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Se

 

(Rudyard Kipling)

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando

Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,

E para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

E não parecer bom demais, nem pretensioso;

/

Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,

De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires

Tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas

Em armadilhas as verdades que disseste,

E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,

E refazê-las com o bem pouco que te reste;

/

Se és capaz de arriscar numa única parada

Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

Resignado, tornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo

A dar seja o que for que neles ainda existe,

E a persistir assim quando, exaustos, contudo

Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

/

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes

E, entre reis, não perder a naturalidade,

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

Se a todos podes ser de alguma utilidade,

E se és capaz de dar, segundo por segundo,

Ao minuto fatal todo o valor e brilho,

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo

E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!

(“If”, de Rudyard Kipling com tradução de Guilherme de Almeida)

Joseph Rudyard Kipling nasceu em 30/12/1865 em Bombaim, na Índia no ápice do império britânico. Foi o primeiro escritor inglês a receber o prêmio Nobel de literatura.  Escreveu contos, fábulas, romances de aventura e poemas. Sua obra mais famosa é O Livro da Selva, um dos clássicos da literatura infanto-juvenil, que conta a estória de Mogli, o menino-lobo. Faleceu em Londres, no ano de 1936, deixando belos textos como o poema acima.

Karina

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Shakespeare

Belo soneto de Shakespeare traduzido por Ivo Barroso. Para que tem celular com android e gosta de fazer livre tradução de poemas, indicamos o dicionário de português-brasileiro/inglês no link: http://market.android.com/details?id=rcs.android.apps.

Aproveitem:

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Uns se orgulham do berço, ou do talento;

Outros da força física, ou dos bens;

Alguns da feia moda do momento;

Outros dos cães de caça, ou palafréns.

Cada gosto um prazer traz na acolhida,

Uma alegria de virtudes plenas;

Tais minúcias não são minha medida.

Supero a todos com uma só apenas.

Mais do que o berço o teu amor me é caro,

Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,

Mais me apraz que os corcéis, ou cães de faro,

E tendo-te, do orgulho humano abuso.

O infortúnio seria apenas este:

Tirar de mim o bem que tu me deste.

XCI

Some glory in their birth, some in their skill,

Some in their wealth, some in their body’s force,

Some in their garments though new-fangled ill;

Some in their hawks and hounds, some in their

[ horse;

And every humour hath his adjunct pleasure,

Wherein it finds a joy above the rest:

But these particulars are not my measure,

All these I better in one general best.

Thy love is better than high birth to me,

Richer than wealth, prouder than garments’ cost,

Of more delight than hawks and horses be;

And having thee, of all men’s pride I boast:

Wretched in this alone, that thou mayst take

All this away, and me most wretched make.

Karina

 

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Semana da Mulher

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, esta semana o blog trará trechos,crônicas e poemas escritos por mulheres.

Hoje começaremos com um trecho do livro Rumo ao Farol, da grande escritora inglesa Virginia Woolf. O livro em questão traz a estória de uma família e alguns amigos de férias numa casa de praia nas ilhas escocesas. O desejo do filho mais novo da Sra. Ramsay de visitar o farol, desencadeia todo o enredo, repleto de reflexões e análises psicológicas. Considerado a obra-prima de Virginia Woolf, é um livro que vale a pena ser lido.

Eis alguns trechos:

” (…) Queria dominar, interferir, fazer os outros obedecerem às suas vontades – coisa que ela achava a maior injustiça. Mas que podia fazer se causava essa impressão? Ninguém poderia acusá-la de se esforçar para impressionar os outros. Muitas vezes se envergonhava de sua própria fraqueza. Não era autoritária, tampouco tirânica. Talvez se pudesse dizer isso quando reagia apaixonadamente em relação a hospitais, saúde pública e queijarias. E, se tivesse oportunidade, gostaria de agarrar as pessoas pela gola e obrigá-las a ver. Nenhum hospital na ilha. Era uma vergonha. O leite entregue à porta, em Londres, era literalmente negro de sujeira. Deveria ser proibido. Duas coisas que ela mesma gostaria de fazer ali: um hospital e uma queijaria modelo. Mas como? Com todos aqueles filhos? Quando ficassem mais velhos, talvez tivesse tempo; quando todos estivessem na escola.

Oh, mas não queria que James ficasse nem um dia mais velho, nem Cam. Gostaria de conservar os dois para sempre, assim mesmo como eram, demônios perversos, anjos encantadores; nunca deixá-los crescer e se transformar em monstros de pernas compridas. Nada poderia compensar essa perda. Quando lera, há pouco para James: “e havia uma infinidade de soldados com címbalos e trombetas”, e seus olhos se turvaram, pensou: por que precisavam crescer e perder tudo isso? James era o mais bem-dotado, o mais sensível de seus filhos. Mas todos, pensou, eram promissores. Prue era um perfeito anjo para com os outros, e às vezes acontecia, agora, principalmente à noite, de as pessoas chegarem a perder a respiração com sua beleza. Andrew – até mesmo o marido admitia – tinha um talento extraordinário para a matemática. Nancy e Roger eram criaturas selvagens que corriam pelo campo o dia inteiro. Quanto a Rose, tinha a boca enorme, mas era extremamente bem dotada nas mãos. Quando brincavam de mímica, era Rose quem preparava as fantasias apropriadas; fazia de tudo; gostava de arrumar mesas, flores, qualquer coisa. Não lhe agradava que Jasper atirasse em passarinhos; mas isso era apenas uma fase. Todas as crianças passam por fases. Por que, perguntou-se, apertando o queixo contra a cabeça de James, por que precisavam crescer tão depressa? Por que precisavam ir para a escola? Gostaria de ter sempre um bebê. Era a pessoa mais feliz do mundo quando carregava um bebê nos braços. Então, se quisessem, as pessoas até poderiam dizer que era tirânica, autoritária, dominadora, não se importava. E, tocando no cabelo de James com os lábios, pensou: ele nunca será tão feliz como agora – mas conteve-se, lembrando-se de como irritava o marido quando dizia isso. Contudo, era verdade. Nunca seriam tão felizes como agora. Um conjunto de chá de dez pences deixava Cam feliz por vários dias. Ouvia-os gritando e batendo os pés acima de sua cabeça, desde o instante em que acordavam. Chegavam alvoroçados pelo corredor. A porta se escancarava e eles entravam, orvalhados pelo ar da manhã, os olhos fixos, bem abertos, como se entrar na sala de jantar depois do café da manhã – o que faziam diariamente – constituísse para eles um acontecimento extraordinário; e assim por diante, em uma coisa ou outra, durante todo o dia, até que ela subia e lhes dizia boa-noite e os achava aninhados em suas caminhas, como passarinhos entre cerejas e amoras, ainda inventando histórias sobre alguma bagatela: algo que ouviram ou pegaram no jardim. Todos tinham seus pequenos tesouros… E assim descera e perguntara ao marido: por que precisavam crescer e perder tudo isso? Nunca seriam tão felizes como agora.E ele ficara zangado. Por que ter uma visão tão pessimista da vida?, dissera. Não é razoável. Pois era estranho; ela pensava, com toda a sua tristeza e desespero, que na verdade o marido era mais feliz, mais confiante do que ela. Menos exposto às aflições humanas – sim, talvez fosse isso. Ele sempre contava com o seu trabalho, ao qual podia recorrer. Não que ela fosse “pessimista”, como ele a acusava. Apenas pensava na vida – e um pequeno trecho desta se apresentou diante de seus olhos:seus cinquenta anos. Ali estava, diante dela: a vida. A vida: pensava, mas não terminava o pensamento. Olhou a vida de relance, pois a sentia nitidamente ali, algo real, íntimo, que não compartilhava com os filhos, nem com o marido. Existia um certo intercâmbio entre elas, no qual ela ficava de um lado, e do outro a vida. E ela estava sempre tentando levar a melhor, tal como lhe era peculiar. E às vezes confabulavam (quando ficava sentada sozinha). Havia, lembrava-se, cenas grandiosas de reconciliação; mas na maior parte do tempo, por estranho que pareça, precisava adimiti-lo, sentia aquilo que chamava vida como alguma coisa terrível, hostil, pronta para se lançar sobre quem quer que lhe desse uma oportunidade. Havia os eternos problemas: o sofrimento, a morte, os pobres. Havia sempre uma mulher morrendo de câncer, ali mesmo. Contudo, dissera a todos os seus filhos: vocês superarão tudo isso. Repetira-o incessantemente a oito pessoas (e a conta da estufa seria de cinquenta libras). Por essa razão, sabendo o que os esperava – amor, ambição, a solidão e a infelicidade em lugares sombrios -, é que pensara, inúmeras vezes:por que precisavam crescer e perder tudo isso? Então, dizia a si mesma, interpondo-se à vida: bobagem. Serão plenamente felizes.”

(…)

“E o que aconteceria depois? Pois ela sentiu que ele ainda a olhava, mas seu olhar havia mudado. Ele queria alguma coisa – exatamente o que ela achava tão difícil de lhe dar: queria que ela dissesse que o amava. Mas isso ela não podia fazer. Ele tinha muito mais facilidade para falar do que ela. Ele conseguia dizer as coisas – ela nunca. Assim, naturalmente, era ele quem sempre dizia as coisas, e, por algum motivo, de repente se ressentia disso e a reprovava. Uma mulher fria – era como ele a chamava; nunca lhe dizia que o amava. Mas não era nada disso – não era isso. É que ela nunca conseguia dizer o que sentia, isso era tudo. Seu casaco estaria sujo? Haveria algo que pudesse fazer por ele? Levantando-se, postou-se junto à janela, com a meia castanha nas mãos, em parte para se afastar dele, em parte porque não se importava de olhar o Farol enquanto ele a observava. Sim, sabia que ele virara a cabeça na mesma direção que ela; que a observava. Sabia que estaria pensando: você está mais linda do que nunca. E sentiu-se linda. Não me dirá pelo menos uma vez que me ama? Pois ele estava enleado e pensava não só em Minta e no seu livro como também que o dia já estava terminando e que tinham discutido por causa da ida ao Farol. Mas ela não conseguiria, não poderia dizê-lo. Então, sabendo que ele a olhava, em vez de dizer alguma coisa, voltou-se com a meia na mão e olhou-o. E, ao olhá-lo, começou a sorrir, pois embora não dissesse uma única palavra, ele soube, claro que soube, que ela o amava. Não poderia negá-lo. E, sorrindo, ela olhou pela janela e falou (pensando consigo mesma que nada na Terra poderia se comparar a uma tal felicidade):

– Sim, você tinha razão. Amanhã vai chover. – Ela não o dissera, mas ele sabia. Ela o olhava, sorrindo. Pois ela triunfara mais uma vez.”

Virginia Woolf nasceu no ano de 1882, em Londres. Introduziu a prosa moderna na literatura inglesa e é considerada uma das maiores escritoras de todos os tempos. Sua narrativa é marcada pelo estilo “fluxo de consciência”, técnica literária através da qual se retrata minuciosamente todos os pensamentos do personagem, sua imaginação, reminiscências e impressões pessoais. Tem vários livros publicados. Suicidou-se em 1941 e foi uma grande perda para a literatura mundial.

Karina

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William Blake

Mais um fragmento do poeta inglês William Blake:

“Num grão de areia ver um mundo

Na flor silvestre a celeste amplidão

Segura o infinito em sua mão

E a eternidade num segundo.”

(William Blake in O casamento do céu e do inferno & outros escritos – Editora L&PM)

Karina

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Frase da Semana

Sem Contrários não há evolução. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência humana.
(William Blake – poeta inglês)
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Alice no País das Maravilhas

Todo mundo leu ou pelo menos já ouviu falar no clássico “Alice no País das Maravilhas”, publicado em 1865. Trata-se da obra prima do autor inglês Charles Lutwidge Dodgson, cujo pseudônimo era Lewis Carroll.

A trajetória da perspicaz menina Alice que, ao cair numa toca de coelho, inicia uma inusitada aventura num lugar mágico e repleto de criaturas estranhas é considerada surreal e instigante e vem encantando crianças e adultos de várias gerações.

Há um sem-número de estudiosos procurando entender o real significado de todos os símbolos que permeiam a fascinante história de Lewis Carroll. A tênue linha entre o real e o imaginário, o sonho e a realidade, é o grande tema desta sensacional obra, indispensável para os grandes e para os pequenos.

Abaixo, presenteamos o leitor com um pequeno trecho de “Alice no País das Maravilhas”. Vale a pena ler na íntegra.

Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer: uma vez ou duas ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas não havia figuras ou diálogos nele e “para que serve um livro”, pensou Alice, “sem figuras nem diálogos?”

Então, ela pensava consigo mesma (tão bem quanto era possível naquele dia quente que a deixava sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer um colar de margaridas era mais forte do que o esforço de ter de levantar e colher as margaridas, quando subitamente um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou correndo perto dela.

Não havia nada de muito especial nisso, também Alice não achou muito fora do normal ouvir o Coelho dizer para si mesmo “Oh puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado!” (quando ela pensou nisso depois, ocorreu-lhe que deveria ter achado estranho, mas na hora tudo parecia muito natural); mas, quando o Coelho tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ele, apressando-se a seguir, Alice pôs-se em pé e lhe passou a idéia pela mente como um relâmpago, que ela nunca vira antes um coelho com um bolso no colete e menos ainda com um relógio para tirar dele. Ardendo de curiosidade, ela correu pelo campo atrás dele, a tempo de vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo da cerca.

No mesmo instante, Alice entrou atrás dele, sem pensar como faria para sair dali.

A toca do coelho dava diretamente em um túnel, e então aprofundava-se repentinamente. Tão repentinamente que Alice não teve um momento sequer para pensar antes de já se encontrar caindo no que parecia ser bastante fundo.

Ou aquilo era muito fundo ou ela caía muito devagar, pois a menina tinha muito tempo para olhar ao seu redor e para desejar saber o que iria acontecer a seguir. Primeiro, ela tentou olhar para baixo e compreender para onde estava indo, mas estava escuro demais para ver alguma coisa; então, ela olhou para os lados do poço e percebeu que ele era cheio de prateleiras: aqui e ali ela viu mapas e quadros pendurados em cabides. Alice apanhou um pote de uma das prateleiras ao passar: estava etiquetado “GELÉIA DE LARANJA”, mas para seu grande desapontamento estava vazio: ela não jogou o pote fora por medo de machucar alguém que estivesse embaixo e por isso precisou fazer algumas manobras para recolocá-lo em uma das prateleiras.

“Bem”, pensou Alice consigo mesma. “Depois de uma queda dessas, eu não vou achar nada se rolar pela escada! Em casa eles vão achar que eu sou corajosa! Porque eu não vou falar nada, mesmo que caia de cima da casa!” (O que era provavelmente verdade).

Para baixo, para baixo, para baixo. Essa queda nunca chegará ao fim?

Ao ver Alice, o Gato só sorriu. Parecia amigável, ela pensou; ainda assim tinha garras muito longas e um número enorme de dentes, de modo que achou que devia tratá-lo com respeito.

“Bichano de Cheshire”, começou, muito tímida, pois não estava nada certa de que esse nome iria agradá-lo; mas ele só abriu um pouco mais o sorriso. “Bom, até agora ele está satisfeito”, pensou e continuou: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”

“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importa muito para onde”, disse Alice.

“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.

“Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação.

“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante”.

Como isso lhe pareceu irrefutável, Alice tentou uma outra pergunta: “Que espécie de gente vive por aqui?”

“Naquela direção”, explicou o Gato, acenando com a pata direita, “vive um Chapeleiro; e naquela direção”, acenando com a outra pata, “vive uma Lebre de Março. Visite qual deles quiser: os dois são loucos.”

“Mas não quero me meter com gente louca”, Alice observou.

“Oh! É inevitável”, disse o Gato; “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”

“Como sabe que sou louca?” perguntou Alice.

“Só pode ser”, respondeu o Gato, “ou não teria vindo parar aqui.”

Telma



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