Archive for maio, 2011

Para os amantes dos gatos

Aqui vão alguns trechos do livro “O gato por dentro”, de William S. Burroughs, célebre escritor americano da geração beat (movimento literário e comportamental do final dos 50 e início dos anos 60), considerado polêmico e referência do movimento contracultural.

O livro traz reflexões do escritor sobre os felinos que passaram por sua vida e do impacto que essa passagem causou:

(…) “Ronronando enquanto dorme, Fletch estica as patinhas pretas para tocar minhas mãos, as garras encolhidas, um toque bem suave para assegurá-lo de que estou ali ao seu lado enquanto ele dorme. Ele provavelmente me vê no sonho. Dizem que os gatos não distinguem as cores: um preto-e-branco granulado, um filme de prata tremeluzente cheio de falhas quando saio do quarto,volto, o apanho e o ponho na cama. Quem poderia ferir uma criatura como essa? Treinar seu cão para matá-lo! O ódio pelos gatos reflete um espírito feio, estúpido, grosseiro e intolerante. Não pode haver acordo com esse Espírito Feio.”

(…)

“Quando penso no início de minha adolescência, eu me recordo da sensação recorrente de aninhar e acariciar uma criatura contra meu peito. É bem pequena, mais ou menos do tamanho de um gato. Não é um bebê humano, nem um animal. Não exatamente. É parte humana e parte outra coisa. Lembro-me de uma ocasião em que isso aconteceu lá na casa da Prince Road. Eu devia ter doze ou treze anos. Eu me pergunto o que era… um esquilo?… não exatamente. Não consigo ver direito. Não sei de que ela precisa. Sei apenas que confia plenamente em mim. Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos.”

(…)

“Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agora reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar. Sem dúvida compartilha coisas com o gato, e também com outros animais: raposas voadoras, lêmures ai-ais, lêmures-voadores com olhos amarelos enormes que vivem em árvores e são indefesos no chão, lêmures de cauda anelada e os pequeninos lêmures microcebos, martas, guaxinins, minks, lontras, gambás e raposas da areia.”

(…)

“Indícios apontam que os gatos foram  domesticados pela primeira vez no Egito. Os egípicios armazenavam grãos, que atraíam roedores, que atraíam gatos. (Não há prova de que isso tenha acontecido com os maias, apesar de haver um grande número de gatos selvagens nativos na área.) Não acho que isso seja exato. Sem dúvida não é a história toda. Gatos não começaram como caçadores de ratos. Doninhas, cobras e cães são mais eficientes como agentes de controle de roedores. Eu postulo que os gatos começaram como companheiros psíquicos, como Familiares, e nunca se afastaram dessa função.”

(…)

“O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos.”

(…)

“Um dia, na Casa de Pedra, antes que qualquer dos gatos fosse morar lá dentro, eu estava dando uns tiros no celeiro quando olhei para o topo de uma pilha de madeira atrás do meu alvo e vi um gatinho branco. Guardei minha arma no coldre, fui até lá devagar, e então vi a mãe gata ali no alto da pilha de madeira, cercada por três filhotes. Ela se aproximou e esfregou a cabeça na minha mão.

– Estou vendo que o senhor é um homem bom, Xerife. Tome conta de mim e dos meus bebês.

A simplicidade do gesto foi muito emocionante. Milhares de anos de gatas naquele gesto, e os bebês atrás dela:

– Esta é a minha criação… o melhor que posso fazer…  o que tenho de fazer.”

(…)

“Todos vocês que amam gatos lembrem que os milhões de gatos que miam pelos quartos do mundo depositam toda sua esperança e confiança em vocês, da mesma maneira que a gatinha mãe da Casa da Pedra repousava a cabeça em minha mão, que Calico Jane botou os bebês em minha valise, que Fletch pulou nos braços de James e Ruski corria para mim arrepiado de alegria”.

(O gato por dentro, William Burroughs, Editora LPM)

Karina

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Pablo Neruda

Já és minha

 

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.

Amor, dor, trabalho, devem dormir agora.

Gira a noite sobre suas invisíveis rodas

e junto a mim és pura como âmbar dormido…

Nenhuma mais, amor, dormira com meus sonhos…

Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.

Nenhuma viajará pela sombra comigo, só tu.

sempre viva. sempre sol… sempre lua…

Já tuas mãos abriram os punhos delicados

e deixaram cair suaves sinais sem rumo…

teus olhos se fecharam como

duas asas cinzas, enquanto eu sigo a água

que levas e me leva.

A noite… o mundo… o vento enovelam seu destino,

e já não sou sem ti senão apenas teu sonho…

Karina

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Respiro teu nome

RESPIRO TEU NOME

Respiro teu nome.
que brisa tão pura
súbito circula
no meu coração.

Respiro teu nome.
repentinamente,
de mim se desprende
a voz da canção.

Respiro teu nome.
Que nome? Procuro…
– Ah teu nome é tudo.
E é tudo ilusão.

Respiro teu nome.
Sorte. Vida. Tempo.
Meu contentamento
é límpido e vão.

Respiro teu nome.
Mas teu nome passa.
Alto é o sonho. Rasa,
minha breve mão.

(Cecília Meireles in Canções -1956)

Karina

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O enterrado vivo

O ENTERRADO VIVO

É sempre no passado aquele orgasmo,

é sempre no presente aquele duplo,

é sempre no futuro aquele pânico.


É sempre no meu peito aquela garra.

É sempre no meu tédio aquele aceno.

É sempre no meu sono aquela guerra.


É sempre no meu trato o amplo distrato.

Sempre na minha firma a antiga fúria.

Sempre no mesmo engano outro retrato.


É sempre nos meus pulos o limite.

É sempre nos meus lábios a estampilha.

É sempre no meu não aquele trauma.


Sempre no meu amor a noite rompe.

Sempre dentro de mim meu inimigo.

E sempre no meu sempre a mesma ausência.

(Carlos Drummond de Andrade in o Fanzendeiro do Ar)

Karina

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Uma lição de Cora Coralina

Assim eu vejo a vida

 

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.


Cora Coralina foi o pseudônimo usado pela escritora goiana  Ana Lins de Guimarães Peixoto Brêtas, nascida em 1889.  Cora Coralina foi uma grande poetisa brasileira e sua obra ganhou notoriedade depois que Carlos Drummond de Andrade, após ler alguns dos textos de Cora, enviou-lhe uma carta elogiosa, que quando divulgada, despertou o interesse dos leitores e da crítica.

Cora Coralina morreu em 1985, nos deixando uma obra profunda e sensível.

Karina

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