Archive for junho, 2011

e.e. cummings

Mais um belo poema do escritor norte-americano e.e. cummings:



nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

( tradução de Augusto de Campos )

Karina

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Teresinha

Chico Buarque é ídolo aqui no blog, os leitores assíduos já sabem. Resolvemos, então, uma vez mais homenageá-lo. Hoje trazemos a maravilhosa composição “Teresinha”, uma consagrada canção desse mestre.  A letra é genial e mostra um dos inúmeros trabalhos deste autor utilizando o eu-lírico feminino. Também postamos o vídeo da bela música na voz não menos bela de Maria Bethânia. Aproveitem!


TERESINHA

O primeiro me chegou
Como quem vem do florista:
Trouxe um bicho de pelúcia,
Trouxe um broche de ametista.
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha.
Me mostrou o seu relógio;
Me chamava de rainha.

Me encontrou tão desarmada,
Que tocou meu coração,
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse “não”.

O segundo me chegou
Como quem chega do bar:
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar.
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida.
Vasculhou minha gaveta;
Me chamava de perdida.

Me encontrou tão desarmada,
Que arranhou meu coração,
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse “não”.

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada:
Ele não me trouxe nada,
Também nada perguntou.
Mal sei como ele se chama,
Mas entendo o que ele quer!
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher.

Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não,
Se instalou feito posseiro
Dentro do meu coração.

Telma

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“Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso…”

CANÇÃO DE BARCO E DE OLVIDO

Não quero a negra desnuda.

Não quero o baú do morto.

Eu quero o mapa das nuvens

E um barco bem vagaroso.

Ai esquinas esquecidas…

Ai lampiões de fins de linha…

Quem me abana das antigas

Janelas de guilhotina?

Que eu vou passando e passando,

Como em busca de outros ares…

Sempre de barco passando,

Cantando os meus quintanares…

No mesmo instante olvidando

Tudo o de que te lembrares.

(Mário Quintana)

Karina

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Hilda Hist

Tô Só

 

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta

de azul

de berimbau

de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar…

Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?

Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

nave

ave

moinho

e tudo mais serei

para que seja leve

meu passo

em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

 

* Trovas de muito amor para um amado senhor – SP: Anhambi, 1959.

 

(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993) – Crônica de Hilda Hilst para o “Correio Popular” de Campinas-SP

 

Hilda Hist nasceu na cidade paulistana de Juá, em 1930.

A escritora, bela e culta, além de “avançada” para a época (anos 50) gerou polêmica e várias  lendas a seu respeito.  Sua obra, passa pela poesia, pela crônica e pelo teatro e fez sucesso também no exterior. Considerada pela crítica uma das melhores autoras brasileiras, Hilda Hist traz como temática principal de sua obra o ser humano, retratando com maestria os questionamentos do homem perante a vida.

Hilda Hist faleceu em 2004 e deixou vasta obra que vale a pena conhecer.

Karina

 

 

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