Archive for outubro, 2008

Leia Vinicius de Moraes para seus filhos

A obra do mestre Vinicius de Moraes, por nós sempre lembrada, é uma fonte inesgotável de delícias, para adultos e para crianças.

Atendendo a pedidos, dedicamos mais um post aos poemas infantis do “poetinha”, recomendando aos papais e mamães que leiam para seus filhos, iniciando-os no bom caminho da literatura. Apresentar Vinicus de Moraes às crianças é quase uma obrigação, tamanha a importância e magnitude de suas criações na seara infantil.

Assim, reproduzimos abaixo mais algumas maravilhas de Vinicius dedicadas aos pequenos. Podem esperar por mais em breve, caros leitores

 

NATAL

De repente o sol raiou

E o galo cocoricou:

 – Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido

Soltou um longo mugido:

 – Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido

Ligeiro diz o cordeiro:

 – Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro

Se ouve a risada do burro:

 – Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira

Pôs-se a falar: – É mentira!

Os bichos de pena, em bando

Reclamaram, protestando.

O pombal todo arrulhava:

 – Cruz credo! Cruz credo!

Brava a arara a gritar começa:

 – Mentira? Arara. Ora essa!

 – Cristo nasceu! canta o galo.

 – Aonde? pergunta o boi.

 – Num estábulo! – o cavalo

Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:

 – Em Belém – Mé! Em Belém

E os bichos todos pegaram

O papagaio caturra

E de raiva lhe aplicaram

Uma grandíssima surra”.

 

A CACHORRINHA

Mas que amor de cachorrinha!

Mas que amor de cachorrinha!

Pode haver coisa no mundo

Mais branca, mais bonitinha

Do que a tua barriguinha

Crivada de mamiquinha?

Pode haver coisa no mundo

Mais travessa, mais tontinha

Que esse amor de cachorrinha

Quando vem fazer festinha

Remexendo a traseirinha?”

 

“O GATO

Com um lindo salto

Lesto e seguro

O gato passa

Do chão ao muro

Logo mudando

De opinião

Passa de novo

Do muro ao chão

E pega corre

Bem de mansinho

Atrás de um pobre

De um passarinho

Súbito, pára

Como assombrado

Depois dispara

Pula de lado

E quando tudo se lhe fatiga

Toma o seu banho

Passando a língua

Pela barriga”.

 

Telma

Anúncios

Leave a comment »

Amigo Fiel

O emocionante poema abaixo é para quem ama os animais e já experimentou a lealdade incondicional que eles são capazes de nos oferecer.

Belo e triste. Confiram:

História d’um cão:

“Eu tive um cão. Chamava-se Veludo,
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve no mundo.

Recebi-o das mãos d’um camarada,
Na hora da partida. O cão gemendo,
Não me queria acompanhar por nada,
Enfim – mau grado seu – o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o … o sol nas ondas se abismava…
“Adeus ” – me disse – , e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.

“Trata-o bem. Verás como rasteiro,
Te indicará os mais sutis perigos,
Adeus! E que este amigo verdadeiro,
Te console no mundo ermo de amigos.”

Veludo a custo habituou-se à vida,
Que o destino de novo lhe escolhera,
Sua rugosa pálpebra sentida,
Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitando,
A sua cauda – caminhava errante,
À luz da lua – tristemente uivando.

Toussenel, Figuier e a lista imensa,
Dos modernos zoológicos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.

Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo,
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! Era um artigo.

Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-se importantes
Notícias do Brasil e de la Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:

Gabava o “stemer ” que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais – todas francesas.

Assombrava-se muito da ligeira,
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso duma passageira…
Mil cousas mais de que não me recordo.

Finalmente, por baixo disso tudo,
Em nota bene do melhor cursivo,
Recomendava o pobre do Veludo,
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento,
Me contemplava, e – creia que é verdade –
Vi, comovido, vi nesse momento,
Seus olhos gotejarem de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso,
Movendo a cauda – e adormeceu contente,
Farto d’um puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia,
Vi-me livre daquele companheiro,
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.

E respirei! “Graças a Deus! Já posso”
Dizia eu viver neste bom mundo,
Sem ter que dar diariamente um osso,
A um bicho vil, a um feio cão imundo.”

Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que à minha porta aguém batia:
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda casa satisfeito,
E – de cansado – foi rolar dormindo,
Como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável,
Suportar esse hóspede inoportuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo,
Para livrar-me desse cão leproso,
Havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos,
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos…
De instante a instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo; ele seguiu-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o tôrvo pensamento:
Peguei num remo – e com furor remamos.

Veludo à proa olhava-me choroso
Como um cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremesei-o às ondas de repente…
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.

Voltei a terra – entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão, profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.

Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei – oh, grande dor! – haver perdido
Uma reliquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: – eu tinha -o unido.

Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caíra além no mar profundo,
No eterno abismo que devorava tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah ! se Veludo

Duas vidas tivera – duas vidas
Eu arrancava àquela besta morta
E àquelas vis entranhas corrompidas.
Nisto senti uivar à minha porta.

Corri – abri… Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés -, e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.

Fora crível, oh Deus? – Ajoelhado
Junto do cão – estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o ! Estava morto.”

O poema foi escrito por Luiz Guimarães. Sem comentários. Apenas retribua o amor que seu bicho lhe dá.

Karina

Comments (5) »

O apaixonado Vinicius

Não é à toa que Vinicius de Moraes foi descrito por seu biógrafo – José Castello – como o poeta da paixão e que Drummond disse que ele é “o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão”.

Vinicius soube, como ninguém, falar de amor, de paixão e de sentimento em suas inúmeras poesias e canções. E encantou o mundo.

Foi um eterno apaixonado pelas mulheres. São diversos os poemas dedicados a elas. Casou-se nove vezes e segundo suas próprias palavras casaria quantas fossem necessárias…

Será que há quem resista ao charme do “poetinha”? Nós do blog definitavamente não!

Confiram:

São demais os perigos desta vida

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.”

 (…)

A Ausente:

“Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro…
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar…”

(…)

Poema dos Olhos da Amada

 “Ó, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus…

Ó, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…

Ó, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.”

Karina

Leave a comment »

Inspire-se com Pablo Neruda

  Que o poeta chileno Pablo Neruda, merecidíssimo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971, foi um dos maiores nomes da literatura mundial é algo indiscutível. Ele foi um poeta ímpar, à frente de seu tempo.

A morte de Pablo em 1973 deixou uma lacuna no mundo literário que jamais será preenchida. Sorte que o indescritível poeta nos legou um sem-número de escritos e poesias, para consolar-nos da falta que ele faz.

Além dos escritos de cunho político e social e poesias engajadas na causa da liberdade, suas poesias românticas  também são muito famosas, sendo certo que a musa inspiradora do gênio era sua amada Matilde.

Abaixo, transcrevemos um desses sonetos românticos de autoria de Neruda, cujo romantismo e originalidade encantam qualquer apaixonado. Soneto incomparável:

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio

ou flecha de cravos que propagam o fogo:

te amo como se amam certas coisas obscuras,

secretamente, entre a sombra e a alma.

 

Te amo como a planta que não floresce e leva

dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,

e graças a teu amor vive escuro em meu corpo

o apertado aroma que ascendeu da terra.

 

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,

te amo diretamente sem problemas nem orgulho:

assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

 

senão assim deste modo em que não sou nem és

tão perto que tua mão sobre meu peito é minha

tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho“.

 

Telma

Comments (1) »

Machado de Assis e sua Carolina

Já falamos aqui que o genial Machado de Assis foi casado durante 35 anos com D. Carolina Augusta Xavier de Novais, uma portuguesa culta que apresentou o escritor aos grandes clássicos portugueses.

A união de Machado de Assis com Carolina foi duradoura e feliz, porém sem filhos.

Pois é. O que parece, ao lermos a obra de Machado é que o grande mestre da literatura brasileira, com suas ironias, sarcasmo e agudo realismo, não era dado ao sentimentalismo.

Mas as aparências enganam. O gênio tinha coração, claro! Carolina foi o amor da vida de Machado de Assis e sua morte, em 1904, foi uma grande perda para o escritor, que em homenagem à falecida esposa escreveu o belíssimo soneto que reproduzimos abaixo.

A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos
“.

 Karina

Leave a comment »

Sensibilidade de Pablo Neruda

Abaixo belíssimo poema de Neruda, um dos meus prediletos:

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram vôo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.”

 Pablo Neruda é o pseudônimo adotado por Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto, nascido em 12 de julho de 1904 em Parral, povoado da zona central do Chile e falecido em 23 de setembro de 1973.

Desde cedo, Neruda participou de movimentos políticos estudantis, o que o levou a seguir carreira diplomática. Muitas de suas poesias abordavam temas líricos como o amor, a mulher amada etc e outras tinham cunho político, tendo em vista sua ativa participação na política. Fez muitos versos com características épicas também.

Em decorrência de sua atuação na política foi nomeado senador e teve muitos inimigos, chegando mesmo a ser exilado na Europa em razão de seus discursos inflamados contra o governo.

Neruda foi um dos maiores poetas chilenos contemporâneos e influenciou muitos escritores. Em 1971 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, além do Prêmio Nobel da Paz. Sua obra é vasta e merece ser lida e relida.

Karina

Leave a comment »

Linda poesia de Adélia Fonseca

 

Adélia Fonseca nasceu em 1827. Foi escritora, intelectual e sonhadora. Faleceu em 1920. Produziu vasta obra em poesia e a sensibilidade feminina corria em suas veias. Seu traço romântico pode ser apreciado na belíssima poesia abaixo:

Ao meu coração:

“Por que estás tão apressado,
coração, a palpitar?
Queres, deixando meu peito,
por esses ares voar?
Queres do meu pensamento
a carreira acompanhar?

Queres, mísero insensato,
este desejo cumprir?
Intentas da fantasia
Os amplos vôos seguir?
Buscar, vencendo a distância,
tua saudade extinguir?

Esta saudade tão funda,
tão viva, tão pertinaz,
que te faz tão desgraçado,
que tão ditoso te faz?
Que tanto te amargura às vezes
que às vezes tanto te apraz?

Pretendes tu, pobre louco,
tuas dores aumentar?
Desejas ao lado – d ‘ Ele –
de martírios te fartar?
Queres nos olhos que adoras,
mais desenganos buscar?
(…)

Deixa ir só meu pensamento
de seus vôos na amplidão;
quem sabe ao lado d ‘ outra
o acharás, coração?
Morre embora de saudade;
porém, de ciúme… não!”

Telma

Comments (3) »

Indicação de Livro

Hoje vamos indicar um livro da fase realista/naturalista da literatura brasileira: O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo, nasceu em 14 de abril de 1857, em São Luís do Maranhão. Mas foi no Rio de Janeiro que iniciou a carreira de escritor. Segundo o próprio autor, seus romances alternavam-se em romances românticos, que classificava como “comerciais”, isto é de consumo e os romances naturalistas, que chamava de “artísticos”.

O Cortiço pertence ao grupo dos romances artísticos e é uma de suas maiores obras. Nele se vê a constante preocupação com as questões sociais, a crítica ao capitalismo selvagem, ao conservadorismo e ao clero e a valorização dos instintos naturais. O autor frequentemente compara os personagens a animais, caracteristica típica do Naturalismo. A supervalorização do sexo, também está presente na obra: Aluísio Azevedo explora várias formas de sexualidade e o sexo aparece no livro muitas vezes como forma de degradação moral.

O livro narra a vida de moradores de uma habitação coletiva miserável. Aluísio Azevedo analisa de modo objetivo e extremamente realista diversos tipos humanos. O homem é mostrado de forma crua, com todos os seus vícios e defeitos mais sórdidos.

O traço mais marcante da obra é a constatação de que o homem é produto do meio em que vive.  A vida dos personagens do livro se entrelaça e o Cortiço – meio em que vivem – é o núcleo gerador de todos os acontecimentos e modificações ocorridas com os seus integrantes. O próprio cortiço, na verdade, é o protagonista do livro, ele fervilha e produz os tipos humanos que lá se encontram.

 O Cortiço é sem dúvida uma obra imperdível. O retrato dos tipos humanos, as diversas intrigas, a descrição do ambiente e o irônico desfecho do livro justificam a sua classificação pelos estudiosos como verdadeira obra-prima.

A seguir alguns trechos do livro para animar a ler quem ainda não o leu e incentivar a ler novamente quem já o leu:

 “Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre
e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”

“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”

“Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de cobra.”

“E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. (…) Leonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido”.

“Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente seu ninho exposto”.

“Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati, ” pra cortar a friagem.”
Uma transformação lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se de seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar de que guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor…”

“Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita […] tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante.”

  Boa leitura.

Karina

Comments (1) »

Sábio Confúcio!

Confúcio foi um consagrado pensador chinês, nascido em meados do longínquo século VI, cujas máximas são aplicáveis desde que o mundo é mundo e até os dias atuais. Ele doutrinava especialmente sobre moral, política e educação e sua sabedoria e senso de realidade são impressionantes.

 Abaixo, postamos três pensamentos seus, dignos de muita reflexão: um sobre o poder da persistência, outro sobre a dedicação ao conhecimento e, por fim, um sobre a escolha da profissão:

“Transportai um punhado de terra todos os dias e, logo, terás uma montanha”.

“Aplica-te ao estudo como se jamais fosses capaz de aprender e tal como se temesses perder o já sabido”.

“Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”.

Telma

Leave a comment »

“Carpe Diem”

Ninguém te fará reviver os anos, ninguém te devolverá a ti mesmo. Da mesma forma, teu tempo de vida decorrerá conforme começou, sem retraçar seu curso e sem se deter; não fará alarde, e não te lembrará que passa depressa. Fluirá simplesmente em silêncio.” (Sêneca)

Lendo essa bela e verdadeira frase escrita pelo sábio filósofo Sêneca, nos damos conta de que o tempo flui rapidamente e de que a vida se resume em breves momentos.

Carpe diem quer dizer “colha o dia”, “aproveite o dia”. A expressão foi imortalizada pelo grande poeta romano Horácio (do século XVIII) que, ao contemplar o fluir de um rio, escreveu a “Ode I, 11, 8”. Na composição de Horácio, a essência da expressão é no sentido de que o homem não perca tempo e aproveite as oportunidades no momento em que elas aparecem.
Assim, viva o agora. Deixe um pouco as preocupações excessivas com o futuro de lado. A vida passa rápido, as horas são fugazes e o tempo é inexorável.

Carpe Diem, portanto!

Karina

Comments (1) »