Archive for setembro, 2009

Lembrança, de Guilherme de Almeida

O lindo poema reproduzido a seguir pertence ao livro “O Anjo de Sal”, de 1951:

autumn

LEMBRANÇA

Lembro o pudor da paisagem
e a fanfarra de perfumes
que o claro clarim dos lírios
abria nas madrugadas.

Lembro o susto dos insetos
na castidade das águas,
e as asas do pó fugindo
atrás da luz desnudada.

Lembro a fala dos caminhos
ao longo dos passos cegos,
e os ventos enovelados
na cabeleira das nuvens.

Lembro o bulício da palha
quando pisavas a tarde,
os olhos cheios de folhas
e as mãos repletas de ninhos.

Lembro a noite dos meus olhos
sem luas no seu silêncio,
quando ficavas na sombra
e a sombra ficava estrela.

Lembro a palavra parada
na flor adiada da boca,
e lembro o beijo retido
ao gesto alado de adeuses.

Karina

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Figurinhas

A maravilhosa Cecília Meireles encantou a todos: adultos e crianças. O enfoque é completamente diferente, mas quem tinha uma inteligência ímpar como essa escritora consegue atingir o público leitor que bem entender.

Abaixo, reproduzimos mais um excelente poema infantil de Cecília Meireles, da série “Ou Isto Ou Aquilo”, dedicada às crianças:

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Figurinhas

II


Onde está meu quintal

amarelo e encarnado,

com meninos brincando

de chicote-queimado,

com cigarra nos troncos

e formigas no chão,

e muitas conchas brancas

dentro da minha mão?


E Júlia e Maria

e Amélia onde estão?


Onde está meu anel

e o banquinho quadrado

e o sabiá na mangueira

e o gato no telhado?


– e a moringa de barro,

e o cheiro do alvo pão?

E tua voz, Pedrina,

sobre o meu coração?

Em que altos balanços

se balançarão?…

Telma

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Frase da Semana (27/09 a 02/10)

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“Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas.”  Thomas Cray


Telma

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Da Saudade

Hoje falaremos de um sentimento muito difícil de ser definido: a saudade. Difícil explicar em que consiste, mas quando sentimos saudade, logo identificamos. Mas é apenas a nossa belíssima língua portuguesa que traduz o sentimento de saudade em palavra.

A seguir, trazemos alguns pensamentos e versos sobre esse sentimento, advindos de diversos autores. E o nobre leitor, como conceituaria a saudade?

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“Tudo aumenta, quando visto através da saudade.” (Guiherme de Almeida)


“Saudade: presença dos ausentes.” (Olavo Bilac)


“Quem traz à saudade a alma rendida,

a saudade busca, onde descansa:

mas o descanso dela encurta a vida.” (Luiz Vaz de Camões)


“Quem sofre o mal da saudade,

não acha alívio um momento,

pois tem perto a enfermidade

e longe o medicamento.” (Afonso Celso)


“A casa da Saudade chama-se Memória: é uma cabana pequenina a um canto do coração.” (Coelho Neto)


“Saudade, ó bela flor, quando te faltem

coração ou jardim onde tu cresças,

vem, vem ter comigo.

Deixa os que não te seguem,

terás em peito amigo

lágrimas que te reguem,

espaço em que floresças.” (Gonçalves Dias)


“O perfume da saudade é como o de certas flores que só se percebe, quando de longe o recebemos. Se, iludidos, o tentamos aspirar de perto, dissipa-se.” (Júlio Dinis)


“A palavra saudade é porventura o mais doce, expressivo e delicado termo de nossa língua. A idéia, ou sentimento por ele representado, certo que em todos os países o sentem: mas que haja vocábulo especial para o designar, não o sei de outra nenhuma linguagem senão da portuguesa.” (Almeida Garret)


“A saudade é como o sol do inverno: ilumina sem aquecer.” (Berilo Neves)


“Eis a saudade: mal que é bem, dor que não dói, tristeza que sorri dentro de nós.” (Braz Florenzano Netto)

Telma

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Dois belos poemas de Bilac

Como já dissemos aqui no blog, Olavo Bilac, embora pertencente à escola parnasiana de literatura, na qual a prioridade é o estilo e a forma, nunca deixou de lado o lirismo e a emoção em sua poesia.

É o que podemos constatar nos dois belíssimos poemas carregados de sentimento que abaixo reproduzimos:

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LEIO-TE


Leio-te: — o pranto dos meus olhos rola:

— Do seu cabelo o delicado cheiro,

Da sua voz o timbre prazenteiro,

Tudo do livro sinto que se evola …


Todo o nosso romance: – a doce esmola

Do seu primeiro olhar, o seu primeiro

Sorriso, – neste poema verdadeiro,

Tudo ao meu triste olhar se desenrola.


Sinto animar-se todo o meu passado:

E quanto mais as páginas folheio,

Mais vejo em tudo aquele vulto amado.


Ouço junto de mim bater-lhe o seio,

E cuido vê-Ia, plácida, a meu lado,

Lendo comigo a página que leio.


—//—

LONGE DE TI

XXXI


Longe de ti, se escuto, porventura,

Teu nome, que uma boca indiferente

Entre outros nomes de mulher murmura,

Sobe-me o pranto aos olhos, de repente…


Tal aquele, que, mísero, a tortura

Sofre de amargo exílio, e tristemente

A linguagem natal, maviosa e pura,

Ouve falada por estranha gente…


Porque teu nome é para mim o nome

De uma pátria distante e idolatrada,

Cuja saudade ardente me consome:


E ouvi-lo é ver a eterna primavera

E a eterna luz da terra abençoada,

Onde, entre flores, teu amor me espera.


Karina

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Frase da Semana (20/09 a 26/09)

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“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.” (Fernando Sabino)

Karina

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Cem Anos de Perdão

A crônica abaixo foi escrita pela grande autora Clarice Lispector e é mais uma obra prima pertencente à coletânea “A Descoberta do Mundo”, que, em breve síntese, trata-se de um tesouro. O ávido leitor certamente ficará satisfeito em ler tamanha delicadeza; é de uma sutileza indescritível.

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CEM ANOS DE PERDÃO

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

Começou assim. Numa dessas brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

Eis-me afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

Telma

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“Se te Abaixasses, Montanha”, por Cecília Meireles

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Se te Abaixasses, Montanha


Se te abaixasses, montanha,

poderia ver a mão

daquele que não me fala

e a quem meus suspiros vão.


Se te abaixasses, montanha,

poderia ver a face

daquele que se soubesse

deste amor talvez chorasse.


Se te abaixasses, montanha,

poderia descansar.

Mas não te abaixes, que eu quero

lembrar, sofrer, esperar.

Karina

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Outras fábulas de Esopo

Atendendendo a pedidos, mais fábulas de Esopo:

O CORVO E A RAPOSA

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Um corvo roubou um pedaço de carne, e foi pousar sobre uma árvore. Uma raposa o viu e quis apoderar- se da carne. Postou-se pois diante dele, e começou a elogiar seu tamanho e sua beleza, dizendo que nenhum outro pássaro merecia mais que ele ser rei, e que isso certamente aconteceria se ele tivesse um pouco de voz. O corvo, querendo provar-lhe que também tinha voz, abriu o bico deixando cair a carne e pôs-se a crocitar com toda sua força. A raposa correu, apanhou a carne e disse:  “Ó  corvo, se tu tivesses também inteligência, nada lhe faltaria para seres rei de todos os animais.

Moral: a fábula se aplica ao homem tolo.


O AVARENTO

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Após ter convertido toda a sua fortuna em ouro, fez dela um lingote e o enterrou próximo à muralha, junto com seu coração. Todos os dias ele ia contemplar o seu tesouro. Mas um trabalhador dos arredores que observara suas idas e vindas e percebera o que acontecia, esperou sua partida e roubou o lingote. Quando o avarento voltou e deparou com o buraco vazio, desabou em lágrimas e começou a arrancar os cabelos. Um transeunte, ao ver tamanha aflição, perguntou-lhe a causa e , em seguida, lhe disse: ” Não te desesperes dessa f0rma, meu amigo; pegue uma pedra, coloque-a no lugar do lingote e imagina que é o teu ouro. Pois mesmo quando ainda o tinhas, tu na verdade não o possuías, pois dele não fazias uso.

Moral: A posse não é nada se não se aproveita dela.


O GATO, O GALO E O RATINHO

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Um ratinho vivia em um buraco com sua mãe. Depois de sair sozinho pela primeira vez, falou para ela:

– Mãe,  você não imagina os bichos estranhos que encontrei! Um era belo e delicado, tinha um pelo muito macio e um rabo elegante, um rabo que se movia formando ondas. O outro era um monstro horrível. No alto da cabeça e debaixo do queixo ele tinha pedaços de carne crua, que balançavam quando ele andava.  Subitamente os lados do corpo dele se sacudiram e ele deu um grito apavorante. Fiquei com tanto medo que fugi correndo, na hora em que ia conversar um pouco com o mais simpático.

– Ah, meu filho! – respondeu a mãe. – Esse seu monstro era uma ave inofensiva; o outro era um gato feroz, que em um segundo teria te devorado.

Moral: Jamais confie nas aparências.

Karina

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Frase da Semana (06/09 a 12/09)

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Os poderosos podem matar uma, duas ou até três rosas, mas jamais poderão deter a primavera.” (Ernesto Che Guevara)

Telma

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