Archive for abril, 2010

Frase da Semana

“Antes de se ter medo, vê-se o normal; quando se tem medo, vê-se o dobro; e depois de se ter tido medo, vê-se tudo turvo.”

(Alexandre Dumas, em O Conde de Monte Cristo – Ed. Martin Claret)

Karina

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Ariano Suassuna

Ariano Vilar Suassuna, nascido em 1927  na cidade de João Pessoa – PB, é advogado, professor, teatrólogo e romancista e desde 1990 ocupa merecidamente  a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras.

O escritor é um dos principais dramaturgos brasileiros e a temática de sua obra é a cultura do nordeste.  Para difundir a cultura popular nordestina lançou em 1970, com a colaboração de outros escritores e artistas,  o Movimento Armorial. Tal iniciativa busca valorizar a cultura popular do Nordeste através de diversos ramos da arte, como a pintura, literatura, arquitetura, teatro, música etc.

Trazemos hoje um belo poema desse grande nome da cultura brasileira para que os leitores apreciem:

A mulher e o reino

Oh! Romã do pomar, relva esmeralda
Olhos de ouro e azul, minha alazã
Ária em forma de sol, fruto de prata
Meu chão, meu anel , cor do amanhã

Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem
Meu candeeiro aceso da miragem
Meu mito e meu poder, minha mulher

Dizem que tudo passa e o tempo duro
tudo esfarela
O sangue há de morrer

Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba pôr finar e corromper]
Meu sangue ferve contra a vã razão
E há de pulsar o amor na escuridão

Karina

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Bacalhau

Já deu para perceber que o Literatura em Conta-Gotas é fã incondicional de Luis Fernando Verissimo. Também, pudera, não é todo dia que encontramos crônicas tão especiais, inteligentes e cheias de humor como as que ele escreve. Vale a pena ler tudo o que ele cria. É definitivamente o que você encontra no texto abaixo. Boa leitura!


BACALHAU

Vítor e Vivinha decidiram dar uma última chance a se casamento. Despois de dez anos, nada mais dava certo, se irritavam um com o outro – era preciso ir atrás do amor perdido. E o lugar para procurá-lo era o restaurante onde tinham se conhecido, onde tinham ido na primeira vez em que saíram juntos, onde ele a pedira em casamento e onde comemoravam a data todos os anos. Até o sexto, quando, por alguma razão, pararam de frequentar o restaurante. Se o que tinham perdido estava em algum lugar, estaria no velho restaurante. Talvez as risadas dadas e as promessas de amor secreto ainda estivessem lá, presas no teto como balões de aniversários esquecidos, esperando o resgate. E se não estivessem, pelo menos haveria os bolinhos de bacalhau.

O restaurante continuava no mesmo lugar. Estava vazio.

– Até as toalhas são as mesmas! – disse Vivinha.

E os dois sentaram-se e ficarm se sorrindo, enternecidos, as boas lembranças rondando a mesa como fantasmas solícitos. Até que veio o garçom. Seria o mesmo do tempo deles?

– O senhor é o Adolfo?

– Não – respondeu o garçom.

E não fez qualquer comentário. Não ser o Adolfo parecia um fato ao qual ele se resignara há muito tempo. Vítor tamborilou a mesa com os dedos  – um de seus hábitos que ultimamente irritavam Vivinha – e pediu:

– Antes de mais nada: bolinhos de bacalhau!

O garçom afastou-se, claramente não contagiado pelo entusiasmo de Vítor. Deixou sobre a mesa um cardápio datilografado e plastificado. nada como os de antigamente. Vivinha examinou o cardápio, depois de pousar suas mãos suavemente sobre os dedos agitados de Vítor, para fazê-los parar.

– Mudou tudo – disse Vivinha, largando o cardápio.

Ficaram de mãos dadas, olhando em volta, sorrindo levemente mas sem dizer nada, até chegarem os bolinhos. Quatro.  Cada um pegou um, mordeu e começou a mastigar.

– E então? – perguntou Vítor, depois de um tempo.

– Ainda não cheguei ao bacalhau.

– O meu está ótimo.

– Você está brincando.

– Não, está ótimo. Igual ao que era no nosso tempo.

– Só que no nosso tempo era de bacalhau mesmo. Agora é de batata.

– Como, batata? E este gosto de bacalhau?

– Eles usam outro tipo de peixe. Muita batata, e um peixe barato. Bacalhau está muito caro.

– Eu estou sentindo um gosto bem definido de bacalhau. Igualzinho ao que eu me lembrava.

– Não é mais o mesmo, Vítor.

– Acho que é má vontade sua.

– Não sou eu, Vítor. É o bolinho.

Vítor pegou outro bolinho e botou inteiro na boca. Mastigou furiosamente.

– Mmmm – disse, desafiador.

– Vítor…

– Ô Adolfo! – gritou Vítor para o garçom, de boca cheia. – Mais quatro. E duas cervejas.

– Vítor, você pode mastigar esses bolinhos o quanto quiser, não vai encontrar bacalhau.

– Pois eu digo que é bacalhau.

– Não é mais, Vítor.

Ele parou de mastigar. Tirou o que sobrara da boca e colocou no prato. Olhou para Vivinha.

– E se a gente fingisse que é bacalhau?

– Não dá, Vítor.

O garçom chegou com as cervejas.disse que os bolinhos estavam vindo.

– Suspende – ordenou Vítor.

– Vão pedir mais alguma coisa? – perguntou o garçom, indicando o cardápio com um queixo desdenhoso.

– Ainda não escolhemos.

Quando o garçom foi embora, Vítor inclinou-se para Vivinha e disse:

– Sabe o que eu acho? Acho que no nosso tempo já não era bacalhau. E a gente adorava.

– Era bacalhau.

– Não era. Nada era bacalhau naquela época. Mas você revirava os olhos assim mesmo.

E Vítor começou a batucar na mesa com os dedos até Vivinha abafar suas mãos com as dela. Desta vez com raiva.

Telma

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Frase da Semana

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.” (Mário Quintana)

Telma

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Puro lirismo com Cecília Meireles

O belíssimo poema abaixo foi retirado do livro Mar Absoluto. Cecília Meireles encanta  a todos nós, como sempre. Confiram:

CONTEMPLAÇÃO



Não acuso.  Nem perdôo.

Nada sei. De nada.

Contemplo.


Quando os homens apareceram,

eu não estava presente.

Eu não estava presente,

quando a terra se desprendeu do sol.

Eu não estava presente,

quando o sol apareceu no céu.


E antes de haver o céu,

EU NÃO ESTAVA PRESENTE.


Como hei de acusar ou perdoar?

Nada sei.

Contemplo.


Parece que às vezes me falam.

Mas também não tenho certeza.

Quem me deseja ouvir, nestas paragens

onde somos todos estrangeiros?


Também não sei com segurança, muitas vezes,

da oferta que vai comigo, e em quê resulta,

pois o mundo é mágico!

Tocou-se o Lírio, e apareceu um Cavalo Selvagem.

E um anel no dedo pode fazer desabar da lua um temporal.

Já vês que me enterneço e me assusto,

entre as secretas maravilhas.

E não posso medir todos os ângulos do meu gesto.


Noites e noites, estudei devotamente

nossos mitos, e sua geometria.


Por mais que me procure, antes de tudo ser feito,

eu era amor. Só isso encontro.

Caminho, navego, vôo,

– sempre amor.

Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário

– mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.


À beira dos teus olhos,

por acaso detendo-me,

que acontecimentos serão produzidos

em mim e em ti?


Não há resposta.

Sabem-se os nascimentos

quando já foram sofridos.


Tão pouco somos, – e tanto causamos,

com tão longos ecos!

Nossas viagens têm cargas ocultas, de desconhecidos

[vínculos.


Entre o desejo do itinerário, uma lei que nos leva

age invisível e abriga

mais que o itinerário e o desejo.


Que te direi, se me interrogas?

As nuvens falam?

Não. As nuvens tocam-se, passam, desmancham-se.

Às vezes, pensa-se que demoram, parece que estão

[paradas…


– Confundiram-se.

E até se julga que dentro delas andam estrelas e planetas.

Oh, aparência… Pode talvez andar um tonto pássaro

[perdido.


Voz sem pouso, no tempo surdo.


Não acuso nem perdôo.

Que faremos, errantes entre as invenções dos deuses?


Eu não estava presente, quando formaram

a voz tão frágil dos pássaros.


Quando as nuvens começaram a existir,

qual de nós estava presente?

Karina

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Alice no País das Maravilhas

Todo mundo leu ou pelo menos já ouviu falar no clássico “Alice no País das Maravilhas”, publicado em 1865. Trata-se da obra prima do autor inglês Charles Lutwidge Dodgson, cujo pseudônimo era Lewis Carroll.

A trajetória da perspicaz menina Alice que, ao cair numa toca de coelho, inicia uma inusitada aventura num lugar mágico e repleto de criaturas estranhas é considerada surreal e instigante e vem encantando crianças e adultos de várias gerações.

Há um sem-número de estudiosos procurando entender o real significado de todos os símbolos que permeiam a fascinante história de Lewis Carroll. A tênue linha entre o real e o imaginário, o sonho e a realidade, é o grande tema desta sensacional obra, indispensável para os grandes e para os pequenos.

Abaixo, presenteamos o leitor com um pequeno trecho de “Alice no País das Maravilhas”. Vale a pena ler na íntegra.

Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer: uma vez ou duas ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas não havia figuras ou diálogos nele e “para que serve um livro”, pensou Alice, “sem figuras nem diálogos?”

Então, ela pensava consigo mesma (tão bem quanto era possível naquele dia quente que a deixava sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer um colar de margaridas era mais forte do que o esforço de ter de levantar e colher as margaridas, quando subitamente um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou correndo perto dela.

Não havia nada de muito especial nisso, também Alice não achou muito fora do normal ouvir o Coelho dizer para si mesmo “Oh puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado!” (quando ela pensou nisso depois, ocorreu-lhe que deveria ter achado estranho, mas na hora tudo parecia muito natural); mas, quando o Coelho tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ele, apressando-se a seguir, Alice pôs-se em pé e lhe passou a idéia pela mente como um relâmpago, que ela nunca vira antes um coelho com um bolso no colete e menos ainda com um relógio para tirar dele. Ardendo de curiosidade, ela correu pelo campo atrás dele, a tempo de vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo da cerca.

No mesmo instante, Alice entrou atrás dele, sem pensar como faria para sair dali.

A toca do coelho dava diretamente em um túnel, e então aprofundava-se repentinamente. Tão repentinamente que Alice não teve um momento sequer para pensar antes de já se encontrar caindo no que parecia ser bastante fundo.

Ou aquilo era muito fundo ou ela caía muito devagar, pois a menina tinha muito tempo para olhar ao seu redor e para desejar saber o que iria acontecer a seguir. Primeiro, ela tentou olhar para baixo e compreender para onde estava indo, mas estava escuro demais para ver alguma coisa; então, ela olhou para os lados do poço e percebeu que ele era cheio de prateleiras: aqui e ali ela viu mapas e quadros pendurados em cabides. Alice apanhou um pote de uma das prateleiras ao passar: estava etiquetado “GELÉIA DE LARANJA”, mas para seu grande desapontamento estava vazio: ela não jogou o pote fora por medo de machucar alguém que estivesse embaixo e por isso precisou fazer algumas manobras para recolocá-lo em uma das prateleiras.

“Bem”, pensou Alice consigo mesma. “Depois de uma queda dessas, eu não vou achar nada se rolar pela escada! Em casa eles vão achar que eu sou corajosa! Porque eu não vou falar nada, mesmo que caia de cima da casa!” (O que era provavelmente verdade).

Para baixo, para baixo, para baixo. Essa queda nunca chegará ao fim?

Ao ver Alice, o Gato só sorriu. Parecia amigável, ela pensou; ainda assim tinha garras muito longas e um número enorme de dentes, de modo que achou que devia tratá-lo com respeito.

“Bichano de Cheshire”, começou, muito tímida, pois não estava nada certa de que esse nome iria agradá-lo; mas ele só abriu um pouco mais o sorriso. “Bom, até agora ele está satisfeito”, pensou e continuou: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”

“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importa muito para onde”, disse Alice.

“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.

“Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação.

“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante”.

Como isso lhe pareceu irrefutável, Alice tentou uma outra pergunta: “Que espécie de gente vive por aqui?”

“Naquela direção”, explicou o Gato, acenando com a pata direita, “vive um Chapeleiro; e naquela direção”, acenando com a outra pata, “vive uma Lebre de Março. Visite qual deles quiser: os dois são loucos.”

“Mas não quero me meter com gente louca”, Alice observou.

“Oh! É inevitável”, disse o Gato; “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”

“Como sabe que sou louca?” perguntou Alice.

“Só pode ser”, respondeu o Gato, “ou não teria vindo parar aqui.”

Telma



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Esperança

Mário de Sá-Carneiro nasceu no ano de 1890, na cidade de Lisboa. Pertenceu à escola do modernismo e sua obra se caracteriza pela originalidade e pessimismo.

Carneiro sempre demonstrou ser uma pessoa extremamente angustiada e tal aspecto de sua personalidade pode ser observado na sua obra e nas correspondências trocadas por ele com o poeta Fernando Pessoa. Nessas cartas, Mário de Sá-Carneiro indica a sua crescente inadaptação e tristeza. Referidos sentimentos conduziram o escritor ao cometimento de suicídio aos 26 anos de idade.

A morte precoce do escritor foi uma perda imensa para a literatura portuguesa e ocidental. No entanto, Mário de Sá-Carneiro nos deixou um legado valioso que vale a pena ser explorado.

Segue abaixo um poema que reflete o estilo deste grande escritor:

Esperança

Esperança:

isto de sonhar bom para diante

eu fi-lo perfeitamente,

Para diante de tudo foi bom

bom de verdade

bem feito de sonho

podia segui-lo como realidade


Esperança:

isto de sonhar bom para diante

eu sei-o de cor.

Até reparo que tenho só esperança

nada mais do que esperança

pura esperança

esperança verdadeira

que engana

e promete

e só promete.

Esperança:

pobre mãe louca

que quer pôr o filho morto de pé?


Esperança

único que eu tenho

não me deixes sem nada

promete

engana

engano que seja

engana

não me deixes sozinho

esperança.

Karina

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