Archive for fevereiro, 2010

O vírus do amor ao livro

Morreu hoje na cidade de São Paulo, aos 95 anos de idade, o bibliófilo brasileiro José Mindlin, cuja biblioteca conta com quase 40.000 volumes.

Mindlin começou a sua biblioteca aos 13 anos e ele mesmo calculava ter lido aproximadamente 6.000 livros.

Nosso blog lamenta a perda desse culto brasileiro, que contribuiu para a nossa cultura deixando um acervo imenso e repleto de raridades  na Universidade de São Paulo, na “Biblioteca de Guita e José Mindlin”.

Em homenagem a Mindlin, colocaremos aqui alguns dos pensamentos desse homem que era completamente apaixonado pelos livros:

A gente passa e os livros ficam.”

“ O livro é um mágico artefato (…) que nos abre portas, fantasias e mundos”.

” (…) eu gostaria de viver 300 anos para ler todos os livros que tenho aqui em casa…”

” Eu chamo essa compulsão patológico pelos livros de loucura mansa.Mas não sei como viveria nesse mundo se os livros não existissem.”

“Quando se chega a esse estágio, aquele que pensava em ser na vida apenas um leitor metódico está irremediavelmente perdido.”

“Eu procuro, nos muitos contatos que tenho com a mocidade, inocular o vírus do amor aos livros, porque uma vez inoculado está resolvido – a pessoa não se livra mais.”

Karina

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Frase da Semana

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.” (Carlos Drummond de Andrade)

Karina

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Muito amor com Pablo Neruda

Soneto XXV


Antes de amar-te, amor, nada era meu:

vacilei pelas ruas e as coisas:

nada contava nem tinha nome:

o mundo era do ar que esperava.


E conheci salões cinzentos,

túneis habitados pela lua,

hangares cruéis que se despediam,

perguntas que insistiam na areia.


Tudo estava vazio, morto e mudo,

caído, abandonado e decaído,

tudo era inalienavelmente alheio,


tudo era dos outros e de ninguém,

até que tua beleza e tua pobreza

de dádivas encheram o outono.

Karina

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Como nasce uma história, de Fernando Sabino

No post de hoje reproduziremos uma excelente e divertida crônica de Fernando Sabino, que consegue aproveitar detalhes do cotidiano para contar ótimas histórias.

Apreciem:

Como nasce uma história


Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

— Sétimo — pedi.

Eu estava sendo aguardado no auditório, onde faria uma palestra. Eram as secretárias daquela companhia que celebravam o Dia da Secretária e que, desvanecedoramente para mim, haviam-me incluído entre as celebrações.

A porta se fechou e começamos a subir. Minha atenção se fixou num aviso que dizia:

É expressamente proibido os funcionários, no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Desde o meu tempo de ginásio sei que se trata de problema complicado, este do infinito pessoal. Prevaleciam então duas regras mestras que deveriam ser rigorosamente obedecidas, quando se tratava do uso deste traiçoeiro tempo de verbo. O diabo é que as duas não se complementavam: ao contrário, em certos casos francamente se contradiziam. Uma afirmava que o sujeito, sendo o mesmo, impedia que o verbo se flexionasse. Da outra infelizmente já não me lembrava. Bastava a primeira para me assegurar de que, no caso, havia um clamoroso erro de concordância.

Mas não foi o emprego pouco castiço do infinito pessoal que me intrigou no tal aviso: foi estar ele concebido de maneira chocante aos delicados ouvidos de um escritor que se preza.

Ah, aquela cozinheira a que se refere García Márquez, que tinha redação própria! Quantas vezes clamei, como ele, por alguém que me pudesse valer nos momentos de aperto, qual seja o de redigir um telegrama de felicitações. Ou um simples aviso como este:

É expressamente proibido os funcionários…

Eu já começaria por tropeçar na regência, teria de consultar o dicionário de verbos e regimes: não seria aos funcionários? E nem chegaria a contestar a validade de uma proibição cujo aviso se localizava dentro do elevador e não do lado de fora: só seria lido pelos funcionários que já houvessem entrado e portanto incorrido na proibição de pretender descer quando o elevador estivesse subindo. Contestaria antes a maneira ambígua pela qual isto era expresso:

. . . no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro, entenderia o que se pretende dizer neste aviso. Pois um tijolo de burrice me baixou na compreensão, fazendo com que eu ficasse revirando a frase na cabeça: descerem, no ato da subida? Que quer dizer isto? E buscava uma forma simples e correta de formular a proibição:

É proibido subir para depois descer.

É proibido subir no elevador com intenção de descer.

É proibido ficar no elevador com intenção de descer, quando ele estiver subindo.

Descer quando estiver subindo! Que coisa difícil, meu Deus. Quem quiser que experimente, para ver só. Tem de ser bem simples:

Se quiser descer, não torne o elevador que esteja subindo.

Mais simples ainda:

Se quiser descer, só tome o elevador que estiver descendo.

De tanta simplicidade, atingi a síntese perfeita do que Nelson Rodrigues chamava de óbvio ululante, ou seja, a enunciação de algo que não quer dizer absolutamente nada:

Se quiser descer, não suba.

Tinha de me reconhecer derrotado, o que era vergonhoso para um escritor.

Foi quando me dei conta de que o elevador havia passado do sétimo andar, a que me destinava, já estávamos pelas alturas do décimo terceiro.

— Pedi o sétimo, o senhor não parou! — reclamei.

O ascensorista protestou:

— Fiquei parado um tempão, o senhor não desceu.

Os outros passageiros riram:

— Ele parou sim. Você estava aí distraído.

— Falei três vezes, sétimo! sétimo! sétimo!, e o senhor nem se mexeu — reafirmou o ascensorista.

— Estava lendo isto aqui — respondi idiotamente, apontando o aviso.

Ele abriu a porta do décimo quarto, os demais passageiros saíram.

— Convém o senhor sair também e descer noutro elevador. A não ser que queira ir até o último andar e na volta descer parando até o sétimo.

— Não é proibido descer no que está subindo?

Ele riu:

— Então desce num que está descendo.

— Este vai subir mais? — protestei: — Lá embaixo está escrito que este elevador vem só até o décimo quarto.

— Para subir. Para descer, sobe até o último.

— Para descer sobe?

Eu me sentia um completo mentecapto. Saltei ali mesmo, como ele sugeria. Seguindo seu conselho, pressionei o botão, passando a aguardar um elevador que estivesse descendo.

Que tardou, e muito. Quando finalmente chegou, só reparei que era o mesmo pela cara do ascensorista, recebendo-me a rir:

— O senhor ainda está por aqui?

E fomos descendo, com parada em andar por andar. Cheguei ao auditório com 15 minutos de atraso. Ao fim da palestra, as moças me fizeram perguntas, e uma delas quis saber como nascem as minhas histórias. Comecei a contar:

— Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

(texto extraído do livro “A Volta por cima”)

Karina

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Frase da Semana

“Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos.”  João Cabral de Melo Neto

Telma

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Presente, de Verissimo

As crônicas de Luis Fernando Verissimo são espetaculares. As que compõem o livro “Comédias da Vida Privada” são mais do que espetaculares; são um passaporte certo para o humor inteligente.

A seguir reproduzidos mais uma dessas crônicas.  Impossível não sorrir ao final.


PRESENTE

Aconteceu neste natal. Ele mostrou o presente recém desembrulhado.

– Meias.

– E o que mais?

– Mais nada. Só meias.

– Nem um lenço?

– Meias. Eu entrei na lista.

– Que lista?

O outro se inclinou para ouvir melhor. A família era grande e ruidosa e na hora de abrir os presentes ficava ainda mais ruidosa.

– A lista das meias. Existe uma lista das pessoas que, segundo eles, só devem ganhar meias no Natal.

– Quem são “eles”?

– Os que fazem as listas.

– Quais são os critérios?

– Você entra na lista das meias quando eles decidem que você não precisa, não merece ou não se interessa por mais nada. Ou não tem mais idade para outra coisa.

– As listas, então, são por idade?

– São. Existe a idade de ganhar brinquedos e jogos. Obviamente, nós não estamos mais nela. A idade de ganhar carteira de dinheiro. Depois a idade de ganhar dinheiro num envelope para gastar como quiser…

– Com a recomendação de não gastar tudo em mulher.

– Isso! Depois livros, discos, bebidas…

– Este ano eu ganhei um vinho.

– Sinal de que você está se aproximando da lista das meias. No ano passado, eu ganhei um vinho. Este ano eles decidiram que o álcool pode me fazer mal. Me deram meias.

– Você não pode pedir para sair da lista das meias?

– Impossível. Quem entra na lista das meias, entra, automaticamente, na lista dos que não são mais ouvidos sobre assunto nenhum. Inclusive as listas.

– Podiam dar uma gravata.

– Não. Gravata dá a entender que esperam que você ainda vá a algum lugar. De gravata. Dão meias, para ficar em casa.

– Uma loção…

– Cheirar bem pra que, na minha idade? Meias.

– Você poderia dar uma indireta…

– Passei o ano inteiro dizendo que estava precisando de um guarda-chuva novo. Guarda-chuva? Para sair na rua? Ainda mais com chuva? Meias.

– Quem entra na lista das meias, então…

– Só sai para entrar em outra lista. Ainda mais irrevogável e terrível.

– Qual?

– A das meias de lã.

– Essa é definitiva.

– É. Dos que estão na lista de meias de lã se presume que não têm outra ambição ou gosto na vida senão manter os pés quentes. Meias de outro material ainda deixam subentendida a possibilidade, mesmo remota, de uma recuperação. A medicina hoje faz milagres, você ainda pode voltar para a lista da loção. Até mesmo da gravata.

– Mas da lista das meias de lã ninguém sai…

– Com vida, não.

Telma

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Amor

Recuso os sonhos que te ignoram e os desejos que não possas despertar. Não quero fazer um gesto que não te louve, nem cuidar uma flor que não te enfeite; não quero saudar as aves que ignorem o caminho da tua janela, nem beber em ribeiros que não tenham acolhido o teu reflexo. Não quero visitar países que os teus sonhos não tenham percorrido como taumaturgos vindos de fora, nem habitar cabanas, que não tenham abrigado o teu repouso. Nada quero saber de quem te precedeu em meus dias, nem dos seres que aí permanecem.

(Rainer Maria Rilke in Correspondência Amorosa com Lou Andreas-Salomé”)

Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no ano de 1875 e estudou Literatura e História da Arte em Praga, Munique e Berlim. Já  aos 19 anos publicava poemas de amor. Lou Andreas-Salomé, psicanalista russa de quem foi amante por longo tempo, trouxe a inspiração para o trecho postado acima. Rainer morreu em 1926 e é considerado um dos mais importantes poetas de língua alemã.

Karina

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Frase da Semana

Quanta dor nos causaram os males que nunca aconteceram. (Thomas Jefferson)

Karina

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Gatos não morrem

A bela poesia abaixo reproduzida foi escrita por Nelson Ascher,  jornalista, tradutor e poeta paulista e faz parte de seu livro “Parte Alguma”.

Para os amantes de gatos é uma ótima pedida.

ELEGIAZINHA

i. m. nikita (gata da Inês)

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
– se somem – é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

Telma

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O Poço, de Pablo Neruda

O Poço

Cais, às vezes, afundas

em teu fosso de silêncio,

em teu abismo de orgulhosa cólera,

e mal consegues

voltar, trazendo restos

do que achaste

pelas profunduras da tua existência.


Meu amor, o que encontras

em teu poço fechado?

Algas, pântanos, rochas?

O que vês, de olhos cegos,

rancorosa e ferida?


Não acharás, amor,

no poço em que cais

o que na altura guardo para ti:

um ramo de jasmins todo orvalhado,

um beijo mais profundo que esse abismo.


Não me temas, não caias

de novo em teu rancor.

Sacode a minha palavra que te veio ferir

e deixa que ela voe pela janela aberta.

Ela voltará a ferir-me

sem que tu a dirijas,

porque foi carregada com um instante duro

e esse instante será desarmado em meu peito.


Radiosa me sorri

se minha boca fere.

Não sou um pastor doce

como em contos de fadas,

mas um lenhador que comparte contigo

terras, vento e espinhos das montanhas.


Dá-me amor, me sorri

e me ajuda a ser bom.

Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres.

Karina

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