Archive for novembro, 2008

A inesquecível Emília

Caros leitores:

No post anterior indicamos vários livros infantis do grande Monteiro Lobato, mas não poderíamos deixar de falar mais detalhadamente de Emília, a boneca falante.

Emília, a pesonagem mais marcante do Sítio do Picapau Amarelo, é considerada pelos críticos o alter-ego de Monteiro Lobato e merece destaque especial por seu carisma e “espírito libertário”.

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Na obra de Lobato, Emília foi feita por Tia Nastácia, que a deu a Narizinho. Emília é feita de pano e recheada de macela, além de ter “olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa”. Em diversos trechos das histórias, Narizinho (ou Tia Nastácia) é obrigada a consertar a boneca, enxertando-lhe mais “recheio” no corpo ou pregando-lhe novos olhos, uma vez que os seus vivem a arrebentar pois Emília os arregala demais.

Emília era muda, mas toma uma pílula do Dr. Caramujo e desanda a falar. A primeira frase dita pela boneca foi: “Estou com um horrível gosto de sapo na boca!” e falou “três horas sem tomar fôlego”.  Narizinho ao ver que Emília pode falar conclui que “a fala de Emília não estava bem ajustada” e que “era de gênio teimoso e asneirenta, pensando a respeito de tudo de um modo especial todo seu.” Narizinho vive dizendo que Emília é uma “torneirinha de asneiras”, já que a boneca tem mania de arrumar explicações pouco comuns sobre todas as coisas, além de mudar o nome de tudo quanto vê.

Sobre a vida:

“…a vida, Senhor Visconde, é um pisca – pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre – perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”
  (em Memórias de Emília)

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Extremamente esperta e teimosa,  Emília nunca dá o braço a torcer, mesmo quando não sabe sequer do que está falando. Vejam:

“Emília tinha idéias de verdadeira louca.

– Vou lá – dizia ela – e agarro nas orelhas de dona Carocha e dou um pontapé naquele nariz de papagaio e pego o Polegada pelas pelas botas e venho correndo.

Narizinho ria-se, ria-se…

– Vai lá onde, Emília?

– Lá onde mora a velha.

– E onde mora a velha?

A boneca não sabia, mas não se atrapalhava na resposta. Emília nunca se atrapalhou nas suas respostas. Dizia as maiores asneiras do mundo, mas respondia.

– A velha mora com o Pequeno Polegada.

– Polegar, Emília!

– PO-LE-GA-DA.

Era teimosa como ela só. Nunca disse doutor Caramujo. Era sempre doutor Cara de Coruja. E nunca quis dizer Polegar. Era sempre Polegada.” (trecho de Reinações de Narizinho)

Muito intrometida, Emília vive querendo solucionar a seu modo problemas e situações urgentes que ocorrem no sítio. Foi ela também que levou Narizinho a viver sua primeira aventura: as duas, a convite do Príncipe Escamado, vão conhecer o fantástico Reino das Águas Claras.

As aventuras de Emília são inúmeras e o que mais nos faz amá-la, além de seu carisma incontestável, é  o seu espírito de liderança,  a sua obstinação em manter seus pontos de vista e a sua eterna curiosidade acerca de todas as coisas.

Através de Emília, Monteiro Lobato, conseguiu passar sua visão de mundo para as crianças, de forma divertida, reflexiva e, muitas vezes, crítica.

Quem nunca se divertiu com as estripulias de Emília não sabe o que está perdendo…

Karina

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Monteiro Lobato e Literatura Infantil

lobatoJosé Bento Monteiro Lobato nasceu na cidade paulista de Taubaté no dia 18 de abril de 1882. Cursou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formado, exerceu a Promotoria Pública durante alguns anos na região do Vale do Paraíba. Em 1911 recebe uma fazenda de herança de seu avô e passa a se dedicar à agricultura.

 Desde a faculdade Monteiro Lobato participava de grupos literários, mas a sua veia literária se concretizou de fato após o envio por ele de uma reclamação sobre as queimadas ao jornal O Estado de S.Paulo. A carta de Lobato causou polêmica e deu ensejo a elaboração de outros artigos. A partir de então, o escritor não parou mais de escrever: publicou diversos livros de contos tais como: Urupês, Idéias de Jeca Tatu, Cidades Mortas e Negrinha, todos com temas adultos e tendo como principais características o regionalismo e a preocupação social. Foi Lobato quem fundou a primeira editora nacional, a Editora Monteiro Lobato & Cia e posteriormente a Companhia Editora Nacional e a Editora Brasiliense.

Mas o que nos interessa hoje é a extensa obra dedicada ao público infantil que nos deixou Monteiro Lobato. Seu primeiro livro para crianças foi publicado em 1921 com o título Narizinho Arrebitado, que depois seria renomeado como Reinações de Narizinho. Os livros infantis de Lobato possuem caráter pedagógico e moralista. A maior parte das histórias contadas por  Monteiro Lobato se passa no famoso Sítio do Picapau Amarelo, um sítio no interior do Brasil. Os personagens principais são Dona Benta -proprietária do sítio e avó de Pedrinho e Narizinho, a empregada – Tia Nastácia e outros personagens que ganham vida através da imaginação das crianças, como Emília, a irreverente boneca falante, o boneco de sabugo de milho, Visconde de Sabugosa, o porquinho Rabicó, dentre outros.

Vale a pena ler para as crianças, tanto pela diversão como pelo caráter educativo:

Coleção Sítio do Picapau Amarelo:

– O Saci;
– Fábulas;
– As aventuras de Hans Staden;
– Peter Pan;
– Reinações de Narizinho;
– Viagem ao céu;
– Caçadas de Pedrinho;
– História do mundo para as crianças;
– Emília no país da gramática;
– Aritmética da Emília;
– Geografia de Dona Benta;
– História das invenções;
– Dom Quixote das crianças;
– Memórias da Emília;
– Serões de Dona Benta;
– O poço do Visconde;
– Histórias de Tia Nastácia;
– O Picapau Amarelo;
– O minotauro;
– A reforma da natureza;
– A chave do tamanho;
– Os doze trabalhos de Hércules;
– Histórias diversas.

Há também outros livros que foram incluídos, posteriormente, no volume Reinações de Narizinho:

– A menina do narizinho arrebitado;
– Fábulas de Narizinho;
– Narizinho arrebitado (incluído em Reinações de Narizinho);
– O marquês de Rabicó (incluído em Reinações de Narizinho);
– A caçada da onça;
– Jeca Tatuzinho;
– O noivado de Narizinho (incluído em Reinações de Narizinho);
– Aventuras do príncipe (incluído em Reinações de Narizinho);
– O Gato Félix (incluído em Reinações de Narizinho);
– A cara de coruja (incluído em Reinações de Narizinho);
– O irmão de Pinóquio (incluído em Reinações de Narizinho);
– O circo de escavalinho (incluído em “Reinações de Narizinho);
– A pena de papagaio (incluído em Reinações de Narizinho);
– O pó de pirlimpimpim (incluído em Reinações de Narizinho);
– Novas reinações de Narizinho;
– O museu da Emília.

Títulos não faltam. É diversão garantida!

Karina

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Metalinguagem e Mário Quintana

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É de conhecimento geral o conceito de metalinguagem. Mas não nos custa relembrá-lo. Trata-se de um recurso utilizado por muitos escritores em que a própria linguagem é utilizada como tema e conteúdo daquilo que será escrito. De fato, a metalinguagem é uma das mais interessantes funções da linguagem e se presta a descrever e explicar aspectos do próprio idioma dentro de um texto.

Mário Quintana, por nós já aqui aclamado algumas vezes, também se utilizou do expediente da metalinguagem com grande maestria, como é de seu feitio.

Abaixo, reproduzimos um texto do ilustre autor, colhido de seu livro “Prosa & Verso”, de 1980,  em que a função de linguagem mencionada é largamente utilizada e de forma bastante curiosa e inteligente:

De gramática e de linguagem

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E havia uma gramática que dizia assim:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica

Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.

Eu gosto é das cousas, As cousas, sim!…

As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.

As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.

Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,

Ovo pode estar choco: é inquietante…)

As cousas vivem metidas com as suas cousas.

E não exigem nada.

Apenas que não as tirem do lugar onde estão.

E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.

Para quê? não importa: João vem!

E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,

Amigo ou adverso… João só será definitivo

Quando esticar a canela. Morre, João…

Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,

Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.

Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.

Sonoro. Lento. Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

Ainda mais:

Eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor

Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:

Basta provares o seu gosto…

Telma

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O Bicho, de Manuel Bandeira

O poema abaixo retrata o cotidiano degradante do homem que atingiu o ápice da miséria.

Quem nunca se deparou com uma cena como a descrita no texto de Manuel Bandeira? Lamentavelmente, esses fatos acontecem tão rotineiramente que muitos já nem se importam mais…

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“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem”.

 Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu em 19 de abril de 1886 em Recife. Em 1903 foi para a cidade de São Paulo a fim de cursar Engenharia na Escola Politécnica. No entanto, em decorrência do acometimento de tuberculose, não pôde concluir o curso. A partir de então, passa por verdadeira peregrinação por diversas cidades e casas de saúde, tendo, inclusive, se mudado por um ano para a Suíça com o intuito de livrar-se da doença. Ao voltar para o Brasil tornou-se inspetor de ensino e depois professor de literatura.

Em 1917 publicou seu primeiro livro – A Cinza das Horas – com características parnasianas e simbolistas. Posteriormente à publicação de seu primeiro livro, o poeta foi se enquadrando no estilo modernista, culminando com a publicação em 1930 da obra Libertinagem, considerada uma das mais importantes da literatura moderna brasileira.

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Na obra de Bandeira predominam a liberdade de conteúdo e de forma, o retrato do cotidiano, a sua própria história de vida, o humor,  a indignação com a realidade do homem e a idealização de um mundo mais justo. O autor conseguiu reunir em sua poesia subjetividade e objetividade e o resultado foi perfeito.

Certamente os leitores do nosso blog serão presentados com muitos outros textos do grande Manuel Bandeira. Aguardem.

Karina

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A velha contrabandista

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Stanislaw Ponte Preta era o pseudônimo usado pelo  escritor, jornalista, radialista e apresentador de TV Sérgio Porto, que nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e faleceu em 1968. Suas marcas eram a inteligência, o humor e uma irreverência inconfundível. Foi certamente um dos maiores cronistas do Brasil, deixando muita saudade.

Em homenagem a este grande e multifacetado brasileiro, postamos abaixo um de seus mais divertidos contos, para apreciação do caro leitor. Podem esperar por mais de Stanislaw aqui no blog.

A velha contrabandista

Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruta saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha.

Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim para ela:

 – Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:

 – É areia.

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.

Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido, o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

 – Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

 – Mas no saco só tem areia! – insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

 – Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

 – O senhor promete que não “espáia”? – quis saber a velhinha.

 – Juro – respondeu o fiscal.

 – É lambreta.

 

Telma

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Amor sem Limites

Caros leitores, postaremos abaixo trechos de uma das histórias de amor mais belas e famosas do mundo: Romeu e Julieta.

A peça escrita pelo escritor e dramaturgo inglês William Shakespeare é um dos ícones das histórias de amor da literatura mundial.

 William Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564 na Inglaterra e é um dos maiores nomes da literatura inglesa e ocidental. Seus sonetos são considerados os mais belos do mundo, suas peças já foram encenadas centenas de vezes em toda parte e muitas viraram filme. O autor e sua obra são objeto de estudo e análise até os dias de hoje, tendo em vista a atemporalidade de seus textos, que retratam toda a complexidade do ser humano.

Shakespeare, além de Romeu e Julieta, escreveu outras obras-primas mundialmente conhecidas e que não devem deixar de ser lidas, como por exemplo Hamlet, Otelo, O Rei Lear, Sonho de uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza etc.

Romeu e Julieta conta a história de dois jovens que se apaixonam perdidamente um pelo outro, mas seu amor não é possível pelo fato de que suas famílias – os Montecchio e os Capuleto – são rivais. A incompreensão das famílias faz com que os jovens levem seu amor até as últimas consequências e o desfecho é trágico, com a morte dos amantes. Por fim, a morte de Romeu e Julieta causa grande impacto nas famílias inimigas, que, inconformadas com o ocorrido, resolvem esquecer a rivalidade e fazer as pazes.

Inspirem-se com as passagens belíssimas:

“…Oh! ela ensina a tocha a ser luzente. Dir-se-ia que da face está pendente da noite, tal qual jóia mui preciosa da orelha de uma etíope mimosa. Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena…”

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“…(Julieta aparece na janela.) Mas que silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal, verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala; contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. Não; sou muito ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam. Vede como ela apoia o rosto à mão. Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar naquela face!”

“Vem, noite! Vem, Romeu! tu, noite e dia, pois vais ficar nas asas desta noite mais branco do que neve sobre um corvo. Vem, gentil noite! vem, noite amorosa de escuras sobrancelhas! Restitui-me o meu Romeu, e quando, mais adiante, ele vier a morrer, em pedacinhos o corta, como estrelas bem pequenas, e ele a face do céu fará tão bela que apaixonado o mundo vai mostrar-se da morte, sem que o sol esplendoroso continue a cultuar”.

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“Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira”.

“Minha alma é que me chama pelo nome. Que doce som de prata faz a língua dos amantes ànoite, tal qual música langorosa que ouvido atento escuta?”

“Ó meu amor! querida esposa! A morte que sugou todo o mel de teu doce hálito poder não teve em tua formosura. Não; conquistada ainda não foste; a insígnia da beleza em teus lábios e nas faces ainda está carmesim, não tendo feito progresso o pálido pendão da morte.”

 Karina

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4° Motivo da Rosa, por Cecília Meireles

4º Motivo da Rosa:

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“Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.”

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O poema reproduzido acima integra o livro Mar Absoluto de Cecília Meireles e é um dos meus preferidos.

Os versos falam, de forma belíssima, da fugacidade e ao mesmo tempo da eternidade da vida: a morte da rosa é passageira, pois suas pétalas desfolhadas continuarão a espalhar seu aroma e ela será eterna…

Karina

 

 

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Para Florbela Espanca sempre pedimos bis

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Já homenageamos a inigualável poetisa portuguesa nesse espaço. Mas nunca é demais ler e reler Florbela Espanca. Porque o que ela escreveu ilumina a alma e acalenta o coração Dá pra sentir a paixão que corria em suas veias.

Caro leitor: quando estiver desalentado, triste ou sem inspiração, leia pausadamente uma bela poesia de Florbela e o mundo até parecerá mais colorido…

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Desdém:

“Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante…

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d’alguém…

Por isso vai caminhando…
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente.”

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Oração de Joelhos

Bendita seja a mãe que te gerou!
Bendito o leite que te fez crescer!
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama pra te adormecer!

Bendito seja o brilho do luar
Da noite em que nasceste tão suave,
Que deu essa candura ao teu olhar
E à tua voz esse gorjeio d’ave!

Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!

E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca! “

Telma

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Beijo

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Aos apaixonados de plantão segue abaixo trecho do livro “O Jogo da Amarelinha”, do escritor Júlio Cortázar. O trecho descreve o momento do beijo entre os amantes.

Saboreiem:

Toco sua boca, com um dedo toco o contorno de sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo de minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenha-la com minha mão em seu rosto e, que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se aproximam um dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem como um perfume antigo e um grande silêncio.
Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, cariciar lentamente a profundidade de seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela.
E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água
.”

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Júlio Florencio Cortázar era filho de pais argentinos, mas nasceu em Bruxelas, na Bélgica em 1914.

Amante das línguas e do jazz, ganhou a vida fazendo traduções e como trompetista e maestro na Argentina. Mas desde criança tinha o hábito de escrever, tendo escrito o seu primeiro livro aos nove anos de idade.

Viveu na Argentina até 1951, quando, fugindo do “peronismo”, foi para Paris, de onde nunca mais saiu até sua morte em 1984.

Cortázar era partidário da causa socialista e foi duramente perseguido em decorrência de seu engajamento político.

Foi considerado um dos escritores mais originais de seu tempo. Sua obra consiste em narrativas curtas e contos. Seus personagens carregam intensa profundidade psicológica.

O livro “O Jogo da Amarelinha” (Rayuela, no original)  é considerado um clássico da literatura do século 20.

Karina

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