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Primavera

PRIMAVERA

Ah! quem nos dera que isto, como outrora,

Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera

Que inda juntos pudéssemos agora

Ver o desabrochar da primavera!


Saíamos com os pássaros e a aurora.

E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,

Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:

“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”


E esse corpo de rosa recendia,

E aos meus beijos de fogo palpitava,

Alquebrado de amor e de cansaço.


A alma da terra gorjeava e ria…

Nascia a primavera… E eu te levava,

Primavera de carne, pelo braço!


(Olavo Bilac, in “Poesias”)

Karina

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Os Meses, de Bilac: Dezembro

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez.

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!

Dezembro:

Deixemos as coisas sérias!

Sou o belo mês das Férias,

O belo mês do Natal!

Crianças! tendes saudade

Da casa, da liberdade,

Do carinho maternal?

Sou o belo mês da Infância!

— Quem trabalhou com constância,Debalde não trabalhou:

As aulas estão suspensas;

Tem prêmios e recompensas

Todo aquele que estudou.

Quem estudou, finalmente,

Recebe a paga, contente,

Do sacrifício que fez…

— Férias, colégios fechados

E livros abandonados!…

Eu sou das férias o mês!

Coro de crianças:

Inda uma vez dancemos rindo!

Vamos às casas regressar…

O ano acabou! Dezembro é findo!

Vamos agora descansar!

Karina

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Dois belos poemas de Bilac

Como já dissemos aqui no blog, Olavo Bilac, embora pertencente à escola parnasiana de literatura, na qual a prioridade é o estilo e a forma, nunca deixou de lado o lirismo e a emoção em sua poesia.

É o que podemos constatar nos dois belíssimos poemas carregados de sentimento que abaixo reproduzimos:

heart

LEIO-TE


Leio-te: — o pranto dos meus olhos rola:

— Do seu cabelo o delicado cheiro,

Da sua voz o timbre prazenteiro,

Tudo do livro sinto que se evola …


Todo o nosso romance: – a doce esmola

Do seu primeiro olhar, o seu primeiro

Sorriso, – neste poema verdadeiro,

Tudo ao meu triste olhar se desenrola.


Sinto animar-se todo o meu passado:

E quanto mais as páginas folheio,

Mais vejo em tudo aquele vulto amado.


Ouço junto de mim bater-lhe o seio,

E cuido vê-Ia, plácida, a meu lado,

Lendo comigo a página que leio.


—//—

LONGE DE TI

XXXI


Longe de ti, se escuto, porventura,

Teu nome, que uma boca indiferente

Entre outros nomes de mulher murmura,

Sobe-me o pranto aos olhos, de repente…


Tal aquele, que, mísero, a tortura

Sofre de amargo exílio, e tristemente

A linguagem natal, maviosa e pura,

Ouve falada por estranha gente…


Porque teu nome é para mim o nome

De uma pátria distante e idolatrada,

Cuja saudade ardente me consome:


E ouvi-lo é ver a eterna primavera

E a eterna luz da terra abençoada,

Onde, entre flores, teu amor me espera.


Karina

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Os meses de Bilac: Agosto

AGOSTO

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!

rain

Agosto:

Com as chuvas derradeiras,

Molham-se as verdes palmeiras

E os canteiros do jardim.

Já que o tempo não melhora,

Deixemos em paz lá fora

O balanço e o trampolim…

Depois das lições, abramos

Livros de contos; leiamos

As ardentes narrações

De aventuras, de viagens

Por inóspitas paragens

E por selvagens sertões…

— De explorações arrojadas

Feitas em zonas geladas,

Em zonas de vivos sóis;

E percorramos a História,

Honrando e amando a memória

Dos justos e dos heróis!

Coro de crianças:

Fugiu Agosto! Pede entrada

Um novo mês que nos vai dar

A Primavera perfumada!

É o nono mês que vai entrar!

Karina

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Beijo Eterno

Olavo Bilac estava inspiradíssimo quando elaborou esse poema. Vejam:

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BEIJO ETERNO


 

Quero um beijo sem fim,

Que dure a vida inteira e aplaque meu desejo!

Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo.

Beija-me assim!

O ouvido fecha ao rumor

Do mundo, e beija-me, querido!

Vive só para mim, só para a minha vida,

Só para meu amor!


 

Fora, repouse em paz

Dormida em calmo sono a calma natureza,

Ou se debata, das tormentas presas

-Beija ainda mais!

E, enquanto o brando calor

Sinto em meu peito o teu seio,

Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,

Com o mesmo ardente amor!


 

Suceda a treva a luz!

Vele a noite de crepe a curva do horizonte;

Em véus de opala a madrugada aponte

Nos céus azuis,

E Vênus, como uma flor,

Brilhe, a sorri, do ocaso a porta,

Brilhe a porta do Oriente! A treva e a luz – que importa?

Só nos importa o amor!


 

Raive o Sol no Verão

Venha o outono! do inverno os frígidos vapores

Toldem o céu! das aves e das flores

Venha a estação!

Que nos importa o esplendor

Da primavera, e o firmamento

Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?

Beijemo-nos amor!


 

Beijemo-nos! Que o mar

Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!

E cante o sol! A ave desperte e cante!

Cante o luar,

Cheio de novo fulgor!

Cante a amplidão! Cante a floresta!

E a natureza toda, em delirante festa

cante, cante este amor!


 

Diz tua boca: “Vem!”

“Inda mais!”, diz a minha, a soluçar … Exclama

Todo meu corpo que o teu corpo chama:

“Morde também!”

Ai! Morde! Que doce é a dor

Que entra as carnes, e as tortura!

Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,

Morto por teu amor!


 

Quero um beijo sem fim,

Que dure a vida inteira e aplaque meu desejo!

Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo.

Beija-me assim!

O ouvido fecha ao rumor

Do mundo, e beija-me, querida!

Vive só para mim, só para a minha vida,

Só para meu amor!

Karina

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Os Meses, de Olavo Bilac: Julho

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Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!

Julho:

Mais curtos são os dias…

As noites são mais frias,

E custam a passar…

Que cômodo o descanso,

Na calma, no remanso,

Na placidez do lar…

Que paz, e que franqueza,

Quando, ao redor da mesa,

À luz do lampião,

A gente se congrega,

E ao júbilo se entrega

De doce comunhão!

Amigos, estudemos!

E esta estação saudemos

Bondosa, que nos traz

As longas noites calmas

Que dão às nossas almas

O Amor, o Estudo e a Paz!

Coro de crianças:

O mês de julho oculta o rosto…

O seu encanto se desfez…

Entre na roda o mês de agosto!

Entre na dança o oitavo mês!


Karina

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Os Meses de Bilac: Junho

Para não perder o costume vamos  a mais um poema da coletânea “Os Meses”,  do grande Olavo Bilac:

(pintura de Di Cavalcanti – “São João”)são joão

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!

Junho:

Em chamas alviçareiras,

Ardem, crepitam fogueiras…

— E os balões de São João

Vão luzir, entre as neblinas,

Como estrelas pequeninas,

Entre as outras, na amplidão.

Não há casinha modesta

Que não se atavie, em festa,

Nestas noites, a brilhar:

Não se recordam tristezas…

Estalam bichas chinesas,

Estouram foguetes no ar.

Fogos alegres, pistolas,

Bombas! ao som das violas,

Ardei! cantai! crepitai!

Num largo e claro sorriso,

Seja a terra um paraíso!

Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio…

Vamos os corpos aquecer,

Acelerando o rodopio…

— Pode outro mês aparecer!

Karina

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Atendendo a pedidos: mais poesia para crianças

As Flores

garden

Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.
Umas, criadas com arte,
Outras, simples e modestas,
Há flores por toda a parte
Nos enterros e nas festas,
Nos jardins, nos cemitérios,
Nos paúes e nos pomares;
Sobre os jazigos funéreos,
Sobre os berços e os altares,
Reina a flor! pois quis a sorte
Que a flor a tudo presida,
E também enfeite a morte,
Assim como enfeita a vida.
Amai as flores, crianças!
Sois irmãs nos esplendores,
Porque há muitas semelhanças
Entre as crianças e as flores…

(Olavo Bilac)

—x—

Sonhos da Menina

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A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha  . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

(Cecília Meireles)

Karina

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“Os Meses”, de Bilac: Maio

No mês de maio, Olavo Bilac exalta a abolição da escravidão no Brasil, referindo-se à assinatura pela Princesa Isabel da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

Vejam:

“Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!

 negros*

Maio:

Dai-me vivas! Dai-me palmas!

Exultem todas as almas,

Cheias de um vivo fulgor

Todo o Brasil, congregado,

Saúde o mês consagrado

da Liberdade e do Amor!

A grande raça oprimida

Abre as portas da vida,

As portas da redenção!

Mudei em risos as dores,

Mudei em tufos de flores

Os ferros da escravidão!

Treze de Maio! A desgraça

Findou de toda uma raça!

– Aos beijos, dando-se as mãos

Os brasileiros se uniram,

e o cativeiro aboliram,

Ficando todos irmãos.

 

 Coro de crianças:

Maio já deu o seu recado…

Prossiga, em danças, a função!

Entre na roda o mês amado,

O alegre mês de São João!

 

* Ilustração: “Dança dos Negros ao Luar” – xilogravura de Lasar Segall – 1929

Karina

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A velhice

O poeta da perfeição, Olavo Bilac, fala no poema abaixo sobre a velhice, estado que muitos veem com verdadeiro pavor. Para Bilac, no entanto, não há o que lamentar, pois existe beleza também na velhice.Vejam:

 A velhice

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

 

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Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 Karina

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