Posts tagged crônica

Um sonho, por Rubem Alves

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Não posso escrever sobre outra coisa. E não devia escrever nada hoje. Penso um instante no que sentirão os leitores: essa coisa que me emociona de maneira tão profunda, o sonho que, ainda me dói no corpo e na alma, será para eles uma vitória vulgar; pior ainda, precisarei escrever com muito cuidado, para que esse instante de infinita pureza que eu vivi não pareça, a outrem, apenas um pequeno trecho de literatura barata.

Na verdade não houve nem mesmo um beijo, ou, se houve, ele perdeu qualquer sentido, para ficar apenas dentro de mim essa impressão de doçura profunda e perfeita de felicidade. Aquela mulher estava nua. E escrevendo “mulher nua” no jornal, como soa a escândalo! Seria preciso escrever com uma grande delicadeza para fazer sentir como eu senti naquele momento: beleza, pureza – alguma coisa tão limpa e tão suave, além de qualquer desejo, apenas o sentimento da vida mansa daquela pele de um dourado pálido.

Além dos nossos sentidos há um outro – mas não estou falando de coisas espirituais, eu estou falando de sentimentos vividos em um instante em que não há diferença entre coisas materiais e espirituais. Se as linhas de seu corpo ainda existiam, eram como uma vaga lembrança, um desenho imaterial suspenso no ar. O que me emocionava era a carne, como se eu vivesse a vida de seus tecidos, a sua doce vida perante o ar – leve como um sussurro de ramos longe, como um ruflar de ave imponderável, um murmúrio perdido na distancia. E seu corpo era tão belo que senti um aperto na garganta, e os olhos úmidos.

Perdido! Eu lutava confusamente para não despertar de todo, pois sabia que então estaria perdido para sempre esse corpo feito de carne e sonho. Uma angústia se apossou de mim, a claridade da janela me feria os olhos, afundei a cabeça no leito para salvar essa visão de vinte anos antes.

E ainda o revi por um instante, como se estivesse sumindo em uma luz dourada, e na luz se perdendo, voltando a ser apenas luz.

Desperto. Penso um instante nessa mulher de quem há tantos anos não tenho notícia nem quase lembrança, essa que foi perfeita na dignidade e na pureza de sua nudez – e que hoje ainda não sei em que cidade ou país, não sei ao lado de quem – nem sei mesmo se ainda vive. Sua pessoa, sua risada, sua amargura, e o som de sua voz, tudo se perdeu em mim. Mas por um instante viveu, no meu sonho, aquele esplendor suave de uma nudez, que eu guardara tão quietamente no fundo de minha emoção como se quisesse proteger de todo o lirismo e de toda a sensualidade o momento melhor de minha vida.

 

Karina

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O Imponderável, por Fabrício Carpinejar

“O Imponderável”

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Ele não tem amigos. Não tem família. É solitário e ajuda para o bem ou para o mal.

Nunca sei o que pode ocorrer, por mais que tenha antecipado situações.

Já me acostumei com a visita do Imponderável em minha vida.

Ele entra sem permissão, sem licença e muda a ordem dos acontecimentos.

 

Tenho certeza que você também conhece. Ele não deixa nenhum lar desassistido. Não compra ingressos, não paga estacionamento. Para qualquer evento, usa carteiraço. Entra em casamento, em velório, em aniversário com a maior cara de pau.

Quando treinamos a realidade, não programamos a sua presença indiscutível.

É ele que manda e decide. Somos coadjuvantes de seus repentes. Você teve
que lidar com sua invasão fantasmagórica no vestibular quando se sentia afiado
e surgiu o branco, no momento de atravessar uma festa para chamar uma colega para dançar e alguém se antecipa.

O Imponderável tem preferência por quem se prepara antes para algum teste emocional. Sua diversão é destruir nossos roteiros e planejamentos, mostrar que não somos onipotentes, que não tem como cantar vitória no primeiro tempo.

É uma criança grande e desengonçada, com humor sarcástico de um velho ranzinza.

Ele não tem amigos. Não tem família. É solitário e ajuda para o bem ou para o mal.

É como uma versão ateísta do Espírito Santo.

Vou me separar, peço a bênção aos meus amigos, memorizo o que direi, o tom, o encadeamento das explicações, me sinto pronto e indestrutível, mas quando me encontro com a esposa, vem também o Imponderável. Ela está cheirosa, linda, suave, nada raivosa como nos últimos dias, e cedo aos encantos de sua doçura, fico subitamente excitado e acabo me reconciliando de novo.

Vou pedir uma mulher em namoro, depois de dois meses de saídas e flertes. Compro um par de brincos, ensaio o discurso, escolho o restaurante, encaminho champanhe ao gelo, tudo perfeito, até que o Imponderável aparece e ela esbarra em seu ex antes de sentar e eles se abraçam de um jeito sensual e duvidoso que amarga os meus planos. Não digo nada do que sinto e nunca mais nos revemos.

Vou participar de uma entrevista de emprego, é meu grande momento profissional, nasci para fazer aquilo, fui aprovado com alta nota no teste de conhecimentos gerais, agora é questão de um detalhe, só não responder nenhuma doideira e se revelar minimamente equilibrado. Mas, ao entrar na sala do RH, o Imponderável caminha ao meu lado. O entrevistador é um colega da infância, o Bola, meu alvo predileto de bullying.

O Imponderável nos devolve à humildade.

Um amigo morre precocemente. Um divórcio é deflagrado na mais alta alegria. Uma reconciliação entre inimigos mortais é sacramentada do acaso. Tudo tem o dedo do Imponderável. O impossível se transforma em possível, e o possível se torna um fracasso.

O que nos resta é perceber que a vida é muito curta para ter razão, mas vale é ter amor e perder a razão. Aquele que ama improvisa.

(Fabrício Carpinejar, Jornal Zero Hora, 11/02/2014)

 

Fabrício Carpinejar é escritor e poeta, nascido em Caxias do Sul/RS em 23/10/1972. Desde maio de 2011 mantém no Jornal Zero Hora a coluna antes ocupada por Moacyr Scliar. Possui vários livros publicados.

 

Karina

 

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Marina Colasanti – Eu sei, mas não devia.

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Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09)

Marina Colasanti nasceu em 1937 na Etiópia e vive atualmente no Brasil. Ganhadora de vários prêmios literários importantes, conquistou em 2014 mais um prêmio Jabuti de literatura infantil com o livro Breve História de um Pequeno Amor ( Editora FTD).

Karina

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A pipoca, por Rubem Alves

A PIPOCA

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A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida…). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do candomblé…

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista do tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa – voltar a ser crianças!

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosas. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. “Morre e transforma-te!” – dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perde-la-á.” A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira…

(Rubem Alves, no Correio Popular, 29/08/1999)

 

Karina

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A complicada arte de ver, por Rubem Alves

A complicada arte de ver

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Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Karina

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Por não estarem distraídos

Por Não Estarem Distraídos

 

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

 

(Clarice Lispector)

 

 

Karina

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Literatura infanto-juvenil

Muitas crianças e adolescentes têm acessado o blog à procura de textos e poemas. E nós ficamos muito felizes porque são eles quem farão o dia de amanhã.

Assim, trazemos uma bela crônica de Cecília Meireles para o público infanto-juvenil:

A sereiazinha

Em Copenhague, no lugar preferido pelo povo para os seus passeios, existia uma figura de bronze, obra do escultor Eriksen, representando uma pequena sereia pousada num rochedo. Com uma das mãos apoiada na pedra e a outra abandonada no regaço, ela contemplava, na sua casta nudez, este mundo incrível dos homens. Por trás dela perfilavam-se belos navios brancos e armações de altos guindastes. Ela estava ali, entre o céu, a terra e o mar e era uma das mais delicadas expressões de amor que se podia ter oferecido àquele gênio da bondade que se chamou Hans Christian Andersen, cujas histórias causaram a felicidade de milhões de crianças que as ouviram, no mundo inteiro, e certamente a dos adultos que as contaram.

A sereiazinha vivia no fundo do mar, no palácio do rei seu pai, em companhia de suas irmãs e de sua avó. Quando as pequenas sereias chegavam aos quinze anos, tinham permissão para subir à tona da água e contemplar o mundo dos homens. As irmãs não se encontraram muito com esse mundo; mas a sereiazinha caçula aprendeu com a sua avó que as sereias duram apenas três séculos e, ao morrer, tornam-se em espuma, enquanto que os seres humanos possuem uma alma imortal. A sereiazinha desejou possuir também uma alma assim. Mas era difícil; segundo o que lhe contara a avó, para possuir uma alma imortal, que um homem a amasse mais que aos seus próprios pais e, naturalmente, a desposasse. (Eu estou contando isto pelo prazer que me dá relembrar a linda história, mas na certeza que todos os leitores a conhecem.)

Então a sereiazinha salva um príncipe de um naufrágio, e, para vir a encontrá-lo, mais tarde, no seu palácio, pede à feiticeira do mar que lhe transforme a cauda em pés humanos, pagando pelo serviço com a sua voz, e resignando-se à mudez.

No palácio, todos a acham linda. Mas que pode ela fazer, se não fala? O príncipe trata-a com uma delicada ternura de amigo; mas está noivo e em breve se casará… Oh! A sereiazinha não conseguirá possuir uma alma imortal! E também já não poderá voltar ao palácio submarino, não tornará à sua vida antiga: morrerá de um raio de sol e se transformará em simples espuma. A não ser que, segundo lhe vêm explicar as irmãs, que circundam o navio do príncipe, tenha a coragem de matá-lo, antes do amanhecer. Com o seu sangue tornará a adquirir sua cauda de sereia, não morrerá com o primeiro raio de sol, voltará para a sua família (Sem a alma imortal, é certo, mas com cerca de trezentos anos de vida …)

Como todos sabem, a sereiazinha não foi capaz de matar seu belo príncipe: aproximou-se do leito onde ele dormia, murmurando em sonho o nome da noiva, deu-lhe um beijo na testa, atirou a faca ao mar, lançou-se também às ondas e notou como a sua forma se dissolvia em espuma. Não sentiu, porém, que morria. Percebeu uma infinidade de formas aéreas, esvoaçantes, e essas formas falaram com ela, disseram-lhe que se as sereias, para possuírem uma alma imortal, precisavam de um amor humano, elas, filhas do ar, conquistavam uma alma imortal com seu próprio esforço, praticando o bem, protegendo a terra e os homens, sem dependerem desse amor que a sereiazinha em vão tentara merecer. E a sereiazinha pela primeira vez sentiu lágrimas nos olhos, e partiu pelo céu, com as filhas do ar, procurando alcançar a imortalidade pelas boas obras, talvez em menos de trezentos anos.

Sensíveis à maravilhosa invenção de Andersen, os dinamarqueses levantaram numa pedra esse monumento à sereiazinha: a menina vinda dos profundos abismos do mar desejosa de deixar a sua condição de sereia para possuir a alma eterna, e conseguindo, pela sua perfeita bondade, elevar-se a espírito dos ares, conquistando essa alma pelas boas ações.

Pois neste triste mundo dos homens, onde sofre a alma imortal, veio alguém e degolou agora a sereiazinha de bronze ! Por quê ? Por amor? Para ter em sua casa o suave rosto, de sereno perfil, de delicadas madeixas? Por ódio àquela que sofreu tanto para possuir a alma imortal? Ou por simples vadiação, pelo gosto de destruir, pelo mórbido prazer de desfazer o que os outros fizeram com ternura? Hans Christian Andersen, o gênio da bondade, teria enxugado uma lágrima nos seus olhos repletos de carinho mesmo pelos que outrora não o entendiam. Mas, não, embora degolada, a sereiazinha não morreu; há um século que sua figura invisível paira pelo céu, distribuindo benefícios pela humanidade. Tanta alegria tem dado a tanta gente que já conseguiu alcançar aquela alma imortal que pretendia.

 

 (Crônicas de viagem – Editora Nova Fronteira)

Karina

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Clarice Lispector

Clarice Lispector, profunda conhecedora do ser humano, não poderia ficar de fora da homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Ela consegue traduzir sentimentos em palavras de maneira ímpar. A seguir, mais três micro crônicas extraídas do genial título “A Descoberta do Mundo”. Clarice é um exemplo eterno da mulher enquanto ser pensante. Apreciem!

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“Em busca do outro

Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei ardentemente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido o Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.”

“A Proteção Pungente

Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava a ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietá, a mãe do homem.”

“Dez anos

 – Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos.

Pausa, tristeza.

 – Mamãe, minha alma não tem dez anos.

 – Quanto tem?

 – Acho que só uns oito.

 – Não faz mal, é assim mesmo.

 – Mas eu acho que se deviam contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com 20 anos de alma. E o cara tinha morrido era com 70 anos de corpo.

Mais tarde começou a cantar, interrompeu-se e disse:

 – Estou cantando em minha homenagem. Mas, mamãe, eu não aproveitei bem meus dez anos de vida.

 – Aproveitou muito bem.

 – Não, não quero dizer aproveitar fazendo coisas, fazendo isso e fazendo aquilo. Quero dizer que não fui contente o suficiente. O que é? Você ficou triste?

 – Não. Vem cá para eu te beijar.

 – Viu? Eu não disse que você ficou triste?! Viu quantas vezes me beijou? Quando uma pessoa beija tanto a outra é porque está triste.”

Telma

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O fim do mundo

Nunca se falou tanto sobre o fim do mundo. Previsões de “profetas”, astrólogos e milhares de boatos e teorias povoam as páginas da internet. Se o mundo vai ou não acabar em 2012, não se sabe. Vale, então, ler essa crônica de Cecília Meireles sobre o tema para refletir sobre nossas ações e atitudes.

 

O fim do mundo

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos – além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus – dono de todos os mundos – que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos – segundo leio – que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos – insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês…

(Cecília Meireles)

 

Karina

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Um caso de amor

Um caso de amor

Amor dá muito por aí. Dessa qualidade é que não. Amor que dura, que resiste, que desafia, risonho, contente dele mesmo, todos os obstáculos, o maior deles do cotidiano, do avesso sem graça da vida. Felizes? Onde é que existe isso? Infelizes, que a vida é mais disso.

História que assisti, por acaso, venho acompanhando desde a adolescência, que reencontro, pelas esquinas da vida, meio assustada de que continue durando, apesar de tantos e tamanhos pesares, Ele era feioso, doente, pobre. Filho de pais separados, jogado em orfanato, colégio grátis, ao acaso dos pedidos da mãe, sem recursos, valente como ninguém. Conheceu o gosto das “solitárias” de colégio, aluno gratuito, mal alimentado, triste. Acabou fraco do peito, como se dizia naquele tempo. Foi parar numa estação de cura nem sei como. Onde conheceu – parece fita de cinema! – a moça mais bonita do lugar. Uma deusa moça, de riso branco e alegre, alta, forte, rica. Nenhum dos dois teve nunca outro namorado. A família dela achou uma loucura. Era. Que futuro havia naquilo? Nenhum. Mandou-a estudar na Alemanha. Contei que eram de lá? Aquela Valquíria soberba se apaixonar pelo brasileirinho doentio, pobre e infeliz! Dois anos de Universidade em Munique, com muito esporte, dinheiro e passeios, dariam cabo no capricho. Não deram. Voltou, a carta de maioridade na mão, dizendo que sabia muito bem o que fazer com o seu nariz meio arrebitado e voluntarioso. Ele ficara aqui brigando com a vida, com os micróbios que lhe corriam o peito, estudando, trabalhando como podia. Casaram, que ela queria cuidar dele. Cuidou. Deu-lhe um par de filhos fortes, alegres, o viço dela, a inteligência, a valentia, a força escondida que ele trazia dentro do peito maltratado. Ela o contagiou da sua saúde, da sua beleza serena, da sua confiança alegre na vida. Ele esqueceu a infância ruim, a pobreza, a doença. Tinham um velho carro, duas crianças novas, foram armando a tenda aqui e ali, ao acaso da sua vida de professor. Onde armassem a barraca era bom vê-los, na vida que veio vindo. A ternura igual, contentes um do outro, a voz mansa, os gestos parecidos, engraçados, cheios de casos, fortes de terem vencido tantos obstáculos assim juntos, tranquilos,  de mãos dadas. Ela sempre bonita, um bonito de árvore, de planta viçosa de curva de rio que o olhar descobre de repente. Um bonito que faz bem. Ele sarou, foi conhecer o gosto da vida que a infância lhe tinha negado, praia, sol, banho de mar, manhã de pescaria, sono de sesta, na rede, quando o vento traz do fundo da casa um cheiro morno de pomar.

Passo anos sem vê-los. Quando os vejo de novo, sempre juntos, o seu bem-querer calado parece que cresceu, dentro da terra, em que fortes raízes deram flor e sombra, fruto e calor. Agradeço, sem palavras, que continuem assim. Estão olhando vitrinas, preparando uma viagem, fazendo fila no açougue, comprando entrada de cinema ou sapatos para as crianças. Que crianças? As crianças já ficaram moços.

Foram felizes? Não sei, que a vida não é muito disso. Reveses, fracassos, trambolhões. Uma moléstia a mais pegou-o de jeito uns anos atrás. Jogou-o, quase entrevado, numa cadeira de rodas. Só pretexto para que ela pudesse servi-lo melhor, que amar também é servir, substituir-lhe as pernas que fraquejavam, os gestos desajeitados, a velha melancolia de menino enjeitado pela vida que, de vez em quando, ainda o mordia, do fundo da felicidade serena que ela lhe dera.

Vi-os de novo, num desses dias. Era um aniversário qualquer. Ela me acompanhou até a porta, amor, doçura, sofrida bondade transbordando dos olhos claros.

– Sabe que eu adoro ele? Foi a melhor coisa que a vida me deu. Não sei o que seria de mim sem ele.

Deve ser um caso de amor.

(Elsie Lessa in Crônicas de Amor e Desamor)

Karina

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