Archive for setembro, 2013

Bem no fundo

Bem no fundo

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No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,

a gente gostaria

de ver nossos problemas

resolvidos por decreto

 

a partir desta data,

aquela mágoa sem remédio

é considerada nula

e sobre ela – silêncio perpétuo

 

extinto por lei todo o remorso,

maldito seja que olhas pra trás,

lá pra trás não há nada,

e nada mais

 

mas problemas não se resolvem,

problemas têm família grande,

e aos domingos saem todos a passear

o problema, sua senhora

e outros pequenos probleminhas.

 

(Paulo Leminski)

 

 

Karina

 

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O casaco, por Manoel de Barros

O poeta Manoel de Barros nasceu em Cuiabá, em 1916. Dentre diversas obras festejadas, se destaca o seu “Livro Sobre Nada”, de 1996. Abaixo, uma amostra de seu brilhantismo poético.

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O casaco

Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado e sujo.
Tentou sair da angústia.
Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.
Ele queria amanhecer.

Telma

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A mulher de virgem, por Vinicius de Moraes

VIRGEM

Ilustração de Mustafa Soydan

Ilustração de Mustafa Soydan

Se Florence Nightingale era Virgem

Não sei… Mas o mal é de origem.

A mulher de virgem aceita a amante

Isto é: desde que não a suplante.

Sexo de consumo, pães-de-minuto

Nada disso lhe há de faltar

O condomínio é absoluto

A virgem é mulher do lar.

Opala, safira, turquesa

São suas pedras astrais

Na cuca muita esperteza

Na existência muita paz.

Karina

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O herói

O Herói

season

“— Papai, o que é um herói?

Eu pergunto porque tenho grande vontade De ser herói também …

Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?

Será que posso ser herói sem odiar os homens

E sem matar alguém?”

O homem que já sofrera as mais fundas angústias

E as mais feias misérias Trabalhando a aridez de uma terra infecunda

Para que não faltasse o pão no pequenino lar;

O homem que as mais humildes ilusões perdera

No seu cotidiano e ingrato labutar;

Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho:

— “Papai, o que é um herói?”

Nada soube dizer, nada pôde explicar…

Tomou de uma peneira

E cantando saiu, outra vez, a semear!

(Judas Isgorogota)

Karina

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