Archive for fevereiro, 2009

Bojunga e a Bolsa Amarela

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Lygia Bojunga é uma renomada escritora de literatura infantil, nascida em Pelotas (RS), cuja sensibilidade ao escrever para crianças é enorme e sua obra  vem sendo premiada tanto no Brasil como internacionalmente.

De fato, a autora a que nos referimos lida com o mundo infantil com muita facilidade e sabe como ninguém mostrar o que vai dentro da alma de uma criança.

Um dos livros mais conhecidos e consagrados de Lygia é “A Bolsa Amarela”, que narra a estória de uma menina aprendendo a crescer. Nesse desafio, a personagem principal, Raquel, encara os problemas típicos de sua idade e passa a se descobrir enquanto pessoa, ao mesmo tempo em que tenta reprimir seus três grandes desejos: ser menino, se tornar escritora e crescer logo.

Num dado momento da narrativa, a menina ganha uma grande bolsa amarela e decide esconder dentro dela todas as suas vontades. A partir daí, vários episódios, mágicos e reais, passam a se desenvolver.

Trata-se de um livro muito especial, envolvente, que deve ser lido por crianças e por adultos, tamanha a magnitude da lição de vida que traz. Lígia Bojunga, com maestria, consegue se superar em “A Bolsa Amarela”.

Abaixo, reproduzimos um trecho desta magnífica obra da literatura infantil. Não ler é um pecado…

“Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenininha, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço na aula de matemática, comprar um sapato novo, que eu não aguento mais o meu. Vontade assim todo mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida – ah, essas eu não quero mais mostrar. De jeito nenhum.

Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.

Já fiz de tudo pra me livrar delas. Adiantou? Hmm! É só me distrair um pouco e uma aparece logo. Ontem mesmo eu tava jantando e de repente pensei: puxa vida, falta tanto pra eu ser grande. Pronto: a vontade de crescer desatou a engordar, tive que sair correndo pra ninguém ver.

A bolsa amarela não tinha fecho. Já pensou? Resolvi que naquele dia mesmo eu ia arranjar um fecho pra ela.

Peguei um dinheiro que eu vinha economizando e fui numa casa que conserta e reforma bolsas. Falei que queria um fecho e o vendendor me mostrou um, dizendo que era o melhor que ele tinha. Custava muito caro, meu dinheiro não dava.

 – E aquele? – apontei. Era um fecho meio pobre, mas brilhando que só vendo.

O homem fez cara de pouco caso, disse que não era bom. Experimentei.

 – Mas ele abre e fecha tão bem.

O homem disse que o fecho era muito barato: ia enguiçar. Vibrei! Era isso mesmo que eu tava querendo: um fecho com vontade de enguiçar. Pedi pro vendendor atender outro freguês enquanto eu pensava um pouco. Virei pro fecho e passei uma cantada nele:

 – Escuta aqui fecho, eu quero guardar umas coisas bem guardadas aqui dentro dessa bolsa. Mas você sabe como é que é, não é? Às vezes vão abrindo a bolsa da gente assim sem mais nem menos; se isso acontecer você precisa enguiçar, viu? Você enguiça quando eu pensar “enguiça”, enguiça?

O fecho ficou olhando pra minha cara. Não disse que sim nem que não. Eu vi que ele tava querendo uma coisa em troca.

 – Olha, eu já vi que você tem mania de brilhar. Se você enguiçar na hora que precisa, eu prometo viver polindo você pra te deixar com essa pinta de espelho. Certo?

O fecho falou um tlique bem baixinho com todo o jeito de “certo”. Chamei o vendedor e pedi pra ele botar o fecho na bolsa.”

Telma

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Mais Victor Hugo

Mais um trecho extraído do livro Os trabalhadores do mar, do magnífico escritor francês Victor Hugo. Aqui ele discorre sobre os seres que possuem o atributo da beleza, ao descrever uma personagem do romance:

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“(…) Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. A criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se para, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana …”

Karina

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Bela crônica de Clarice Lispector

Já falamos aqui da grande escritora Clarice Lispector e de sua enorme delicadeza e inteligência no uso das palavras.

Hoje oferecemos aos leitores uma crônica belíssima de Clarice, extraída do livro As cem melhores crônicas brasileiras.

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“O milagre das folhas

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza”.

Karina

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O Dia da Criação

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Hoje presenteamos o leitor do blog com um conhecido poema do mestre Vinicius de Moraes, intitulado “O Dia da Criação”. Vinicius de Moraes sempre é citado pelo blog, mas nunca é demais reverenciá-lo.

O poema escolhido é um primor e, embora ligeiramente longo, vale a pena ser lido dada sua originalidade.

O DIA DA CRIAÇÃO

                                                              Macho e fêmea os criou

                                                              Bíblia: Gênese, 1, 27

 

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo

A vida vem em ondas, como o mar

Os bondes andam em cima dos trilhos

E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

 

Hoje é sábado, amanhã é domingo

Não há nada como o tempo para passar

Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo

Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo o mal.

 

Hoje é sábado, amanhã é domingo

Amanhã não gosta de ver ninguém bem

Hoje é que é o dia do presente

O dia é sábado.

 

Impossível fugir a essa dura realidade

Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios

Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas

Todos os maridos estão funcionando regularmente

Todas as mulheres estão atentas

Porque hoje é sábado.

 

II

Neste momento há um casamento

Porque hoje é sábado.

Há um divórcio e um violamento

Porque hoje é sábado.

Há um homem rico que se mata

Porque hoje é sábado.

Há um incesto e uma regata

Porque hoje é sábado.

Há um espetáculo de gala

Porque hoje é sábado.

Há uma mulher que apanha e cala

Porque hoje é sábado.

Há um renovar-se de esperanças

Porque hoje é sábado.

Há uma profunda discordância

Porque hoje é sábado.

Há um sedutor que tomba morto

Porque hoje é sábado.

Há um grande espírito de porco

Porque hoje é sábado.

Há uma mulher que vira homem

Porque hoje é sábado.

Há criancinhas que não comem

Porque hoje é sábado.

Há um piquenique de políticos

Porque hoje é sábado.

Há um grande acréscimo de sífilis

Porque hoje é sábado.

Há um ariano e uma mulata

Porque hoje é sábado.

Há uma tensão inusitada

Porque hoje é sábado.

Há adolescências seminuas

Porque hoje é sábado.

Há um vampiro pelas ruas

Porque hoje é sábado.

Há um grande aumento no consumo

Porque hoje é sábado.

Há um noivo louco de ciúmes

Porque hoje é sábado.

Há um garden-party na cadeia

Porque hoje é sábado.

Há uma impassível lua cheia

Porque hoje é sábado.

Há damas de todas as classes

Porque hoje é sábado.

Umas difíceis, outras fáceis

Porque hoje é sábado.

Há um beber e um dar sem conta

Porque hoje é sábado.

Há uma infeliz que vai de tonta

Porque hoje é sábado.

Há um padre passeando à paisana

Porque hoje é sábado.

Há um frenesi de dar banana

Porque hoje é sábado.

Há a sensação angustiante

Porque hoje é sábado.

De uma mulher dentro de um homem

Porque hoje é sábado.

Há a comemoração fantástica

Porque hoje é sábado.

Da primeira cirurgia plástica

Porque hoje é sábado.

E dando os trâmites por findos

Porque hoje é sábado.

Há a perspectiva do domingo

Porque hoje é sábado.

 

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação

De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas

E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra

Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.

Na verdade, o homem não era necessário

Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada

Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.

Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias

Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa

Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos

Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.

Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes

Não seríamos partidos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia.

Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo.

Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.

Seria indizível a beleza e a harmonia do plano verde da terra e das águas em núpcias.

A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio

A pureza maior dos instintos dos peixes, das aves e dos animais em cópula.

Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos

Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas

Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade.

Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo.

E para não ficar com as vastas mãos abanando

Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança

Possivelmente, isto é, muito provavelmente

Porque era sábado.

 

 Telma

 

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Shakespeare apaixonado

Abaixo um dos famosos sonetos de William Shakespeare, extraído do livro 42 Sonetos , com tradução de Ivo Barroso e editora Nova Fronteira.

No soneto que trazemos hoje, o grande poeta inglês fala da efemeridade da beleza de sua musa que, no entanto, se perpetua através do poema a ela dedicado.

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“Soneto XVIII

Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida”.

 Karina

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Da coletânea “Os meses” de Bilac: Fevereiro

“Os Meses

Coro das crianças:

Venham os meses desfilando!
Cante cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês…

Fevereiro:

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Fevereiro, muitas vezes,
No meio dos doze meses,
É o mês mais jovial.
É o mês da mascarada,
Da alegria desvairada,
Das festas do Carnaval.
Saem à rua os diabos,
De longos, vermelhos rabos,
E caras de horrorizar,
E o velho, que, dando o braço
Ao dominó, e ao palhaço,
Diz graçolas, a pular.
Brincai! por estes treze dias
De festas e de alegrias,
Os vossos livros deixai!
Para alegrar vossas almas,
Batei aos máscaras palmas,
– Depois… aos livros voltai!

Coro das crianças:

Saia da roda Fevereiro,
Pois já passou a sua vez!
Entre na roda o mês terceiro!
Venha outro mês! venha outro mês
!”

Karina

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Para rir um pouco

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O texto abaixo foi escrito por Paulo Mendes de Campos, autor mineiro, falecido em 1991. Seu estilo literário tinha como principais marcas a simplicidade, a leveza e o bom humor, não raro retratando o cotidiano.

A seguir, um pouco da irreverência do autor, brincando com palavras semelhantes:

“CHATEAR” e “ENCHER”

Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”. Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade.

 – Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar?

 – Aqui não tem nenhum Valdemar.

Daí a alguns minutos você liga de novo:

 – O Valdemar, por obséquio.

 – Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.

 – Mas não é do número tal?

 – É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.

Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:

 – Por favor, o Valdemar já chegou?

 – Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?

 – Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.

 – Não chateia.

Daí a dez minutos, liga de novo.

 – Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado?

O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.

Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:

 – Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?

Telma

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Vocação para a vida – Lygia Fagundes Telles

Da vocação:

Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres, umas santas, lembra?

Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinês imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, não chores que a vida/é luta renhida. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos de casa certos de que vamos encontrar alguma… O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus, oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte – ainda intensos – seremos um fantasminha claro de amor.”

No trecho acima, que integra o livro de fragmentos A disciplina do amor, Lygia Fagundes Telles, sempre genial, nos dá uma maravilhosa lição de vida e de esperança.

Karina

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Café com leite

Café com leite         

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 “É preciso amar, sabe ? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.
Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros! Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com o que empresta as chaves.
 Para os chamados “grandes homens” a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.
Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do prazer cumprido.
 No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo o asceticismo da ioga… tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”.
(Antônio Maria)

Antônio Maria Araújo de Morais nasceu em 17 de março de 1921, no Recife. Foi cronista, compositor, humorista, produtor de rádio e televisão e jornalista.

A crônica acima foi extraída do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos.

Karina

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Mãe:a mais doce das figuras

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Uma bela poesia de Guilherme de Almeida, sobre o ciúme,  já foi colocada no blog. Mas uma só é muito pouco. É preciso ler todas, pois vale a pena.  E como vale!

O autor é um ícone da literatura brasileira que merece mais espaço, mais homenagens, mais visibilidade, ainda que póstumos. Sempre com singular sensibilidade, escreveu maravilhas como a que reproduzimos abaixo:

“Minha mãe

                   (Num “Dia das Mães”)

Senhora das mãos de leite

que me sustinham ao seio

para matar minha sede,

minha fome de viver…

Senhora das mãos de sonho

que, fechando o cortinado,

davam um céu ao meu berço,

povoado de anjos e fadas…

Senhora das mãos de benção

pousando na minha fronte

seu vôo de asa e de incenso…

Senhora das mãos de santa

que rezavam os meus dias

como contas de um rosário…

Senhora das mãos de adeus

que partiram, brancas, frias

e cruzadas sobre o peito

(por que partiram? por quê?)

sem ter fechado meus olhos…”

 

Telma

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