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Feliz Ano Novo!

Desejamos a todos os leitores do blog um maravilhoso 2017, recheado de muita poesia.

E para fechar o ano, vamos de Carlos Drummond de Andrade:

REINAUGURAÇÃO

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Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmistificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.

Nossa idade – velho ou moço – pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza,
a exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas ao redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.

Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos os olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos
Esta é a magia do tempo
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.

Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.

Karina

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Resíduo

Hoje vamos de poesia áspera e profunda de Carlos Drummond de Andrade:

RESÍDUO

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“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”

(Carlos Drummond de Andrade, Resíduo no livro A rosa do povo)

 

Karina


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Passagem da Noite

Passagem da Noite

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É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.

E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.

Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

(Carlos Drummond de Andrade)

Karina

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A flor e a náusea

A flor e a náusea

 

Preso à minha classe e a algumas roupas,

Vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas.

Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal. Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia.

Mas é uma flor.

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 

(Carlos Drummond de Andrade)

Karina

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O Novo Homem

O NOVO HOMEM

O homem será feito

em laboratório.

Será tão perfeito

como no antigório.

Rirá como gente,

beberá cerveja

deliciadamente.

Caçará narceja

e bicho do mato.

Jogará no bicho,

tirará retrato

com o maior capricho.

Usará bermuda

e gola roulée.

Queimará arruda

indo ao canjerê,

e do não-objeto

fará escultura.

Será neoconcreto

se houver censura.

Ganhará dinheiro

e muitos diplomas,

fino cavalheiro

em noventa idiomas.

Chegará a Marte

em seu cavalinho

de ir a toda parte

mesmo sem caminho.

O homem será feito

em laboratório,

muito mais perfeito

do que no antigório.

Dispensa-se amor,

ternura ou desejo.

Seja como flor

(até num bocejo)

salta da retorta

um senhor garoto.

Vai abrindo a porta

com riso maroto:

“Nove meses, eu?

Nem nove minutos.”

Quem já conheceu

melhores produtos?

A dor não preside

sua gestação.

Seu nascer elide

o sonho e a aflição.

Nascerá bonito?

Corpo bem talhado?

Claro: não é mito,

é planificado.

Nele, tudo exato,

medido, bem-posto:

o justo formato,

o standard do rosto.

Duzentos modelos,

todos atraentes.

(Escolher, ao vê-los,

nossos descendentes.)

Quer um sábio? Peça.

Ministro? Encomende.

Uma ficha impressa

a todos atende.

Perdão: acabou-se

a época dos pais.

Quem comia doce

já não come mais.

Não chame de filho

este ser diverso

que pisa o ladrilho

de outro universo.

Sua independência

é total: sem marca

de família, vence

a lei do patriarca.

Liberto da herança

de sangue ou de afeto,

desconhece a aliança

de avô com seu neto.

Pai: macromolécula;

mãe: tubo de ensaio

e, per omnia secula,

livre, papagaio,

sem memória e sexo,

feliz, por que não?

pois rompeu o nexo

da velha Criação,

eis que o homem feito

em laboratório

sem qualquer defeito

como no antigório,

acabou com o Homem.

Bem feito.

(Carlos Drummond de Andrade)

Karina

 

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A verdade dividida

Mais um poema genial de Drummond:

A VERDADE DIVIDIDA

A porta da verdade estava aberta

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

 

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só conseguia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

 

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia os seus fogos.

Era dividida em duas metades

diferentes uma da outra.

 

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era perfeitamente bela.

E era preciso optar. Cada um optou

conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 

(Carlos Drummond de Andrade in Contos Plausíveis)

Karina

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Perde o gato

Perde o gato

Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu  e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenônemo se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio,  pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não seqüestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
(Carlos Drummond de Andrade)

Karina

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Amor e seu tempo

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe

Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. amor começa tarde.

(Carlos Drummond de Andrade)

Karina

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O enterrado vivo

O ENTERRADO VIVO

É sempre no passado aquele orgasmo,

é sempre no presente aquele duplo,

é sempre no futuro aquele pânico.


É sempre no meu peito aquela garra.

É sempre no meu tédio aquele aceno.

É sempre no meu sono aquela guerra.


É sempre no meu trato o amplo distrato.

Sempre na minha firma a antiga fúria.

Sempre no mesmo engano outro retrato.


É sempre nos meus pulos o limite.

É sempre nos meus lábios a estampilha.

É sempre no meu não aquele trauma.


Sempre no meu amor a noite rompe.

Sempre dentro de mim meu inimigo.

E sempre no meu sempre a mesma ausência.

(Carlos Drummond de Andrade in o Fanzendeiro do Ar)

Karina

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Tudo de Novo

Até que você não pode queixar-se, meu mano: o astrólogo previu  sua morte em 1966, e quem morreu foi o astrólogo. E não foi você que o matou; foi uma ceia de Natal à go go. É certo que, durante o ano, a profecia esvoaçou em torno de você que nem pernilongo enxerido; enxotada, vinha de novo e zumbia. Mas também é certo que ninguém parecia rejubilar-se com ela;  a afeição de uns, e, para outros, o fato de você não deixar vaga em cartório nem em diretoria de banco terão contribuído para isso. E a vidinha foi tocada pra frente, sem lances históricos nem medalhas, mas igualmente sem IPM*.  Em suma, individualmente, o ano lhe foi camarada. As dores maiores foram cívicas; a bem dizer, tristezas à beira-mar, que o mar se encarrega de repelir, com seu espetáculo de grandeza e força. Quem mora perto dele encontra sempre intimação para acreditar na vida. E esse País, mano, lembra o mar, coisa grande e bela em si, na variedade de formas, de ímpetos ritmados.

Agora, você vai repetir aquela velha brincadeira de começar tudo de novo, isto é, de fingir quê, sem conscientizar (eta palavrinha antipática) que está fingindo quê. Não importa. Esse faz-de-conta de começar outra vez (desta vez, melhor) é uma das astúcias do homem para manter alerta o seu lado menino, e o lado menino hoje cresceu tanto que faz a gente ter certa esperança na humanidade. Essas roupas moderninhas de cavalheiros e damas, que pelo menos divertem, esses jogos, essas coleções de miniaturas, esses campeonatos de canto de curió, tudo que é infantil no comportamento adulto, inclusive e principalmente a ambição de chegar à lua cada qual primeiro que o outro, são minhas razões de confiar. Confiar é exagero, mas de esperar alguma coisa de bom de meu semelhante, isto é, de você, de mim mesmo.

E não me venha, no dia 2,  com a lamentação de que isso e mais aquilo e aquilo outro subiram tão de preço a partir de 1° de janeiro, que tudo agora vai ser mais impossível do que já era no dia 31 de dezembro, quando as impossibilidades reunidas e somadas desde a fundação do País pelo almirante realizaram esta maravilha: era praticamente impossível viver, e vivia-se. A vida é talvez um milagre dentro do qual subjugamos todas as negações. Não há imposto de circulação de mercadorias nem alta da gasolina nem nada que impeça o milagre cotidiano de alguém acordar e rever-se no mesmo espelho e sentir que o rosto lavado perde a fadiga sebosa do rosto noturno, e tudo é um vir-a-ser. Você, aliás, é doutor-de-Salamanca em filosofias baratas, e com elas tem divertido o seu caminho já longo. Distraia-se  em cultivá-las, mano, enquanto não vem outro astrólogo de luneta mais sábia.

E para que esta conversa não resulte demasiado individual em tempos de comunicação reclamada a todos para todos, invente aí qualquer coisa que possa alcançar o seu vizinho e despertar nele o desejo de comunicá-la a outro vizinho, e este a outro, e outro a outro, até os grandes da Terra, tão coitados na solidão do poder; invente qualquer coisa, olhar compreensivo, gesto, palavra. Não achou? Então recorra ao dicionário, tire de lá paciência, tire boa vontade. Use-as. Não há melhor chiclete, meu mano, para a humanidade mascar.

* IPM: Inquérito Policial Militar

(texto de 04/01/1967 escrito por Carlos Drummond de Andrade em plena vigência da Ditadura Militar e pertencente ao livro Caminhos de João Brandão – Editora Record)

Karina

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