Archive for maio, 2010

Frase da Semana

“Saudade é ser, depois de ter.”

(Guimarães Rosa)

Karina

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Celebração da amizade

Em post anterior, já fizemos referência e deferência ao grande escritor uruguaio Eduardo Galeano. Abaixo, trazemos uma espetacular crônica sua, extraída da maravilhosa obra “O Livro dos Abraços”. Apreciem.

Celebração da amizade

Juan Gelman me contou que uma senhora brigou a guarda-chuvadas, numa avenida de Paris, contra uma brigada inteira de funcionários municipais. Os funcionários estavam caçando pombos quando ela emergiu de um incrível Ford bigode, um carro de museu, daqueles que funcionavam à manivela; e brandindo seu guarda-chuva, lançou-se ao ataque. Agitando os braços abriu caminho, e seu guarda-chuva justiceiro arrebentou as redes onde os pombos tinham sido aprisionados. Então, enquanto os pombos fugiam em alvoroço branco, a senhora avançou a guarda-chuvadas contra os funcionários.

Os funcionários só atinaram em se proteger, como puderam, com os braços, e balbuciavam protestos que ela não ouvia: mais respeito, minha senhora, faça-me o favor, estamos trabalhando, são ordens superiores, senhora, por que não vai bater no prefeito?, Senhora, que bicho picou a senhora?, esta mulher endoidou…

Quando a indignada senhora cansou o braço, e apoiou-se numa parede para tomar fôlego, os funcionários exigiram uma explicação. Depois de um longo silêncio, ela disse:

— Meu filho morreu.

Os funcionários disseram que lamentavam muito, mas que eles não tinham culpa. Também disseram que naquela manhã tinham muito o que fazer, a senhora compreende…

— Meu filho morreu — repetiu ela.

E os funcionários: sim, claro, mas que eles estavam ganhando a vida, que existem milhões de pombos soltos por Paris, que os pombos são a ruína desta cidade…

— Cretinos — fulminou a senhora.

E longe dos funcionários, longe de tudo, disse:

— Meu filho morreu e se transformou em pombo.

Os funcionários calaram e ficaram pensando um tempão. Finalmente, apontando os pombos que andavam pelos céus e telhados e calçadas, propuseram:

— Senhora: por que não leva seu filho embora e deixa a gente trabalhar?

Ela ajeitou o chapéu preto:

— Ah!, não! De jeito nenhum!

Olhou através dos funcionários, como se fossem de vidro, e disse muito serena:

— Eu não sei qual dos pombos é meu filho. E se soubesse, também não ia levá-lo embora. Que direito tenho eu de separá-lo de seus amigos?

Telma

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Frase da Semana

“Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar.”

(Carlos Drummond de Andrade in A Paixão Medida)

Karina

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Cantigas para Crianças

Existem diversas obras voltadas ao público infantil disponíveis no mercado e sempre fizemos questão de estimular a leitura para crianças aqui no blog. Outra forma bastante divertida de alimentar a inteligência e a criatividade dos pequenos é apresentar-lhes as tão consagradas cantigas infantis, como a reproduzida abaixo:

A Barata Diz Que Tem


A Barata diz que tem sete saias de filó

É mentira da barata, ela tem é uma só

Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !


A Barata diz que tem um sapato de veludo

É mentira da barata, o pé dela é peludo

Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !


A Barata diz que dorme numa colcha de cetim

É mentira da barata, ela dorme é no capim

Ah ra ra, rim rim rim, ela dorme é no capim!


A Barata diz que usa perfume de margarida

É mentira da barata, ela usa inseticida

Ah ra ra, ia ro ró, ela usa inseticida!


A Barata diz que tem um anel de formatura

É mentira da barata, ela tem é casca dura

Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura!


A Barata diz que tem o cabelo cacheado

É mentira da barata, ela tem coco raspado

Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado!


A Barata diz que usa um produto da avon

É mentira da barata, ela usa detefon

Ah ra ra, ia ro ró, ela usa detefon!


A Barata diz que mora numa casa enfeitadinha

É mentira da barata, ela mora é na cozinha

Ah ra ra, ia ro ró, ela mora é na cozinha!


A Barata diz que tem hidromassagem na banheira

É mentira da barata, toma banho de goteira

Ah ra ra, ia ro ró, toma banho de goteira!


A Barata diz que foi num lugar muito maneiro

É mentira da barata, ela foi é no banheiro

Ah ra ra, ia ro ró, ela foi é no banheiro!


A Barata diz que tem uma coroa de rainha

É mentira da barata, ela só tem anteninha

Ah ra ra, ia ro ró, ela só tem anteninha!


A Barata diz que foi trabalhar num escritório

É mentira da barata, ela foi no mictório

Ah ra ra, ia ro ró, ela foi no mictório!


A Barata diz que tem uma capa de bolinha

É mentira da barata, a capa é da joaninha

Ah ra ra, ia ro ró, a capa é da joaninha!


A Barata diz que tem um sapato de fivela

É mentira da barata, o sapato é da mãe dela

Ah rá rá, oh ró ró, o sapato é da mãe dela!

Telma

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Brincar de pensar

Mais uma crônica inteligente de Clarice Lispector:

BRINCAR DE PENSAR

A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos da emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.

Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.

Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.

Uma vez  por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi:  rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.

Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?

Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.

(A Descoberta do Mundo – Ed. Nova Fronteira)


Karina

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Campo Geral, de Guimarães Rosa

Falaremos hoje sobre uma estória simplesmente imperdível de autoria do genial João Guimarães Rosa.

“Campo Geral”, a estória escolhida para ilustrar esse post,  faz parte,  juntamente com “Uma estória de amor”, do livro Manuelzão e Miguilim, de 1960.  As duas narrativas foram antes publicadas em 1956 no livro Corpo de Baile,  sendo depois desmembradas para um único volume.

Em Campo Geral, Guimarães Rosa, com a sua incrível habilidade, narra a infância de Miguilim,  uma criança de oito anos de idade que mora com a família em Mutum, um lugar no meio do sertão mineiro. E é nesse local isolado e remoto que Miguilim vai amadurecer e descobrir o mundo.

A narrativa, repleta da fascinante e inigualável linguagem de Guimarães Rosa, faz o leitor mergulhar em um  mundo de emoções avassaladoras.

Não podemos deixar de destacar a sensibilidade do personagem Miguilim, que se envolve intensamente com os problemas da família, sofrendo grandes  inquietações e angústias. A relação de amizade e de amor existente entre  Miguilim e Dito – seu irmão caçula – também é retratada de forma belíssima.

Campo Geral é uma estória para ser lida e degustada pelo leitor e depois relida, relida e relida… Guimarães Rosa soube como ninguém retratar a infância, período composto de alegrias, mas também povoado de medos e de  fantasias.

Eis alguns trechos dessa narrativa apaixonante, para aguçar a vontade de ler em quem ainda não leu e provocar a releitura nos que já leram:

“Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos.”

(…)

“O Dito era menor mas sabia o sério, pensava ligeiro as coisas. Deus tinha dado a ele todo juízo. E gostava, muito, de Miguilim. Quando foi a estória da Cuca, o Dito um dia perguntou:  -“Quem sabe é pecado a gente ter saudade de cachorro?…” O Dito queria que ele não chorasse mais por Pingo-de-Ouro, porque sempre que ele chorava o Dito também pegava vontade de chorar junto.”

(…)

“Os irmãos já estavam acostumados com aquilo, nem esbarravam mais dos brinquedos para vir ver Miguilim sentado alto no tamborete, à paz. Só o Dito, de longe distante, pela porta, espiava leal. Mas o Dito não vinha, não queria que Miguilim penasse vergonha”.

(…)

“Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior, amarrado em árvore na beirada do mato. Fizessem isso, ele morria de estrangulação do medo? Do mato de cima do morro vinha onça. Como o pai podia imaginar judiação querer amarrar um menino no escuro do mato?  Só o pai de Joãozinho mais Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata em distantes porque não tinham de-comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena por Joãozinho mais Maria, que voltava a vontade de chorar.”

(…)

“Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem – debaixo de exata idéia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então – ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam… Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem isso, mau! – maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não aguentava… Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de,  amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.”

(…)

“O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom… Assim está certo.” “- E os outros, Dito, a gente mesmo?” O Dito não sabia. – “Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acham que é moleza, não gostam… Eles têm medo que aquilo pegue e amoleça neles mesmos – com bondades…” “E a gente, Dito? A gente?” ” – A gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais forte! Trastempo, o bruto vai ficando mole, mole… “

(…)

“Uma hora Dito chamou Miguilim, queria ficar com Miguilim sozinho. Quase que ele não podia mais falar. – “Miguilim, e você não contou a estória da Cuca pingo-de-Ouro…” – “Mas eu não posso, Dito, mesmo não posso! Eu gosto demais dela, estes dias todos…” Como é que podia inventar a estória? Miguilim soluçava. –”Faz mal não, Miguilim, mesmo ceguinha mesmo, ela há de me reconhecer…” – “No Céu, Dito? No Céu?!” – e Miguilim desengolia da garganta um desespero. –”Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você…” E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo: – “Miguilim, Miguilim, eu vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder então ficar mais alegre, mais alegre, por dentro!”

(…)

“E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”

Karina

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Teresinha

Os fãs de Chico Buarque têm o maior orgulho da canção “Teresinha”.  E não é para menos: trata-se de composição criada pela mente genial de um grande artista. Música boa para ouvir e letra irresistivelmente bem articulada. Cada dia encontramos um motivo a mais para amar e reverenciar Chico Buarque.

TERESINHA

O primeiro me chegou como quem vem do florista

Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista

Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha

Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha

Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração

Mas não me negava nada, e, assustada, eu disse não

O segundo me chegou como quem chega do bar

Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar

Indagou o meu passado e cheirou minha comida

Vasculhou minha gaveta, me chamava de perdida

Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração

Mas não me entregava nada, e, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada, também nada perguntou

Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama e me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não

Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração

Abaixo segue a música na belíssima voz de Maria Bethânia:

Telma

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