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Frase da Semana

Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.

(Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)

Telma

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O Alienista

Machado de Assis, gênio falecido em 1908, no Rio de Janeiro, escreveu grandes e imperdíveis romances, tais como: “A Mão e a Luva”; “Helena”; “Memórias póstumas de Brás Cubas”; “Quincas Borba”; “Dom Casmurro”. Também produziu obras memoráveis na seara dos contos, poesias e teatro.

Trata-se, como é notório, de um autor completo e maravilhoso, de inteligência aguçada e talento incomparável. Pertencente à escola literária do Realismo e bastante adepto da digressão em suas obras, Machado é tido, sem favor nenhum, como o maior escritor de língua portuguesa de todos os tempos.

Um de nossos contos preferidos, escrito pelo admirável  Machado de Assis, é “O Alienista’, cuja temática gira em torno da tênue linha existente entre a loucura e a sanidade mental. Quem é louco? Quem é são? A conclusão a que se chega ao final é surpreendente.

A seguir, transcrevemos  um trecho do mencionado conto, esperando que o leitor, seguindo a dica, leia a obra na íntegra:

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Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo acurado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissões, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor.

… Mal dormia e mal comia; e ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

–  A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica.

Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Cárecere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí, – a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas, duas ou três de consideração – foram recolhidas à Casa Verde. O alienista dizia que só eram admitidos os casos patológicos, mas pouca gente lhe dava crédito. Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer germe de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e míngua daquela cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o produto diário da imaginação pública.

Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental.

Telma

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Machado de Assis e o ciúme

O gênio Machado de Assis falou sobre o sentimento ciúme em várias de suas obras. Em Dom Casmurro o ciúme é tema predominante; como todo mundo sabe, o livro narra a estória de um triângulo amoroso formado pelo obsessivo Bentinho, sua mulher – Capitu – e seu melhor amigo – Escobar.  Já no conto A Cartomante, o autor nos mostra as consequências drásticas causadas pelo ciúme.

No magnífico poema abaixo, extraído do livro Falenas, Machado de Assis uma vez mais traz o tema à baila e compara o ciúme a um verme, que consome progressivamente qualquer relacionamento amoroso.

Vejam:

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O Verme

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão…
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.

Karina

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Machado de Assis poeta

Machado de Assis, como já dissemos, foi um escritor diferenciado. Tanto é assim, que muitos estudiosos não o enquadram a nenhuma escola literária específica.

Realmente. Machado de Assis esceveu prosa, peças de teatro, críticas, correspondências, crônicas e poesia. Tudo com a maestria que lhe era peculiar.

Hoje dedicaremos o post à poesia do grande gênio.  Aqueles que estudam  Machado de Assis costumam dividir a sua obra poética em duas fases: a romântica, onde a temática é amorosa ou nacionalista; e a fase realista, na qual o escritor revela preocupação formal excessiva (assim como os parnasianos), discute questões filosóficas e  apresenta uma visão pessimista do mundo.

Para nós tanto faz a fase da poesia de Machado de Assis. Ele foi perfeito em tudo o que escreveu.

Confiram:

Flor da mocidade


“Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.


Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.


Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno
.”

Círculo vicioso


“Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
“Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:


“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:


“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume”!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vagalume?”

 Karina

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Machado de Assis e sua Carolina

Já falamos aqui que o genial Machado de Assis foi casado durante 35 anos com D. Carolina Augusta Xavier de Novais, uma portuguesa culta que apresentou o escritor aos grandes clássicos portugueses.

A união de Machado de Assis com Carolina foi duradoura e feliz, porém sem filhos.

Pois é. O que parece, ao lermos a obra de Machado é que o grande mestre da literatura brasileira, com suas ironias, sarcasmo e agudo realismo, não era dado ao sentimentalismo.

Mas as aparências enganam. O gênio tinha coração, claro! Carolina foi o amor da vida de Machado de Assis e sua morte, em 1904, foi uma grande perda para o escritor, que em homenagem à falecida esposa escreveu o belíssimo soneto que reproduzimos abaixo.

A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos
“.

 Karina

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100 anos da morte de um gênio

Falar de Machado de Assis não é tarefa fácil. O escritor brasileiro foi e ainda é um dos maiores gênios da literatura brasileira e mundial.

Assim, não temos a pretensão de analisar sua riquíssima e complexa obra literária. Deixamos tal mister para os críticos e estudiosos da literatura. O que nos interessa aqui é postar trechos de livros, frases e pensamentos do autor para deleite dos leitores.

 Apenas para pincelar, destacaremos alguns pontos importantes sobre a vida e obra do autor:

Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu a 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. Filho de um operário brasileiro – mestiço de negro e português, e de uma portuguesa – lavadeira, Machado de Assis jamais teve acesso a cursos regulares. Frequentou por pouco tempo a escola pública, onde aprendeu as primeiras letras. Seu aprendizado se deu exclusivamente por méritos próprios. Autodidata, escreveu seu primeiro poema aos 16 anos de idade.

Aos 17 anos, Machado de Assis, começa a trabalhar como aprendiz de tipógrafo e depois ocupa o cargo de revisor, ao mesmo tempo em que colabora com artigos em diversos jornais. A partir daí não pára mais de escrever, integrando-se rapidamente ao círculo dos notáveis escritores da época.

 Casou-se em 1862 com a portuguesa Carolina Xavier de Novais – mulher culta com quem viveu por 35 anos.

Sua obra costuma ser dividida pelos estudiosos em duas fases: romântica e realista, embora muitos achem que Machado de Assis não se enquadra totalmente em nenhuma escola literária, tamanho é o seu diferencial.

 Na fase romântica, ainda preso a preceitos da escola romântica, publicou três livros de poesia e alguns romances famosos, como “Ressureição”, “A Mão e a Luva”, “Helena” etc. Mas foi na fase realista que Machado de Assis se destacou como romancista e contista. De fato, é nessa fase que o escritor publicou suas verdadeiras obras-primas, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro,” que o tornaram o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

A prosa de Machado de Assis na fase realista tem como principais características a análise psicológica profunda dos personagens e da sociedade, a crítica ao romantismo, o sarcasmo,  a linguagem correta, a conversa com o leitor, o pessimismo etc.

Machado de Assis, foi cronista, romancista, contista, poeta, dramaturgo, crítico e ensaísta. Aos 57 anos de idade tornou-se o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Machado de Assis morreu  em 1908 e sua obra revolucionou irremediavelmente a literatura brasileira. Hoje, 100 anos após a sua morte, seus livros continuam atuais e seu estilo influencia centenas de escritores.

Dizem os críticos a respeito de Machado de Assis:

“O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos.”

Mais não é preciso escrever. Apenas saboreiem:

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora, É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono
.” (Crisálidas)

Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.” (em “A Mão e a Luva”)

Naturalmente parece-lhe fraqueza amar, – isto é, a cousa mais natural do mundo, – a mais bela, – não direi a mais sublime. Os homens sérios têm preconceitos extravagantes. Confesse que ama, que não é indiferente a esse sentimento inexprimível que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas criaturas humanas.” (em “Helena”)

“…O prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado….A persistência do benefício na memória de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do benefício e seus efeitos. Primeiramente há o sentimento de uma boa ação, e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações; em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura…e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis ao organismo humano…” (Teoria do Benefício)

A leitora, que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje, que fechá-lo às pressas, ao ver que beiramos um abismo. Não faça isso, querida; eu mudo de rumo.” (em “Dom Casmurro”)

Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)

Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado.” (em “A semana”)

Antes do poeta mostra-se o homem, antes do talento o caráter.” (em “Comentários da Semana”)

Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.”

A abolição é a aurora da liberdade; emancipado o preto, resta emancipar o branco.” (em “Esaú e Jacó”)

Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.” (em “Memorial de Aires”)

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis…” (em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)

Só as grandes paixões são capazes de grandes ações.” (em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)

Um dos defeitos mais gerais, entre nós, é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério, pois o tato para acertar nestas coisas é também uma virtude do povo.” (ao falar sobre o Brasil)

O casamento é a pior ou a melhor coisa do mundo; pura questão de temperamento.” (em “Helena”)

Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: ‘A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.” ( em “Esaú e Jacó”)

O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.” (em “Quincas Borba”)

Quando estimo alguém, perdôo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é impossível; está nas tuas mãos.” (em “Iaiá Garcia”)

Ouça-me este conselho: em política, não se perdoa nem se esquece nada.” (em “Quincas Borba”)

O presente que se ignora vale o futuro.” (em “A Cartomante” – Várias Histórias)

Matamos o tempo; o tempo nos enterra.” (em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”)

Eu sei que vossa excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade.” (em “Contos Fluminenses”)

Quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de idéias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra.” (em “Quincas Borba”)

 Karina

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