Os gatos, por Lygia Fagundes Telles

Nosso primeiro post de 2009 tratará novamente dos gatos. Insistimos em falar sobre os belos felinos, pois muitas pessoas infelizmente ainda têm preconceito com relação aos bichanos. Alguns dizem que eles são falsos, outros que são interesseiros…  Nada mais injusto!

O gato é totalmente diferente do cão por causa de sua independência. Isso evidentemente não quer dizer que não nutrem amor por seus donos. Gatos sentem amor sim, mas sua forma de demonstrar é outra.

Além do mais, como já dissemos anteriormente, o gato é a melhor companhia para quem aprecia a leitura de um bom livro, pois é um animal silencioso e auto-suficiente.

Lygia Fagundes Telles não conhecia bem os gatos e foi depois de conviver com um que escreveu este maravilhoso e verdadeiro texto. Vejam:

lygia_fagundes_tellesOs Gatos

“Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes,quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.
Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula da infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.
Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de feitio. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhada, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse é o sorriso do gato – ô bicho sutil! indecifrável. Inatingível.
Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave – aquele recôncavo onde o vinho envelhece.
Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente.
Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para os vestibulares da Academia do Largo de São Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Então ouvi um ruído brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrás da minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu também perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio cercado de casario e essa janela da sala dava para o telhado de uma casa velhíssima, por onde transitavam os gatos do bairro.
Por onde andam hoje os gatos que não encontro mais nenhum. Naquele tempo havia gato à beça nos muros, nos telhados. “É que a vida apertou e gato dá um bom cozido”, explicou o jornaleiro. A fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles ficavam tomando sol? Caçando passarinho. Amando. Os ratos todos em plena circulação, fortalecidos. E os gatos, onde estão os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e pretas num fundo branco. E os olhos. Por alguma razão obscura, escolheu minha casa: estendi a mão afeita a acariciar cabeça de cachorro. Mas cabeça de gato não é cabeça de cachorro – primeira lição que ele deu ao recuar com uma soberba que me confundiu. A conquista do gato é difícil, embrulhada, não tem isso de amor repentino: mais um movimento de aproximação e ele fugiria ventando.
Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e continuei a ler o romance da virgem dos lábios de mel, mas em voz baixa, intuí que ele preferia o silêncio. Ele ou ela? Sexo de gato não é nítido como sexo de cachorro, outra diferença importante. Leva algum tempo para a descoberta do sexo, da unha e da idade.
Gato ou gata, vai se chamar Iracema, resolvi. E deixei meu hóspede, a casa é sua.
Então ouvi o ruído delicado, ele bebia leite, mas não como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor. O gato é discreto. Há que amá-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.
“Tudo passa sobre a terra!” – estava escrito no final do romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que dormia no meio do tapete. Também você vai passar? Tu quoque, Iracema?! Não sabia ainda que permaneceria infinita na minha finitude
.”
(Lygia Fagundes Telles – texto extraído do livro A Disciplina do Amor)

 Karina

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11 Respostas so far »

  1. 1

    Muito interessante o posicionamento da escritora neste conto. Os gatos são realmente seres maravilhosos e misteriosos. Amo!

    • 2

      Telma e Karina said,

      É verdade, Adriana. Os gatos são os seres mais belos e fascinantes do mundo! É lamentável o fato de muitas vezes serem injustiçados por quem ainda não teve a oportunidade de conviver com eles. Felizmente, grande parte dos escritores, assim como a magnífica Lygia, reconhece o encanto desses seres tão especiais! E nós do blog amamos os gatos e achamos que eles têm tudo a ver com livros.
      Um grande abraço e volte sempre!
      Karina

  2. 3

    cintya veiga said,

    O que mais me ecanta nos gatos é a não subserviência dos cachorros.
    Lígia em sua sensibilidade, soube sentir a alma desses felinos maravilhosos.

  3. 4

    Diana Santos said,

    Gato é poesia. É isto o que se depreende do texto da escritora-poeta. E não poderia haver melhor companhia para os gatos do que a poesia. Aquela que só é capturada pela sutileza de quem, como os gatos, é caviloso – sem ser fingido -, astuto e sabe da poesia. Não a poesia dos poemas aprendida nas aualas de literatura, mas aquela que só se descobre com o espanto do olhar. Prefiro a sutileza dos gatos e das pessoas do que os “ruídos” sem sentido.
    O primeiro parágrafo dos “Gatos” de Lygia já diz tudo. Dedico-o à minha linda, doce e cavilosa Mel.

  4. 6

    Luciane said,

    Também os amo. Eles são sutis e amam silenciosamente. Quem não tem essa mesma sutileza, não acredita.

  5. 7

    Rafaella Visconti said,

    Lindo, só mesmo quem é muito sensível percebe o quanto eles são maravilhosos.

  6. 9

    sabrina e dri said,

    os gatos são realmente uma fofura…adoro!!!

  7. 10

    zilda CAMARGO FERREIRA said,

    Meu lindo e amado gatinho XOLLY, tãointeligente,carinhoso,ciumento,e cheio de personalidade,meu companheirinho fiel durante mais de 19 anos, faleceu hoje,dia 20 de julho de 2012,deixando vazio o meu apartamento e o meu coração.!
    Sua missão neste planeta foi semear alegria e afeto.QUEM DISSE que os animais são irracionais? eles pensam,eles são afetivos e
    muito sensíveis.Quem disse que eles não têm alma?

    • 11

      Telma e Karina said,

      Concordo plenamente com você, Zilda. Nossa gata Bambina, que nos deixou há pouco tempo, só trouxe alegria, amor e compreensão para todos da família! Os animais são seres muito mais evoluídos do que se pensa. Obrigada pela visita e volte sempre. Karina


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