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Frase da Semana

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“A vida é um campo de urtigas onde a única rosa é o amor.”

(Guimarães Rosa)

Karina

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Ausência

Guimarães Rosa não era um gênio só na prosa, na poesia também. Vejam:

Ausência

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Na almofada branca

as sandálias sonham

com a seda dos teus pés…

 

Partiste…

Mas a alegria ainda ficou no quarto,

talvez no ninho morno, calcado por teu corpo

no leito desfeito…

 

Entardece…

Esfuziante e verde,

um beija-flor entrou pela janela,

(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui…)

 

Do frasco aberto,

vestidas de vespas,

voam violetas…

 

E na almofada de seda

beijo as sandálias brancas,

vazias dos teus pés.

Karina

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Substância

Trazemos hoje um belo conto do grandioso Guimarães Rosa, que fala de como o amor pode superar o preconceito. O conto foi citado ontem à noite pelo apresentador Pedro Bial, que resumiu o seu enredo para embasar parte do discurso que fez no programa Big Brother Brasil da Rede Globo.

Aqui não vamos discutir sobre a utilidade ou não do citado programa televisivo. O que nos interessa é literatura. E a “lembrança”  do apresentador foi  muito válida; e nós esperamos que alguns telespectadores a tenham aproveitado.

Confiram:

Substância

Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa – o amido – puro, limpo, feito surpresa. Chamava-se Maria Exita. Datava de maio, ou de quando? Pensava ele em maio, talvez, porque o mês mor – de orvalho, da Virgem, de claridades no campo. Pares se casavam, arrumavam-se festas; numa, ali, a notara: ela, flor. Não lembrava a menina, feiosinha, magra, historiada de desgraças, trazida, havia muito, para servir na Fazenda. Sem se dar idéia, a surpresa se via formada. Se, às vezes, por assombro, uma moça assim se embelezava, também podia ter sido no tanto-e-tanto. Só que a ele, Sionésio, faltavam folga e espírito para reparar em transformações.

Saíra da festa em começo, dada mal sua presença; pois a vida não lhe deixava cortar pelo sono: era um espreguiçar-se ao adormecer, para poupar tempo no despertar. Para a azáfama – de farinha e polvilho. Célebres, de data, na região e longe, os da Samburá; herdando-a, de repente, Seo Nésio, até então rapaz de madraças visagens, avançara-se com decisão de açoite a desmedir-lhes o fabrico. Plantava á vasta os alqueires de mandioca, que ali, aliás, outro cultivo não vingava; chamava e pagava os braços; espantava, no dia-a-dia, o povo. Nem por nada teria adiantado atenção a uma criaturinha, a qual.

Maria Exita. Trouxera-a, por piedade, pela ponta da mão, receosa de que o patrão nem os outros a aceitassem, a velha Nhatiaga, peneireira. Porque, contra a menos feliz, a sorte sarapintara de preto portais e portas: a mãe, leviana, desaparecida de casa; um irmão, perverso, na cadeia, por atos de morte; o outro, igual feroz, foragido, ao acaso de nenhuma parte; o pai, razoável bom-homem, delatado com lepra, e prosseguido, decerto para sempre, para um lazareto. Restassem-lhe nem afastados parentes; seja, recebera madrinha, de luxo e rica, mas que pelo lugar apenas passara, agora ninguém sabendo se e onde vivia. Acolheram-na, em todo o caso. Menos por direita pena; antes, da compaixão da Nhatiaga. Deram-lhe, porém, ingrato serviço, de todos o pior: o de quebrar, à mão, o polvilho, nas lages.

Sionésio, de tarde, de volta, cavalgava através das plantações. Se a meio-galope, se a passo, mas sôfrego descabido, olhando quase todos os lados. Ainda num Domingo, não parava, pois. Apenas, por prazo, em incertas casas, onde lhe dessem, ao corpo, consolo: atendimento de repouso. Lá mesmo, por último, demorava um menos. Prazer era ver, aberto, sob o fim do sol, o mandiocal de verdes mãos. Amava o que era seu – o que seus fortes olhos aprisionavam. Agora, porém, uma fadiga. O ensimesmo. Sua sela se coçava de uso, aqui a borraina aparecendo; tantas coisas a renovar, e ele sem sequer tempo. Nem para ir de visita, no Morro-do-Boi, à quase noiva, comum no sossego e paciências, da terra, em que tudo relevava pela medida das distâncias. Chegava à Fazenda. Todavia, esporeava.

O quieto completo, na Samburá, no Domingo, o eirado e o engenho desertos, sem eixo de murmúrio. Perguntava à Nhatiaga, pela sua protegida. – “Ela parte o polvilho nas lages…” – a velha resumira. Mas, e até hoje, num serviço desses? Ao menos, agora, a mudassem!  – “Ela é que quer, diz que gosta. E é mesmo, com efeito…” – a Nhatiaga sussurrava. Sionésio, saber que ela, de qualquer modo, pertencia e lidava ali, influía-lhe um contentamento; ele era a pessoa manipulante. Não podia queixar-se. Se o avio da farinha se pelejava ainda rústico, em breve o poderia melhorar, meante muito, pôr máquinas, dobrar quantidades.

Demorara para ir vê-la. Só no pino do meio-dia – de um sol do qual o passarinho fugiu. Ela estava em frente da mesa de pedra; àquela hora, sentada no banquinho rasteiro, esperava que trouxessem outros pesados, duros blocos de polvilho. Alvíssimo, era horrível, aquilo. Atormentava, torturava: os olhos da pessoa tendo de ficar miudinho fechados, feito os de um tatu, ante a implacável alvura, o sol em cima. O dia inteiro, o ar parava levantado, aos tremeluzes, a gente se perdendo por um negrume do horizonte, para temperar a intensidade brilhante, branca; e tudo cerradamente igual. Teve dó dela – pobrinha flor. Indagou: – “Que serviço você dá?” – e era a tola questão. Ela não se vexou. Só o mal-e-mal, o boquinãoabrir, o sorriso devagar. Não se perturbava. Também, para um pasmar-nos, com acontecesse diferente: nem enrugava o rosto, nem espremia ou negava os olhos, mas oferecidos bem abertos – olhos desses, de outra luminosidade. Não parecia padecer, antes tirar segurança e folguedo, do triste, sinistro polvilho, portentoso, mais a maldade do sol. E a beleza. Tão linda, clara, certa – de avivada carnação e airosa – uma iázinha, moça feita em cachoeira. Viu que, sem querer, lhe fazia cortesia. Falou-lhe, o assunto fora de propósito: que o polvilho, ali, na Samburá, era muito caprichado, justo, um dom de branco, por isso para a Fábrica valia mais caro, que os outros, por aí, feiosos, meio tostados…

Depois, foi que lhe contaram. Tornava ainda, a cavalo, seu coração não enganado, como sendo sempre desiguais os domingos; de tarde, aí que as rolinhas e os canários cantavam. Se bem – ele ali o dono – sem abusar da vantagem. “De suas maneiras, menina, me senti muito agradado…” – repetia um futuro talvez dizer. A Maria Exita. Sabia, hoje: a alma do jeito e ser, dela, diversa dos outros. Assim, que chegara lá, com os vários sem-remédios de amargura, do oposto mundo e maldições, sozinha de se sufocar. Aí, então, por si sem conversas, sem distraídas beiras, nenhumas, aportara àquele serviço – de toda a despreferência, o trabalho pedregoso, no quente feito boca-de-forno, em que a gente sente engrossar os dedos, os olhos inflamados de ver, no deslumbrável. Assoporava-se sob o refúgio, ausenciada? Destemia o grado, cruel polvilho, de abater a vista, intacto branco. Antes, como a um alcanforar o fitava, de tanto gosto. Feito a uma espécie de alívio, capaz de a desafligir; de muito lhe dar: uma esperança mais espaçosa. Todo esse tempo. Sua beleza, donde vinha? Sua própria, tão firme pessoa? A imensidão do olhar – doçuras. Se um sorriso; artes como de um descer de anjos. Sionésio nem entendia. Somente era bom, a saber feliz, apesar dos ásperos. Ela – que dependendo só de um aceno. Se é que ele não se portava alorpado, nos rodeios de um caramujo; estava amando mais ou menos.

“Se outros a quisessem, se ela já gostasse de alguém?” – as asas dessa cisma o saltearam. Tantos, na faina, na Samburá, namoristas; e às festas – a idéia lhe doía. Mesmo de a figurar proseando com os próximos, no facilitar. Porém, o que ouviu, aquietava-o. Ainda que em graça para amores, tão formosa, ela parava a cobro de qualquer deles, de más ou melhores tenções. Resguardavam a seus graves de sangue. Temiam a herança da lepra, do pai, ou da falta de juízo da mãe, de levados fogos. Temiam a algum dos assassinos, os irmãos, que inesperado de a toda hora sobrevir., vigiando por sua virtude. Acautelavam. Assim, ela estava salva. Mas a gente nunca se provê segundo garantias perpétuas. Sionésio passara a freqüentar nas festas, princípios a fins. Não que dançasse; desgostava-o aquilo, a algazarra. Ficava de lá, de olhos postos em, feito o urubu tomador de conta. Não a teria acreditado tão exata em todas essas instâncias – o quieto pisar, num muxoxozinho úmido prolongado, o jeito de pôr sua cinturinha nas mãos, feliz pelas pétalas, juriti nunca aflita. A mesma que no amanhã estaria defronte da mesa de laje, partindo o sol nas pedras do terrível polvilho, os calhaus, bitelões. Se dançava, era bem; mas as muito poucas vezes. Tinham-lhe medo, à doença incerta, sob a formosura. Ah, era bom, uma providência, esse pejo de escrúpulo. Porque ela se via conduzida para não se casar nunca, nem podendo ser doidivã. Mas precisada de restar na pureza. Sim, do receio não se carecia. Maria Exita era a para se separar limpa e sem jaças, por cima da vida; e de ninguém. Nela homem nenhum tocava.

Sem embargo de que, ele, a queria, para si, sempre por sempre.

E, ela, havia de gostar dele, também, tão certamente.

Mas, no embaraço de inconstantes horas – as esperanças velhas e desanimações novas – de entre-momentos. Passava por lá, sem paz de vê-la, tinha um modo mordido de a admirar, mais ou menos de longe. Ela, no seu assento raso, quando não de pé, trabalhando a mãos ambas. Servia o polvilho – a ardente espécie singular, secura límpida, material arenoso – a massa daquele objeto. Ou, o que vinha ainda molhado, friável, macio, grudando-se em seus belos braços, branqueando-os até para cima dos cotovelos. Mas que, toda-a-vida, de solsim brilhava: os raios reflexos, que os olhos de Sionésio não podiam suportar, machucados, tanto valesse olhar para o céu e encarar o próprio sol.

As muitas semanas castigavam-no, amiúde nem conseguia dormir, o que era ele mesmo contra ele mesmo, consumição de paixão, romance feito. De repente, na madrugada, animava-se a vigiar os ameaços de chuva, erguia-se aos brados, acordando a todos: – “Apanhar polvilho! Apanhar polvilho!…” Corriam, em confusão de alarme, reunindo sacos, gamelas, bacias, para receber o polvilho posto no ar, nas lajes, onde, no escuro da noite, era a única coisa a afirmar-se, como um claro de lagoa d’água, rodeado de criaturas estremunhadas e aflitas. Mal podia divisá-la, no polvoroso, mas contentava-o sua proximidade viva, quente presença, aliviando-o. Escutou que dela falassem: “Se não é que, no que não espera, a mãe ainda amanhece por ela…ou a senhora madrinha…” Salteou-se. Sem ela, de que valia a atirada trabalheira, o sobreesforço, crescer os produtos, aumentar as terras? Vê-la, quando em quando. A ela – a única Maria no mundo. Nenhumas outras mulheres, mais, no repousado; nenhuma outra noiva, na distância. Devia, então, pegar a prova ou o desengano, fazer a ação de a ter, na sisuda coragem, botar beiras em seu sonho. Se conversasse primeiro com Nhatiaga? – achava, estapeou aquele pensamento contra a testa. Não receava a recusação. Consigo forcejava. Queria e não podia, dar volta a uma coisa. Os dias iam. Passavam as coisas, pretextadas. Que temia, pois, que não sabia que temesse? Por vez, pensou: era, ele mesmo, são? Tinha por onde merecer? Olhava seus próprios dedos, seus pulsos, passava muito as mãos no rosto. A diverso tempo, dava o bravo: tinha raiva a ela. Tomara a ele que tudo ficasse falso, fim. Poder se desentregar da ilusão, mudar de parecer, pagar sossego, cuidar só dos estritos de sua obrigação, desatinada. Mas, no disputar do dia, criava as agonias da noite. Achou-se em lágrimas, fiel. Por que, então, não dizia hás nem eis, andava de mente tropeçada, pubo, assuntando o conselho, em deliberação tão grave- assim de cão para o luar? Mas não podia. Mas veio.

A hora era de nada e tanto; e ela era sempre a espera. Afoito, ele lhe perguntou:

– “Você tem vontade de confirmar o rumo de sua vida? – falando-lhe de muito coração. – “Só se for já…” –  e, com a resposta, ela riu clara e quentemente, decerto que sem a propositada malícia, sem menospreço. Devia de ter outros significados o rir, em seus olhos sacis.

Mas, de repente, ele se estremeceu daquelas ouvidas palavras. De um susto vindo de fundo: e a dúvida. Seria ela igual à mãe? – surpreendeu-se mais. Se a beleza dela – a frutice, da pele, tão fresca, viçosa – só fosse por um tempo, mas depois condenada a engrossar e se escamar, aos tortos e roxos, da estragada doença? – o horror daquilo o sacudia. Nem agüentou de mirar, no momento, sua preciosa formosura, traiçoeira. Mesmo, sem querer, entregou os olhos ao polvilho, que ofuscava, na laje, na vez do sol. Ainda que por instante, achava ali um poder, contemplado, de grandeza, dilatado repouso, que desmanchava em branco os rebuliços do pensamento da gente, atormentastes.

A alumiada surpresa.

Alvava.

Assim; mas era também o exato, grande, o repentino amor – o acima. Sionésio olhou mais, sem fechar o rosto aplicou o coração, abriu bem os olhos. Sorriu para trás. Maria Exita. Socorria-a a linda claridade. Ela – ela! Ele veio para junto. Estendeu também as mãos para o polvilho – solar e estranho: o ato de quebrá-lo era gostoso, parecia um brinquedo de menino. Todos o vissem, nisso, ninguém na dúvida. E seu coração se levantou.  – “Você, Maria, quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de se separar? Você, comigo, vem e vai?” Disse, e viu. O polvilho, coisa sem fim. Ela tinha respondido: –  “Vou, demais.” Desatou um sorriso. Ele nem viu. Estavam lado a lado, olhavam para frente. Nem viam a sombra de Nhatiaga, que quieta e calada, lá, no espaço do dia.

Sionésio e Maria Exita – a meios-olhos, perante o refulgir, o todo branco. Acontecia o não-fato, o não-tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como se fosse o dia de todos os pássaros.

(João Guimarães Rosa in Primeiras Estórias)

Karina

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Frase da Semana

” Os olhos… são a porta do engano.”

(João Guimarães Rosa in O espelho)

Karina

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Campo Geral, de Guimarães Rosa

Falaremos hoje sobre uma estória simplesmente imperdível de autoria do genial João Guimarães Rosa.

“Campo Geral”, a estória escolhida para ilustrar esse post,  faz parte,  juntamente com “Uma estória de amor”, do livro Manuelzão e Miguilim, de 1960.  As duas narrativas foram antes publicadas em 1956 no livro Corpo de Baile,  sendo depois desmembradas para um único volume.

Em Campo Geral, Guimarães Rosa, com a sua incrível habilidade, narra a infância de Miguilim,  uma criança de oito anos de idade que mora com a família em Mutum, um lugar no meio do sertão mineiro. E é nesse local isolado e remoto que Miguilim vai amadurecer e descobrir o mundo.

A narrativa, repleta da fascinante e inigualável linguagem de Guimarães Rosa, faz o leitor mergulhar em um  mundo de emoções avassaladoras.

Não podemos deixar de destacar a sensibilidade do personagem Miguilim, que se envolve intensamente com os problemas da família, sofrendo grandes  inquietações e angústias. A relação de amizade e de amor existente entre  Miguilim e Dito – seu irmão caçula – também é retratada de forma belíssima.

Campo Geral é uma estória para ser lida e degustada pelo leitor e depois relida, relida e relida… Guimarães Rosa soube como ninguém retratar a infância, período composto de alegrias, mas também povoado de medos e de  fantasias.

Eis alguns trechos dessa narrativa apaixonante, para aguçar a vontade de ler em quem ainda não leu e provocar a releitura nos que já leram:

“Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos.”

(…)

“O Dito era menor mas sabia o sério, pensava ligeiro as coisas. Deus tinha dado a ele todo juízo. E gostava, muito, de Miguilim. Quando foi a estória da Cuca, o Dito um dia perguntou:  -“Quem sabe é pecado a gente ter saudade de cachorro?…” O Dito queria que ele não chorasse mais por Pingo-de-Ouro, porque sempre que ele chorava o Dito também pegava vontade de chorar junto.”

(…)

“Os irmãos já estavam acostumados com aquilo, nem esbarravam mais dos brinquedos para vir ver Miguilim sentado alto no tamborete, à paz. Só o Dito, de longe distante, pela porta, espiava leal. Mas o Dito não vinha, não queria que Miguilim penasse vergonha”.

(…)

“Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior, amarrado em árvore na beirada do mato. Fizessem isso, ele morria de estrangulação do medo? Do mato de cima do morro vinha onça. Como o pai podia imaginar judiação querer amarrar um menino no escuro do mato?  Só o pai de Joãozinho mais Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata em distantes porque não tinham de-comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena por Joãozinho mais Maria, que voltava a vontade de chorar.”

(…)

“Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem – debaixo de exata idéia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então – ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam… Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem isso, mau! – maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não aguentava… Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de,  amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.”

(…)

“O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom… Assim está certo.” “- E os outros, Dito, a gente mesmo?” O Dito não sabia. – “Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acham que é moleza, não gostam… Eles têm medo que aquilo pegue e amoleça neles mesmos – com bondades…” “E a gente, Dito? A gente?” ” – A gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais forte! Trastempo, o bruto vai ficando mole, mole… “

(…)

“Uma hora Dito chamou Miguilim, queria ficar com Miguilim sozinho. Quase que ele não podia mais falar. – “Miguilim, e você não contou a estória da Cuca pingo-de-Ouro…” – “Mas eu não posso, Dito, mesmo não posso! Eu gosto demais dela, estes dias todos…” Como é que podia inventar a estória? Miguilim soluçava. –”Faz mal não, Miguilim, mesmo ceguinha mesmo, ela há de me reconhecer…” – “No Céu, Dito? No Céu?!” – e Miguilim desengolia da garganta um desespero. –”Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você…” E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo: – “Miguilim, Miguilim, eu vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder então ficar mais alegre, mais alegre, por dentro!”

(…)

“E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”

Karina

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Frase da Semana

“Felicidade se acha em horinhas de descuido.” (João Guimarães Rosa)

Karina

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Mais Guimarães Rosa

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Ontem falamos sobre o genial Guimarães Rosa e seu estilo único e inconvencional de escrever.

Hoje colocaremos aqui belíssimos trechos da obra do escritor para deleite dos que já leram e para atiçar a vontade de ler naqueles que ainda não leram:

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” (Riobaldo em “Grande Sertão: Veredas”)

“O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo… Eu quase nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.” (Grande Sertão: Veredas)

“A gente morre é para provar que viveu.” (Grande Sertão: Veredas)

“O sertão está em toda a parte.” (Grande Sertão: Veredas)

O sertão é dentro da gente.” (Grande Sertão: Veredas)

“Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte.” (Grande Sertão: Veredas)

“… quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade”.(Grande Sertão: Veredas)

“Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.” (Grande Sertão: Veredas)

“O senhor… mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior.” (Grande Sertão: Veredas)

“Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo no meio do fel do desespero. Ao que, esse mundo é muito misturado…” (Grande Sertão: Veredas)

“Viver é um descuido prosseguido.” (Grande Sertão: Veredas)

“A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e se desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.” (Grande Sertão: Veredas)

“Feito flecha, feito fogo, feito faca.” (Grande Sertão: Veredas)

“O perigo saca toda a tristeza.” (Grande Sertão: Veredas)

“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver.” (Grande Sertão: Veredas)

“A força de Deus quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se discutindo, se economiza.” (Grande Sertão: Veredas)

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas” (Grande Sertão: Veredas)

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.”

“O senhor sabe o que silêncio é? É a gente mesmo, demais.” (Grande Sertão: Veredas)

“Quem desconfia, fica sábio.” (Grande Sertão: Veredas)

“Ser chefe – por fora um pouquinho amargo; mas, por dentro, é risonhas flores.” (Grande Sertão: Veredas)

“Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha.” (Grande Sertão: Veredas)

“De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim penso também. Mas Diadorim é minha neblina”.(Grande Sertão: Veredas)

“Julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.” (Grande Sertão: Veredas)

“Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento. Quando eu olhei, vinha vindo uma moça. Otacília. (…) Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho era sempre novo. Afirmo ao senhor, minha Otacília ainda se orçava mais linda, me saudou com o salvável carinho, adianto de amor.” (Grande Sertão: Veredas)

“Arranjeizinho lá um lugar de guarda-civil” (Sagarana)

“(…) Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria… Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua”. (Sagarana)

“Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão.” (Desenredo)

” (…) Como o pai podia imaginar judiação, querer amarrar um menino no escuro do mato? Só o pai de Joãozinho e Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata, em distantes, porque não tinham de comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena, por Joãozinho e Maria, que voltava a vontade de chorar.” (Campo Geral)

“Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo…” (Campo Geral)

“Você me ensinazinho a dançar, Chica?” (Campo Geral)

“O gato Sossõe, certa hora, entrava. Ele vinha sutil para o paiol, para a tulha, censeando os ratos, entrava com o jeito de que já estivesse se despedindo, sem bulir com o ar. Mas, daí, rodeando como quem não quer, o gato Sossõe principiava a se esfregar em Miguilim, depois deitava perto, se prazia de ser, com aquela ronqueirinha que era a alegria dele, e olhava, olhava, engrossava o ronco, os olhos de um verde tão menos vazio – era uma luz dentro de outra, dentro doutra, dentro doutra, até não ter fim”.(Campo Geral)

Karina

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Guimarães Rosa: o mágico das palavras

João Guimarães Rosa  nasceu no município de Cordisburgo – MG em 27 de junho de 1908. Filho de um pequeno comerciante rural, aprendeu as primeiras letras na própria cidade natal e fez o curso secundário em Belo Horizonte.

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Desde a infância, Guimarães Rosa demonstrou profundo interesse pelas línguas, pela natureza e pelo sertanejo em geral. Formou-se em Medicina, tendo exercido a profissão em cidades do interior de Minas Gerais. Médico competente e dedicado, ia a cavalo visitar seus pacientes e, durante esse período, ao observar a terra, as pessoas e seus costumes, fazia as anotações que mais tarde colocava nos livros que já escrevia. Aprendeu sozinho a falar mais de nove idiomas. Em 1934, ingressou na carreira diplomática, tendo exercido cargos diplomáticos em diversos países.

Em 1958, já de volta ao Brasil, foi nomeado ministro. A partir dessa época, o escritor obteve amplo reconhecimento, em decorrência da publicação, em 1956, de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. Teve sua obra publicada em diversas línguas e é, sem dúvida nenhuma, o maior nome da literatura brasileira do século XX.  Guimarães Rosa faleceu em 19 de novembro de 1967 de infarte e apenas três dias depois de ter tomado posse na Academia Brasileira de Letras.

A obra de João Guimarães Rosa nos convida a entrar num mundo particular. O escritor mostrou a realidade do sertão mineiro, a fala do sertanejo e o lirismo e o misticismo que envolvem o sertão. O sertão de Guimarães Rosa ultrapassa os limites geográficos e aparece como um meio de aprendizado sobre a existência do homem. Mas o mais genial na produção de Guimarães Rosa é a forma de escrever: o escritor apostou na liberdade linguística, na recriação e na invenção das palavras. Os neologismos, as metáforas e o uso de figuras de linguagem são presença marcante em sua obra e trazem originalidade, riqueza e ousadia antes nunca alcançados em nossa literatura.

Nós do blog, há muito fomos dominadas pelo rico e mágico mundo de Guimarães Rosa. Quem já leu algo do escritor, sabe do que estamos falando; sabe do fascínio que ele exerce sobre seus leitores e sabe que é impossível ficar imune diante da beleza de suas palavras. Quem não leu ainda, precisa ler com urgência e o efeito será impactante, temos certeza.

Para terminar o post, nada melhor do que o também genial Carlos Drummond de Andrade tentando decifrar o encanto de João Guimarães Rosa:

Um chamado João

“João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?

Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?

Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia nome,
curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
e precipites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeíam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.”

Karina

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