Archive for março, 2009

“Então, adeus!”, por Lygia Fagundes Telles

 

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Mais literatura da grande Lygia Fagundes Telles. A crônica abaixo  foi extraída do livro As cem melhores crônicas brasileiras,  da Editora Objetiva e com seleção de Joaquim Ferreira dos Santos.

Divirtam-se:

Isto aconteceu na Bahia, numa tarde em que eu visitava a mais antiga e arruinada igreja que encontrei por lá, perdida na última rua do último bairro. Aproximou-se de mim um padre velhinho, mas tão velhinho, tão velhinho que mais parecia feito de cinza, de teia, de bruma, de sopro do que de carne e osso. Aproximou-se e tocou o meu ombro:
– Vejo que aprecia essas imagens antigas – sussurrou-me com sua voz débil. E descerrando os lábios murchos num sorriso amável: – Tenho na sacristia algumas preciosidades. Quer vê-las?
Solícito e trêmulo, foi-me mostrando os pequenos tesouros da sua igreja: um mural de cores remotas e tênues como as de um pobre véu esgarçado na distância; uma Nossa Senhora de mãos carunchadas e grandes olhos cheios de lágrimas; dois anjos tocheiros que teriam sido esculpidos por Aleijadinho, pois dele tinham a inconfundível marca nos traços dos rostos severos e nobres, de narizes já carcomidos… Mostrou-me todas as raridades, tão velhas e tão gastas quanto ele próprio. Em seguida, desvanecido com o interesse que demonstrei por tudo, acompanhou-me cheio de gratidão até a porta.
– Volte sempre – pediu-me.
– Impossível – eu disse. – Não moro aqui, mas, em todo o caso, quem sabe um dia… – acrescentei sem nenhuma esperança.
– E então, até logo! – ele murmurou descerrando os lábios num sorriso que me pareceu melancólico como o destroço de um naufrágio.
Olhei-o. Sob a luz azulada do crepúsculo, aquela face branca e transparente era de tamanha fragilidade, que cheguei a me comover. Até logo?… “Então, adeus!”, ele deveria ter dito. Eu ia embarcar para o Rio no dia seguinte e não tinha nenhuma idéia de voltar tão cedo à Bahia. E mesmo que voltasse, encontraria ainda de pé aquela igrejinha arruinada que achei por acaso em meio das minhas andanças? E mesmo que desse de novo com ela, encontraria vivo aquele ser tão velhinho que mais parecia um antigo morto esquecido de partir?!…
Ouça, leitor: tenho poucas certezas nesta incerta vida, tão poucas que poderia enumerá-las nesta breve linha. Porém, uma certeza eu tive naquele instante, a mais absoluta das certezas: “Jamais o verei.” Apertei-lhe a mão, que tinha a mesma frialdade seca da morte.
– Até logo! – eu disse cheia de enternecimento pelo seu ingênuo otimismo.
Afastei-me e de longe ainda o vi, imóvel no topo da escadaria. A brisa agitava-lhe os cabelos ralos e murchos como uma chama prestes a extinguir-se. “Então, adeus!”, pensei comovida ao acenar-lhe pela última vez. “Adeus.”
Nesta mesma noite houve o clássico jantar de despedida em casa de uma casal amigo. E, em meio de um grupo, eu já me encaminhava para a mesa, quando de repente alguém tocou o meu ombro, um toque muito leve, mais parecia o roçar de uma folha seca.
Voltei-me. Diante de mim, o padre velhinho sorria.
– Boa noite!
Fiquei muda. Ali estava aquele de quem horas antes eu me despedira para sempre.
– Que coincidência… – balbuciei afinal. Foi a única banalidade que me ocorreu dizer. – Eu não esperava vê-lo… tão cedo.
Ele sorria, sorria sempre. E desta vez achei que aquele sorriso era mais malicioso do que melancólico. Era com se ele tivesse adivinhado meu pensamento quanto nos despedimos na igreja e agora então, de um certo modo desafiante, estivesse a divertir-se com a minha surpresa. “Eu não disse, até logo?”os olhinhos enevoados pareciam perguntar com ironia.
Durante o jantar ruidoso e calorento, lembrei-me de Kipling. “Sim, grande e estranho é o mundo. Mas principalmente estranho…”
Meu vizinho da esquerda quis saber entre duas garfadas:
– Então a senhora vai mesmo nos deixar amanhã?
Olhei para a bolsa que tinha no regaço e dentro da qual já estava minha passagem de volta com a data do dia seguinte. E sorri para o velhinho lá na ponta da mesa.
– Ah, não sei… Antes eu sabia, mas agora já não sei.

Karina

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Mais uma de Guilherme de Almeida

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Poesias de Guilherme de Almeida são inspiradoras. O romantismo peculiar com que o escritor paulista brinda seus leitores toca fundo a alma e faz nascer a vontade de viver e de amar… Há certos poetas que não morrem nunca. Ficam eternizados em seus escritos inesquecíveis.

Apreciem.

“Por Quê?

Por que acordaste naquela hora morta?

Por que me abriste a porta

e aceitaste o sorriso que eu sorria

e a rosa que eu trazia?

Por que acendeste a lâmpada e a lareira?

Por que estendeste a esteira?

Por que cerraste o reposteiro  e os trincos?

Por que tiraste os brincos?

Por que soltaste a tua trena de ouro

e o teu cinto de couro?

Por que fechaste os olhos? Por que abriste

a boca? Por que ouviste

o que eu não disse? Por que não disseste

o que eu ouvi? Por que deste

a mão à minha mão na despedida,

no adeus à minha vida?”

Telma

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Indicação de Conto de Dostoiévski

Já falamos sobre Fiódor Dostoiévski aqui no blog e que ele merece ser lido, pois sua obra é rica e intensa.

Indicamos hoje um conto que narra a estória de um homem profundamente cético e desiludido; e decidido a terminar com a própria vida. O personagem, a fim de executar seu intento, compra uma arma e antes de dispará-la acaba adormecendo na cadeira na qual espera ser encontrado morto no dia seguinte.

Ao adormecer, o personagem tem um sonho extraordinário. O sonho se inicia com sua própria morte e enterro. Em dado momento o narrador é transportado para um planeta semelhante à Terra, onde os habitantes são extremamente sábios, puros e felizes. Em tal lugar não há os sentimentos mesquinhos e comuns na Terra.

Em uma segunda parte do sonho o narrador/personagem revela ter corrompido os habitantes do planeta utópico, que acabou se tornando realmente muito parecido com a Terra.

Quase no fim do conto, o personagem desperta do sonho, horrorizado com a ideia de se matar e afirma ter conhecido a Verdade, que nada mais é do que amar o próximo como a si mesmo. Mas, na visão dos outros homens, não passa de um louco e ridículo…

O conto “O sonho de um homem ridículo” é povoado de metáforas e muito belo.

Abaixo alguns trechos do conto em questão (mas não deixem de ler na íntegra pois vale a pena):

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Era ali a terra, antes que ela fosse enxovalhada pelo pecado original; seus habitantes, não conhecendo o mal, viviam no mesmo paraíso em que, conforme as tradições da humanidade inteira, viveram nossos culpados ancestrais, com a diferença de que a terra ali era em todas as partes um único e mesmo paraíso. Esses homens de sorriso alegre se apertavam contra mim, pródigos de carícias. Levaram-me com eles, e todos teriam querido me propiciar a tranquilidade.”

“O amor desses seres inocentes e esplêndidos deixou em mim uma impressão perdurável e sinto que ela ainda flui das profundezas da minha alma.”

“Não tinham desejos, e na sua serenidade não aspiravam, como a nós, a conhecer a vida, pois tinham atingido o estado de perfeição.”

“Seus filhos eram filhos de todos, porque constituíam uma só família.”

(…)

“Sim, sim, acabei corrompendo a todos! … Sei somente que fui eu a causa do primeiro pecado. Tal como uma moléstia infecciosa, um átomo de peste, suscetível de contaminar todo um império, assim contaminei, com minha presença, uma terra de delícias, inocente até a minha chegada. Aprenderam a mentir e deleitaram-se com a mentira, e aprenderam a beleza da mentira… E m pouco tempo nasceu a volúpia; a volúpia engendrou o ciúme; o ciúme, a crueldade… Ah! não sei, não me lembro, porém logo, muito depressa, o sangue esguichou, no primeiro jorro: eles ficaram espantados, horrorizados, começaram a se distanciar um dos outros, a se separar.”

“Tornados criminosos, então foi que inventaram a justiça e ditaram códigos completos para conservá-la; depois a fim de assegurar o respeito aos códigos, instituíram a guilhotina… Os fracos se submeteram voluntariamente aos mais fortes, contanto que estes os ajudassem a esmagar os que eram ainda mais fracos.”

(…)

“De repente, enquanto me punha de pé e voltava a mim, o revólver carregado e preparado para detonar feriu minha vista – mas depressa o empurrei para longe de mim. Ah! viver, no momento, viver! Levantei os braços invocando a eterna Verdade;”

“Porque eu vi a Verdade, eu a vi, e sei que os homens podem ser belos e felizes, sem perder a faculdade de viver sobre a terra. Não quero nem posso crer que o mal seja a única condição normal dos homens. E entretanto é unicamente dessa crença que caçoam de mim.”

“Apesar de tudo pregarei o paraíso. Entretanto, como é simples, poder-se-ia conseguir que num só dia, em uma só hora, tudo fosse reedificado. O essencial é amar o próximo como a si mesmo, eis o que é essencial, eis o que é tudo, sem que haja necessidade de outra coisa: logo saberemos como edificar o paraíso.”

(trechos extraídos do livro “Os melhores contos de Dostoiévski – Círculo do Livro – tradução de Ruth Guimarães)

Karina

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Reflexão de Murilo Mendes

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Reflexão n°1
“Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.”

Karina

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Indicação de livro

O escritor francês Victor Hugo é um dos preferidos das autoras deste blog. Não nos cansamos de ler sua obra e seus ensinamentos.

Acabo de ler o livro “Os Trabalhadores do Mar”, com tradução de Machado de Assis. Nem é preciso dizer que Victor Hugo traduzido pelo gênio Machado, é imperdível…

O livro conta a estória do corajoso e íntegro marinheiro Gilliatt, que, tomado de amor pela bela e jovem Déruchette, trava, em um local considerado extremamente perigoso por navegadores de todo o mundo (o escolho Douvres), verdadeira luta contra as poderosas forças da natureza, ao tentar impedir que a máquina essencial de uma embarcação a vapor acabe no fundo do mar.

A narrativa é permeada de detalhes precisos sobre o universo náutico, além de analisar, com sensibilidade e sabedoria, o coração humano, com todas as suas lutas internas, suas esperanças, seus medos e suas paixões.

É uma obra emocionante e belíssima. Um clássico atemporal que não pode deixar de ser lido.

Abaixo alguns trechos do livro para aguçar a vontade dos leitores em ler ou reler essa obra-prima:

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“Havia outro banco visível e próximo, no fim de uma alameda. Déruchette assentava-se ali algumas vezes.

Pelas flores que ele via Déruchette colher e cheirar, adivinhou as preferências da moça a respeito de perfumes.

A moça preferia antes de tudo a campânula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos lírios, olhava para eles, mas não os cheirava. A vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento.”

(…)

“Passaram-se quatro anos.

Déruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.

Já alguém escreveu algures: Uma idéia fixa é uma verruma. Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirpá-la no primeiro ano é preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos. Gilliatt estava no quarto ano.

Não tinha trocado uma só palavra com Déruchette. Pensava nela; era tudo.”

 (…)

“Arquitetura que tem terríveis obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.

Esse foi construído e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidável. Lambia-o a água rabugenta. Era hediondo, pérfido, obscuro; cheio de cavas.

Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas, ramificando- se em profundezas insondáveis. Muitos orifícios desse rasgão inextricável ficavam a seco nas vazantes.

Podia-se entrar, então, com risco.

Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser terrível. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquele aspecto de matadouro e açougue estranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não viu as escavações desse gênero, na parede do eterno granito, esses horríveis frescos da natureza, não pode fazer uma idéia do que é.”

(…)

“Acreditar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal pedaços de arco-íris afogados. Em outros lugares havia na água um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali para fazer um que de cego e de noturno. Nada mais impossível e enigmático do que aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era o encanto. A vegetação fantástica e a estratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo efeito aquele consórcio de coisas medonhas.”

(…)

“Era, em pleno dia, a ascensão da noite.

Havia no ar um calor de fogão. Uma lixívia de estufa saía daquele amontoado misterioso. O céu, que de azul tornara-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardósia. Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ardósia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela.

Os pássaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.

O crescimento de toda aquela sombra amplificava-se insensivelmente.

A montanha movediça de vapores que se dirigia para a Douvres era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate.

Nuvens vesgas.

Temível era a aproximação.

Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: Tenho sede, vais dar-me água.”

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(…)

 “Gilliatt cismava trêmulo.

Mas não se desconcertou. Para aquela alma não havia derrota possível.

O furacão engolfava-se agora freneticamente entre as duas muralhas do estreito.”

Eis alguns trechos de “Os Trabalhadores do Mar”. Impossível postar de uma só vez. Hoje postamos trechos referentes ao enredo do livro, contando um pouco do personagem principal e suas agruras. Brevemente colocaremos outras partes que refletem o pensamento do grande Victor Hugo.

Karina

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O Girassol

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Já deu para perceber que aqui no blog travamos uma luta para que os adultos ofereçam às crianças leitura de qualidade. Por isso, não nos cansamos de trazer dicas de livros em prosa e poesia que instruem e divertem a garotada.

Vinicius de Moraes foi um autor maravilhoso e presenteou os pequenos com inúmeros poemas encantadores e educativos. Abaixo, reproduzimos “O Girassol”, um grande sucesso de Vinicius. Não deixem de apresentar a seus filhos, sobrinhos, netos e amigos.

“O GIRASSOL

Sempre que o Sol

Pinta de anil

Todo o céu

O girassol

Fica um gentil

Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas

Ali ficam elas

Brincando, fedelhas

Nas pétalas amarelas.

 – Vamos brincar de carrossel, pessoal?

 – “Roda, roda, carrossel

Roda, roda, rodador

Vai rodando, dando mel

Vai rodando, dando flor.”

 – Marimbondo não pode ir que é bicho mau!

 – Besouro é muito pesado!

 – Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada!

 – Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

 – “Roda, roda, carrossel

Gira, gira, girassol

Redondinho como o céu

Marelinho como o Sol.”

E o girassol vai oirando dia afora…

O girassol é o carrossel das abelhas.”

Telma

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Canção do Amor-Perfeito, Cecília Meireles

“Canção do Amor-Perfeito

O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

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O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.”

 O belo poema acima, que analisa o poder destruidor do Tempo, que tudo elimina, pertence ao livro “Retrato Natural” (de 1949).

Karina

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“Menina”, por Ivan Ângelo

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Menina 

“Oh, ela sabia cada vez mais.” (Clarice Lispector, “Perto do coração selvagem”).

“Sentar-se, concentrada, contar até um número, por exemplo dez, ou doze, e esperar agudamente um acontecimento importante, era seu exercício mais impreciso, mais despido de maldade, porque ela não escolhia o que ia acontecer, só fazia acontecer.
Havia outros, menos intensos: gritar “aaaa” de olhos fechados e, abrindo-os, esperar que tudo houvesse desaparecido; colocar a mão molhada na testa e acompanhar aquele sangue mais frio passeando no seu corpo; imóvel e muda, obrigar a fruteira de cristal brilhante a estilhaçar-se no chão com a força do pensamento; passar sem comer um dia inteiro para preocupar a mãe e ouvir deliciada: “Ana Lúcia, você me mata!”.
Entretanto, era o esperar que algo importante acontecesse quando contasse até doze ou dez que lhe dava aquele segundo de vida intenso do qual ela saía sempre um pouco mais velha, e apressava a sua respiração, como um cansaço ou um beijo de Guilherme em Nilsa. Horas depois, ou nos dias seguintes, quando ouvia as pessoas grandes conversarem segredos ou comentarem graves um fato recente, dizia-se, plena de poder, ela mesma perplexa ante suas possibilidades: “Fui eu. Fui eu que fiz.”
Achava péssimo ir à escola, a professora era horrível. As coisas de que mais gostava: pensar sem ninguém perto porque aí podia ir avançando até se perder, brincar de santa, dormir, comer doce. Bom mesmo era fazer nada, nem pensar, mas isso só às vezes conseguia, e era impossível gozar o momento, sempre passado. Pois quando o sentia, ele já acabara: ela começara a pensar. Ter aquilo na mesma hora seria morrer? – perturbava-se ela com o pensamento, cada vez sabendo mais.
Sim, cada vez sabendo mais. Sempre sentira esse mistério: não ter pai. Ela, que podia tanta coisa, afinava-se embaraçada de não conseguir dizer “papai” do modo de Tita ou Nina. Era a única coisa que faziam melhor do que ela, dizer “papai”. A diferença talvez só ela percebesse, sutil. Sentia que pai era uma coisa que se tem sempre, como mãe, ou roupas. Tita e Nina sabiam que aquela era uma vantagem:
– Quede seu pai, Ana Lúcia?
– Está viajando.
Disseram-lhe isso, já tinha escutado ou inventara? Ah, cada vez sabia mais, sempre mais.
Guilherme e Nilsa não se beijavam perto da mãe. Se ela chegava, as mãos ficavam quietas nas mãos, a respiração ficava mansinha e não havia mais nada interessante para olhar da janela do quarto. Beijar devia ser proibido. Ou pecado. (Sabia mais, sempre mais).
– Ana Lúcia, seu pai ainda está viajando?
– Está.
– Mentirosa! Sua mãe é desquitada.
Ficou impotente diante da palavra desconhecida. Uma coisa nova, ainda não se podia saber de que lado olhar para possuí-la toda. Desquitada. Desquitada. Jamais perguntaria a Tita, era uma alegria que não lhe daria. Ficou uns instantes sem saber como sair ilesa dessa armadilha. Tita corada e brilhante de prazer na sua frente.
– E o que é que tem isso?
Tita desmontou como um quebra-cabeça, Ana Lúcia balançara o tabuleiro. Jamais teria medo de Tita, ela sempre dependia demais das coisas fora dela, de um gesto, de uma palavra como desquitada ou parto.
Desquitada. Passou dias tentando solucionar sozinha. Seria uma coisa como burra, feia? Não, não parecia. Flor? Flor parecia, mas não explicava nada: orquídeas, rosas, sempre-vivas, desquitadas… Parecia. “Mentirosa! Sua mãe é desquitada.” Tita dissera como quem diz o quê? o quê? o quê? – “sem-vergonha”. Sim!, como quem diz sem-vergonha: olhando de frente e esperando um tapa.
Nesses dias amou a mãe com muita força, amou-a até sentir lágrimas, defendendo-a contra a palavra que poderia feri-la: desquitada, sem-vergonha. Pensava a palavra de leve, com receio de ferir a mãe. Experimentava baixinho torná-la mais suave, molhando-a de lágrimas e amor: desquitadinha, sem-vergonhinha. Mas a palavra sempre agredia, sempre feria.
Sentada no chão, picando retalhinhos de pano com a tesoura, amava a mãe intensamente, enquanto ela costurava rápida, bonita mesmo, com aqueles alfinetes na boca. Chegava alguém para provar vestidos, a mãe mandava-a sair. Era feio ver gente grande mudar de roupa, a mãe dizia. Saía contrariada por deixá-la exposta à palavra, em perigo. Abria-se a porta, ela entrava de novo, amando, amando.
Estava cansada dessa obrigação e só por isso duvidou de si, subitamente um dia ao tomar leite para dormir: desquitada podia não ser como sem-vergonha! Podia até ser pior, e quem sabe podia ser melhor. Respirando fundo e observando-se, ela seguia pronta para novas descobertas. Refugiou-se no sono.
No dia seguinte recomeçou. Mais uma vez preocupava-se com a palavra, agora não nova, mas mistério, sombra. Não se arriscava a dar um palpite, havia o perigo de outro engano.
A professora feia! pergunta no fim da manhã, recolhendo os cadernos, se alguém tem alguma dúvida. Ana Lúcia acende-se emocionada. Por que não a professora? Talvez ela fosse boa, talvez dissesse logo o que é desquitada, talvez dissesse na mesma hora, sem muitas perguntas como por que você quer saber uma coisa dessas. Levanta-se tímida, insegura. Já de pé, desiste, e não sabe se senta ou chora.
– O que é, Ana Lúcia?
A voz da professora, mansa, mas não ajudando. “Não pergunto, não pergunto” – teima Ana Lúcia, ganhando tempo.
– O que é? – a voz insiste.
As meninas riem, insuportáveis. Helenice e seus dentes enormes impossibilitando tudo. Ana Lúcia sente que vai chorar. Estar perto da mãe é o que mais deseja.
– Sente-se – ordena a professora irritada.

A máquina de costura avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mãe era, com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos, enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura.
Interrompia às vezes seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido da mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita chamava-a de ( )como quem diz ( ). Tentava não pensar as palavras, mas sabia que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome, depressa, depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e:
– Mamãe, o que é desquitada? – atirou rápida com uma voz sem timbre.
Tudo ficou suspenso, se alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia – sentia Ana Lúcia. Era muito forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mãe parada com a tesoura no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina avançando desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz luz.
A mãe reconstruiu o mundo com uma voz maravilhosa e um riso:
– Eu precisava mesmo explicar para você a situação. Mas você é tão pequena!
Olhou a filha com carinho, procurando o jeito mais hábil. Pouco mais de sete anos, o que poderia entrar naquela cabecinha?
– Desquitada é quando o marido vai embora e a mãe fica cuidando dos filhos.
Pronto, estou livre – sentiu Ana Lúcia. – Desquitada, desquitada, desquitada – repetia sem medo. Sentia-se completa e nova. Alegrou-se por não precisar amar a mãe com aquela força de antes. Sendo apenas uma menina poderia cansar-se e então o que seria da mãe? Bom que desquitada não fosse um insulto. Bom mesmo. Deixava-a livre para pensar e não pensar, coisa tão difícil que
– Marido é o pai? – ela quis confirmar, conquistando áreas que as outras crianças tinham naturalmente. A mãe sorriu e confirmou.
Tita sabia dizer “papai” porque a mãe não era desquitada -ia Ana Lúcia aprendendo, descobrindo. Havia muita coisa em que pensar naquela conversa. Por exemplo: o que ela chama de marido é o que eu chamo de pai. Essa é uma diferença entre mãe e filha.
Ela sabia cada vez mais.”

 O conto acima, um dos meus preferidos, foi escrito por Ivan Ângelo e extraído do livro “Para gostar de ler” – volume 10, da Editora Ática.  

Ivan Ângelo explora neste conto, de forma intensa, as inquietações e o sofrido aprendizado de uma menina perspicaz e sensível. Maravilhoso!

Ivan Ângelo nasceu em 1936 na cidade de Barbacena/MG. Aos 21 anos iniciou a carreira de escritor na revista cultural Complemento de Belo Horizonte. Seu livro de contos – “Homem sofrendo no quarto” – ganhou o prêmio literário Cidade de Belo Horizonte. Em 1976 ganhou o prêmio Jabuti pelo romance “A festa.” O escritor é também jornalista e escreve, com grande sucesso, para jornais e revistas.

Karina

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Dia da Mulher

Para nós do blog, todo dia é dia da mulher. No entanto, achamos que realmente as mulheres merecem todas as homenagens do mundo e, por isso,  não deixaremos passar em branco o dia dedicado a elas.

Nossa literatura e a literatura mundial estão repletas de grandes poetisas e escritoras, que, com sua sensibilidade, encantam gerações de leitores. Em todos os outros setores (muitos deles que antes só tinham espaço para os homens) as mulheres se impõem cada vez mais e com brilhantismo.

Abaixo trazemos aos internautas frases e trechos dedicados às mulheres, extraídos do livro Dicionário da Sabedoria:

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“O homem digno irá longe guiado pelas boas palavras de uma mulher.” (Goethe)

“Onde pode encontrar a humanidade templo mais belo que no coração da mulher?” (A.Kotzebue)

“A mulher é um céu abreviado.” (Pedro Calderón de La Barca)

“Tu que negas completamente a virtude das mulheres, lembra-te de tua mãe.” (Severo Catalina)

“A mulher possui a cor e o perfume das rosas, a limpidez e a pureza do cristal e, sobretudo, a sua fragilidade.” (Lope de Vega)

” O pudor é a nuvem, a nuvem é o mistério, o mistério é o infinito; o infinito é a poesia, a poesia é o amor, o amor é a religião. Pudor, mistério, infinito, poesia, amor, religião, sentimento, tudo isso é a mulher.” (H.F. Amiel)

“A mulher tem isto em comum com os anjos: pertencem-lhe os seres que sofrem.” (Balzac)

“Dentre todas as criaturas a mulher é a mais perfeita: é uma criação transitória entre o homem e o anjo.” (Balzac)

“Não há coisa capaz de substituir o afeto, a delicadeza e a devoção das mulheres. Amigos , esquecem-se; companheiros , desentendem-se. Mãe, irmã e esposa, porém, são inesquecíveis.” (Chateaubriand)

“Sem a mulher o homem não passaria de um ser rude, grosseiro, solitário, e ignoraria a graça, que outra coisa não é senão o sorriso do amor.” (Chateaubriand)

“Oh, que força tem o olhar de uma mulher! Como nos perturba, invade, possui e domina! Como nos parece profundo, cheio de promessas, cheio de infinito!” (Guy de Maupassant)

“Quando amam, as mulheres põem algo de divino no amor, e esse amor é como o sol que anima a natureza.” (Plutarco)

“Oh, mulher, o mar cede as pérolas, as minas o ouro, os jardins as flores, para mais te adornarem, cobrirem e embelezarem!”

“Ó tu, deliciosa, maldita, querida, destruídora mulher!” (William Congreve)

“Por mais que protestemos e vociferemos sabe a mulher enredar-nos com um simples fio de cabelo.” (J. Dryden)

“A mulher foi feita de uma costela de Adão. Não foi tirada de seus pé para ser por ele pisada, mas do seu lado, para lhe ser igual, debaixo do braço, para ser protegida, e de perto do coração, para ser amada.” (Matthew Henry)

“Ó mulher, adorável mulher! A natureza fez-te para nos abrandar. Sem ti, houvéramos sido simples brutos.” (Thomas Otway)

“As mulheres são os livros, as artes, as academias que explicam, encerram e nutrem o universo inteiro.” (Shakespeare)

“Como as rosas, são todas as mulheres: quem colhe a rosa também colhe o espinho…” (Guilherme de Almeida)

“Deus abaixo das estrelas

fez coisas de endoidecer,

criou flores as mais belas

e a flor mais bela: a mulher.” (João de Deus)

“Deus foi inspirado e, como poeta apaixonado, fez a mulher.” (Martins Fontes)

Karina

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A Lua de Caetano Veloso

Sabemos que Caetano Veloso dispensa comentários. O cantor baiano, nascido em 1942, compôs uma infinidade de músicas espetaculares, muitas das quais são verdadeiros poemas.

A música que abaixo reproduzimos, intitulada “Lua de São Jorge” é uma dessas preciosidades e revela um Caetano extremamente inspirado. Como o próprio nome já diz, a composição fala sobre a lua e seus encantos.

Para ler e ouvir repetidas vezes. Fascinante.

Clique no link abaixo para escutar a música:
 caetano veloso – lua de sao jorge

 
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“Lua de São Jorge
lua deslumbrante
azul verdejante
cauda de pavão
lua de São Jorge
cheia branca inteira
oh minha bandeira
solta na amplidão
lua de São Jorge
lua brasileira
lua do meu coração
lua de São Jorge
lua maravilha
mãe, irmã e filha
de todo esplendor
lua de São Jorge
brilha nos altares
brilha nos lugares
onde estou e vou
lua de São Jorge
brilha sobre os mares
brilha sobre o meu amor
lua de São Jorge
lua soberana
nobre porcelana
sobre a seda azul
lua de São Jorge
lua da alegria
não se vê o dia
claro como tu
lua de São Jorge
serás minha guia
no Brasil de norte a sul.”

Telma

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