Archive for abril, 2013

Caio Fernando Abreu

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Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei.”

Karina

 

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A mulher de touro, por Vinicius de Moraes

Touro

Ilustração de Mustafa Soydan

Ilustração de Mustafa Soydan

O que é que brilha sem Ser ouro? –

A mulher de touro!

É a companheira perfeita

Quando levanta ou quando deita.

Mas é mulher exclusivista

Se não tem tudo faz a pista.

Depois que dona de casa…

E a noite ainda manda brasa.

Sua virtude: a paciência

Seu dia bom: a sexta-feira

Sua cor propícia: o verde

As flores do seus pendores:

Rosa, flor de macieira.

 

 

Karina

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Leminski

1007

Amor, então,

também, acaba?

Não, que eu saiba.

O que eu sei

é que se transforma

numa matéria-prima

que a vida se encarrega

de transformar em raiva.

Ou em rima.

( Paulo Leminski )

 

Karina

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Hilda Hist

Alcoólicas (I)

 vein

 

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

 

Nela despenco: pedra mórula ferida.

 

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

 

Como-a no livor da língua

 

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

 

No estreito-pouco

 

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

 

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

 

E perambulamos de coturno pela rua

 

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

 

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

 

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

 

Olho d’água, bebida. A Vida é líquida.

 

Karina

 

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