Archive for novembro, 2011

Saramago

“Começar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e dar de repente com todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazes isso, o que te deslumbra é o conjunto. Não dizes: gosto mais desta árvore que das outras. Não, cada livro que eu entrava, eu considerava algo único.”

José Saramago

(As palavras de Saramago – Companhia das Letras)

Karina

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Ismália

Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

(Alphonsus de Guimaraens)

 

Afonso Henriques da Costa Guimaraens, o Alphonsus de Guimaraens, nasceu em 1870, na cidade de Ouro Preto – MG. Faleceu em Mariana – MG, em 1921. Formou-se em Direito, mas desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais “Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “A Gazeta”, além de frequentar lugares onde se reuniam os poetas simbolistas, que foram influência em sua obra. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro – MG e, a partir de 1906, Juiz em Mariana – MG. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em 1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Guimaraens. Sua “Obra Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, os temas principais de sua obra foram a morte, o amor e a religiosidade. Em vários textos invoca a sua amada ausente, referência à  morte de sua noiva Constança, em 1888.

Karina

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Frase da Semana

 

 

Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho.” (Arnold Palmer)

 

 

Telma

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A verdade dividida

Mais um poema genial de Drummond:

A VERDADE DIVIDIDA

A porta da verdade estava aberta

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

 

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só conseguia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

 

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia os seus fogos.

Era dividida em duas metades

diferentes uma da outra.

 

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era perfeitamente bela.

E era preciso optar. Cada um optou

conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 

(Carlos Drummond de Andrade in Contos Plausíveis)

Karina

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Ouvir: um ato de humildade

Rubem Alves, escritor e psicanalista nascido em 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, Minas Gerais, é absolutamente encantador. Tem um modo singular e fantástico de falar sobre temas do cotidiano.

O livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, de sua autoria, é prova disso. Trata-se de um livro de crônicas a que já fizemos referência aqui no blog e permeado de lições para a vida. Deve ser lido, relido e “trelido” seguidamente.

Difícil foi escolher mais um entre tantos fragmentos desse livro tão maravilhoso para abrilhantar nosso blog. Optamos por um, sagaz e incrível como todos os outros e intitulado como “Sobre o ouvir”. Apreciem!

Sobre o ouvir

O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos. Mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… Vemos pouco, vemos torto, vemos errado. Bernardo Soares diz que aquilo que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos os umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parentêsis, ainda que provisoriamente as nossas opiniões. Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos meus. É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu,então, diga a verdade. A prova disto  está no seguinte: se levo a sério o que o outro está dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é estranho. Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse. Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado…”

Telma

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Um caso de amor

Um caso de amor

Amor dá muito por aí. Dessa qualidade é que não. Amor que dura, que resiste, que desafia, risonho, contente dele mesmo, todos os obstáculos, o maior deles do cotidiano, do avesso sem graça da vida. Felizes? Onde é que existe isso? Infelizes, que a vida é mais disso.

História que assisti, por acaso, venho acompanhando desde a adolescência, que reencontro, pelas esquinas da vida, meio assustada de que continue durando, apesar de tantos e tamanhos pesares, Ele era feioso, doente, pobre. Filho de pais separados, jogado em orfanato, colégio grátis, ao acaso dos pedidos da mãe, sem recursos, valente como ninguém. Conheceu o gosto das “solitárias” de colégio, aluno gratuito, mal alimentado, triste. Acabou fraco do peito, como se dizia naquele tempo. Foi parar numa estação de cura nem sei como. Onde conheceu – parece fita de cinema! – a moça mais bonita do lugar. Uma deusa moça, de riso branco e alegre, alta, forte, rica. Nenhum dos dois teve nunca outro namorado. A família dela achou uma loucura. Era. Que futuro havia naquilo? Nenhum. Mandou-a estudar na Alemanha. Contei que eram de lá? Aquela Valquíria soberba se apaixonar pelo brasileirinho doentio, pobre e infeliz! Dois anos de Universidade em Munique, com muito esporte, dinheiro e passeios, dariam cabo no capricho. Não deram. Voltou, a carta de maioridade na mão, dizendo que sabia muito bem o que fazer com o seu nariz meio arrebitado e voluntarioso. Ele ficara aqui brigando com a vida, com os micróbios que lhe corriam o peito, estudando, trabalhando como podia. Casaram, que ela queria cuidar dele. Cuidou. Deu-lhe um par de filhos fortes, alegres, o viço dela, a inteligência, a valentia, a força escondida que ele trazia dentro do peito maltratado. Ela o contagiou da sua saúde, da sua beleza serena, da sua confiança alegre na vida. Ele esqueceu a infância ruim, a pobreza, a doença. Tinham um velho carro, duas crianças novas, foram armando a tenda aqui e ali, ao acaso da sua vida de professor. Onde armassem a barraca era bom vê-los, na vida que veio vindo. A ternura igual, contentes um do outro, a voz mansa, os gestos parecidos, engraçados, cheios de casos, fortes de terem vencido tantos obstáculos assim juntos, tranquilos,  de mãos dadas. Ela sempre bonita, um bonito de árvore, de planta viçosa de curva de rio que o olhar descobre de repente. Um bonito que faz bem. Ele sarou, foi conhecer o gosto da vida que a infância lhe tinha negado, praia, sol, banho de mar, manhã de pescaria, sono de sesta, na rede, quando o vento traz do fundo da casa um cheiro morno de pomar.

Passo anos sem vê-los. Quando os vejo de novo, sempre juntos, o seu bem-querer calado parece que cresceu, dentro da terra, em que fortes raízes deram flor e sombra, fruto e calor. Agradeço, sem palavras, que continuem assim. Estão olhando vitrinas, preparando uma viagem, fazendo fila no açougue, comprando entrada de cinema ou sapatos para as crianças. Que crianças? As crianças já ficaram moços.

Foram felizes? Não sei, que a vida não é muito disso. Reveses, fracassos, trambolhões. Uma moléstia a mais pegou-o de jeito uns anos atrás. Jogou-o, quase entrevado, numa cadeira de rodas. Só pretexto para que ela pudesse servi-lo melhor, que amar também é servir, substituir-lhe as pernas que fraquejavam, os gestos desajeitados, a velha melancolia de menino enjeitado pela vida que, de vez em quando, ainda o mordia, do fundo da felicidade serena que ela lhe dera.

Vi-os de novo, num desses dias. Era um aniversário qualquer. Ela me acompanhou até a porta, amor, doçura, sofrida bondade transbordando dos olhos claros.

– Sabe que eu adoro ele? Foi a melhor coisa que a vida me deu. Não sei o que seria de mim sem ele.

Deve ser um caso de amor.

(Elsie Lessa in Crônicas de Amor e Desamor)

Karina

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