brancas”, respondeu ela, “tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres.”

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.

“Dá-me uma rosa vermelha”, exclamou ele, “que cantarei meu canto mais belo para ti.”

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

“Minhas rosas são amarelas”, respondeu ela, “amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres.”

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.

“Dá-me uma rosa vermelha”, exclamou ele, “que cantarei meu canto mais belo para ti.”

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

“Minhas rosas são vermelhas”, respondeu ela, “vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano.”

“Uma única rosa vermelha é tudo que quero”, exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?”

“Existe uma maneira”, respondeu a Roseira, “mas é tão terrível que não ouso te contar.”

“Conta-me”, disse o Rouxinol. “Não tenho medo.”

“Se queres uma rosa vermelha”, disse a Roseira, “tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu.”

“A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha”, exclamou o Rouxinol, “e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?”

Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.

O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.

“Regozija-te”, exclamou o Rouxinol, “regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.

O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.

Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.

“Canta uma última canção para mim”, sussurrou ele; “vou sentir-me muito solitário depois que tu partires.”

Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.

Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.

“Forma ele tem”, disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, “isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática.” E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.

E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.

Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio – pálida como os pés da manhã, e prateada como as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d’ água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.

Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. Aperta-te mais, pequeno Rouxinol”, exclamou a Roseira, “senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa.”

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.

E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.

E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. “Aperta-te mais, pequeno Rouxinol”, exclamou a Roseira, “senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa.”

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.

E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.

Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.

Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco vou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles leva ram sua mensagem até o mar.

“Olha, olha!”, exclamou a Roseira, “a rosa está pronta.” Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.

E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.

“Ora, mas que sorte extraordinária!”, exclamou. “Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim.” E, abaixando-se, colheu-a.

Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.

A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.

“Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha”, disse o Estudante. “Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo.”

Porém a moça franziu a testa.

“Creio que não vai combinar com meu vestido”, respondeu ela; “e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores.”

“Ora, mas és mesmo uma ingrata”, disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.

“Ingrata!”, exclamou a moça. “Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro.” E, levantando-se, entrou em casa.

“Que coisa mais tola é o Amor!”, disse o Estudante enquanto se afastava. “É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica.”

Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.

O conto acima é de autoria do brilhante escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900).

Oscar Wilde dispensa apresentações.  Foi um dos maiores escritores do século 19 e se tornou célebre por sua personalidade extravagante e por sua singular inteligência.  O romance  “O Retrato de Dorian Gray”, que fala sobre beleza, vaidade e decadência moral, foi a sua grande obra-prima.

Oscar Wilde também escreveu contos, peças de teatro até hoje encenadas em diversos países, além de novelas e poemas.

Sua obra é leitura obrigatória para os amantes da boa literatura.

Karina

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O Último Dia de Um Condenado

Não nos cansamos de festejar a genialidade de Victor Hugo aqui no blog. Realmente somos fãs indisfarçáveis do renomado escritor francês, que faleceu em 1885 e escreveu, dentre outras, obras-primas como “O Corcunda de Notre Dame” e o inigualável “Os Miseráveis”.

Hoje chamamos a atenção do frequentador do blog para mais um arroubo do talento inigualável de Victor Hugo. Nos referimos ao livro “O Último Dia de Um Condenado”, menos conhecido em relação aos acima mencionados, mas igualmente maravilhoso.

“O Último Dia de Um Condenado”, como o próprio nome está a indicar, conta a estória de um sentenciado à pena de morte por guilhotina que, enquanto aguarda sua execução, decide escrever uma espécie de diário registrando suas idéias,  impressões,  aflições e medos.

A sensação que o livro nos passa é aterradora e muito real,  envolvendo todas as questões ligadas à pena de morte. Fica clara a posição crítica de Victor Hugo com relação ao sitema punitivo da época.

A narrativa é muito emocionante e apresenta, em todos os seus aspectos, o clássico dilema entre o direito da sociedade em ver a punição de criminosos e o sagrado direito à vida.

Abaixo, reproduzimos trechos desse livro impressionante. Quer conhecer a angústia e o medo de um condenado à morte, caro leitor? Então, veja:

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“Condenado à morte.

Há cinco semanas vivo com este pensamento, sempre só com ele, sempre gelado pela sua presença, sempre curvado sob seu peso!


Condenado à morte!

Pois bem, por que não? Os homens – lembro-me de ter lido isto não sei em que livro, e onde só isto havia de bom – os homens são todos condenados à morte com prazos indefinidos. Então, o que há de extraordinário na minha situação?

Desde a hora em que a minha sentença foi pronunciada, quantos morreram e que estavam preparados para uma longa vida! Quantos me precederam, novos, livres e sãos, e contavam ir ver em tal dia cair a minha cabeça na praça da Gréve! Quantos daqui até lá, que andam, respiram ao ar livre e se movem à sua vontade, ainda me precederão.

E depois: o que é que a vida para mim tem de saudosa? Na verdade, o dia sombrio e o pão negro da prisão, a porção de caldo magro tirado da tina das galés, ser brutalizado pelos carcereiros e verdugos, não ver um ser humano, que me julgue digno de uma palavra e a quem eu responda, tremer sem cessar, não só do que tiver feito, mas do que me farão: eis mais ou menos os únicos bens que o carrasco me pode tirar!

Ah! No entanto, isto é horrível!

Tudo é prisão em torno de mim; acho-a sob todas as formas, tanto nos homens, como nas grades ou nos ferrolhos. Esta parede é a prisão de pedra; esta porta é a prisão de madeira; estes carcereiros são a prisão em carne e osso. A prisão é uma espécie de ser horrível, completo, indivisível, metade casa, metade homem. Eu sou a sua presa; ela esconde-me, enlaça-me nas suas dobras, encerra-me sob as suas muralhas de granito, prende-me com as suas fechaduras de ferro e vigia-me com seus olhos de carcereiro.

Ah! Miserável! Que será de mim? O que vão eles fazer de mim?

Sinto o coração cheio de raiva e amargura. Creio que o fel rebentou. A morte nos torna maus.

Fechei os olhos e com as mão sobre eles procurei esquecer, esquecer o presente no passado. Enquanto eu sonho, as recordações da minha infância e da minha mocidade vêm-me uma a uma, suaves, calmas, risonhas, como ilhas de flores neste lamaçal de pensamentos negros e confusos que turbilhonam no meu cérebro.

Eles dizem que não é nada, que não se sofre, que é um fim sereno, e a morte desta maneira é muito simplificada.

Então o que é esta agonia de seis semanas e esta ânsia de um dia inteiro? O que são as angústias deste dia irreparável, que desliza tão lentamente e ao mesmo tempo tão depressa? O que é esta escala de torturas, que vai acabar no cadafalso?

E que certezas têm eles de que não se sofre? Quem lhes disse? Sucedeu alguma vez uma cabeça guilhotinada levantar-se sangrenta à beira do cadafalso e gritar ao povo: isto não faz mal?

Ai! O que é que a morte faz da nossa alma? O que lhe deixa? O que lhe dá ou lhe tira? Onde a põe? Algumas vezes lhe emprestará olhos de carne para olhar para a terra e chorar?

E tornei a cair na minha cadeira, sombrio, solitário, desesperado.Agora podem vir! Já nada me detém; a última fibra do meu coração acaba de se partir. Estou bom para o que eles vão fazer.”

Telma

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Medo da eternidade

Trazemos hoje ao leitor mais uma crônica da brilhante escritora Clarice Lispector. Muita gente sonha com a eternidade. A autora, neste texto, a vê como um peso.

Apreciem:

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Medo da Eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca acaba. Dura a vida inteira.

– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.

– Não acaba nunca, e pronto.

– Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

– E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

– Acabou-se o docinho. E agora?

– Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

– Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

Karina

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Mais uma homenagem à amizade

Abaixo reproduzimos frases de sábios  refletindo a respeito da amizade. Elegemos as mais bonitas ou interessantes. Aproveitem!

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“Cada amigo novo é um pedaço de nós próprios reconquistado.” (Friedrich Hebbel)

“Só no infortúnio é que se afirma a força humana, e só na tormenta é que se prova a fidelidade do amigo.” (Theodor Koerner)

“É difícil fazer um amigo num ano; mas é fácil perdê-lo numa hora.” (Provérbio Chinês)

“Quem não possui um bom amigo, para confiar-lhe venturas e males, é estrangeiro em toda parte.” (Padre Juan Arolas)

“É parentesco sem sangue a verdadeira amizade.” (Pedro Calderon de La Barca)

“Não esperemos para ser bons e cordiais. Apressemo-nos desde já a alegrar o coração dos nossos companheiros durante a curta travessia que é a vida.” (H.F. Amiel)

“Não consideres amigo quem te elogia na tua presença.” (São Bernardo)

“Se queres formar juízo sobre um homem, observa quem são os seus amigos.” (Fenelon)

“Amigo é aquele que adivinha quando dele precisamos.” (Jules Renard)

“O falso amigo e a sombra só nos acompanham enquanto o sol brilha.” (Benjamin Franklin)

“O amor exige; a amizade dá.” (Carmen Sylva)

Telma

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Feliz Dia do Amigo

Em homenagem ao Dia do Amigo:

Amigos

Tenho amigos que não sabem o

quanto são meus amigos.

Não percebem o amor que lhes

devoto e a absoluta

necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais

nobre do que o amor,

eis que permite que o objeto dela

se divida em outros afetos,

enquanto o amor tem intrínseco o ciúme,

que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar,

embora não sem dor,

que tivessem morrido todos os

meus amores, mas enlouqueceria

se morressem todos os meus amigos!

Até mesmo aqueles que não percebem

o quanto são meus amigos e o quanto

minha vida depende de suas existências ….

A alguns deles não procuro, basta-me

saber que eles existem.

Esta mera condição me encoraja a seguir

em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com

assiduidade, não posso lhes dizer o

quanto gosto deles.

Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica

e não sabem que estão incluídos na

sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta

que os adoro, embora não declare e

não os procure.

E às vezes, quando os procuro,

noto que eles não tem

noção de como me são necessários,

de como são indispensáveis

ao meu equilíbrio vital,

porque eles fazem parte

do mundo que eu, tremulamente,

construí e se tornaram alicerces do

meu encanto pela vida.

Se um deles morrer,

eu ficarei torto para um lado.

Se todos eles morrerem, eu desabo!

Por isso é que, sem que eles saibam,

eu rezo pela vida deles.

E me envergonho,

porque essa minha prece é,

em síntese, dirigida ao meu bem estar.

Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos

sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de

lugares maravilhosos, cai-me alguma

lágrima por não estarem junto de mim,

compartilhando daquele prazer …

Se alguma coisa me consome

e me envelhece é que a

roda furiosa da vida não me permite

ter sempre ao meu lado, morando

comigo, andando comigo,

falando comigo, vivendo comigo,

todos os meus amigos, e,

principalmente os que só desconfiam

ou talvez nunca vão saber

que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.

(Vinicius de Moraes)

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“Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto; é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”

(Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas)


Karina


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Da Areopagítica, por John Milton

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                                                   Ilustração de Leticia Plate  

“Livros não são coisas absolutamente mortas; contêm um espécie de vida em potência tão prolífica quanto a da alma que os engendrou. E mais: eles preservam, como num frasco, o mais puro e eficaz extrato do intelecto que os produziu. Estou convencido de que eles são tão vivos e tão vigorosamente fecundos quanto aqueles dentes de dragão da fábula. E que, uma vez semeados aqui e ali, podem dar nascimento a homens armados. E, por outro lado, vale refletir que matar um homem pode ser até melhor que matar um bom livro. Quem mata um homem mata uma criatura racional, feita à imagem de Deus, mas aquele que destrói um bom livro mata a própria razão, mata a imagem de Deus como no olho. Muitos homens não passam de um fardo sobre a Terra. Mas um bom livro é o precioso sangue do espírito superior, conservado e guardado com vistas a uma vida para além da vida.”

 

John Milton (1608-1678) foi poeta, orador e político inglês. Areopagítica, publicada em 1644, foi um manifesto em favor da liberdade de imprensa e contra a censura imposta pelo Parlamento.

A obra mais famosa de Milton foi Paraíso Perdido, poema editado em 10 volumes e que fala sobre o mal no mundo e suas consequências.

Karina

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Chuva de Amor

O fragmento reproduzido abaixo foi escrito pelo gaúcho de Santiago (RS), Caio Fernando Abreu, que, com seu estilo original, encantou e continua encantando os seus leitores.

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“Tenho um amor fresco e com gosto de chuva

e raios e urgências.

Tenho um amor que me veio pronto,

assim, água que caiu de repente, nuvem

que não passa.

Me escorrem desejos pelo

rosto, pelo corpo.

Um amor susto.

Um amor raio trovão fazendo barulho.

Me bagunça e chove em mim todos os dias.”

Karina

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Ciranda da Bailarina

Chico Buarque é mesmo um gênio e isso é indiscutível. Cada vez que ouvimos ou lemos algo desta grande compositor e escritor, ficamos maravilhadas e percebemos que realmente não há limites para a criatividade e a inteligência.

Na canção “Ciranda da Bailarina”, composta em parceria com o também grandioso Edu Lobo, Chico Buarque apenas confirma seu brilhantismo incomum.

Abaixo, transcrevemos a letra da bela composição e o link para escutá-la na belíssima voz de Adriana Calcanhoto.

Para deleite de leitores adultos e mirins.

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CIRANDA DA BAILARINA

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem…

Telma

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