Archive for maio, 2016

Machismo assimilado

Texto de Eduardo Galeano que vem a calhar nesta triste semana para as mulheres.

 

A AUTORIDADE

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Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na
proa das canoas e os homens na popa. As mulheres
caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam
quando podiam ou queriam. Os homens montavam
as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as
fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam
as peles de abrigo.
Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes,
na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram
todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres
tinham inventado para aterrorizá-los.
Somente as meninas recém-nascidas se salvaram
do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos
lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu
destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas
filhas e as filhas de suas filhas.

(do livro Mulheres)

Karina

 

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Bukowski

225 dias sob a grama
e você sabe mais do que eu.
há muito eles tiraram seu sangue,
você é um galho seco numa cesta.
é assim que funciona?
nesse quarto
as horas de amor ainda fazem sombras.

quando você partiu
você levou quase
tudo.
eu me ajoelho à noite
ante tigres
que não me deixarão ser.

o que você foi
não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não ligo.

(Charles Bukowski, Para Jane)

 

Karina

 

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Trecho de Saramago

” (…) Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fossem falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta, Deite-me sua benção, minha mãe, Deus te abençõe, meu filho, não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas se olharam, olharem-se era a casa de ambos.”

(Memorial do Convento, José Saramago, p. 109)

Karina

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