Posts tagged josé saramago

Humanidade?

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“Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.”

(José Saramago, in “Canarias7 -1994)

 

Karina
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Dia Nacional do Leitor

No Dia Nacional do Leitor, presenteamos os leitores do blog com esse belo trecho de José Saramago:

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

“Vivi, olhei, li, senti, Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou certa, Terás então de ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados às página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ele, a sua própria margem, que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá que chegar…” (A Caverna)

Karina

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O outro lado, por José Saramago

O outro lado

Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando não olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido… Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registro fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gêmea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

(retirado de http://caderno.josesaramago.org)

Karina

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Mais Saramago

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:

“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre”.

(José Saramago in Viagem a Portugal)

 

Karina

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Um grande homem

Não canso de admirar o homem consciente que foi José Saramago. Sensível às mazelas da humanidade e pessimista com relação ao nosso futuro, caso não mudemos nossa forma de agir, ele nos deixou mensagens sábias.

Eis alguns trechos extraídos do livro “As palavras de Saramago”, organizado por Fernando Gómez Aguilera e publicado pela Companhia das Letras:

“Nós, os seres humanos, matamos mais que a morte.”

“(…) uma imagem do mundo em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de cinismo. Mas dirão: “Também há gente boa”. Pois há, mas o mundo não vai nessa direção. Há pessoas humanizáveis, pessoas que vão se humanizando por esforço de supressão de egoísmos. Mas o mundo no seu conjunto não vai nessa direção.”

“Está se perdendo a capacidade de relacionar-se, de respeitar o outro na sua diferença, seja qual for. “

“(…) Vivemos em um mundo que se transformou em um espetáculo de quinta categoria, em que se exibem direto a morte, a humilhação…”

“Para mim, o cão é a encarnação da pureza moral.”

“(…) a alegria, se se está sozinho, é nada.”

“A pergunta que todos nós devíamos nos  fazer é: O que foi que eu fiz, se nada mudou? Deveríamos viver mais incomodados. O amanhã não existirá se não mudarmos o hoje.  (…) tudo o que carregamos nos ombros em nossa vida são vésperas, incluindo a desesperança e a desilusão, são as que influenciam no amanhã. É preciso fazer o trabalho todos os dias com as mãos, a cabeça, a semsibilidade, com tudo.”

“O que de pior pode acontecer conosco é nos resignarmos à ignorância. É preciso aprender a voltar a dizer “não” e a se perguntar por quê, para quê e para quem. Se encontrássemos respostas a essas perguntas, talvez melhoraríamos o mundo.”

“Divergir é um direito que está e estará escrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos do passado, do presente e do futuro. Divergir é um ato irrenunciável de consciência.”

“Estamos na era da burocracia absoluta, avançamos irremediavelmente rumo à ignorância. O homem, cercado de informações, perplexo, perde sua capacidade de indignação, de resposta: a mínima racionalidade. Estamos todos neuróticos?”

“Faz sentido enviar uma sonda para explorar Plutão enquanto aqui há pessoas morrendo de fome? Estamos neuróticos. A desigualdade se faz presente não só na distribuição de riqueza, mas também na satisfação das necessidades básicas. Não nos orientamos no sentido de uma racionalidade mínima. A Terra está cercada por milhares de satélites, podemos ter cem canais de televisão, mas de que serve tudo isso em um mundo onde tantas pessoas estão morrendo. Trata-se de uma neurose coletiva, as pessoas já não sabem o que realmente convém à sua felicidade.”

“Há três sexos: o feminino, o masculino e o poder. O poder muda as pessoas.”

“Quando a preocupação é cada vez mais ter, ter e ter, as pessoas se preocuparão cada vez menos em ser, ser e ser.”

Karina

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As palavras de Saramago

“O mal e o remédio estão em nós. A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não progredimos muito em bondade em milhares de anos na Terra. Talvez estejamos percorrendo um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, chegaremos a ser aquilo que temos de ser. Quando a metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… algo não funciona. Quem sabe um dia!

(As palavras de Saramago – Companhia das Letras)

Karina

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Saramago

“Começar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e dar de repente com todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazes isso, o que te deslumbra é o conjunto. Não dizes: gosto mais desta árvore que das outras. Não, cada livro que eu entrava, eu considerava algo único.”

José Saramago

(As palavras de Saramago – Companhia das Letras)

Karina

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Frase da Semana

“Penso que, para voltar a falar do paraíso,  eu só consideraria um paraíso aceitável se pudesse encontrar lá os animais (…)”

José Saramago

Karina

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Os livros

“Agora não há outra música senão a das palavras, e essas, sobretudo as que estão nos livros, são discretas, ainda que a curiosidade trouxesse a escutar à porta alguém do prédio, não ouviria mais do que um murmúrio solitário, este longo fio de som que poderá infinitamente prolongar-se, porque os livros do mundo, todos juntos, são como dizem que é o universo, infinitos.”

José Saramago

Karina

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Frase da Semana

“A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.”

(José Saramago)

Karina

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