Archive for setembro, 2011

Cecília Meireles

Mapa da Anatomia: o olho

O Olho é uma espécie de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globo brilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrágios e peixes de ouro.

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são inventadas.

O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.

Cecília Meireles

Karina

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Amar os outros

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”

Clarice Lispector

Karina

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Perde o gato

Perde o gato

Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.
Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu  e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.
Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenônemo se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.
O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.
Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio cor incomum em gatos comuns e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.
Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio,  pensei dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.
Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.
Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.
Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não seqüestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.
(Carlos Drummond de Andrade)

Karina

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Indicação de Leitura

Já falamos aqui no blog sobre a notável escritora francesa Simone de Beauvoir e sobre como ela consegue captar o universo feminino com tanta sensibilidade e maestria.

A Mulher Desiludida,  livro da autora que indicamos hoje, traz três novelas (A idade da discrição, Monólogo e A mulher desiludida) que relatam a trajetória de vida de três mulheres. Cada uma delas passa por uma situação diferente de desilusão diante do que planejou para si mesma e relata as suas impressões na forma de diário e monólogo.

As narrativas  trazem reflexões sobre a proximidade da velhice, o abandono e o ódio alimentado pelas desilusões, adentrando a fundo o psicológico das personagens.

A seguir trazemos trechos deste grande e impressionante livro,  cujas narrativas têm muito em comum com a realidade de muitas mulheres ainda hoje.

“Alguma coisa mudou, eu me dizia, enquanto viajávamos, a 140 por hora na auto-estrada. Estava sentada ao lado de André, nossos olhos viam o mesmo aterro, o mesmo céu, mas havia invisível, impalpável, uma camada isolante entre nós. Teria ele consciência disso? Sim, sem dúvida. Se tinha proposto esse passeio era na esperança de que, ressuscitando aqueles de outrora, ele terminasse por nos aproximar. Mas o passeio não se parecia com os outros posto que não lhe conferia nenhum prazer.”

 “É necessário dizer também que, outrora, tínhamos na cama reconciliações fogosas; no desejo, na perturbação, no prazer, os agravos ociosos eram calcinados. Reencontrávamo-nos, um em frente do outro, novos e joviais. Agora, estávamos privados desse recurso.”

 “Ficaríamos, então, separados quinze dias: nunca ele me deixava mais que três ou quatro, salvo para ir a congressos. Teria me mostrado desagradável? Ele deveria ter discutido comigo em lugar de fugir. No entanto, não era de seu estilo tirar o corpo. Só via uma explicação e sempre a mesma: ele envelhecia.”

“O tempo estagnava. É terrível. Tenho vontade de dizer é injusto – que ele possa passar ao mesmo tempo tão veloz e tão lentamente. Eu transpunha a porta do liceu de Bourg, quase tão jovem como as próprias alunas, eu olhava apiedada os professores de cabelos grisalhos. E upa! Tornei-me velha professora e as portas do liceu se fecharam.”

“Sempre olháramos longe. Seria necessário aprender a viver o dia-a-dia? Estávamos sentados lado a lado sob as estrelas, tocados pelo aroma do cipreste, nossas mãos se encontravam; o tempo havia parado um instante. Iria continuar a escorrer. E então?” (trechos  de A idade da discrição)

(…)

“Eu me chateio o que eu me chateio não está no gibi. Se eu dormisse mataria o tempo. Mas há esse barulho lá fora. E eles escarnecem na minha cara: “ela está só.” Eles vão rir amarelo quando Tristan voltar para mim. Ele voltará eu tenho meios para forçá-lo. Voltarei para os costureiros, darei recepções coquetéis publicarão minha fotografia na Vogue com um grande decote meus seios não temem ninguém.”

“Qual o sentido de passear só? Com Dédé a gente se divertia é chique duas moças bonitas num conversível com os cabelos ao vento; à noite em Roma na Piazza del Popolo a gente fazia uma bagunça danada. Com outros companheiros também me diverti. Mas sozinha! Na minha idade o que se parece indo à praia, ao cassino sem ter um homem junto?”

“…Meu Deus mostre que o Senhor existe! Mostre que há um céu e um inferno eu vou passear nas alamedas do paraíso com nosso rapazinho e minha filha querida e eles todos vão se torcer nas chamas da inveja eu os verei assar e gemer eu vou rir rir e as crianças vão rir comigo” (trechos de Monólogo)

(…)

“A janela estava apagada. Eu já esperava. Desde, desde quando? – Extraordinariamente, quando saía sem Maurice, na volta, havia sempre um raio de luz filtrando entre as cortinas vermelhas. Subia os dois andares correndo, tocava a campainha, impaciente demais para procurar chaves. Subi sem correr, pus a chave na fechadura. Como o apartamento estava vazio!”

“Meia-noite. Tenho tanta pressa de encontrá-lo, de afogar essa cólera que ruge, ainda, em mim que meus olhos permanecem fixos na pendulazinha. Os ponteiros não andam.  Eu me enervo. A imagem de Maurice se decompõe. De que serve lutar contra a doença e o sofrimento se se trata da própria mulher com tamanha irreflexão? Trata-se de indiferença. De dureza. Inútil irritar-se. Basta.”

“Aconteceu. Aconteceu logo a mim.” (…) Maurice me mentiu, sim.”

“Subitamente tive vontade chorar: o mais triste é que não morrerei. Através das brumas azuis nós olhávamos a África, ao longe, as palavras que pronunciávamos não passavam de palavras… Atirei-me para trás. O golpe me estarrecia. O estupor esvaziava-me a cabeça.”

“Ele me bastou, só vivi para ele. Ele, por um capricho, traiu nosso juramento!”.

“O obstáculo ainda é mais intransponível para pessoas que, como nós, prezam tanto a sinceridade. (Eu reconheço: encarniçadamente, eu mentiria para esconder uma mentira.) Nunca a suportei. As primeiras mentiras de Lucienne e Colette me desolaram. Custei a admitir que todas as crianças mentem para suas mães. Não comigo! Não sou nem mãe nem mulher a quem se minta. Orgulho imbecil. Todas as mulheres acreditam-se singulares, todas pensam que determinadas coisas não lhes podem acontecer e todas se enganam.”

“O que mais me ajuda é não ter ciúme fisicamente. Meu corpo não tem mais trinta anos nem o corpo de Maurice. Eles se encontram com prazer – a bem dizer, raramente – mas sem ardor. Ah! Eu não me engano. Noellie possui a atração da novidade: em seu leito, Maurice rejuvenesce.”

“Eu não lutarei. Mas súbito, tenho medo. Será possível que Maurice a prefira a mim? Nunca tinha tido essa ideia. (…) Não. Impossível que prefira a mim alguém tão falsificada como Noellie. Ela é um cheap como se diz em inglês. Eu me inquieto por ele aceitar dela tantas coisas que eu julgo inaceitáveis.”

” – Seu maior erro foi me deixar dormindo, confiante… Eis-me aos quarenta e quatro anos, as mãos vazias, sem profissão, sem outro interesse na vida que você. Se você tivesse me prevenido há oito anos, ter-me-ia criado uma existência independente e aceitaria a situação mais facilmente.”

“Mas eu sei que me mexerei. A porta se abrirá lentamente e eu verei o que tem detrás. É o futuro. A porta do futuro vai se abrir. Lentamente. Implacavelmente. Estou no limiar.” (trechos de A mulher desiludida)

Karina

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O Sol

Descobri este poema no blog de uma amiga (O toque do perfume) e me encantei. Espero que gostem.

O autor é o poeta português Tiago Nené. Mais sobre ele você encontra aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiago_Nené

O SOL


Sinto como imagino que o sol se sente,

o sol buscando os seus atalhos

no interior das horas naturais, nos equilíbrios sem eixo,

sobre as sequências de imagens, errando nas biografias

sem molduras, sobre as silhuetas dos carros,

sem a fadiga de um pequeno abraço ou a mudez

premeditada de um delírio convalescente,

o sol explorando o infinito da superfície vagarosa,

contornando a água de uma lágrima, impalpável

e deslumbrante, silenciosamente no caminho dos versos.

O sol que na aurora apunhala a noite,

O sol que não permite que os céus se colem,

O sol que movimenta as transparências dos homens e mulheres,

O sol que apaga a nitidez dos detalhes inúteis,

O sol que dá corda aos pássaros e aos ruídos,

O sol poético, o sol insone, o sol-ignição-de-todas-as-cores,

O sol eterno, o sol-víbora, o sol que te estranha,

O sol que te ama,

O sol, o sol, o sol…

Tiago Nené (poeta português) in Instalação

Karina

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Frase da Semana

“Amar é ultrapassarmo-nos.”

(Oscar Wilde in O retrato de Dorian Gray)

Karina

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