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Lições de Montaigne sobre o homem e os animais

Hoje, dia 04 de outubro, é comemorado o Dia do Animal.  Aproveitamos, então, para trazer novamente aos leitores do blog interessantes reflexões do grande pensador francês Michel de Montaigne.

Nos trechos a seguir Montaigne fala sobre a presunção do homem com relação aos animais.  A conclusão cada um pode tirar por si próprio. Vejam:

“A presunção é nossa doença natural e original. A mais calamitosa e frágil de todas as criaturas é o homem, e ao mesmo tempo a mais orgulhosa. Ele se sente e se vê instalado aqui, em meio ao lodo e ao esterco do mundo, amarrado e pregado à parte pior, mais morta e infecta do universo, no pavimento mais baixo da casa e mais afastado da abóbada celeste, com os animais da pior das três condições; e pela imaginação vai se implantando acima do círculo da lua e trazendo o céu para baixo de seus pés. E por vaidade dessa imaginação que ele se iguala a Deus, que se atribui as características divinas, que seleciona a si mesmo e se separa da multidão das outras criaturas,  divide em grupos os animais seus confrades e companheiros e distribui-lhes a porção das faculdades e de forças que bem lhe parece. Como conhece ele, por obra da inteligência, os movimentos internos e secretos dos animais? por qual comparação entre eles e nós conclui sobre a estupidez que lhes atribui?”

(…)

“Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se distrai comigo mais do que eu com ela?”

(…)

“Essa deficiência que impede a comunicação entre eles e nós, por que não será tanto nossa quanto deles? É de conjecturar a quem cabe a falha de não nos entendermos; pois não os entendemos mais do que ele a nós. Por essa mesma razão, eles podem considerar-nos estúpidos, como consideramos a eles.”

(…)

“De resto, percebemos muito claramente que entre eles existe uma comunicação plena e integral e que se compreendem mutuamente – não apenas os da mesma espécie como também de espécies diferentes.

Em um determinado latido do cão o cavalo reconhece que existe cólera; com um certo outro som seu ele não se assusta.”

(…)

“De resto, qual tipo de competência nossa não reconhecemos nos atos dos animais? Haverá sociedade governada com mais ordem, diversificada em mais cargos e serviços e mais inalteravelmente mantida que a das abelhas? Essa disposição tão ordenada de ações e funções, podemos imaginá-la se desenrolando sem raciocínio e sem previsão?”

As andorinhas, que ao voltar a primavera vemos esquadrinahrem todos os cantos de nossas casas, procuram sem discernimento e escolhem sem ponderação, entre mil lugares, o que lhes é mais cômodo para se alojarem? E na bela e admirável textura de suas construções poderiam os pássaros utilizar uma forma quadrada em vez de uma redonda, um ângulo obtuso em vez de um ângulo reto, sem conhecer-lhes as características e os efeitos? Usam ora da água ora da argila, sem pensar que a rigidez amolece ao ser umedecida? Atapetam de musgo seu palácio, ou de penugem, sem prever  que os tenros membros de seus filhotes ficarão assim em maior maciez e conforto? Protegem-se do vento chuvoso e erguem o seu abrigo no lado leste sem conhecer as diferentes características desses ventos e considerar que um lhes é mais salutar que o outro? (…) Reconhecemos suficientemente, na maioria de suas obras, quanta superioridade os animais têm sobre nós e o quanto nossa arte é fraca em imitá-los. Entretanto vemos nas nossas, mais grosseiras, as faculdades que nelas empregamos, e que nelas nossa alma se serve de todas suas forças; por que não julgamos da mesma forma as deles? por que atribuímos a não sei que inclinação natural e inferior as obras que superam tudo o que conseguimos por natureza e por arte? Nisso, sem pensarmos, lhes damos sobre nós a grande vantagem de fazer que a natureza, por uma doçura maternal, os acompanhe e guie, como pela mão, para todas as ações e facilidades de sua vida; e quanto a nós ela nos abandona ao acaso e à fortuna, e para procurarmos, por arte, as coisas necessárias à nossa preservação; e ao mesmo tempo nos recusa os meios para podermos chegar, por uma educação e tensão de espírito, à habilidade natural dos animais; de tal maneira que em todas as aptidões sua estupidez animal supera tudo o que pode nossa divina inteligência.”

(…)

“e os que possuem animais devem antes dizer que os servem e não que são servidos por estes.

E ainda eles têm de mais nobre isto: que nunca por falta de coragem um leão tornou-se servo de um outro leão, nem um cavalo de um outro cavalo.”

(…)

” Condenamos tudo o que nos parece estranho e o que não entendemos; assim também nos acontece no julgamento que fazemos sobre os animais.”

(…)

Observemos, de resto, que somos o único animal cujos defeitos chocam nossos próprios companheiros, e os únicos que temos de nos esconder dos de nossa espécie em nossos atos naturais.”

(…)

“Temos como quinhão nosso a inconstância, a irresolução, a incerteza, a dor, a superstição, a inquietação das coisas por vir (mesmo depois de nossa vida), a ambição, a avareza, o ciúme, a inveja, os apetites desregrados, loucos e indomáveis, a guerra, a mentira, a deslealdade, a difamação e a curiosidade. Por certo pagamos extraordinariamente caro essa bela razão de que nos vangloriamos e essa capacidade de julgar e conhecer, se as adquirimos à custa desse infinito de paixões a que estamos incessantemente expostos.”

(Michel de Montaigne in Os Ensaios – Livro II)

Karina

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Lições de Montaigne II

Confiram hoje palavras de Montaigne sobre o medo:

Do medo


Obstuoui, steteruntque comae, et vox faucibus haesit.

(Fiquei estupefato, meus cabelos eriçaram-se, minha voz prendeu-se na garganta. Virgílio)

Não sou bom naturalista (como se diz) e mal sei por quais mecanismos o medo age em nós; mas de qualquer maneira essa é uma estranha paixão e dizem os médicos que não há outra que mais depressa tire nosso discernimento fora de sua devida compostura. De fato, vi muitas pessoas que se tornaram insensatas de medo; mesmo nos mais serenos é indiscutível que, enquanto seu acesso dura, provoca terríveis perturbações. Deixo de lado o vulgo, a qual ela mostra ora os bisavôs saindo do túmulo, envoltos em seus sudários, ora lobisomens, duendes e quimeras. Mas, entre os próprios soldados, onde deveria encontrar menos espaço, quantas vezes transformou um rebanho de ovelhas em esquadrão de couraceiros? juncos e caniços em homens armados e lanceiros? nossos amigos em nossos inimigos? e a cruz branca na vermelha?

(…)

Ora ele nos dá asas nos pés; ora nos prega os pés e os entrava. (…)

Ele expressa sua extrema força quando para seu serviço nos impulsiona novamente para a valentia que subtraiu de nosso dever e de nossa honra. Na primeira batalha regular que os romanos perderam conta Aníbal, sob o comando do cônsul Semprônio, uma tropa de bem dez mil solados de infantaria, tomando-se de pavor e não vendo outro lugar por onde dar passagem à sua covardia, foi lançar-se em meio ao grosso dos inimigos, que atravessou com espantosa bravura, com grande mortícínio da cartagineses, comprando uma fuga vergonhosa pelo mesmo preço que teria por uma gloriosa vitória. É disso que tenho mais medo do que do próprio medo.

Ademais ele suplanta em violência todas as outras ocorrências.

(…)

Os que tiverem sido bastante maltratados em algum embate de guerra, no dia seguinte são levados de volta ao ataque, ainda feridos e ensanguentados. Mas os que tiverem concebido um grande medo do inimigo, não os faríeis sequer olhá-los de frente. Os que estão em opressivo temor de perder seus bens, de ser exilados, de ser subjugados, vivem em contínua angústia, perdendo o gosto pela comida, pela bebida e pelo descanso; ao passo que os pobres, os banidos, os servos amiúde vivem tão alegremente quanto os outros. E tantas pessoas que por não poderem suportar os aguilhões do medo enforcaram-se, afogaram-se, atiraram-se no abismo, ensinaram-nos que ele é ainda mais importuno e insuportável do que a morte.

Os gregos reconhecem uma outra espécie de medo, que não é causada por erro de nosso julgamento, surgindo, dizem eles, sem causa aparente e por impulso celeste.  Povos inteiros frequentemente se vêem tomados por ele, e exércitos inteiros. Assim foi o que levou a Cartago uma extrema aflição. Só se ouviam gritos e vozes apavoradas. Viam-se os habitantes sair de suas casas, como ante o alarme, e se atacarem, ferirem e matarem uns aos outros, como se fossem inimigos a ocupar sua cidade. Tudo nela estava em desordem e em tumulto, até que, por orações e sacrifícios, eles apaziguaram a ira dos deuses. Os gregos chamam isso de terrores pânicos.

Karina

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Lições de Montaigne

Pretendemos postar, pelo menos a cada quinze dias,  alguma lição do pensador francês Michel de Montaigne.

Os trechos, extraídos do livro Os Ensaios – Editora Martins Fontes – são de uma sabedoria singular. Confiram hoje palavras sobre a educação das crianças e de como o preceptor – hoje poderíamos chamar educador – deve se conduzir nesse mister:

Da educação das crianças


(…) Assim como na agricultura as regras que vêm antes do plantio são fixas e fáceis, e também o próprio plantio, mas depois que o que está plantado começa a tomar vida há uma grande variedade de regras e dificuldades para criá-lo, da mesma forma com os homens há pouca engenhosidade em plantá-los; mas depois que nascem sobrecarregamo-nos de um cuidado diferente, cheio de trabalhos e de temor, para formá-los e criá-los.

Nessa pouca idade a manifestação de suas inclinações é tão frágil e tão obscura, as promessas tão incertas e falsas que é difícil estabelecer sobre elas um julgamento firme.

(…) Os filhotes dos ursos, dos cães, mostram inclinação natural; mas os homens, entregando-se incontinenti a costumes, a ideias, a leis, mudam ou se disfarçam facilmente.

No entanto é difícil forçar as propensões naturais. Disso advém que, por falta de ter escolhido bem o caminho delas, frequentemente nos afainamos por nada e empregamos muito tempo em formar crianças em coisas nas quais não podem tomar pé. Entretanto, nessa dificuldade, minha opinião é a de encaminhá-las para as coisas melhores e mais proveitosas, e que pouco devemos nos empenhar nessas levianas adivinhações e prognósticos que extraímos das iniciativas de sua infância.

(…)

Não cessam de martelar em nossos ouvidos, como quem despejasse em um funil, e nossa tarefa é apenas  repetir o que nos disseram. Gostaria que ele (preceptor) corrigisse esse ponto e que já desde o início, dependendo do alcance da alma que tiver nas mãos, começasse a colocá-la na parada, fazendo-a experimentar as coisas, escolhê-las e discernir por si mesma; às vezes abrindo-lhe o caminho, às vezes deixando-a abri-lo. Não quero que ele invente e fale sozinho, quero que escute o discípulo falar por sua vez.

É bom que ele o faça trotar à sua frente para julgar-lhe a andadura, e julgar até que ponto deve conter-se para se acomodar à sua força. Por falta dessa proporção estragamos tudo; e saber escolhê-la é uma das tarefas mais árduas que conheço; e é a ação de uma alma elevada e muito forte saber condescender com seus passos infantis e guiá-los. Ando com mais segurança e mais firmeza ao subir que ao descer.

Que ele lhe peça contas não apenas das palavras de sua lição mas sim do sentido e da substância, e que julgue sobre o benefício que tiver feito não pelo testemunho de sua memória e sim pelo de sua vida. Aquilo que tiver acabado de ensinar, faça a criança colocá-lo em cem facetas e adaptar a tantos outros diversos assuntos, para ver se ela realmente o captou e incorporou (…)

É prova de crueza e de indigestão regurgitar o alimento que foi engolido. O estômago não realizou sua operação, se não fez mudar a característica e a forma do que lhe deram para digerir.

(…)

Que ele o faça passar tudo pelo crivo e nada aloje em sua cabeça por simples autoridade e confiança; (…) Que lhe proponham essa diversidade de opiniões; ele escolherá se puder; se não, permanecerá em dúvida. Seguros e convictos só os loucos.

Pois se ele abraçar as opiniões de Xenofonte e de Platão por seu próprio julgamento, não serão mais as opiniões deles, serão as suas. Quem segue um outro nada segue. Nada encontra, e até mesmo nada procura. Que ele saiba que sabe, pelo menos. É preciso que se impregne dos humores deles, não que aprenda seus preceitos. E que, se quiser, esqueça de onde os obtém, mas que saiba assimilá-los. A verdade e a razão são comuns a todos, e não pertencem a quem as disse primeiramente mais do que a quem as diz depois. Não é segundo Platão mais do que segundo eu mesmo, já que ele e eu o entendemos e vemos da mesma forma. As abelhas sugam das flores aqui e ali, mas depois fazem o mel, que é todo delas: já não é tomilho nem manjerona. Assim também são as peças emprestadas de outrem que ele irá transformar e misturar, para construir uma obra toda sua: ou seja, seu julgamento. Sua educação, seu trabalho e estudo visam tão-somente a formá-lo.

(…)

Ensina-lo-ão a só entrar em argumentação ou discussão quando encontrar um campeão digno de sua luta, e mesmo então não empregar todas as estratégias que lhe possam servir, mas apenas as que lhe possam servir mais. Que o tornem escrupuloso na escolha e triagem de suas razões, e amando a pertinência, e consequentemente a brevidade. Que o instruam principalmente a render-se e a entregar as armas à verdade, tão logo a divise, quer nasça nas mãos de seu adversário, quer nasça em si mesmo por alguma reconsideração.

(…)

Que o façam compreender que admitir o erro que descobriu em seu próprio raciocínio, ainda que seja percebido apenas por ele, é um ato de discernimento e de sinceridade, que são as principais qualidades que ele procura; que obstinar-se e contestar são características comuns, que se manifestam nas almas mais baixas; que reconsiderar e corrigir-se, abandonar no ímpeto do ardor uma opinião errônea são características raras, fortes e filosóficas.

(…)

Essa educação deve conduzir-se por uma severa doçura, e não como se faz. Em vez de incitar as crianças para as letras, não lhes apresentam, na verdade, mais do que horror e crueldade. Eliminai a violência e a força; não há nada, em minha opinião, que degenere e estupidifique tão fortemente uma alma bem nascida. Se desejais que ele tema a desonra e o castigo, não o calejeis para eles. Calejai-o para o suor e o frio, o sol  e os riscos que deve menosprezar; tirai-lhe toda a frouxidão e delicadeza no vestir e no deitar, no comer e no beber; acostumai-o a tudo.

(…)

Não há nada como alimentar o apetite e a afeição; de outra forma fazemos apenas burros carregados de livros. A golpes de chicote, dão-lhes para guardar a bolsinha cheia de ciência – a qual, para ser  eficaz, não deve somente ser guardada em casa; é preciso desposá-la.

Karina

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Frase da Semana

“Quem teme o sofrimento sofre já aquilo que teme.”

(Michel de Montaigne)

Karina

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Dia Nacional do Livro

Hoje é o Dia Nacional do Livro. Para nós, do Literatura em Conta-Gotas embora todo dia seja dia do livro e da leitura, prestaremos uma pequena homenagem a esse objeto de valor inestimável, com um texto de Montaigne:

books000 (ilustração by Quentin Blake)

“(…) A companhia dos livros é a mais segura. Não se compara às outras (de homens e de mulheres), mas apresenta a vantagem de estar sempre ao nosso alcance.

O convívio com o livro sempre me ajudou, em todas as circunstâncias; consola-me na velhice e na solidão. suaviza uma ociosidade que poderia ser aborrecida e livra-me das pessoas inoportunas; amortece, enfim, os latejos da dor quando não é demasiado aguda e é mais forte do que qualquer paliativo. Para afastar uma idéia desagradável, nada como recorrer aos livros; apossam-se de mim e fazem-me esquecê-la. Jamais se ressentem por só os procurarmos na falta de prazeres mais reais, mais vivos e naturais, que outorga a companhia dos homens e das mulheres; e sempre mostram a mesma expressão.

(…) Nunca viajo sem livros, haja paz ou haja guerra. Entretanto, passam dias e meses sem que os abra. Eu o farei daqui a pouco, digo, ou amanhã, ou quando assim decidir; e o tempo passa sem que me pese. Não posso dizer quanto me descansa o pensamento tê-los à mão. nem quanto me têm sido úteis na vida. Constituem a melhor provisão que pude obter para essa viagem que é a vida e tenho realmennte pena das pessoas inteligentes que não os possuem. E por saber que esse passatempo não me pode faltar, aceito com prazer qualquer outro.”

Michel de Montaigne, in Na companhia dos homens, das mulheres e dos livros

Michel Eyquem nasceu  em 1533, no Castelo de Montaigne, de propriedade de seu pai, na Dordonha – França. Adotou o nome da propriedade, depois da morte de seu pai.

Estudou direito e foi prefeito em Bordaux. Mas foram os seus Ensaios, publicados entre 1580 e 1588, que lhe trouxeram fama. Montaigne foi um grande pensador de sua época e e seus Ensaios, que analisam o homem em geral, são atuais e repletos de sabedoria.

Karina

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