Archive for dezembro, 2009

O seu santo nome – Carlos Drummond de Andrade

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.

Não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra

que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.

Karina

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Os Meses, de Bilac: Dezembro

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez.

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!

Dezembro:

Deixemos as coisas sérias!

Sou o belo mês das Férias,

O belo mês do Natal!

Crianças! tendes saudade

Da casa, da liberdade,

Do carinho maternal?

Sou o belo mês da Infância!

— Quem trabalhou com constância,Debalde não trabalhou:

As aulas estão suspensas;

Tem prêmios e recompensas

Todo aquele que estudou.

Quem estudou, finalmente,

Recebe a paga, contente,

Do sacrifício que fez…

— Férias, colégios fechados

E livros abandonados!…

Eu sou das férias o mês!

Coro de crianças:

Inda uma vez dancemos rindo!

Vamos às casas regressar…

O ano acabou! Dezembro é findo!

Vamos agora descansar!

Karina

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Frase da Semana

“Associar-se com gente boa é como viver num cômodo cheio de orquídeas; associar-se com gente ruim é como viver num depósito de peixe salgado. Após algum tempo nem se nota mais o cheiro”. Confúcio

Telma

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O Homem Que Se Endereçou

Ignácio de Loyola Brandão nasceu na cidade de Araraquara, em 31 de julho de 1936;  escreveu contos, romances e também atuou como jornalista. Em 2000, foi o vencedor do consagrado prêmio Jabuti pelo livro de contos  “O homem que odiava a segunda-feira”. É membro da Academia Paulista de Letras.

O excelente texto abaixo é de autoria do escritor modernista e faz parte do livro “O homem do furo na mão & outras histórias”, publicado em 1987. Interessante e inteligente.

O homem que se endereçou

Apanhou o envelope e na sua letra cuidadosa subscritou a si mesmo:

Narciso, rua Treze, nº 21.

Passou cola nas bordas do papel, mergulhou no envelope e fechou-se. Horas mais tarde a empregada colocou-o no correio. Um dia depois sentiu-se na mala do carteiro. Diante de uma casa, percebeu que o funcionário tinha parado indeciso, consultara o envelope e prosseguira. Voltou ao DCT, foi colocado numa prateleira. Dias depois, um novo carteiro procurou seu endereço. Não achou, devia ter saído algo errado. A carta voltou à prateleira, no meio de muitas outras, amareladas, empoeiradas. Sentiu, então, com terror, que a carta se extraviara. E Narciso nunca mais encontrou a si mesmo.

Telma

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Compras de Natal

Cecília Meireles no texto abaixo reproduzido – do livro “Quatro Vozes” – fala sobre a época de Natal e o consumismo sem limites que cerca a data.  Realmente poucas pessoas conseguem ficar indiferentes aos apelos dos estabelecimentos comerciais, que procuram atrair o consumidor com todo o tipo de  publicidade e promoções.

A escritora trata do tema com sua singular sensibilidade e mostra como o Natal está perdendo o seu verdadeiro significado. Confiram:

Compras de Natal


A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.

As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

Karina

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Frase da Semana

“Felicidade se acha em horinhas de descuido.” (João Guimarães Rosa)

Karina

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Aprendendo com diversão: poesia para crianças

Trazemos no post de hoje alguns poemas de José Paulo Paes destinados ao público infantil.

O autor reúne poemas simples, lúdicos e inteligentes, que mexem com a imaginação dos pequenos. Para os adultos, a leitura dos poemas de José Paulo Paes também é um deleite.

Confiram:


VALSINHA

Rachelle Anne Miller


É tão fácil

dançar

uma valsa,

rapaz.


Pezinho

pra frente,

pezinho

pra trás.


Pra dançar

uma valsa

é preciso

só dois.


O sol

com a lua.

Feijão

com arroz.

CORREÇÃO


Como dizia

aquele bem-te-vi que ficou míope:

“bem te via… bem te via…”

LETRA L


O L é uma letra louca.

Transforma a nota mi em 1000

e faz a uva andar de luva,

cabra descobrir o Brasil.

PESCARIA


Um homem

que se preocupava demais

com coisas sem importância

acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.

Um amigo lhe deu então a idéia

de usar as minhocas

numa pescaria para se distrair das preocupações.

O homem se distraiu tanto

pescando

que sua cabeça ficou leve

como um balão

e foi subindo pelo ar

até sumir nas nuvens.

Onde será que foi parar?

Não sei

nem quero me preocupar com isso.

Vou mais é pescar.

Karina

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Frase da Semana

“Uma discussão prolongada significa que ambas as partes estão erradas.” (Voltaire)

Karina

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Leitura imperdível: Um Certo Capitão Rodrigo

Há diversos posts no blog reproduzindo irreverentes textos de Luiz Fernando Verissimo, um escritor bem humorado, inteligente, completo e muito especial.

Provavelmente, a literatura e a inteligência estão  no DNA da família, já que o pai de Luiz Fernando Verissimo, o consagradíssimo Erico Verissimo também era um escritor extremamente sagaz.

Erico nasceu no Rio Grande do Sul, em 1905 e, desde muito jovem, passou a dar mostras do grande autor que viria a ser. Sua primeira obra foi uma coletânea de contos, publicada em 1932, intitulada “Fantoches”. Daí por diante não parou mais e criou maravilhas como os romances “Clarissa”, “Olhai os Lírios do campo” e “Incidente em Antares”. Faleceu em 1975 deixando irremediável saudade.

A crítica literária considera como sua obra prima a trilogia “O Tempo e o Vento”, dividida em três partes:  O continente (1948), O retrato (1951) e O arquipélago (1961).  Tal trilogia retrata com fidelidade a vida e os costumes do povo gaúcho e revelou personagens psicologicamente riquíssimos como Ana Terra e o legendário Capitão Rodrigo Cambará.

“Um Certo Capitão Rodrigo” compõe a primeira parte da trilogia “O Tempo e o Vento”, denominada “O Continente” e conta a história fascinante de um irresistível forasteiro que chega à pequena cidade de Santa Fé depois de tomar parte em  inúmeras guerras. Trata-se de um personagem corajoso,  muito cativante, apaixonado pela vida e por boas aventuras. Ateu convicto, mulherengo, mas com um senso de justiça e bondade muito aguçados, Rodrigo Cambará é um tipo apaixonante, a despeito de sua inconstância e irremediável infidelidade.

A seguir reproduzimos um pequeno trecho desta maravilhosa obra de Erico Verssimo, a qual reputamos essencial para a biblioteca de qualquer leitor que se preze.

“Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo , vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, vestia calças de riscado, botas com chinelas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda de Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:

– Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!

Juvenal sacudiu a cabeça devagarinho. Não sabia que opinião formar daquele homem, nem até que ponto podia acreditar no que ele lhe contava. Precisava levantar-se e ir embora. Não era nenhum índio vadio que pudesse ficar numa venda conversando à toa. Havia, porém, algo que o impedia de mover-se. Ele se interessava pelo que o outro dizia; gostava da maneira como o capitão falava, mesmo que suas palavras às vezes o irritassem. Até a voz do diabo do homem era agradável: tinha um tom grave e ao mesmo tempo meio metálico.”

Telma

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