Archive for janeiro, 2009

Os meses de Bilac

Como já falamos aqui, Olavo Bilac se dedicou com afinco à literatura infantil. Escreveu inúmeros poemas destinados às criancas. Dentre eles, destacaremos a coletânea poética “Os Meses”. Tal obra explora, de forma extremamente criativa, as peculiaridades presentes em cada mês do ano.

Com um pouco de atraso, é verdade, já que estamos no dia trinta, oferecemos aos leitores o poema “Janeiro”. Nos meses subsequentes não deixaremos de presentear os internautas com o restante da indigitada série.

Boa leitura a todos!

Os Meses

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“Coro das crianças:

Venham os meses desfilando!
Cante cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês…

Janeiro:

Eu sou o mês primeiro,
O cálido Janeiro!
Ouvi minha canção!
Dou festas e presentes…
E os corações contentes,
Quando apareço, estão.
Quando apareço, os sinos
Começam cristalinos,
A erguer o alegre som.
Trago para as crianças
Afagos, esperanças,
E festas de Ano-Bom.
Mas, se a alegria espalho,
Desejo que o trabalho
Vos possa reunir:
Meses, eu vos saúdo!
Eu sou o mês do estudo:
As aulas vão se abrir!

Coro das crianças:

Saia da roda o mês primeiro!
Prossiga a dança jovial!
E entre na roda Fevereiro,
Que é o belo mês do Carnaval!”

Karina

 

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A Arte de Amar, por Manuel Bandeira

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Arte de amar


“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não”. 

(Antologia Poética – 12ª edição – pg 151 – poema pertencente ao livro Belo Belo)

Karina

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Verissimo para relaxar

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Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, no ano de 1936. Filho do maravilhoso escritor Érico Verissimo, seguiu os passos do pai à altura, tendo publicado um sem-número de obras muito inteligentes e cheias de humor. Além de escritor, é cartunista e roteirista de televisão.

Um de seus livros mais famosos e festejados é “Novas Comédias da Vida Privada”. Trata-se de  uma coletânea de 123 crônicas que, de tão interessantes e engraçadas, podem ser lidas de sopetão, numa única noite.

Hoje presenteamos o leitor com uma dessas crônicas, intitulada “Cama, Mesa e Banho”. Em breve, certamente colocaremos outras, para satisfação dos frequentadores do blog.

Divirtam-se!

A tese da mãe da Julinha é a seguinte: qualquer casamento pode ser salvo até começarem a voar objetos. Um casamento sobrevive a tudo, menos ao açucareiro na cabeça. E a mãe da Julinha é contra a tese segundo a qual, se um casamento dá certo na cama, o resto se arranja. Ela acha que é justamente o contrário. Foi o que disse para a Julinha quando a filha anunciou que ia se casar com o Torres duas semanas depois de conhecê-lo.

 – É uma loucura! Vocês não sabem nada um do outro.

 – No que interessa, já nos conhecemos até demais.

Se dependesse da Julinha, nem haveria casamento. Mas a mãe insistiu. Não fazia questão de véu e grinalda, mas alguma cerimônia tinha que haver, nem que fosse só para terem o que fotografar.

 – Se seu pai não usar gravata prateada, morre – foi o argumento da mãe para convencer a filha única.

A Julinha cedeu. Aceitou a cerimônia civil, as famílias reunidas, os salgadinhos, os bolos, as fotos, a gravata prateada do pai, tudo. Mesmo porque 15 minutos depois de assinarem os papéis, ela e o Torres já estavam no hotel, inaugurando oficialmente a lua-de-mel, antes de viajarem para Cancún.

Os problemas começaram no dia seguinte.

Ao meio-dia, Julinha apareceu em casa de surpresa. A mãe levou um susto.

 – Vocês não viajaram?

 – Ele raspa a manteiga, mamãe.

 – O quê?

 – Descobri hoje no café da manhã. No hotel. Ainda bem que eles serviram a manteiga em tablete. Senão eu só ia descobrir depois.

 – Minha filha, eu não estou…

 – Ele raspa a manteiga! Não corta em segmentos, como eu. Como é normal, como é o certo. Raspa por cima. E outra coisa…

 – O quê?

 – A pasta de dente. Aperta no meio. Não começa a apertar por baixo. Aperta em qualquer lugar, mamãe. Eu não posso viver com um homem que aperta o tubo de pasta de dente no meio.

A mãe se sentiu justiçada. Tinha avisado, não tinha? Na cama, qualquer um se acerta. O problema era a mesa e o banho.

 – Pode-se dar um jeito, minha filha. Seu pai cortava a ponta do queijo. Eu ensinei a cortar ao comprido.

 – Não tem mais jeito, mamãe. Ele disse que é raspador e vai morrer raspador. E outra coisa…

 – O quê?

 – Já voaram objetos.

 – Meu Deus.

 – O casamento acabou.”

 

Telma

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Matemática e literatura de mãos dadas

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Milton Viola Fernandes ou Millôr, como é mais conhecido, nasceu em 1924 no Rio de Janeiro e é dramaturgo, escritor, desenhista, humorista e tradutor. Tudo o que faz, faz bem feito e com imensa criatividade.

Hoje oferecemos ao leitor a  “Poesia Matemática”, de autoria do multifacetado escritor, publicada em 1954 no livro “Tempo e Contratempo”.

Em tal poema, Millôr brinca com uma mistura inusitada: literatura e matemática, se utilizando, com a maestria que lhe é peculiar, de diversos termos aritméticos, para narrar a paixão entre o Quociente e a Incógnita. Genial!

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade
“.

Telma


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Mais Guimarães Rosa

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Ontem falamos sobre o genial Guimarães Rosa e seu estilo único e inconvencional de escrever.

Hoje colocaremos aqui belíssimos trechos da obra do escritor para deleite dos que já leram e para atiçar a vontade de ler naqueles que ainda não leram:

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” (Riobaldo em “Grande Sertão: Veredas”)

“O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo… Eu quase nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.” (Grande Sertão: Veredas)

“A gente morre é para provar que viveu.” (Grande Sertão: Veredas)

“O sertão está em toda a parte.” (Grande Sertão: Veredas)

O sertão é dentro da gente.” (Grande Sertão: Veredas)

“Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte.” (Grande Sertão: Veredas)

“… quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade”.(Grande Sertão: Veredas)

“Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.” (Grande Sertão: Veredas)

“O senhor… mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior.” (Grande Sertão: Veredas)

“Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo no meio do fel do desespero. Ao que, esse mundo é muito misturado…” (Grande Sertão: Veredas)

“Viver é um descuido prosseguido.” (Grande Sertão: Veredas)

“A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e se desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade.” (Grande Sertão: Veredas)

“Feito flecha, feito fogo, feito faca.” (Grande Sertão: Veredas)

“O perigo saca toda a tristeza.” (Grande Sertão: Veredas)

“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver.” (Grande Sertão: Veredas)

“A força de Deus quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se discutindo, se economiza.” (Grande Sertão: Veredas)

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas” (Grande Sertão: Veredas)

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.”

“O senhor sabe o que silêncio é? É a gente mesmo, demais.” (Grande Sertão: Veredas)

“Quem desconfia, fica sábio.” (Grande Sertão: Veredas)

“Ser chefe – por fora um pouquinho amargo; mas, por dentro, é risonhas flores.” (Grande Sertão: Veredas)

“Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha.” (Grande Sertão: Veredas)

“De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim penso também. Mas Diadorim é minha neblina”.(Grande Sertão: Veredas)

“Julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.” (Grande Sertão: Veredas)

“Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento. Quando eu olhei, vinha vindo uma moça. Otacília. (…) Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho era sempre novo. Afirmo ao senhor, minha Otacília ainda se orçava mais linda, me saudou com o salvável carinho, adianto de amor.” (Grande Sertão: Veredas)

“Arranjeizinho lá um lugar de guarda-civil” (Sagarana)

“(…) Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria… Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua”. (Sagarana)

“Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão.” (Desenredo)

” (…) Como o pai podia imaginar judiação, querer amarrar um menino no escuro do mato? Só o pai de Joãozinho e Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata, em distantes, porque não tinham de comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena, por Joãozinho e Maria, que voltava a vontade de chorar.” (Campo Geral)

“Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo…” (Campo Geral)

“Você me ensinazinho a dançar, Chica?” (Campo Geral)

“O gato Sossõe, certa hora, entrava. Ele vinha sutil para o paiol, para a tulha, censeando os ratos, entrava com o jeito de que já estivesse se despedindo, sem bulir com o ar. Mas, daí, rodeando como quem não quer, o gato Sossõe principiava a se esfregar em Miguilim, depois deitava perto, se prazia de ser, com aquela ronqueirinha que era a alegria dele, e olhava, olhava, engrossava o ronco, os olhos de um verde tão menos vazio – era uma luz dentro de outra, dentro doutra, dentro doutra, até não ter fim”.(Campo Geral)

Karina

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Guimarães Rosa: o mágico das palavras

João Guimarães Rosa  nasceu no município de Cordisburgo – MG em 27 de junho de 1908. Filho de um pequeno comerciante rural, aprendeu as primeiras letras na própria cidade natal e fez o curso secundário em Belo Horizonte.

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Desde a infância, Guimarães Rosa demonstrou profundo interesse pelas línguas, pela natureza e pelo sertanejo em geral. Formou-se em Medicina, tendo exercido a profissão em cidades do interior de Minas Gerais. Médico competente e dedicado, ia a cavalo visitar seus pacientes e, durante esse período, ao observar a terra, as pessoas e seus costumes, fazia as anotações que mais tarde colocava nos livros que já escrevia. Aprendeu sozinho a falar mais de nove idiomas. Em 1934, ingressou na carreira diplomática, tendo exercido cargos diplomáticos em diversos países.

Em 1958, já de volta ao Brasil, foi nomeado ministro. A partir dessa época, o escritor obteve amplo reconhecimento, em decorrência da publicação, em 1956, de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. Teve sua obra publicada em diversas línguas e é, sem dúvida nenhuma, o maior nome da literatura brasileira do século XX.  Guimarães Rosa faleceu em 19 de novembro de 1967 de infarte e apenas três dias depois de ter tomado posse na Academia Brasileira de Letras.

A obra de João Guimarães Rosa nos convida a entrar num mundo particular. O escritor mostrou a realidade do sertão mineiro, a fala do sertanejo e o lirismo e o misticismo que envolvem o sertão. O sertão de Guimarães Rosa ultrapassa os limites geográficos e aparece como um meio de aprendizado sobre a existência do homem. Mas o mais genial na produção de Guimarães Rosa é a forma de escrever: o escritor apostou na liberdade linguística, na recriação e na invenção das palavras. Os neologismos, as metáforas e o uso de figuras de linguagem são presença marcante em sua obra e trazem originalidade, riqueza e ousadia antes nunca alcançados em nossa literatura.

Nós do blog, há muito fomos dominadas pelo rico e mágico mundo de Guimarães Rosa. Quem já leu algo do escritor, sabe do que estamos falando; sabe do fascínio que ele exerce sobre seus leitores e sabe que é impossível ficar imune diante da beleza de suas palavras. Quem não leu ainda, precisa ler com urgência e o efeito será impactante, temos certeza.

Para terminar o post, nada melhor do que o também genial Carlos Drummond de Andrade tentando decifrar o encanto de João Guimarães Rosa:

Um chamado João

“João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?

Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?

Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia nome,
curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
e precipites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeíam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.”

Karina

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Para pensar: Clarice Lispector

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A incomparável escritora Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920, mas veio para o Brasil em 1922. Portanto, podemos dizer que se trata de uma autêntica autora brasileira.

Faleceu em 1977, deixando um maravilhoso legado para a literatura do nosso país.

Trata-se de uma pensadora, uma mulher extremamente culta, com uma visão de mundo muito ampla. Escreveu obras magníficas, como Laços de Família; Perto do Coração Selvagem; A Hora da Estrela;  A Paixão segundo G.H; A Descoberta do Mundo;  e Um Sopro de Vida: pulsações, este último publicado postumamente.

Clarice procurou desvendar a alma humana em seus escritos, bem como seu próprio eu interior, numa busca incessante de se entender e entender os outros.

Abaixo, postamos alguns pensamentos da escritora que certamente servirão de reflexão ao leitor do blog.

“Liberdade é pouco.

O que eu desejo ainda não tem nome”.

 

“Sou como você me vê.

Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania.

Depende de quando e como você me vê passar”.

 

“E se me achar esquisita, respeite também.

Até eu fui obrigada a me respeitar”.

 

“Que minha solidão me sirva de companhia.

Que eu tenha a coragem de me enfrentar.

Que eu saiba ficar com o nada.

E mesmo assim me sentir

Como se estivesse plena de tudo”.

 

“Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:

A salvação é pelo risco.

Sem o qual a vida não vale a pena”.

 

“A única verdade é que vivo.

Sinceramente, eu vivo.

Quem sou?

Bem, isso já é demais…”

 

“Corro perigo

Como toda pessoa que vive.

E a única coisa que me espera

É exatamente o inesperado”.

 

“Minha força está na solidão.

Não tenho medo nem de chuvas tempestivas

Nem de grandes ventanias

Pois eu também sou o escuro da noite”.

 

“Amor será dar de presente a outro a própria solidão?

Pois é a coisa mais última que se pode dar de si”.

“E nem entendo aquilo que entendo.

Pois estou infinitamente maior que eu mesma

E não me alcanço”.

 

Telma

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Drummond e o livro

 Ler é sempre a melhor opção.

Vejam o que Carlos Drummond de Andrade fala sobre o livro:

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“Que coisa é o livro? Que contém na sua
frágil arquitetura aparente?
São palavras, apenas, ou é a nua
exposição de uma alma confidente?
De que lenho brotou? Que nobre instinto
da prensa fez surgir esta obra de arte
que vive junto a nós, sente o que sinto
e vai clareando o mundo em toda parte?”

Karina

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A torneirinha da Emília

Em post anterior falamos um pouco a respeito da obra de Monteiro Lobato e sobre a personagem mais atrevida de todos os tempos: a boneca de pano Emília.

Narizinho dizia que Emília era uma torneirinha de asneiras. No entanto, as ideias da boneca são sem dúvida o que há de  mais divertido e interessante nas aventuras dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo.

Neste post vamos uma vez mais abrir a torneirinha da Emília para divertir os leitores. Aproveitem:

Inventando palavras:

(…) – Crocotó é uma coisa que a gente não sabe o que é. Crocotó é tudo que sai para fora de qualquer coisa lisa. O seu nariz, por exemplo, é um crocotó da sua cara – mas como sabemos que nariz é nariz, não dizemos crocotó. Mas se nunca tivéssemos visto o seu nariz, nem soubéssemos o que é nariz, então poderíamos dizer que o seu nariz era um crocotó…

Sobre si mesma:

– “Mas afinal de contas, Emília, que é que você é?”
Emília levantou para o ar aquele implicante narizinho de retrós e respondeu:
– Sou a Independência ou Morte.” (Memórias da Emília)

 “- Sou de pano, sim, mas de pano falante, engraçado paninho louco, paninho aqui da pontinha. Não tenho medo de vocês todos reunidos. Aguento qualquer discussão. A mim ninguém embrulha nem governa. Sou do chifre furado – bonequinha de circo. Dona Quixotinha …” (Dom Quixote das Crianças)

“Eu nasci boneca de pano, muda e feia, e hoje sou até marquesa. Subi muito. Cheguei muito mais que vintém. Cheguei a tostão.” (Fábulas)

Filosofando sobre a verdade:

” (…) Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.” (Memórias da Emília)

Sobre a loucura:

“(…) – A loucura é a coisa mais triste que há…
– Eu não acho – disse Emília – Acho-a até bem divertida. E, depois, ainda não consegui distinguir o que é loucura do que não é. Por mais que pense e repense, não consigo diferençar quem é louco de quem não é. Eu, por exemplo, sou ou não sou louca?
– Louca você não é Emília – respondeu Dona Benta. – Você é louquinha, o que faz muita diferença. Ser louca é um perigo para a sociedade; daí os hospícios onde se encerram os loucos. Mas ser louquinha até tem graça. Todas as crianças do Brasil gostam de você justamente por esse motivo – por ser louquinha.
– Pois eu não quero ser louquinha apenas – disse Emília. – Quero ser louca varrida, como D. Quixote – como os que dão cambalhotas assim…” (Dom Quixote das Crianças).

A ideia da leitura para ser devorada:

” – Pois eu tenho uma ideia muito boa, disse Emília: Fazer o livro comestível.
(…) Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pelos químicos – uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura, está almoçado ou jantado.”  (A reforma da natureza)

Aguardem mais da Emília em breve.

Karina

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A Arca de Noé

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O blog Literatura em Conta-Gotas ama o Vinicius de Moraes. E a obra desse incrível autor é tão vasta e diferenciada, que realmente não nos cansamos de admirá-lo e homenageá-lo.

Por isso, vamos postar Vinicius sempre e sempre. Ele merece e vocês, leitores, também. Hoje colocaremos a poesia infantil “A Arca de Noé”, um primor que todos os pais deveriam oferecer aos seus filhos.

Trata-se de uma alusão ao personagem bíblico Noé , homem justo e virtuoso, que constrói, a mando de Deus,  uma grande embarcação para salvar a si e sua família e um casal de cada espécie de animal antes do dilúvio profetizado pela bíblia.

Bom proveito!

A Arca de Noé

Sete em cores, de repente

O arco-íris, se desata

Na água límpida e contente

Do ribeirinho da mata.

O sol, ao véu transparente

Da chuva de ouro e de prata

Resplandece resplendente

No céu, no chão, na cascata.

E abre-se a porta da Arca

De par em par: surgem francas

A alegria e as barbas brancas

Do prudente patriarca.

Noé, o inventor da uva

E que, por justo e temente

Jeová, clementemente

Salvou da praga da chuva.

Tão verde se alteia a serra

Pelas planuras vizinhas

Que diz Noé: “Boa terra

Para plantar minhas vinhas!”

E sai levando a família

A ver; enquanto, em bonança

Colorida maravilha

Brilha o arco-da aliança.

Ora vai, na porta aberta

De repente, vacilante

Surge lenta, longa e incerta

Uma tromba de elefante.

E logo após, no buraco

De uma janela, aparece

Uma cara de macaco

Que espia e desaparece.

Enquanto, entre as altas vigas

Das janelinhas do sótão

Duas girafas amigas

De fora as cabeças botam.

Grita uma arara, e se escuta

De dentro um miado e um zurro

Late um cachorro em disputa

Com um gato, escouceia um burro.

A Arca desconjuntada

Parece que vai ruir

Aos pulos da bicharada

Toda querendo sair.

Vai! Não vai! Quem vai primeiro?

As aves, por mais espertas

Saem voando ligeiro

Pelas janelas abertas.

Enquanto, em grande atropelo

Junto à porta de saída

Lutam os bichos de pêlo

Pela terra prometida.

“Os bosques são todos meus!”

Ruge soberbo o leão

“Também sou filho de Deus!”

Um protesta; e o tigre – “Não!”

Afinal, e não sem custo

Em longa fila, aos casais

Uns com raiva, outros com susto

Vão saindo os animais.

Os maiores vêm à frente

Trazendo a cabeça erguida

E os fracos, humildemente

Vêm atrás, como na vida.

Conduzidos por Noé

Ei-los em terra benquista

Que passam, passam até

Onde a vista não avista.

Na serra o arco-íris se esvai…

E… desde que houve essa história

Quando o véu da noite cai

Na terra, e os astros em glória.

Enchem o céu de seus caprichos

É doce ouvir na calada

A fala mansa dos bichos

Na terra repovoada.”

Telma

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