Archive for agosto, 2012

Canto da estrada aberta

Desejo uma ótima sexta-feira a todos e deixo um belo poema de Walt Whitman, célebre escritor americano.

Karina

Canto da estrada aberta

 

A pé e de coração leve

Eu enveredo pela estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo à minha frente,

À minha frente o longo atalho pardo

Levando-me aonde eu queria.

 

Daqui em diante não peço mais boa sorte,

Boa sorte sou eu.

Daqui em diante não lamento mais,

Não transfiro,não careço de nada;

Nada de queixas atrás das portas,

De bibliotecas, de tristonhas críticas;

Forte e contente vou eu

Pela estrada aberta…

 

Walt Whitmann

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Amor violeta

Amor violeta

 

O amor me fere é debaixo do braço,

de um vão entre as costelas.

Atinge o meu coração é por esta via inclinada.

Eu ponho o amor no pilão com cinza

e grão de roxo e soco. Macero ele,

faço dele cataplasma

e ponho sobre a ferida.

(Adélia Prado)

Karina

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Que fizeste da palavra?

O belo poema a seguir reproduzido foi escrito pelo autor português Eugénio de Andrade, falecido em 2005. Deixou vasta obra poética, tendo se consagrado com a obra “As Mãos e os Frutos”. Vale a pena conhecer.

“Que fizeste das palavras?

Que contas darás tu dessas vogais

de um azul tão apaziguado?

 

E das consoantes, que lhes dirás,

ardendo entre o fulgor

das laranjas e o sol dos cavalos?

 

Que lhes dirás, quando

te perguntarem pelas minúsculas

sementes que te confiaram?”

 

 

Telma

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O Mundo

O mundo

 

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano

 

 

 

Karina

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100 anos de Jorge Amado

Nessa semana o escritor baiano Jorge Amado completaria 100 anos.  Sua obra, difundida mundialmente, tem uma magia especial. Quem a leu certamente se apaixonou pelo estilo simples,  franco, bem-humorado e livre presente nos livros.

Eis um trecho do livro Capitães da Areia, uma das mais belas estórias contadas pelo inesquecível autor:

A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajuda a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos atabaques que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes onde vão os condutores e motoneiros grevistas. Uma voz que vem do cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai morrendo num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros. Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o Querido de Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do Padre José Pedro, padre pobre de olhos espantados diante do destino terrível dos Capitães de Areia. Uma voz que vem das filhas de santo do candomblé de Don’Aninha, na noite que a polícia levou Ogum. Voz que vem do Trapiche dos Capitães de Areia. Que vem do reformatório e do orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se atirando do elevador para não se entregar. Que vem no trem da Leste Brasileira, através do sertão, do grupo de Lampião pedindo justiça para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e liberdade para a cultura.

Que vem dos quadros de Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: companheiros. Uma voz que convida para a festa da luta. Que é como um samba alegre de negro, comom ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da lembrança de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala. Como a voz de Deus chamava Pirulito, a voz do ódio o Sem-Pernas, como a voz dos sertanejos chamava Volta-Seca para o grupo de Lampião. Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. A cidade no dia de primavera é deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher canta a canção da Bahia. Cidade negra e velha, sinos de igreja, ruas calçadas de pedra. Canção da Bahia que uma mulher canta. Dentro de Pedro Bala uma voz o chama: voz que traz para a canção da Bahia, a canção da liberdade. Voz poderosa que o chama. Voz de toda a cidade pobre da Bahia, voz da liberdade.

A revolução chama Pedro Bala.” (Capitães da Areia)

 

Karina

 

 

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Aninha e suas pedras

Aninha e suas pedras

 

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.

 

(Cora Coralina)

Karina

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