Archive for abril, 2009

“Adiamento”, por Álvaro de Campos

Já postamos poemas de Fernando Pessoa “ele mesmo” e de dois de seus heterônimos: Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Hoje reproduziremos um poema de seu terceiro heterônimo, Álvaro de Campos.

Álvaro de Campos é o poeta da vanguarda, do século XX. É o homem das indústrias, das máquinas, da velocidade. Preocupa-se em sentir o mundo de todas as maneiras. Para Álvaro de Campos, a sensação é tudo.

Muitos de seus poemas celebram a precisão e a força das máquinas,  a energia elétrica e a civilização moderna, com estilo febril e delirante. Em outra fase, prevalecem o tédio, a solidão, a angústia existencial e a nostalgia da infância perdida.

No poema trazido hoje, Álvaro de Campos, com genialidade, transmite uma sensação de desânimo, um sentimento de angústia e até uma certa preguiça de viver…

Apreciem:

portrait_of_dr_gachetAdiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…

 Karina

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A velhice

O poeta da perfeição, Olavo Bilac, fala no poema abaixo sobre a velhice, estado que muitos veem com verdadeiro pavor. Para Bilac, no entanto, não há o que lamentar, pois existe beleza também na velhice.Vejam:

 A velhice

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

 

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Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 Karina

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Acerca da Felicidade

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Como já proposto em post anterior, vez por outra publicaremos pensamentos e frases sábias anônimas ou de autores do mundo todo sobre determinado assunto. Hoje trataremos do tema felicidade, do ponto de vista de inúmeros escritores. Saboreiem!

Só é feliz e grande quem, para chegar a ser alguma coisa, não precisa mandar nem obedecer.” (Johann W. Goethe)

Eis os três segredos da felicidade: não ver o mal, não ouvir o mal, não fazer o mal.” (Anônimo)

A verdadeira felicidade consiste em nos vermos formosos no espelho da nossa consciência.” (Isaac Nuñes Arenas)

A verdadeira felicidade custa pouco; quando é cara, não é de boa qualidade.” (Chateaubriand)

A felicidade não é outra coisa senão a divisão de um prazer com outrem.” (Jean Dolent)

A vida nos ensina que somente somos felizes à custa de alguma ignorância.” (Anatole France)

Raras vezes está ausente a felicidade. Nós é que lhe não notamos a presença.” (Maurice Maeterlinck)

Não há felicidade onde não há paz, e paz só há onde está Deus.” (Jean Baptiste Massillon)

A felicidade consiste principalmente em nos resignarmos à sorte, e em querermos ser o que somos.” (Erasmo de Roterdã)

A felicidade humana não é oriunda tanto de grandes golpes de boa sorte, que raramente se verificam, quanto de pequeninas vantagens que ocorrem todos os dias.” (Benjamin Franklin)

Portanto, mortal, por que buscas fora o que dentro de ti é que está?” (Boécio)

Que coisa estranha é a felicidade! Ninguém sabe por onde, nem como, nem quando chega, e ela vem por caminhos invisíveis, às vezes quando já a não esperamos.” (H. Ibsen)

 

Telma

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“Essa que eu hei de amar…”, por Guilherme de Almeida

Reproduzimos abaixo mais um belo poema do grande escritor Guilherme de Almeida, extraído do livro  Meus Versos Queridos – Editora Ediouro:

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Essa que eu hei de amar…

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

 
E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… – Tudo isso eu me dizia,

 
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…


E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”

 Karina

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“Segue o teu destino”, por Ricardo Reis

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A genialidade de Fernando Pessoa o levou à criação dos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Ricardo Reis é o poeta clássico, que aceita estoicamente a fugacidade da vida que, para ele, deve ser vivida de forma tranquila e equilibrada já que é impossível vencer o implacável destino. É adepto do “carpe diem” de Horácio, pois crê que a vida é feita apenas de momentos. O bucolismo e o paganismo aparecem com frequência em sua poesia.

Abaixo reproduzimos um poema que demonstra bem o estilo de Ricardo Reis:

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(Odes de Ricardo Reis, 1-6-1916)

Karina

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Bom Mesmo é…

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Resolvemos alegrar o sábado dos frequentadores do blog. Para isso, transcrevemos abaixo mais uma crônica de Luis Fernando Verissimo, da série “Novas Comédias da Vida Privada”.

Hoje o nobre leitor apreciará a crônica “Bom Mesmo”.  Diversão inteligente garantida.

“O homem passa por várias fases na sua breve estada neste palco que é o mundo, segundo Shakespeare, que só foi original porque foi o primeiro que disse isso. Muitas coisas distinguem uma fase da outra – a rigidez dos tecidos, o alcance e a elasticidade dos membros, a energia e o que se faz com ela -, mas o que realmente diferencia os estágios da experiência humana sobre a Terra é o que o homem, a cada idade, considera bom mesmo. Não o que ele acha bom – o que ele acha melhor. Melhor do que tudo. Bom mesmo.

Um recém-nascido, se pudesse participar articuladamente de uma conversa com homens de outras idades, ouviria pacientemente a opinião de cada um sobre as melhores coisas do mundo e no fim decretaria:

 – Conversa. Bom mesmo é mãe.

Já um bebê de mais idade discordaria.

 – Bom mesmo é papinha.

Depois de uma certa idade, a escolha do melhor de tudo passa a ser mais difícil. A infância é um viveiro de prazeres. Como comparar, por exemplo, o orgulho de um pião bem lançado, ou o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entres os dedos, com o cheiro de terra úmida ou de caderno novo? Existem gostos exóticos:

 – Bom mesmo é cheiro de Vick Vaporub.

Mas acho que, tirando-se uma média das opiniões de pré-adolescentes normais e brasileiros, se chegaria fatalmente à conclusão de que, nessa fase, bom mesmo, melhor do que tudo, melhor até do que fazer xixi na piscina, é passe de calcanhar que dá certo.

Existe ainda uma fase, no começo da puberdade, em que a indecisão é de outra natureza. O cara se acha na obrigação de pensar que bom mesmo é mulher (no caso prima, que é parecido com mulher), mas no fundo ainda tem a secreta convicção de que bom mesmo é acordar com febre na segunda-feira e não precisar ir à aula. Depois, sim, vem a fase em que não tem conversa:

 – Bom mesmo é sexo!

Essa fase dura, para muita gente, até o fim da vida. Mesmo quando sexo não está em primeiro lugar numa escala de preferências (“Pra mim é sexo em primeiro e romance policial em segundo, longe”) serve como referência. Daí para diante, quando alguém disser que “bom mesmo” é outra coisa que não o sexo estará sendo exemplarmente honesto ou desconcertantemente original.

 – Olha, bom mesmo é figada com queijo.

 – Melhor do que sexo?

 – Bem… Cada coisa na sua hora.

Há quem anuncie o que prefere mesmo como quem faz uma confissão há muito contida. Abre o jogo e o peito, e não importa que pensem que o sexo não lhe interessa mais:

 – Pensem o que quiserem. Pra mim, bom mesmo é discurso de baiano.

E há casos patéticos. Tem uma crônica do Paulo Mendes Campos em que ele conta de um amigo que sofria de pressão alta e era obrigado a fazer uma dieta rigorosa. Certa vez, no meio de uma conversa animada de um grupo, durante a qual mantivera um silêncio triste, ele suspirou fundo e declarou:

 – Vocês ficam aí dizendo que bom mesmo é mulher. Bom mesmo é sal!

Com a chamada idade madura, embora persista o consenso de que nada se iguala ao prazer, mesmo teórico, do sexo, as necessidades do conforto e os pequenos prazeres das coisas práticas vão se impondo.

 – Meu filho, eu sei que você, aí tão cheio de vida e de entusiasmo, não pode compreender isso. Mas tome nota do que eu vou dizer porque um dia você concordará comigo: bom mesmo é escada rolante.

E assim é a trajetória do homem e seu gosto inconstante sobre a Terra, do colo da mãe, que parece que nada, jamais, substituirá, à descoberta final de que uma boa poltrona reclinável, se não é igual, é parecida. E que bom, mas bom mesmo, é não precisar ir a lugar nenhum, mesmo sem febre.”

 

Telma

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Mais Ruth Rocha

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Já falamos sobre Ruth Rocha no blog, salientando como a escritora paulistana consegue entrar no imaginário das crianças com maestria. Seus livros, amplamente premiados, são, além de diversão para as crianças, uma forma de aprendizado sobre valores e sobre como lidar com os conflitos e com as adversidades que a vida impõe desde cedo.

Sempre que possível postaremos dicas de livros e trechos da obra dessa escritora maravilhosa.

Hoje colocaremos a estória “O que os olhos não veem”, que de forma acessível incute na mente da criança a consciência política e revela o poder do povo.

Não deixem de ler para seus filhos, sobrinhos, netos etc:

O que os olhos não veem

Havia uma vez um rei
num reino muito distante,
que vivia em seu palácio
com toda a corte reinante.
Reinar pra ele era fácil,
ele gostava bastante.

Mas um dia, coisa estranha!
Como foi que aconteceu?
Com tristeza do seu povo
nosso rei adoeceu.
De uma doença esquisita,
toda gente, muito aflita,
de repente percebeu…

Pessoas grandes e fortes
o rei enxergava bem.
Mas se fossem pequeninas,
e se falassem baixinho,
o rei não via ninguém.

Por isso, seus funcionários
tinham de ser escolhidos
entre os grandes e falantes,
sempre muito bem nutridos.
Que tivessem muita força,
e que fossem bem nascidos.
E assim, quem fosse pequeno,
da voz fraca, mal vestido,
não conseguia ser visto.
E nunca, nunca era ouvido.

O rei não fazia nada
contra tal situação;
pois nem mesmo acreditava
nessa modificação.
E se não via os pequenos
e sua voz não escutava,
por mais que eles reclamassem
o rei nem mesmo notava.

E o pior é que a doença
num instante se espalhou.
Quem vivia junto ao rei
logo a doença pegou.
E os ministros e os soldados,
funcionários e agregados,
toda essa gente cegou.

De uma cegueira terrível,
que até parecia incrível
de um vivente acreditar,
que os mesmos olhos que viam
pessoas grandes e fortes,
as pessoas pequeninas
não podiam enxergar.

E se, no meio do povo,
nascia algum grandalhão,
era logo convidado
para ser o assistente
de algum grande figurão.
Ou senão, pra ter patente
de tenente ou capitão.
E logo que ele chegava,
no palácio se instalava;
e a doença, bem depressa,
no tal grandalhão pegava.

Todas aquelas pessoas,
com quem ele convivia,
que ele tão bem enxergava,
cuja voz tão bem ouvia,
como num encantamento,
ele agora não tomava
o menor conhecimento…

Seria até engraçado
se não fosse muito triste;
como tanta coisa estranha
que por esse mundo existe.

E o povo foi desprezado,
pouco a pouco, lentamente.
Enquanto que próprio rei
vivia muito contente;
pois o que os olhos não vêem,
nosso coração não sente.

E o povo foi percebendo
que estava sendo esquecido;
que trabalhava bastante,
mas que nunca era atendido;
que por mais que se esforçasse
não era reconhecido.

Cada pessoa do povo
foi chegando à convicção,
que eles mesmos é que tinham
que encontrar a solução
pra terminar a tragédia.
Pois quem monta na garupa
não pega nunca na rédea!

Eles então se juntaram,
Discutiram, pelejaram,
E chegaram à conclusão
Que, se a voz de um era fraca,
Juntando as vozes de todos
Mais parecia um trovão.

E se todos, tão pequenos,
Fizessem pernas de pau,
Então ficariam grandes,
E no palácio real
Seriam logo avistados,
Ouviriam os seus brados,
Seria como um sinal.

E todos juntos, unidos,
fazendo muito alarido
seguiram pra capital.
Agora, todos bem altos
nas suas pernas de pau.
Enquanto isso, nosso rei
continuava contente.
Pois o que os olhos não vêem
nosso coração não sente…

Mas de repente, que coisa!
Que ruído tão possante!
Uma voz tão alta assim
só pode ser um gigante!
– Vamos olhar na muralha.
– Ai, São Sinfrônio, me valha
neste momento terrível!
Que coisa tão grande é esta
que parece uma floresta?
Mas que multidão incrível!

E os barões e os cavaleiros,
ministros e camareiros,
damas, valetes e o rei
tremiam como geléia,
daquela grande assembléia,
como eu nunca imaginei!

E os grandões, antes tão fortes,
que pareciam suportes
da própria casa real;
agora tinham xiliques
e cheios de tremeliques
fugiam da capital.

O povo estava espantado
pois nunca tinha pensado
em causar tal confusão,
só queriam ser ouvidos,
ser vistos e recebidos
sem maior complicação.

E agora os nobres fugiam,
apavorados corriam
de medo daquela gente.
E o rei corria na frente,
dizendo que desistia
de seus poderes reais.
Se governar era aquilo
ele não queria mais!

Eu vou parar por aqui
a história a que estou contando.
O que se seguiu depois
cada um vá inventando.
Se apareceu novo rei
ou se o povo está mandando,
na verdade não faz mal.
Que todos naquele reino
guardam muito bem guardadas
as suas pernas de pau.

Pois temem que seu governo
possa cegar de repente.
E eles sabem muito bem
que quando os olhos não veem
nosso coração não sente.

 (Editora Salamandra – Ano 2003 – Ilustrações de Carlos Brito – recomendado a partir dos 8 anos de idade)

 Karina

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Evento cultural imperdível

casa-das-rosasQuem mora na cidade de São Paulo não pode perder a exposição da Casa das Rosas nesse mês de abril: o tema é literatura infanto-juvenil e Monteiro Lobato.

A Casa das Rosas, localizada na Avenida Paulista, é um espaço cultural dedicado à poesia, à leitura e à cultura em geral. Até o dia 30 desse mês, a homenagem é ao grande escritor Monteiro Lobato. São palestras e discussões sobre a obra de Monteiro Lobato, realização de oficinas para confecção de livros de pano e outros trabalhos manuais, leitura de histórias e poemas, apresentação teatral, entre outras atividades.

O evento certamente agradará crianças e adultos e é uma excelente forma de difundir a maravilhosa obra de Monteiro Lobato.

Para maiores informações: fone: (11) 3285-6986/3288-9447 e site
www.poiesis.org.br/casadasrosas

Karina

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Reflexões de Victor Hugo

Presentearemos os leitores do blog com mais trechos da grande obra “Os Trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo.

Para ler, pensar e se curvar diante da genialidade do escritor francês:

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Nada se compara à timidez da ignorância, a não ser a sua temeridade. Quando a ignorância começa a ousar é que tem uma bússola consigo. Essa bússola é a intuição da verdade, mais clara às vezes num espírito simples que num espírito complicado.

Ignorar convida a tentar. A ignorância  é um devaneio e o devaneio curioso é uma força. Saber, desconcerta às vezes, e desaconselha muitas.

(…) O ignorante pode achar, só o sábio inventa.” (Livro Segundo – O Trabalho – capítulo II)

O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homens há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálbebra, é que nada há que pense dentro do cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de pensamentos tímidos.

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Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo segredo dos grandes corações está numa palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda está para a alavanca: é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo.

(…) Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles.

(…) A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz.” (Livro Segundo – O Trabalho – capítulo IV)

Karina

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O Orgulho

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A partir de hoje, sempre que pudermos, colocaremos no blog posts trazendo pensamentos a respeito de um tema qualquer. Será uma coletânea de máximas e frases sábias de variados autores acerca de um mesmo objeto.

Pois bem, hoje começo com máximas sobre o sentimento do orgulho ou da soberba, sob a ótica de diferentes personalidades.

Sutilizamos sobre os motivos de Deus, e criticamos o nosso Criador. Ai, é como se o caldeirão pretendesse saber mais que o seu fabricante! Contudo, o homem continua a perguntar: por quê?” (Heinrich Heine)

Foi a soberba que perdeu os anjos.” (J.F.Von Schiller)

Qualquer desvanecimento é tolo, mas a soberba é intolerável.” (Baltasar Gracián)

Se julgas seres alguma coisa, volve os teus olhos para o que eras antes de nascer, e verás que nada eras, e que és a última miséria.” (Francisco de Quevedo)

Sucede com frequência que os espíritos mais mesquinhos são os mais arrogantes e soberbos, assim como os espíritos mais generosos são os mais modestos e humildes.” (Descartes)

O orgulho é incompatível com o orgulho; é daí que nascem todas as divisões que perturbam o mundo.” (Fénelon)

O orgulho jamais quer dever, assim como o amor próprio jamais quer pagar.” (François, duque de La Rochefoucauld)

O orgulho serve de contrapeso a todas as nossas misérias, porque, ou as oculta, ou, se as revela, se gaba de conhecê-las.” (Blaise Pascal).

O orgulhoso gaba-se, eleva-se e quer impor-se. Mas sabe, por acaso, como terminará o dia, e em que estado o encontrará a noite?” (Teôgnis)

Quanto mais penso tanto mais me convenço de que, em geral, há orgulho no fundo de todos os erros.” (John Ruskin)

A soberba não é grandeza, é inchaço. O que incha parece grande, mas não está são.” (Santo Agostinho)

 

Telma

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