Archive for setembro, 2012

Santo Agostinho e a morte

A Morte não é Nada

 

 

“A morte não é nada.

Eu somente passei

para o outro lado do Caminho.

 

Eu sou eu, vocês são vocês.

O que eu era para vocês,

eu continuarei sendo.

 

Me dêem o nome

que vocês sempre me deram,

falem comigo

como vocês sempre fizeram.

 

Vocês continuam vivendo

no mundo das criaturas,

eu estou vivendo

no mundo do Criador.

 

Não utilizem um tom solene

ou triste, continuem a rir

daquilo que nos fazia rir juntos.

 

Rezem, sorriam, pensem em mim.

Rezem por mim.

 

Que meu nome seja pronunciado

como sempre foi,

sem ênfase de nenhum tipo.

Sem nenhum traço de sombra

ou tristeza.

 

A vida significa tudo

o que ela sempre significou,

o fio não foi cortado.

Porque eu estaria fora

de seus pensamentos,

agora que estou apenas fora

de suas vistas?

 

Eu não estou longe,

apenas estou

do outro lado do Caminho…

 

Você que aí ficou, siga em frente,

a vida continua, linda e bela

como sempre foi.”

 

(Santo Agostinho)

 

 Aurélio Agostinho nasceu na Argélia no ano de 354 d.C. Filho de mãe seguidora do Cristianismo e de pai pagão teve influências cristãs e maquineístas, as quais sempre permaneceram em sua obra. Foi filósfo, teólogo e conta-se que sua conversão ao Cristianismo se deu após uma “revelação” divina. Nas Igrejas Católica e Anglicana é considerado santo. Faleceu em 430. d.C.

Karina

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Hilda Hist

 Trovas de muito amor para um amado senhor

 

Nave

Ave

Moinho

E tudo mais serei

Para que seja leve

Meu passo

Em vosso caminho.

 

II

 

Dizeis que tenho vaidades.

E que no vosso entender

Mulheres de pouca idade

Que não se queiram perder

 

É preciso que não tenham

Tantas e tais veleidades.

 

Senhor, se a mim me acrescento

Flores e renda, cetins,

Se solto o cabelo ao vento

É bem por vós, não por mim.

 

Tenho dois olhos contentes

E a boca fresca e rosada.

E a vaidade só consente

Vaidades, se desejada.

 

E além de vós

Não desejo nada.

 

(Hilda Hilst)

Karina

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O haver

O HAVER

 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza

Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido

Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa

Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

/

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado

De pequenos absurdos, essa capacidade

De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil

E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

/

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza

De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser

E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa

Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

/

Resta essa faculdade incoercível de sonhar

De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade

De aceitá-la tal como é, e essa visão

Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

/

E desnecessária presciência, e essa memória anterior

De mundos inexistentes, e esse heroísmo

Estático, e essa pequenina luz indecifrável

A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

/

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos

De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória

Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade

De não querer ser príncipe senão do seu reino.

/

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade

Pelo momento a vir, quando, apressada

Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante

Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

/

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto

Esse eterno levantar-se depois de cada queda

Essa busca de equilíbrio no fio da navalha

Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo

Infantil de ter pequenas coragens.

(Vinicius de Moraes – Poesia Completa e Prosa)

Karina

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