Archive for abril, 2012

Rubem Alves

“Memórias não podem ser esquecidas. O passado, uma vez vivido, entra em nosso sangue, molda nosso corpo, escolhe nossas palavras. É inútil renegá-lo. As cicatrizes e os sorrisos permanecem. Os olhos dos que sofreram e amaram serão, para sempre, diferentes de todos os outros. Resta-nos fazer as pazes com aquilo que já fomos, reconhecendo que, de um jeito ou de outro, aquilo que já fomos continua vivo em nós, seja sob a forma de demônios que queremos exorcizar e esquecer, sem sucesso, seja sob a forma de memórias que preservamos com saudade e nos fazem sorrir com esperança.”

(Rubem Alves in Dogmatismo e Tolerância, p. 19)

 

Karina

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Manuel Bandeira

Belíssimo poema de Manuel Bandeira:

 

Cartas de meu avô

A tarde cai, por demais

Erma, tímida e silente…

A chuva, em gotas glaciais,

Chora monotonamente.

/

E enquanto anoitece, vou

Lendo, sossegado e só,

As cartas que meu avô

Escrevia a minha avó.

/

Enternecido sorrio

Do fervor desses carinhos:

É que os conheci velhinhos,

Quando o fogo era já frio.

/

Cartas de antes do noivado…

Cartas de amor que começa,

Inquieto, maravilhado,

E sem saber o que peça.

/

Temendo a cada momento

Ofendê-la, desgostá-la,

Quer ler em seu pensamento

E balbucia, não fala…

/

A mão pálida tremia

Contando o seu grande bem.

Mas, como o dele, batia

Dela o coração também.

/

A paixão, medrosa dantes

Cresceu, dominou-o todo.

E as confissões hesitantes

Mudaram logo de modo.

/

Depois o espinho do ciúme…

A dor… a visão da morte…

Mas, calmado o vento, o lume

Brilhou, mais puro e mais forte.

/

E eu bendigo, envergonhado,

Esse amor, avô do meu…

Do meu – fruto sem cuidado

Que, ainda verde, apodreceu.

/

O meu semblante está enxuto

Mas a alma, em gotas mansas,

Chora, abismada no luto

Das minhas desesperanças…

/

E a noite vem, por demais

Erma, úmida e silente…

A chuva, em pingos glaciais,

Cai melancolicamente.

/

E enquanto anoitece, vou

Lendo, sossegado e só,

As cartas que meu avô

Escrevia a minha avó.

Karina

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Literatura infanto-juvenil

Muitas crianças e adolescentes têm acessado o blog à procura de textos e poemas. E nós ficamos muito felizes porque são eles quem farão o dia de amanhã.

Assim, trazemos uma bela crônica de Cecília Meireles para o público infanto-juvenil:

A sereiazinha

Em Copenhague, no lugar preferido pelo povo para os seus passeios, existia uma figura de bronze, obra do escultor Eriksen, representando uma pequena sereia pousada num rochedo. Com uma das mãos apoiada na pedra e a outra abandonada no regaço, ela contemplava, na sua casta nudez, este mundo incrível dos homens. Por trás dela perfilavam-se belos navios brancos e armações de altos guindastes. Ela estava ali, entre o céu, a terra e o mar e era uma das mais delicadas expressões de amor que se podia ter oferecido àquele gênio da bondade que se chamou Hans Christian Andersen, cujas histórias causaram a felicidade de milhões de crianças que as ouviram, no mundo inteiro, e certamente a dos adultos que as contaram.

A sereiazinha vivia no fundo do mar, no palácio do rei seu pai, em companhia de suas irmãs e de sua avó. Quando as pequenas sereias chegavam aos quinze anos, tinham permissão para subir à tona da água e contemplar o mundo dos homens. As irmãs não se encontraram muito com esse mundo; mas a sereiazinha caçula aprendeu com a sua avó que as sereias duram apenas três séculos e, ao morrer, tornam-se em espuma, enquanto que os seres humanos possuem uma alma imortal. A sereiazinha desejou possuir também uma alma assim. Mas era difícil; segundo o que lhe contara a avó, para possuir uma alma imortal, que um homem a amasse mais que aos seus próprios pais e, naturalmente, a desposasse. (Eu estou contando isto pelo prazer que me dá relembrar a linda história, mas na certeza que todos os leitores a conhecem.)

Então a sereiazinha salva um príncipe de um naufrágio, e, para vir a encontrá-lo, mais tarde, no seu palácio, pede à feiticeira do mar que lhe transforme a cauda em pés humanos, pagando pelo serviço com a sua voz, e resignando-se à mudez.

No palácio, todos a acham linda. Mas que pode ela fazer, se não fala? O príncipe trata-a com uma delicada ternura de amigo; mas está noivo e em breve se casará… Oh! A sereiazinha não conseguirá possuir uma alma imortal! E também já não poderá voltar ao palácio submarino, não tornará à sua vida antiga: morrerá de um raio de sol e se transformará em simples espuma. A não ser que, segundo lhe vêm explicar as irmãs, que circundam o navio do príncipe, tenha a coragem de matá-lo, antes do amanhecer. Com o seu sangue tornará a adquirir sua cauda de sereia, não morrerá com o primeiro raio de sol, voltará para a sua família (Sem a alma imortal, é certo, mas com cerca de trezentos anos de vida …)

Como todos sabem, a sereiazinha não foi capaz de matar seu belo príncipe: aproximou-se do leito onde ele dormia, murmurando em sonho o nome da noiva, deu-lhe um beijo na testa, atirou a faca ao mar, lançou-se também às ondas e notou como a sua forma se dissolvia em espuma. Não sentiu, porém, que morria. Percebeu uma infinidade de formas aéreas, esvoaçantes, e essas formas falaram com ela, disseram-lhe que se as sereias, para possuírem uma alma imortal, precisavam de um amor humano, elas, filhas do ar, conquistavam uma alma imortal com seu próprio esforço, praticando o bem, protegendo a terra e os homens, sem dependerem desse amor que a sereiazinha em vão tentara merecer. E a sereiazinha pela primeira vez sentiu lágrimas nos olhos, e partiu pelo céu, com as filhas do ar, procurando alcançar a imortalidade pelas boas obras, talvez em menos de trezentos anos.

Sensíveis à maravilhosa invenção de Andersen, os dinamarqueses levantaram numa pedra esse monumento à sereiazinha: a menina vinda dos profundos abismos do mar desejosa de deixar a sua condição de sereia para possuir a alma eterna, e conseguindo, pela sua perfeita bondade, elevar-se a espírito dos ares, conquistando essa alma pelas boas ações.

Pois neste triste mundo dos homens, onde sofre a alma imortal, veio alguém e degolou agora a sereiazinha de bronze ! Por quê ? Por amor? Para ter em sua casa o suave rosto, de sereno perfil, de delicadas madeixas? Por ódio àquela que sofreu tanto para possuir a alma imortal? Ou por simples vadiação, pelo gosto de destruir, pelo mórbido prazer de desfazer o que os outros fizeram com ternura? Hans Christian Andersen, o gênio da bondade, teria enxugado uma lágrima nos seus olhos repletos de carinho mesmo pelos que outrora não o entendiam. Mas, não, embora degolada, a sereiazinha não morreu; há um século que sua figura invisível paira pelo céu, distribuindo benefícios pela humanidade. Tanta alegria tem dado a tanta gente que já conseguiu alcançar aquela alma imortal que pretendia.

 

 (Crônicas de viagem – Editora Nova Fronteira)

Karina

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Shakespeare

Belo soneto de Shakespeare traduzido por Ivo Barroso. Para que tem celular com android e gosta de fazer livre tradução de poemas, indicamos o dicionário de português-brasileiro/inglês no link: http://market.android.com/details?id=rcs.android.apps.

Aproveitem:

91           


Uns se orgulham do berço, ou do talento;

Outros da força física, ou dos bens;

Alguns da feia moda do momento;

Outros dos cães de caça, ou palafréns.

Cada gosto um prazer traz na acolhida,

Uma alegria de virtudes plenas;

Tais minúcias não são minha medida.

Supero a todos com uma só apenas.

Mais do que o berço o teu amor me é caro,

Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,

Mais me apraz que os corcéis, ou cães de faro,

E tendo-te, do orgulho humano abuso.

O infortúnio seria apenas este:

Tirar de mim o bem que tu me deste.

XCI

Some glory in their birth, some in their skill,

Some in their wealth, some in their body’s force,

Some in their garments though new-fangled ill;

Some in their hawks and hounds, some in their

[ horse;

And every humour hath his adjunct pleasure,

Wherein it finds a joy above the rest:

But these particulars are not my measure,

All these I better in one general best.

Thy love is better than high birth to me,

Richer than wealth, prouder than garments’ cost,

Of more delight than hawks and horses be;

And having thee, of all men’s pride I boast:

Wretched in this alone, that thou mayst take

All this away, and me most wretched make.

Karina

 

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Um grande homem

Não canso de admirar o homem consciente que foi José Saramago. Sensível às mazelas da humanidade e pessimista com relação ao nosso futuro, caso não mudemos nossa forma de agir, ele nos deixou mensagens sábias.

Eis alguns trechos extraídos do livro “As palavras de Saramago”, organizado por Fernando Gómez Aguilera e publicado pela Companhia das Letras:

“Nós, os seres humanos, matamos mais que a morte.”

“(…) uma imagem do mundo em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de cinismo. Mas dirão: “Também há gente boa”. Pois há, mas o mundo não vai nessa direção. Há pessoas humanizáveis, pessoas que vão se humanizando por esforço de supressão de egoísmos. Mas o mundo no seu conjunto não vai nessa direção.”

“Está se perdendo a capacidade de relacionar-se, de respeitar o outro na sua diferença, seja qual for. “

“(…) Vivemos em um mundo que se transformou em um espetáculo de quinta categoria, em que se exibem direto a morte, a humilhação…”

“Para mim, o cão é a encarnação da pureza moral.”

“(…) a alegria, se se está sozinho, é nada.”

“A pergunta que todos nós devíamos nos  fazer é: O que foi que eu fiz, se nada mudou? Deveríamos viver mais incomodados. O amanhã não existirá se não mudarmos o hoje.  (…) tudo o que carregamos nos ombros em nossa vida são vésperas, incluindo a desesperança e a desilusão, são as que influenciam no amanhã. É preciso fazer o trabalho todos os dias com as mãos, a cabeça, a semsibilidade, com tudo.”

“O que de pior pode acontecer conosco é nos resignarmos à ignorância. É preciso aprender a voltar a dizer “não” e a se perguntar por quê, para quê e para quem. Se encontrássemos respostas a essas perguntas, talvez melhoraríamos o mundo.”

“Divergir é um direito que está e estará escrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos do passado, do presente e do futuro. Divergir é um ato irrenunciável de consciência.”

“Estamos na era da burocracia absoluta, avançamos irremediavelmente rumo à ignorância. O homem, cercado de informações, perplexo, perde sua capacidade de indignação, de resposta: a mínima racionalidade. Estamos todos neuróticos?”

“Faz sentido enviar uma sonda para explorar Plutão enquanto aqui há pessoas morrendo de fome? Estamos neuróticos. A desigualdade se faz presente não só na distribuição de riqueza, mas também na satisfação das necessidades básicas. Não nos orientamos no sentido de uma racionalidade mínima. A Terra está cercada por milhares de satélites, podemos ter cem canais de televisão, mas de que serve tudo isso em um mundo onde tantas pessoas estão morrendo. Trata-se de uma neurose coletiva, as pessoas já não sabem o que realmente convém à sua felicidade.”

“Há três sexos: o feminino, o masculino e o poder. O poder muda as pessoas.”

“Quando a preocupação é cada vez mais ter, ter e ter, as pessoas se preocuparão cada vez menos em ser, ser e ser.”

Karina

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Te desejo uma fé enorme

em qualquer coisa, não importa o que,

como aquela fé que a gente teve um dia,

me deseja também uma coisa bem bonita,

uma coisa qualquer maravilhosa,

que me faça acreditar em tudo de novo,

que faça a cada um de nós acreditar em tudo outra vez.

 

(Caio Fernando Abreu)

Karina

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Evocação de Silêncios

Belíssimo poema de Ferreira Gullar.  Estrutura perfeita.

EVOCAÇÃO DE SILÊNCIOS

 

O silêncio habitava

o corredor de entrada

de uma meia morada

na rua das Hortas

/

o silêncio era frio

no chão de ladrilhos

e branco de cal

nas paredes altas

/

enquanto lá fora

o sol escaldava

/

Para além da porta

na sala nos quartos

o silêncio cheirava

àquela família

/

e na cristaleira

(onde a luz

se excedia)

cintilava extremo:

/

quase se partia

/

Mas era macio

nas folhas caladas

do quintal

vazio

/

e

negro

no poço

negro

/

que tudo sugava:

vozes luzes

tatalar de asa

/

o que

circulava

no quintal da casa

/

O mesmo silêncio

voava em zoada

nas copas

nas palmas

por sobre telhados

até uma caldeira

que enferrujava

na areia da praia

do Jenipapeiro

/

e ali se deitava:

uma nesga dágua

/

um susto no chão

/

fragmento talvez

de água primeira

/

água brasileira

/

Era também açúcar

o silêncio

dentro do depósito

(na quitanda

de tarde)

/

o cheiro

queimando sob a tampa

no escuro

/

energia solar

que vendíamos

aos quilos

/

Que rumor era

esse ? barulho

que de tão oculto

só o olfato

o escuta?

/

que silêncio

era esse

tão gritado

de vozes

(todas elas)

queimadas

em fogo alto ?

/

(na usina)

/

alarido

das tardes

das manhãs

/

agora em tumulto

dentro do açúcar

/

um estampido

(um clarão)

se se abre a tampa.

 

 Karina

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