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Lembrança, de Guilherme de Almeida

O lindo poema reproduzido a seguir pertence ao livro “O Anjo de Sal”, de 1951:

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LEMBRANÇA

Lembro o pudor da paisagem
e a fanfarra de perfumes
que o claro clarim dos lírios
abria nas madrugadas.

Lembro o susto dos insetos
na castidade das águas,
e as asas do pó fugindo
atrás da luz desnudada.

Lembro a fala dos caminhos
ao longo dos passos cegos,
e os ventos enovelados
na cabeleira das nuvens.

Lembro o bulício da palha
quando pisavas a tarde,
os olhos cheios de folhas
e as mãos repletas de ninhos.

Lembro a noite dos meus olhos
sem luas no seu silêncio,
quando ficavas na sombra
e a sombra ficava estrela.

Lembro a palavra parada
na flor adiada da boca,
e lembro o beijo retido
ao gesto alado de adeuses.

Karina

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“Essa que eu hei de amar…”, por Guilherme de Almeida

Reproduzimos abaixo mais um belo poema do grande escritor Guilherme de Almeida, extraído do livro  Meus Versos Queridos – Editora Ediouro:

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Essa que eu hei de amar…

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

 
E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… – Tudo isso eu me dizia,

 
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…


E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”

 Karina

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Mais uma de Guilherme de Almeida

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Poesias de Guilherme de Almeida são inspiradoras. O romantismo peculiar com que o escritor paulista brinda seus leitores toca fundo a alma e faz nascer a vontade de viver e de amar… Há certos poetas que não morrem nunca. Ficam eternizados em seus escritos inesquecíveis.

Apreciem.

“Por Quê?

Por que acordaste naquela hora morta?

Por que me abriste a porta

e aceitaste o sorriso que eu sorria

e a rosa que eu trazia?

Por que acendeste a lâmpada e a lareira?

Por que estendeste a esteira?

Por que cerraste o reposteiro  e os trincos?

Por que tiraste os brincos?

Por que soltaste a tua trena de ouro

e o teu cinto de couro?

Por que fechaste os olhos? Por que abriste

a boca? Por que ouviste

o que eu não disse? Por que não disseste

o que eu ouvi? Por que deste

a mão à minha mão na despedida,

no adeus à minha vida?”

Telma

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Mãe:a mais doce das figuras

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Uma bela poesia de Guilherme de Almeida, sobre o ciúme,  já foi colocada no blog. Mas uma só é muito pouco. É preciso ler todas, pois vale a pena.  E como vale!

O autor é um ícone da literatura brasileira que merece mais espaço, mais homenagens, mais visibilidade, ainda que póstumos. Sempre com singular sensibilidade, escreveu maravilhas como a que reproduzimos abaixo:

“Minha mãe

                   (Num “Dia das Mães”)

Senhora das mãos de leite

que me sustinham ao seio

para matar minha sede,

minha fome de viver…

Senhora das mãos de sonho

que, fechando o cortinado,

davam um céu ao meu berço,

povoado de anjos e fadas…

Senhora das mãos de benção

pousando na minha fronte

seu vôo de asa e de incenso…

Senhora das mãos de santa

que rezavam os meus dias

como contas de um rosário…

Senhora das mãos de adeus

que partiram, brancas, frias

e cruzadas sobre o peito

(por que partiram? por quê?)

sem ter fechado meus olhos…”

 

Telma

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O cíume. Por Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida foi um dos maiores expoentes da literatura brasileira, sendo considerado um precursor da escola modernista. Faleceu em 1969, deixando-nos órfãos de sua genialidade. No poema que reproduzimos a seguir, o exímio escritor trata de um tema eternamente em voga: o ciúme. E o faz com um brilhantismo ímpar! Veja por si mesmo:

 

Minha melhor lembrança é aquele instante no qual

Pela primeira vez, me entrou pela retina

Tua silhueta, provocante e fina

 Como um punhal

Depois, passaste a ser unicamente aquela

Que a gente se habitua a achar apenas bela

E que é quase banal.

 E agora que te tenho em minhas mãos e sei

Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos

E os teus sentidos são cinco brinquedos

Com que brinquei

Agora que não mais me és inédita;  agora

 Que eu compreendo que, tal como te vira outrora

Nunca mais te verei

 Agora que de ti, por muito que me dês

Já não podes dar a impressão que me deste

A  primeira impressão, que me fizeste

Louco talvez

Tenho ciúme de quem não te conhece ainda

E cedo ou tarde  te verá, pálida e linda

Pela primeira vez.”

Telma

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