Archive for outubro, 2010

Poesia infantil

De L a O

Onde a letra L
descobriu o lobo-guará?
na cor laranja
ou na luz do luar?

A letra M
semeou macaquice
e brotou mico-leão
na mata.

A paixão pelo mar
fez a letra N
transformar-se num peixe:
o namorado!

Os bichos gritaram:
– olha a onça!
E a letra O inventou
a surpresa: Ohhh!!!

Lalau e Laurabeatriz – As letras [DE L A O]

Karina

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Luis Fernando Veríssimo, para descontrair

TRISSEXUAL

As amigas se contavam tudo, tudo, do mais banal ao mais íntimo. Eram amigas desde pequenas e não passavam um dia sem se falar. Quando não se encontravam, se telefonavam. Cada uma fazia um relatório do seu dia e do seu estado, e não escapava uma ida ao super, um corrimento, uma indagação filosófica ou uma fofoca nova. Deus e todo o mundo, literalmente. Janice, Marília e Branca. Branca era a mais nova, mas já casara e já enviuvara, o que despertara um certo pânico protetor nas outras duas. Tudo acontecia rápido demais para a Branquinha, que precisava ser protegida da sua vida precipitada, da sua vida vertiginosa. Por isso Janice telefonou para Marília quando soube que a Branquinha estava namorando um homem chamado Futre, Amado Futre, Rosimar Amado Futre, e que, como se não bastasse isto, ele declarara à Branquinha que era trissexual.
– Marília de Deus – disse a Janice – o que é trissexual?!

– Bom… Bi é quando transa com os dois sexos.

– Isso eu sei.

– Tri deve ser quando transa com dois sexos e com bicho. Janice teve uma visão da Branquinha na cama com Rosimar Amado Futre, o porteiro do prédio e uma cabra. Ou um cabrito?

– Bichos dos dois sexos?

– E eu vou saber?! – gritou a Marília.

Era preciso proteger a Branquinha. Mas do quê, exatamente?

– O que é trissexual? – perguntou a Janice ao seu marido Rubião.

– Ahn? – disse Rubião, acordando.

Rubião dominara o truque de segurar um jornal na frente do rosto e dormir sem que a mulher notasse.  Janice não entendia como um homem que lia tanto jornal podia ser tão mal informado.

– O que é trissexual?

– É… é…
– Volta pro seu jornal, Rubião.

Apesar de ser a mais moça das três, Branquinha fora a primeira a perder a virgindade. Já fizera tudo que pode ser feito sobre uma cama. Ou, no caso dela, sobre uma cama, sobre uma mesa de cozinha, jantar ou pingue-pongue, sobre um estrado, na praia, no meio do campo, uma vez até no último banco de um ônibus intermunicipal – e sempre contando tudo, tudo, às outras duas. Que também contavam tudo que lhes acontecia, só não tinham tanto para contar. A Janice contava sua vida com o Rubião, que só transava nos sábados e vésperas de feriado. A Marília, que ainda não se casara e namorava um dentista chamado João, inventava, para não pensarem que ela também não tinha uma vida sexual. Mas nem as invenções mais criativas da Marília se igualavam às experiência da Branquinha. E agora um trissexual chamado Amado Futre! Branquinha talvez estivesse indo longe demais. Era preciso proteger a Branquinha.

Mas apesar de vários avisos (“Olhe lá, hein Branquinha?”) a Branquinha concordou em passar um fim de semana na serra com o Rosimar Amado Futre. E na volta, não telefonou para contar tudo, como ficara combinado. Teria lhe acontecido alguma coisa? Ela estaria num hospital, com um deslocamento, depois do que o Futre lhe fizera? Mordida por algum animal, nos arroubos da paixão? Janice e Marília não se contiveram, invadiram o apartamento de Branquinha e exigiram um relato completo. Mas cada pergunta sobre o fim de semana, Branquinha respondia “Nem te conto”. E não contou mesmo. Depois da experiência com Rosimar Amado Futre, estava tão na frente das outras que não tinham mais o que conversar. Não tinham mais pontos de referência, era isso.

Marília perguntou ao namorado João, o dentista, o que era trissexual.

– Tri?!

– É. Tri em vez de bi.

– Bi?!

– Esquece, João.

 

(Luis Fernando Veríssimo in Sexo na Cabeça – Editora Objetiva)

Karina

 

 

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Bertolt Brecht

Trazemos hoje um interessante poema do escritor e dramaturgo alemão Bertolt Brecht.  Sua obra se caracteriza por crítica ferrenha aos padrões da vida burguesa, à desigualdade social,  à guerra e ao nazismo.

Vejam:

Aos que vierem depois de nós

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

(tradução de Manuel Bandeira)

Karina

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A Cultura do Terror

“O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano, é fonte de inesgotável aprendizado. Abaixo, segue mais um trecho muito interessante para reflexão do leitor.

A cultura do terror
A extorsão, o insulto, a ameaça
o cascudo,
a bofetada,
a surra,
o açoite,
o quarto escuro,
a ducha gelada,
o jejum obrigatório,
a comida obrigatória,
a proibição de sair,
a proibição de se dizer o que se pensa,
a proibição de fazer o que se sente,
e a humilhação pública
são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
— Os direitos humanos deveriam começar em casa — comenta comigo, no Chile, Andrés Domínguez.

Telma

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Mais uma lição de Drummond

 

Vocação para a felicidade

 

“Não serei o poeta de um mundo caduco.”

Não escreverei versos chorosos, cantando tristezas infinitas,
amores impossíveis, saudades dolorosas,
paixões trágicas e não correspondidas.

Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza para justificar a inutilidade da vida.
Não preciso morrer e ir ao céu para encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a neste espaço terreno do aqui e do agora.

A felicidade, tal e qual o amor, está dentro de mim
E transborda em ternuras, em melodias,
em carinhos, em alegrias, em cantos e encantos.

Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz.

Faço minha estrela brilhar.
Sem receio dos encontros, desencontros,
encantos e desencantos que o amor me diz.

Contrariedades? Eu as tenho.
E quem não as tem na vida secular ?
Escassez de dinheiro? Nem é bom falar
Amores não correspondidos? Separações?
Rejeições? Saudades incuráveis?
Carinhos reprimidos, ternuras guardadas,
sem a contra parte do outro?
Eu tenho aos montões.
Sou a rainha das perdas, necessárias ao meu crescimento.

Contudo quem não soube a sombra não sabe a luz.
E num livro de matemática existencial
juntei todos esses problemas insolúveis,
com as respostas nas últimas páginas.
Mas pra que me debruçar
sobre eles, procurando a solução
se a própria vida me conduz
a resposta final?

Sem medo de ser feliz vou por aqui e por ali
por onde os caminhos, as trilhas,
Os atalhos me levarem, traçando meu rumo.
Às vezes com alguma tristeza,
mas quem disse que felicidade
é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea falta de alegria!

É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
E quando a infelicidade passar por aqui,
minhas malas estarão prontas
para eu ir por ali.

Karina

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Primavera

PRIMAVERA

Ah! quem nos dera que isto, como outrora,

Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera

Que inda juntos pudéssemos agora

Ver o desabrochar da primavera!


Saíamos com os pássaros e a aurora.

E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,

Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:

“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”


E esse corpo de rosa recendia,

E aos meus beijos de fogo palpitava,

Alquebrado de amor e de cansaço.


A alma da terra gorjeava e ria…

Nascia a primavera… E eu te levava,

Primavera de carne, pelo braço!


(Olavo Bilac, in “Poesias”)

Karina

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