Archive for agosto, 2008

Curtas de Quintana – Parte II

Já dedicamos um post deste blog às maravilhosas idéias de Mário Quintana. Mas é bem verdade que um milhão de posts em homenagem a esse escritor não seriam suficientes para mostrar sua grandeza e criatividade ímpares.

Por isso, aí vão mais algumas passagens de sua vasta obra, para entreter e fazer pensar o leitor. Atentem para as metáforas que ele cria para explicar o mundo. Genial…

Amar é mudar a alma de casa”.

“A maior dor do vento é não ser colorido”.

“O amor é quando a gente mora um no outro”.

“A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa… e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita”.

“O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”.

“E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa”.

“Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”.

“Se eu pudesse, pegava a dor, colocava a dor dentro de um envelope e devolvia ao remetente”.

Telma

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Eça de Queirós, sempre atual.

Abaixo um texto escrito por Eça de Queirós no folheto mensal intitulado ” As Farpas” no longínquo ano de 1871, mas que continua absolutamente atual e cai como uma luva para a situação de certo país…

“Estamos perdidos há muito tempo.
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os caracteres, corrompidos.
A prática da vida tem por única direção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas, felizes, exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!

Algum opositor do actual governo? Não!”

 

José Maria Eça de Queirós, nasceu em 1845 em Portugal e foi, sem dúvida, o maior escritor realista português. Vamos falar com  mais frequência sobre Eça de Queirós neste blog e comentaremos mais sobre suas obras, que são imperdíveis.

 

Karina

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O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway

Ernest Hemingway, autor da obra-prima da literatura mundial  “O Velho e o Mar”, nasceu em Oak Park, no Estado de Illinois, nos Estados Unidos em 21 de julho de 1899.

A obra de Hemingway é, em grande parte, autobiográfica e seu estilo conciso – adquirido nos tempos em que trabalhou como jornalista – influenciou a forma de escrever no século 20.

Hemingway teve a vida marcada por grandes aventuras e agitações. Esteve presente em duas guerras mundiais, acompanhou de perto a Guerra Civil Espanhola, casou-se quatro vezes e aventurou-se em safáris pela África no fim de sua vida.

O escritor americano viveu durante 22 anos em Cuba e foi lá (em 1952) que escreveu “O Velho e o Mar”, obra que lhe valeu o Prêmio Pulitzer e que foi fundamental para que ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura.

Aos 62 anos, com muitos problemas de saúde, Hemingway se suicidou com um tiro com uma das armas que usava para caçar.

Ernest Hemingway, publicou outros livros de grande relevância para a literatura mundial, mas hoje falaremos de “O Velho e o Mar” que, na nossa opinião, foi sua obra-prima.

O “Velho e o Mar” tem como personagem central um velho pescador cubano chamado Santiago.  Santiago está há 84 dias sem fisgar nenhum peixe e, por essa razão, completamente desacreditado por seus companheiros pescadores.

A única pessoa que ainda crê nas habilidades do velho é um menino que fora seu aprendiz em algumas pescarias, mas que foi forçado pela família a deixar de acompanhá-lo.

Santiago, munido de enorme confiança e disposto a recuperar seu prestígio perante os companheiros de pescaria, segue então sozinho com seu pequeno barco para alto-mar. Lá, fisga um peixe de tamanho descomunal, que o obriga a travar, durante dias, intensa luta para conseguir capturá-lo definitivamente. Nessa batalha em mar aberto, Santiago sofre todo tipo de adversidades, desde a escassez de comida e ferimentos variados, até a incansável perseguição de tubarões. Mas o velho não se deixa abater e luta até o fim para provar o seu valor.

O livro conta a estória de um homem persistente e de inabalável confiança em si próprio, mesmo diante dos terríveis obstáculos que a vida lhe impõe.

A obra “O Velho e o Mar”, envolve o leitor nas angústias e sonhos do velho pescador de forma pungente, o fazendo quase que sentir na própria pele a dor do combate extenuante pelo qual passa Santiago.

 Enfim, o livro nos mostra de modo sublime a imensa capacidade do homem de superar as limitações.

Vale a pena ler!

Karina

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Chico Buarque em “Construção”

Não vamos nós ficar aqui fazendo comentários a respeito da vasta obra de Chico Buarque; não temos gabarito para fazer tal avaliação. Ele é um gênio, isso é fato, seja escrevendo, compondo canções ou em qualquer atividade. Tudo em que ele põe as mãos vira ouro.

Nossa proposta aqui é simplesmente trazer para o blog a letra da música Construção, composta em 1971. Acreditamos que seja a composição mais inteligente que Chico Buarque criou, talvez a maior do Brasil. Não nos cansamos de lê-la ou ouví-la e, sempre que fazemos isso, nos surpreendemos novamente com o brilhantismo da letra.

No conteúdo, Chico fala de um pobre homem que morre numa construção de obra civil, mas a letra da música é que é uma verdadeira construção de inteligência por meio da brincadeira (séria) que ele faz com as palavras. Confiram:

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado”.


Telma

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Os 20 mais!

Está acontecendo na cidade de São Paulo a 20ª Bienal Internacional do Livro. O evento que vai até o dia 24/08, está localizado no Pavilhão de Exposições do Anhembi e os ingressos custam cerca de R$ 10,00. Além das diversas atrações culturais oferecidas (leitura de histórias, palestras, brincadeiras, debates, presença de autores etc), há quase dois milhões de livros à venda, para todos os gostos e de preços variados. Portanto, para quem gosta de ler, programa imperdível!

Quem pretende ir à Bienal e não sabe bem o que comprar, trazemos hoje uma lista de livros cuja leitura acreditamos ser obrigatória e indispensável:

1- Campo Geral (Miguilim) – João Guimarães Rosa;

2 – Os Miseráveis – Victor Hugo;

3 – Fogo Morto – José Lins do Rego;

4 – Vidas Secas – Graciliano Ramos;

5 – Ensaio sobre a Cegueira – José Saramago;

6 – O Primo Basílio – Eça de Queirós;

7 – Confesso que vivi – Pablo Neruda;

8 – Olhai os lírios do campo – Érico Veríssimo;

9 – O Alienista – Machado de Assis;

10 – Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski;

11 – Dom Quixote – Miguel de Cervantes;

12 – A Divina Comédia – Dante Alighieri;

13 – O Idiota – Fiódor Dostoiévski;

14 – Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa;

15 – A Eneida – Virgílio;

16 – A Odisséia – Homero;

17 – Tieta do Agreste – Jorge Amado;

18 – O Processo – Franz Kafka;

19 –  O Cortiço – Aluísio Azevedo;

20 – O Velho e o Mar -Ernest Hemingway.

Boa leitura!

Karina

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Trecho de Fogo Morto

Caros leitores, no último post indiquei um livro maravilhoso, de leitura extremamente enriquecedora e prazerosa: Fogo Morto. 

Hoje, trago uma passagem desse livro, cujo personagem central é o Mestre José Amaro, para que vocês tenham uma idéia do quão interessante é o romance e de que realmente o autor conseguiu auscultar os sentimentos mais recônditos da alma humana:

E não falou mais. Foi para a sua rede, enjeitou a janta, e na escuridão do quarto as coisas começaram a rodar na cabeça. Não haveria um direito para ele? A terra era do senhor de engenho, e ele que se danasse, que fosse com seus cacos para o inferno. Um ódio de morte tomou-o de repente. Não sentira aquilo no momento em que o coronel lhe falara. Era um maluco, não tinha raiva dele.

Mas na escuridão, na rede que rangia nos armadores de corda, tinha raiva, tinha uma vontade de destruição, de matar, de acabar com o outro. As gargalhadas de Marta enchiam a casa. Teria uma filha na Tamarineira. O infeliz daquele negro Floripes pagaria. E, sem querer, levantou-se da rede. Abriu a janela do quarto e o céu estrelado pinicava na escuridão da noite.

Andou para a porta e pensou em sair um pouco. Lobisomem. Os meninos correram de sua figura, ouviu gente batendo porta por sua causa. Foi até a pitombeira e sentou-se em cima da raiz. O que havia nele para espantar os meninos, para meter medo aos velhos? Todo o ódio ao negro Floripes sumiu-se. Uma onda de frio passou-lhe pelo corpo. O que tinha nele para fazer medo, para fazer correr gente? Lembrou-se da noite da morte da velha Lucinda. Ligou tudo. Correram dele. Lobisomem.

 Em menino falavam dos que saíam de noite para beber sangue, matar inocentes, correr como bicho danado. E sem saber explicar, o mestre José Amaro examinou-se com pavor. O que havia no seu corpo, nos seus gestos, na sua vida? A filha endoidecera. Mas isto nada tinha que ver com a invenção do povo. Ele não saía de casa, nunca fizera mal a ninguém. E por que seria o monstro que alarmava o povo? A noite escura chiava nos insetos; ladrava um cachorro do seu Lucindo. Sinhá e a comadre conversavam. E a filha no falatório, na gargalhada, no sofrimento pior deste mundo. O mestre não encontrava apoio para fugir da preocupação. Entrou outra vez para o quarto, e não tinha paz, não estava seguro de nada., não estava seguro de nada. As ameaças do Coronel Lula, a raiva a Floripes, tudo se diluíra com aquele pavor quer lhe enchia o coração. Tinha medo e não sabia de que era. Ele fazia correr menino na estrada. Era o lobisomm do povo, o filho do diabo, encantando-se nas moitas escuras. Nunca um pensamento lhe doera tanto. Latia aquele cachorro como se estivesse acuando um bicho. Aquela hora as mulheres rezariam, estariam com a idéia no lobisomem que imaginavam com as unhas grandes, a cabeça comprida de lobo, a forma de monstro em desadoro. Corria um vento que lhe esfriava os pés. Por que seria ele para a crença do povo aquele pavor, aquele bicho? O que fizera para merecer isso? O coração batia-lhe muito forte. Não. No outro dia teria que fazer qualquer coisa para acabar com aquela história. Laurentino e Floripes pagariam. eram eles os criadores daquela miséria. A filha no outro dia sairia para o Recife. A sua casa ficaria mais só, mais cheia de tristeza.

Mesmo assim amava a sua casa. E se fosse embora e procurasse outra terra para acabar com seus dias? O coronel lhe pedira a casa. Era um bom pretexto para fugir do povo que lhe queria mal, que o via como uma desgraça, uma criatura do diabo. Estaria tudo resolvido. O mestre José Amaro encontraria um engenho no Itambé, uma terra que o acolhesse, um povo que o amasse”.

Telma

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Obra-prima de José Lins do Rego

Esse post se presta unicamente para indicar um livro incrível, do qual gostei muito e acho humanamente impossível que alguém o leia e não se apaixone.

Trata-se de “Fogo Morto”, de José Lins do Rego, publicado em 1943.

Como é de conhecimento geral, o paraibano José Lins do Rego fez parte do movimento regionalista do modernismo brasileiro.

Nesse livro, de caráter neo-realista, ele conta a história da decadência dos senhores de engenho por meio de três personagens riquíssimos, em três capítulos separados: Mestre José Amaro, um homem trabalhador, mas rancoroso e conservador, além de ser perseguido por populares que acreditam que ele é lobisomem; Coronel Lula, dono de engenho, cruel e invejoso; e Capitão Vitorino, um idealista que procura defender o engenho com unhas e dentes, demonstrando um incrível senso de justiça. 

A ação se desenvolve quase integralmente nas terras do engenho Santa-Fé e os três personagens principais se inter-relacionam na narrativa, interligando também o mundo da casa grande e o mundo da senzala, com as consequências sociais que decorrem desse relacionamento difícil.

O romance é maravilhoso. É um daqueles livros em que se vira a noite lendo, devorando com avidez cada capítulo. Isso porque,  José Lins do Rego logrou o êxito de analisar os mais complicados conflitos humanos através dos personagens centrais, porém sem ser pedante. 

A obra é profunda e ao mesmo tempo de uma simplicidade sem igual. Explora com ímpar inteligência os sentimentos da inveja, do desajuste, da revolta e da mágoa. Além disso, consegue mostrar o ciclo de mudanças sociais por que passou o nordeste brasileiro, por meio de uma lingaugem coloquial e fascinante, trazendo inclusive passagens muito engraçadas.

Tudo o que for dito aqui não será suficiente para descrever a magnitude dessa obra. É preciso lê-la, relê-la, trelê-la. É um livro imperdível, de leitura obrigatória.

Quem não leu Fogo Morto, não viveu.

Telma

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Ler: conhecimento e diversão

 

Já dissemos aqui que ler é essencial para abrir novos horizontes. Algumas pessoas, entretanto, dizem que não conseguem ter vontade de sequer abrir um livro. Será preguiça? Coisas mais interessantes para fazer? Falta de tempo?

Seja o que for, nunca é tarde para começar. E, descoberto o mundo maravilhoso contido nos livros, o vício é para sempre.

Abaixo colacionamos algumas frases e pensamentos sobre a riqueza que nos oferecem os livros:

Outro dia me perguntaram por que eu gostava tanto de ler. Vejamos.

Ler é melhor do que ir ao cinema, viajar ou usar porcarias que tiram o sujeito do sério. Ao ler você produz, dirige e estrela o filme dentro de sua cabeça; viaja sem os inconvenientes da viagem; e penetra em mundos dos quais volta mais humano e mais sábio. Nada expande mais a consciência do que um bom romance ou qualquer livro inteligente…” Ruy Castro (jornalista)

O vírus do amor ao livro é incurável, e eu procuro inocular esse vírus no maior número possível de pessoas.” José Mindlin (jornalista e escritor)

Mostre-me uma família de leitores, e lhe mostrarei o povo que dirigirá o mundo“. Napoleão Bonaparte

O país se faz com homens e livros“.

Os livros não podem mudar o mundo. As pessoas podem mudar o mundo. Os livros podem mudar as pessoas

“Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.” Monteiro Lobato

Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.” Nelson Rodrigues

Quando o homem quis ser como Deus, criador do mundo, inventou os livros que multiplicam o mundo. Graças a esse engenhoso artifício de tinta e de papel, podemos sentir tudo, de todas as maneiras, observar o universo com cem olhos, viajar no tempo, descer ao interior da terra e ao outro interior, mais remoto, de nós mesmos.” José Luís Garcia Martin (escritor espanhol)

“O cinema e a televisão criam imagens, a leitura cria imaginação” Jorge Furtado (diretor de cinema)

“O livro é uma extensão da memória e da imaginação”

“Creio que uma forma de felicidade é a leitura.”

“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.” Jorge Luis Borges (escritor argentino)

“Os verdadeiros analfabetos são aqueles que aprenderam a ler e não lêem.”

“O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.” Mário Quintana

“O mundo dos livros
É a criação mais notável do homem,
Nada que ele constrói perdura.
Os monumentos ruem,
As nações perecem,
As civilizações envelhecem e morrem
E depois de uma era de obscurantismo,
Novas raças constroem outras.
Mas no mundo dos livros, há volumes
Que viram isto acontecer repetidas vezes
E continuam vivos
E continuam novos.
Continuam tão vigorosos como no dia em que foram escritos.
Falando ainda aos corações dos vivos
Dos corações dos mortos, há séculos.”
Clarence Day  (escritor americano)

Leio e estou liberto, adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo.” Fernando Pessoa

“O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler”. Mark Twain

“Há crimes piores do que queimar livros. Um deles é não lê-los.” Joseph Brodsky (poeta russo)

“Caminhais em direção da solidão. Eu, não, eu tenho os livros.” Marguerite Duras (escritora)

  É isso aí! Vamos ler!

  Karina

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Goethe para reflexão

Johann Wolfgang von Goethe, ou simplesmente Goethe, foi um escritor alemão que produziu vasta obra literária, em especial poesias. Era um eterno pensador, sempre em busca da sabedoria.

São de sua autoria frases extremamente verdadeiras, que desnudam a alma humana e nos trazem lições que podemos levar pela vida toda.

Embora tenha falecido no longínquo ano de 1832, seus pensamentos permanecem atuais porque Goethe vislumbrava o que ia no íntimo das pessoas.

A seguir, presenteio os leitores do blog com algumas dessas frases incríveis para reflexão:

“Agarra-te ao presente. Cada situação, cada momento, possui um valor infinito, porque representa uma eternidade toda”.

“O primeiro passo para resolver um problema é admitir que você tem um problema”.

“A alegria não está nas coisas, está em nós”.

“Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira”.

“A juventude é a embriaguez sem vinho”.

“Um grande erro: crer-se mais importante do que se é e estimar-se mais do que se vale”.

“O verdadeiro é semelhante a Deus: não aparece espontaneamente, temos de o adivinhar por suas manifestações”.

 

Telma

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Para refletir – “cabeça de papelão”

O Homem da Cabeça de Papelão

João do Rio
No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!

Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.

Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrário do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.

Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.

Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os trâmites legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.

– Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.

– Mas não quero ser nada disso.

– Então quer ser vagabundo?

– Quero trabalhar.

– Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando – é vagabundo.

– Eu não acho.

– É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.

Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de ideias. Até alegre – qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!

Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:

– É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares…

O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:

– A perigosa mania de seu filho é por em prática ideias que julga próprias.

– Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?

Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.

No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.

Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.

– É doido, mas bom.

Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.

– Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal…

– É da tua má cabeça, meu filho.

– Qual?

– A tua cabeça não regula.

– Quem sabe?

Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.

– Só caso se o senhor tomar juízo.

– Mas que chama você juízo?

– Ser como os mais.

– Então você gosta de mim?

– E por isso é que só caso depois.

Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.

Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma “relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão”. Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.

– Traz algum relógio?

– Trago a minha cabeça.

– Ah! Desarranjada?

– Dizem-no, pelo menos.

– Em todo o caso, há tempo?

– Desde que nasci.

– Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem…

Antenor atalhou:

– E o senhor fica com a minha cabeça?

– Se a deixar.

– Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça…

– Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.

– Regula?

– É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.

Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porém, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.

Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República – a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.

Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.

– Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo… Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!

Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.

– Há tempos deixei aqui uma cabeça.

– Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.

– Ah! fez Antenor.

– Tem-se dado bem com a de papelão? – Assim…

– As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.

– Mas a minha cabeça?

– Vou buscá-la.

Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.

– Consertou-a?

– Não.

– Então, desarranjo grande?

O homem recuou.

– Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das ideias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.

Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.

– Faça o obséquio de embrulhá-la.

– Não a coloca?

– Não.

– V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.

Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.

– Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.

– Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.

Antenor ficou seco.

– Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável – um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.

João do Rio, era o pseudônimo mais usado por João Paulo Emílio Coelho Barreto, escritor e jornalista carioca nascido no Rio de Janeiro em 05 de agosto de 1881 e falecido em 23 de junho de 1921. O Homem da cabeça de papelão é um de seus contos mais famosos e embora tenha sido escrito na virada do século XIX para o século XX , continua absolutamente atual…

Karina

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