Archive for janeiro, 2011

A vida é bela!

A canção da vida

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio…
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí…
como um salso chorando
na beira do rio…
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Mário Quintana

Karina

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Os namorados, por Elsie Lessa

Os namorados


Dizer que há a inflação e a permante crise política, os festivais de cinema, a feira de antiguidades, os mísseis, cápsulas no espaço, crimes e o campeonato mundial de futebol. E, com todas essas coisas, para distrair o espírito, há quem se dirija às seções de queixas e reclamações de um jornal para pedir providências contra um ônibus Urca – Erasmo Braga entre as cinco e meia e seis da tarde.

Dei com os olhos na notícia do jornal e achei engraçado. Eis que perturbavam os passantes, os “habitués” da fila, “as expansões”, do casalzinho, vai ver que de volta das aulas ou do trabalho. Não ri, nem chorei: como Machado de Assis, admirei-me simpeslemnte com as turbas.

Rolam os dias, e ontem, de novo, abrem-se colunas, gastam-se letras da imprensa e custoso papel dela ainda para reclamar dos pobres amantes. Acresce, dizem os queixosos, ou um deles, que os representa, “que ele é muito alto, ela muito baixinha”, o que não sei se lhes dificultará ou propiciará as tais “expansões” de que tanto se queixam na coluna.

Ontem, rolava eu pela tarde irrealmente linda de Petrópolis, e, não sei por que, pensava nesses namorados que nunca vi. Pensei em prestar-lhes o meu irrestrito apoio, intenção que ora concretizo, por estas mal traçadas.

Pois que seria de nós, deste complicado mundo, sem vós, namorados, mesmo que sejam estes que tanto reclamam, da fila Erasmo Braga-Urca. Amem-se, expandam-se nas suas expansões, que a ninguém pode fazer mal, mesmo ele sendo muito alto, ela muito baixinha, obedecendo à lei dos contrastes ou ao gênio da espécie. Estamos cansados, neurastênicos, aflitos neste mundo que não sabemos, mas desconfiamos, às vezes, aterrorizados, para onde irá. E um casal se ama, e, se amando, expande-se e se assim se expande às seis horas da tarde, na fila do ônibus, há de ser porque não tem muito lazer nem local para expandir-se em sítio mais cômodo, para eles e para os demais “habitués” da fila.

E fico a pensar em que expansões serão essas dele, muito alto, ela muito baixinha, como fez questão de frisar o reclamante, capaz de tanto perturbar a volta do trabalho desses escandalizados habitantes da Urca.

Não sei, mas estou convosco, ó namorados, ele muito alto etc. etc. O mais que fazeis é estar amando e não é coisa que geralmente faça mal ao próximo. Amando, no Rio de Janeiro, no Brasil, a inflação subindo quatro vírgulas não sei quanto cada mês, cápsulas espaciais a despencarem dos ceús, guerra no Vietnã, aflições e desconfortos vários. E vós ainda vos amais, um ao outro, numa fila humilde de ônibus, entre cinco e seis horas da tarde, vai ver que cansados da lida do dia.

Amem-se, expandam-se, doa a quem doer, que não há de doer muito. Digam o que disserem,é um dos belos ofícios que se pode exercer, neste trsite mundo, este de amar e expandir-se. Mesmo sendo “ele muito alto, ela baixinha”.

(Elsie Lessa in Crônicas de Amor e Desamor – 1973 – Ed. F. Alves)

Karina

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Cecília Meireles

Única sobrevivente

de uma casa desabada

– só eu me achava acordada.

 

E recordo a minha gente,

na noite sem madrugada.

Só eu me achava acordada.

 

Minha morte é diferente:

eles não souberam nada.

Só eu me achava acordada.

 

Mas quem sabe o que se sente,

entre ir na casa afundada

e ter ficado – acordada!?


Cecília Meireles in Canções (1956)
Karina

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Tudo de Novo

Até que você não pode queixar-se, meu mano: o astrólogo previu  sua morte em 1966, e quem morreu foi o astrólogo. E não foi você que o matou; foi uma ceia de Natal à go go. É certo que, durante o ano, a profecia esvoaçou em torno de você que nem pernilongo enxerido; enxotada, vinha de novo e zumbia. Mas também é certo que ninguém parecia rejubilar-se com ela;  a afeição de uns, e, para outros, o fato de você não deixar vaga em cartório nem em diretoria de banco terão contribuído para isso. E a vidinha foi tocada pra frente, sem lances históricos nem medalhas, mas igualmente sem IPM*.  Em suma, individualmente, o ano lhe foi camarada. As dores maiores foram cívicas; a bem dizer, tristezas à beira-mar, que o mar se encarrega de repelir, com seu espetáculo de grandeza e força. Quem mora perto dele encontra sempre intimação para acreditar na vida. E esse País, mano, lembra o mar, coisa grande e bela em si, na variedade de formas, de ímpetos ritmados.

Agora, você vai repetir aquela velha brincadeira de começar tudo de novo, isto é, de fingir quê, sem conscientizar (eta palavrinha antipática) que está fingindo quê. Não importa. Esse faz-de-conta de começar outra vez (desta vez, melhor) é uma das astúcias do homem para manter alerta o seu lado menino, e o lado menino hoje cresceu tanto que faz a gente ter certa esperança na humanidade. Essas roupas moderninhas de cavalheiros e damas, que pelo menos divertem, esses jogos, essas coleções de miniaturas, esses campeonatos de canto de curió, tudo que é infantil no comportamento adulto, inclusive e principalmente a ambição de chegar à lua cada qual primeiro que o outro, são minhas razões de confiar. Confiar é exagero, mas de esperar alguma coisa de bom de meu semelhante, isto é, de você, de mim mesmo.

E não me venha, no dia 2,  com a lamentação de que isso e mais aquilo e aquilo outro subiram tão de preço a partir de 1° de janeiro, que tudo agora vai ser mais impossível do que já era no dia 31 de dezembro, quando as impossibilidades reunidas e somadas desde a fundação do País pelo almirante realizaram esta maravilha: era praticamente impossível viver, e vivia-se. A vida é talvez um milagre dentro do qual subjugamos todas as negações. Não há imposto de circulação de mercadorias nem alta da gasolina nem nada que impeça o milagre cotidiano de alguém acordar e rever-se no mesmo espelho e sentir que o rosto lavado perde a fadiga sebosa do rosto noturno, e tudo é um vir-a-ser. Você, aliás, é doutor-de-Salamanca em filosofias baratas, e com elas tem divertido o seu caminho já longo. Distraia-se  em cultivá-las, mano, enquanto não vem outro astrólogo de luneta mais sábia.

E para que esta conversa não resulte demasiado individual em tempos de comunicação reclamada a todos para todos, invente aí qualquer coisa que possa alcançar o seu vizinho e despertar nele o desejo de comunicá-la a outro vizinho, e este a outro, e outro a outro, até os grandes da Terra, tão coitados na solidão do poder; invente qualquer coisa, olhar compreensivo, gesto, palavra. Não achou? Então recorra ao dicionário, tire de lá paciência, tire boa vontade. Use-as. Não há melhor chiclete, meu mano, para a humanidade mascar.

* IPM: Inquérito Policial Militar

(texto de 04/01/1967 escrito por Carlos Drummond de Andrade em plena vigência da Ditadura Militar e pertencente ao livro Caminhos de João Brandão – Editora Record)

Karina

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Feliz 2011!

Começamos o ano com um bela mensagem de Caio Fernando Abreu:

(…)

“Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim.”

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.

Caio Fernando Abreu

Karina

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