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Baudelaire e a dor

Dá um tempo, ó minha dor, controla tua agressividade.

Tu querias a noite; Aí está; ela vem descendo;

Uma atmosfera sombria já envolve quase toda a cidade,

Uns encontram a paz; outros seguem padecendo.

Enquanto dos mortais a multidão vil,

Sob o chicote do prazer, esse impiedoso carrasco,

Vai colhendo remorsos na festa servil,

Minha dor, me dá a mão, vamos por aqui, sem asco,

Ver, longe deles, debruçaram-se os anos defuntos,

Sobre os balcões do céu, usando velhos conjuntos;

Emergir a saudade, do fundo das águas, sorridente;

O sol moribundo adormecer atrás da arcada mansa,

E, como uma longa mortalha arrastando-se no Oriente,

Ouve, minha cara, ouve a doce noite que avança.

(Charles Baudelaire in Les Fleus du Mal)

Karina

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A Música

Reproduzimos abaixo mais um poema retirado do livro As Flores do Mal, do escritor francês  Charles Baudelaire.

Muitas pessoas não apreciam o  poeta em razão de sua poesia inquietante  e pesada. Nós, no entanto,  insistiremos em colocar de vez em quando textos de Baudelaire aqui no blog, pois achamos que o escritor marcou a literatura ocidental com poemas que revelam as profundezas da alma humana.

A MÚSICA

ocean

A música me arrasta às vezes como o mar!

No encalço de um astro,

Sob um teto de bruma ou dissolvido no ar,

Iço a vela ao mastro;


O peito para frente e os pulmões enfunados

Tal qual uma tela,

Escalo o dorso aos vagalhões entrelaçados

Que a noite me vela;


Sinto que em mim ecoam todas as paixões

De um navio aflito;

O vento, a tempestade e suas convulsões


No abismo infinito

Me embalam. Ou então, mar calmo, espelho austero

De meu desespero!

Karina

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Mais Baudelaire

Como já dissemos aqui no blog, o escritor francês Charles Baudelaire foi amplamente censurado na ocasião em que divulgou a sua obra mais famosa – “As Flores do Mal”. O livro, de fato, só foi publicado na íntegra após a morte do poeta.

O poema trazido abaixo foi um dos quais  Baudelaire  teve que retirar do livro em decorrência de ordem judicial e se refere, segundo estudiosos, a uma animadora parisiense de nome Apollonia Sabatier, que inclusive teria tido um caso com o poeta.

Vejam o estilo ousado e violento do escritor francês que mostrou o lado podre e miserável da sociedade parisiense  e aguardem novos posts sobre a sua obra:

left_roses

A QUE ESTÁ SEMPRE ALEGRE


Teu ar, teu gesto, tua fronte

São belos qual bela paisagem;

O riso brinca em tua imagem

Qual vento fresco no horizonte.


A mágoa que te roça os passos

Sucumbe à tua mocidade,

À tua flama, à claridade

Dos teus ombros e dos teus braços.


As fulgurantes, vivas cores

De tua vestes indiscretas

Lançam no espírito dos poetas

A imagem de um balé de flores.


Tais vestes loucas são o emblema

De teu espírito travesso;

Ó louca por quem enlouqueço,

Te odeio e te amo, eis meu dilema!


Certa vez, num belo jardim,

Ao arrastar minha atonia,

Senti, como cruel ironia,

O sol erguer-se contra mim;


E humilhado pela beleza

Da primavera ébria de cor,

Ali castiguei numa flor

A insolência da Natureza.


Assim eu quisera uma noite,

Quando a hora da volúpia soa,

Às frondes de tua pessoa

Subir, tendo à mão um açoite,


Punir-te a carne embevecida,

Magoar o teu peito perdoado

E abrir em teu flanco assustado

Uma larga e funda ferida,


E, como êxtase supremo,

Por entre esses lábios frementes,

Mais deslumbrantes, mais ridentes,

Infundir-te, irmã, meu veneno!


Karina

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“O Gato”, por Charles Baudelaire

Mais um poema pertencente ao grande livro “As Flores do Mal”.  Baudelaire, assim como muitos escritores, evoca a enigmática e fascinante figura do gato.

Vejam:

cat

O GATO

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;

Guarda essas garras devagar,

E nos teus belos olhos de ágata e aço

Deixa-me aos poucos mergulhar.


Quando meus dedos cobrem de carícias

Tua cabeça e dócil torso,

E minha mão se embriaga nas delícias

De afagar-te o elétrico dorso,


Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo

Como o teu, amável felino,

Qual dardo dilacera e fere fundo,


E, dos pés a cabeça, um fino

Ar sutil, um perfume que envenena

Envolve-lhe a carne morena.


Karina

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Hino à Beleza, por Charles Baudelaire

Les_Fleurs_du_Mal_w (a tela acima veio daqui: http://spaceintext.wordpress.com/2010/04/10/the-flowers-of-evil-baudelaire/)

Charles Baudelaire – considerado um dos maiores poetas franceses de todos os tempos- nasceu em 1821 em Paris e a sua obra influenciou a poesia moderna do século XX. O reconhecimento absoluto do talento de Baudelaire, no entanto, se deu somente após a sua morte em 1867. O escritor, “avançado” para a época, teve que lidar com críticas e hostilidades durante toda a sua carreira.
O poema reproduzido abaixo pertence ao livro “As Flores do Mal” (Les Fleurs du Mal), publicado em 1857. A obra causou grande polêmica na França, tendo sido apreendida na época pelas autoridades francesas, que a consideraram imoral. O livro contém cerca de cem poemas e é marcado pelo tom sombrio, com textos que trazem como tema a luxúria, a morte, a volúpia, a imundície etc.
“As Flores do Mal” só voltou a circular na íntegra após a morte do poeta.
Charles Baudelaire introduziu inovações na poesia ao misturar elementos sublimes e grotescos em seus textos. Os críticos literários consideram “As Flores do Mal” uma obra-prima e leitura obrigatória.
Carlos Drummond de Andrade, em seu livro “O Sentimento do Mundo” aconselha: “é preciso ler Baudelaire/ é preciso colher as flores/ de que falam velhos autores.”
Nada mais é preciso dizer. Vamos a Charles Baudelaire:

HINO À BELEZA

Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se por isso comparar-te ao vinho.

Em teus olhos refletes toda a luz diuturna;
Lanças perfumes como a noite tempestuosa;
Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna
Que torna o herói covarde e a criança corajosa.

Provéns do negro abismo ou da esfera infinita?
Como um cão te acompanha a Fortuna encantada;
Semeias ao acaso a alegria e a desdita
E altiva segues sem jamais responder nada.

Calcando mortos vais, Beleza, a escarnece-los;
Em teu escrínio o Horror é a jóia que cintila,
E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos,
Sobre teu ventre em amorosa dança oscila.

A mariposa voa ao teu encontro, ó vela,
Freme, inflama-se e diz: “Ó clarão abençoado!”
O arfante namorado aos pés de sua bela
Recorda um moribundo ao túmulo abraçado.

Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo!
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que amo e que jamais desvendo?

De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Que importa, se é quem fazes – fada de olhos suaves,
Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! –
Mais humano o universo e as horas menos graves?

Karina

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