Posts tagged literatura infantil

Lalau e Laurabeatriz

O autor e a ilustradora,  que criam livros juntos há quinze anos, encontraram a fórmula certa de fazer literatura infantil.

Mais um poema da dupla para as crianças:

 

Mar

No mar,

Tem siri e ostra,

Marisco e lagosta,

Bichos bonitos,

bichos esquisitos.

O mar

É lindo e gozado.

A gente entra doce

E sai salgado.

(Bem-te-vi e outras poesias – Companhia das Letrinhas)

Karina

Comments (5) »

Poesia infantil

De L a O

Onde a letra L
descobriu o lobo-guará?
na cor laranja
ou na luz do luar?

A letra M
semeou macaquice
e brotou mico-leão
na mata.

A paixão pelo mar
fez a letra N
transformar-se num peixe:
o namorado!

Os bichos gritaram:
– olha a onça!
E a letra O inventou
a surpresa: Ohhh!!!

Lalau e Laurabeatriz – As letras [DE L A O]

Karina

Comments (5) »

Cantigas para Crianças

Existem diversas obras voltadas ao público infantil disponíveis no mercado e sempre fizemos questão de estimular a leitura para crianças aqui no blog. Outra forma bastante divertida de alimentar a inteligência e a criatividade dos pequenos é apresentar-lhes as tão consagradas cantigas infantis, como a reproduzida abaixo:

A Barata Diz Que Tem


A Barata diz que tem sete saias de filó

É mentira da barata, ela tem é uma só

Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !


A Barata diz que tem um sapato de veludo

É mentira da barata, o pé dela é peludo

Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !


A Barata diz que dorme numa colcha de cetim

É mentira da barata, ela dorme é no capim

Ah ra ra, rim rim rim, ela dorme é no capim!


A Barata diz que usa perfume de margarida

É mentira da barata, ela usa inseticida

Ah ra ra, ia ro ró, ela usa inseticida!


A Barata diz que tem um anel de formatura

É mentira da barata, ela tem é casca dura

Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura!


A Barata diz que tem o cabelo cacheado

É mentira da barata, ela tem coco raspado

Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado!


A Barata diz que usa um produto da avon

É mentira da barata, ela usa detefon

Ah ra ra, ia ro ró, ela usa detefon!


A Barata diz que mora numa casa enfeitadinha

É mentira da barata, ela mora é na cozinha

Ah ra ra, ia ro ró, ela mora é na cozinha!


A Barata diz que tem hidromassagem na banheira

É mentira da barata, toma banho de goteira

Ah ra ra, ia ro ró, toma banho de goteira!


A Barata diz que foi num lugar muito maneiro

É mentira da barata, ela foi é no banheiro

Ah ra ra, ia ro ró, ela foi é no banheiro!


A Barata diz que tem uma coroa de rainha

É mentira da barata, ela só tem anteninha

Ah ra ra, ia ro ró, ela só tem anteninha!


A Barata diz que foi trabalhar num escritório

É mentira da barata, ela foi no mictório

Ah ra ra, ia ro ró, ela foi no mictório!


A Barata diz que tem uma capa de bolinha

É mentira da barata, a capa é da joaninha

Ah ra ra, ia ro ró, a capa é da joaninha!


A Barata diz que tem um sapato de fivela

É mentira da barata, o sapato é da mãe dela

Ah rá rá, oh ró ró, o sapato é da mãe dela!

Telma

Comments (2) »

Todas as cores de Lygia Bojunga

Lygia Bojunga, sem favor nenhum, é uma das maiores escritoras brasileiras voltadas ao público infantil. Ela é inteligente, original, densa e inspirada.  Mais do que isso: é uma verdadeira especialista quando o assunto é entender a cabeça e o comportamento de crianças e adolescentes. Todas as suas obras são encantadoras.

Hoje nosso objetivo é recomendar ao nobre leitor a leitura de um dos grandes livros da referida autora. Trata-se de “O meu amigo pintor”,  escrito em 1987, que conta a envolvente estória de amizade entre um esperto adolescente e um pintor muito sensível e solitário. O sentimento que nasce entre os dois personagens que protagonizam o enredo é muito bonito e gera um aprendizado mútuo entre eles. Vale a pena conhecer.

A seguir, trazemos alguns trechos de “O meu amigo pintor”, para aguçar o espírito curioso dos frequentadores do blog:

“Eu não sei se eu já nasci desse jeito ou se eu fui ficando assim por causa do meu amigo pintor, mas quando eu olho pra uma coisa eu me ligo logo é na cor.

Gente, casa, livro, é sempre igual: primeiro eu fico olhando pra cor do olho: da porta, da capa: só depois eu começo a ver o jeito que o resto tem.

Um dia o meu amigo me disse que eu era um garoto com alma de artista, e me deu um álbum com uns trabalhos que ele tinha efeito em aquarela, tinta a óleo e pastel. Disse que tinha arrumado os trabalhos no álbum pra eu entender melhor esse negócio de cor. Nas primeiras páginas só tinha cor. Quer dizer, no princípio, nem cor tinha: era só branco e preto; depois começavam as cores: amarelo, azul, vermelho, e depois essas três cores iam se misturando pra formar uma porção, nuns desenhos que às vezes eu gostava e outras vezes não.

O meu amigo me disse que quanto mais a gente prestava atenção numa cor, mais coisa saía de dentro dela. Eu fiquei olhando pra cara dele sem entender. Não entendi  mesmo aquela história de tanta coisa ir saindo de dentro de uma cor.

De tudo que eu conversava com o meu Amigo tem duas coisas que eu lembro mais. Não sei por quê. A primeira é um papo que a gente teve num domingo. tava chovendo. A gente tinha acabado de jogar. O meu Amigo levantou, acendeu o cachimbo, começou a preparar umas tintas, e então conversou de amor:

Amor de trabalhar. De pintar. Amor de homem e de mulher, de pai, de mãe, amor de cidade-de país- e-de mundo onde a gente mora, amor de filho, de amigo.

– Amor assim feito a gente tem um pelo outro – ele falou.

O meu coração pulou.

Toda a vida eu gostei do meu Amigo assim… assim bem grande; mas eu sempre pensei que ele gostava menor de mim. Não sei se porque eu era criança e ele não; ou se porque ele era um artista e eu não; só sei que quando ele falou de amor o meu coração pulou daquele jeito: será que então a gente se gostava igual?”

Telma

Leave a comment »

Indicação de Literatura Infanto-Juvenil

Somos fãs de carteirinha de Lygia Bojunga. Ela é uma  autora que sabe adentrar o universo infantil de maneira singular. Seus livros misturam fantasia e realidade, sempre abordando a perspectiva da criança ao ver o mundo. E é por isso que nos livros de Lygia tudo pode acontecer, pois a imaginação infantil não tem limites.

O livro A Casa da Madrinha trabalha muito bem a fantasia. Alexandre – o protagonista – busca a casa de sua madrinha, que nada mais é do que o desejo de encontrar um lugar que o acolha e o liberte de um mundo hostil e de uma vida de abandono. As experiências fantásticas que vivencia são as formas que o personagem encontra de escapar da dura realidade em que vive. Por fim, o livro traz ao leitor uma mensagem de esperança e luta pela vida.

A Casa da Madrinha foi traduzido para vários idiomas e também ganhou muitos prêmios internacionais.

Aqui vão trechos de mais uma obra imperdível de Lygia Bojunga:

house

“Alexandre nem esperou a turma sumir pra catar o dinheiro no chão. Desembrulhou a cocada, comeu de uma vez só. As balas nem mastigou: engoliu. Descascou correndo as bananas, comeu uma atrás da outra. Se virou pra ver se encontrava mais coisa no chão, tomou um susto danado:

-Ué, não tinha visto você.

Vera estava quieta olhando pra ele; pegou a merenda e estendeu:

– Não comi no recreio. Ontem chupei muita manga e meu estômago ficou ruim. Quer?

Alexandre fez que sim. Abriu o guardanapo que embrulhava um sanduíche de queijo e uns bolinhos de milho. Se encostou na mangueira e foi comendo.”

” – Agora o Pavão vai dormir até não poder mais. E eu vou ter que tomar conta dele.

– Por quê?

– Ué, se roubam meu pavão tô desgraçado: não tem mais show, não ganho mais, como é que eu vou comer?

– Ele mora com você em Copacabana?

– Não. Encontrei com ele na viagem.

– Que viagem?

– Eu tô viajando, tô indo pra casa da minha madrinha.”

“- Bom, antes de fazer sucesso ele não tinha dono nenhum. Mas foi só começar aquela história de todo o mundo querer ver a beleza do Pavão que apareceram logo cinco donos: um disse o Pavão tinha nascido no jardim dele e então era dele; o vizinho disse que ele é que dava comida pro Pavão e então o Pavão era dele; uma mulher disse que ela é que tinha dado o Pavão pro dono do jardim e que então ela era a primeira dona: uma outra disse: “História! A mãe do Pavão era minha; se eu era dona da mãe sou dona dos filhos também”; e aí o quinto dono resolveu: “O Pavão não tem nada que topar ou não topar esse negócio de cobrar entrada; a gente que é que é dono, a gente é que resolve, pronto!” E os outros quatro também disseram: pronto.

– E o Pavão topou?

– Topou nada! Ficou danado da vida de ver aparecer tanto dono de repente. E quando viu que queriam prender ele num jardinzinho à-toa pra se exibir o tempo todo, ainda ficou mais zangado. Logo ele que vivia pensando em viajar, um dia pegar um navio e atravessar o mar todinho. Falou: “Não topo mesmo.” Então prenderam ele pela pata. Mas ele se soltou.”

“Aí perderam a paciência e resolveram: “Vamos acabar de uma vez com a mania desse cara se soltar.” E então levaram o Pavão para uma escola que tinha lá perto e que era uma escola feita de propósito pra atrasar o pensamento dos alunos.

A escola pra onde levaram o Pavão se chamava Escola Osarta do Pensamento. Bolaram o nome da escola pra não dar muito na vista. Mas quem estava interessado no assunto percebia logo: era só ler Osarta de trás pra frente.”

” O Curso Papo era pra isso mesmo: pro aluno ficar com medo de tudo. O pessoal do Osarta sabia que quanto mais apavorado o aluno ia ficando, mais o pensamento dele ia atrasando.”

“- Mas tá na cara que você não tem madrinha nenhuma! Aquilo foi tudo história que o Augusto inventou pra você dormir!  – E foi só acabar de falar que já bateu um arrependimento danado: “puxa vida, pra quê que eu fui falar? pra quê!”

“Foi teu pai e tua mãe que falaram que tá na cara que eu não tenho madrinha nenhuma?

-Foi.

(…) “ – Já tinham me avisado que gente grande tem uma inveja danada de madrinha de gente pequena.”

Karina

Comments (2) »

Vale a pena ler Ruth Rocha

Mais um estória divertida de Ruth Rocha para mostrar que as crianças são bem mais espertas do que se imagina e que a sua inteligência não pode ser subestimada.

COMO SE FOSSE DINHEIRO

2911098856_bb27413624

Todos os dias Catapimba levava dinheiro para escola para comprar o lanche.

Chegava no bar, comprava um sanduíche e pagava seu Lucas.

Mas seu Lucas nunca tinha troco.

Um dia, Catapimba reclamou de seu Lucas:

– Seu Lucas, eu não quero bala, quero meu troco em dinheiro.

– Ora, menino, eu não tenho troco. Que é que eu posso fazer?

– Ah, eu não sei! Só sei que quero meu troco em dinheiro!

– Ora, bala é como se fossa dinheiro, menino? Ora essa…

Catapimba ainda insistiu umas duas ou três vezes.

A resposta era sempre a mesma:

– Ora, menino, bala é como se fosse dinheiro… Então, leve um chiclete, se não gosta de bala.

Aí, Catapimba resolveu dar um jeito.

No dia seguinte, apareceu com um embrulhão de baixo do braço. Os colegas queriam saber o que era. Catapimba ria e respondia;

– Na hora do recreio, vocês vão ver…

E, na hora do recreio, todo mundo viu.

Catapimba comprou o seu lanche. Na hora de pagar, abriu o embrulho. E tirou de dentro… uma galinha.

Botou a galinha em cima do balcão.

– Que é isso, menino? – perguntou seu Lucas.

– É pra pagar o sanduíche, seu Lucas. Galinha é como se fosse dinheiro… o senhor pode me dar troco, por favor?

Os meninos estavam esperando para ver o que seu Lucas ia fazer.

Seu Lucas ficou um tempão parado, pensando…

Aí colocou uma moedas no balcão:

– Está aí seu troco, menino!

E pegou a galinha, para acabar com a confusão.

No dia seguinte, todas as crianças apareceram com embrulhos debaixo do braço.

No recreio, todo mundo foi comprar lanche.

Na hora de pagar…

Teve gente que queria pagar com raquete de pingue-pongue, com papagaio de papel, com vidro de cola, com geléia de jabuticaba…

O Armandinho quis pagar um sanduíche de mortadela com o sanduíche de goiabada que ele tinha levado…

Teve gente que também levou galinha, pato, peru…

E, quando seu Lucas reclamava, a resposta era sempre a mesma;

– Ué, seu Lucas, é como se fosse dinheiro…

Mas seu Lucas ficou chateado mesmo quando apareceu o Caloca puxando um bode.

Aí, seu Lucas correu e chamou a diretora.

Dona Júlia veio e contaram pra ela o que estava acontecendo.

E sabe o que ela achou?

Pois achou que as crianças tinham razão..

– Sabe, seu Lucas – ela falou -, bode não é como se fosse dinheiro. Galinha também não é. Até aí o senhor tem razão. Mas bala também não é como se fosse dinheiro muito menos chiclete.

Seu Lucas se desculpava:

– É, mas eu não tive troco?

– Aí, o senhor anota, e no outro dia paga.

Os meninos fizeram uma festa, deram pique-pique pra dona Júlia e tudo.

Naquele dia, nem houve mais aula.

Mas o melhor de tudo é que todos do bairro ficaram sabendo do caso.

E, agora, seu Pedro da farmácia não dá mais comprimidos de troco, seu Ângelo do mercado não dá mais mercadoria como se fosse dinheiro.

Afinal, ninguém quer receber um bode em pagamento, como se fosse dinheiro. É, ou não é?

(Fonte: http://www.uol.com.br/ruthrocha/home.htm)

Karina

Comments (2) »

Mais José Paulo Paes para a garotada

Trazemos mais dois poemas do escritor José Paulo Paes, que soube, com muito talento e criatividade, escrever para crianças.

O primeiro poema – Convite – como o próprio título diz, convida a criança a brincar com as palavras. É sem dúvida um incentivo para a garotada se animar a escrever mais, a dar asas à imaginação.

No segundo poema transcrito hoje – Pura Verdade – Paes brinca com o leitor e sua imaginação.

Divirtam-se:

820343_chalk_girl

CONVITE

Poesia

é brincar com palavras

como se brinca

com bola, papagaio, pião.


Só que

bola, papagaio,pião

de tanto brincar

se gastam.


As palavras não:

quanto mais se brinca

com elas

mais novas ficam.


Como a água do rio

que é água sempre nova.


Como cada dia

que é sempre um novo dia.


Vamos brincar de poesia?


1181142_another_world

PURA VERDADE

Eu vi um ângulo obtuso

Ficar inteligente

E a boca da noite

Palitar os dentes.


Vi um braço de mar

Coçando o sovaco

E também dois tatus

Jogando buraco.


Eu vi um nó cego

Andando de bengala

E vi uma andorinha

Arrumando a mala.


Vi um pé de vento

Calçar as botinas

E o seu cavalo-motor

Sacudir as crinas.


Vi uma mosca entrando

Em boca fechada

E um beco sem saída

Que não tinha entrada.


É a pura verdade,

A mais nem um til,

E tudo aconteceu

Num primeiro de abril.

Karina

Comments (3) »

Literatura Infantil

Oferecemos o post de hoje principalmente aos leitores mirins. Trazemos dois poemas infantis, um da consagrada Cecília Meireles e o outro do escritor e poeta paulista José Paulo Paes (1926-1998), que dedicou grande parte de sua carreira a escrever para crianças e  – diga-se – com muita criatividade e sutileza.

Certamente, se apresentadas desde cedo à obra desses poetas, as crianças irão carregar consigo o hábito de gostar de ler.

Confiram:


RARIDADE

macaw

A arara

é uma ave rara

pois o homem não pára

de ir ao mato caçá-la

para a pôr na sala

em cima de um poleiro

onde ela fica o dia inteiro

fazendo escarcéu

porque já não pode

voar pelo céu.


E se o homem não pára

de caçar arara,

hoje uma ave rara,

ou a arara some

ou então muda seu nome

para arrara.

(José Paulo Paes)

A BAILARINA

ballerina

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.


Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.


Não conhece nem mi nem fá

mas inclina o corpo para cá e para lá.


Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.


Roda, roda, roda com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.


Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.


Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.


Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

Karina

Leave a comment »

Atendendo a pedidos: mais poesia para crianças

As Flores

garden

Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.
Umas, criadas com arte,
Outras, simples e modestas,
Há flores por toda a parte
Nos enterros e nas festas,
Nos jardins, nos cemitérios,
Nos paúes e nos pomares;
Sobre os jazigos funéreos,
Sobre os berços e os altares,
Reina a flor! pois quis a sorte
Que a flor a tudo presida,
E também enfeite a morte,
Assim como enfeita a vida.
Amai as flores, crianças!
Sois irmãs nos esplendores,
Porque há muitas semelhanças
Entre as crianças e as flores…

(Olavo Bilac)

—x—

Sonhos da Menina

moon_river_9

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha  . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

(Cecília Meireles)

Karina

Leave a comment »

“O menino que quase virou cachorro”

Mais uma estória de Ruth Rocha para alegrar e ensinar a criançada. Porque criança também tem voz ativa e merece atenção.

O Menino que Quase Virou Cachorro

claim

“Miguel era um menino bacana.

Brincalhão, inteligente, amigo dos amigos.

E ele era muito amigo do Tanaka, um outro menino brincalhão, inteligente e descolado.

Os dois conversavam muito, sobre uma porção de coisas.

Um dia o Miguel disse pro Tanaka:

-Cê sabe, Tanaka, eu acho que eu sou invisível.

-Invisível? Como assim? Eu estou vendo você muito bem…

– Não – disse o Miguel – não sou invisível pra todo mundo, não. Só pros meus pais. Eles olham pra mim, mas acho que eles não me enxergam!

O Tanaka ficou espantado. E então eles combinaram que iriam à casa do Miguel só pro Tanaka ver.

No sábado, na hora do almoço Tanaka chegou, como eles tinham combinado.

Miguel abriu a porta, mandou o amigo entrar e anunciou a todos que já estavam sentados pra almoçar :

-Eu trouxe o Tanaka pra almoçar conosco!

A mãe do Miguel levantou, botou um a cadeira pro Tanaka, foi buscar um prato, um copo e os talheres.

Enquanto isso ia conversando:

-Olá, Tanaka, faz tempo que você não aparece! E sua mãe vai bem? E sua irmã, tão bonitinha, sua irmã…

Mas nem olhou pro Miguel.

Miguel sentou-se, serviu-se, comeu, e ninguém olhou pra ele. Tanaka ficou reparando.

Então o Miguel fez uma pergunta pro pai, mas ele estava prestando atenção à TV e só fez:

-Shhh…

Quando os meninos saíram o Tanaka estava espantado, mas ele disse:

-Acho que as famílias são assim mesmo. Ninguém presta atenção aos filhos…

O Miguel ainda falou:

-Pois é, quando eu saio com meu pai é ainda pior! Meu pai fala comigo como se eu fosse o cachorro “Anda!”, “Anda logo!” “Espera!” “Anda!” “Vem logo!”

Na semana seguinte Miguel saiu com o pai. E como ele tinha dito o pai só dizia “Anda!”, “Vem logo!”

Miguel foi ficando bravo.

Aí quando o pai, mais uma vez disse “Anda!” Miguel latiu:

-Au, au, au, au!

O pai olhou espantado, mas o ônibus estava chegando e eles tomaram o ônibus.

Quando desceram o pai continuou: Anda, para, espera, vem logo!

Miguel latiu outra vez:

-Au, au, au, au!

O pai olhou espantado:

-Que é isso, menino, vem!

E o Miguel:

-Au, au, au, au!

-Pára com isso! – o pai respondeu – Vem!

Miguel resolveu parar, porque achou que o pai estava ficando bravo…

Mas na outra semana havia um casamento de uma prima e o pai levou o Miguel para comprar uma roupa. Nem perguntou o que ele queria. Já foi escolhendo uma calça comprida, uma camisa, um suéter e … uma gravata.

Miguel não falou nada, porque ninguém perguntou. Mas ele pensou: “Eu não vou botar gravata, nem morto. Eu não sou cachorro pra usar coleira…”

No dia do casamento Miguel tomou banho, se vestiu, calçou os sapatos, que também eram novos, mas não botou a gravata.

O pai dele chamou: “Vem aqui.” Miguel chegou perto do pai e disse:

– Eu não quero botar gravata. Parece coleira.

O pai nem respondeu. Ele disse:

-Vem!

E foi botando a gravata no pescoço do Miguel e dando um laço e apertando o laço e o Miguel começou a uivar.

-Aúúúúúúú!

O pai ficou espantado, mas continuou a apertar o laço e a dizer:

-Fica quieto! Não se mexa!

-Pare com isso!

E então o laço estava tão apertado que o Miguel não aguentou. Tacou uma mordida na mão do pai.

O pai ficou furioso, cheio de “Que é issos” e de “ Para já com issos” e de “Vam’ver, vam’veres”.

A mãe veio lá de dentro pra ver o que estava acontecendo e o Miguel disse:

-Se não querem que eu vire cachorro, não me tratem como cachorro!

O pai olhou pra mãe.

A mãe olhou pra pai.

-Que é isso – disse a mãe – ninguém trata você como cachorro!

E o Miguel respondeu:

-Então não me ponham coleira! Não me chamem “Vem”. Eu tenho nome.

O Miguel, nesse dia, foi ao casamento sem coleira… quer dizer, sem gravata.

E o Tanaka e contou que quando foi à casa do Miguel, na semana passada, os pais falavam com ele direitinho:

-Quer mais feijão, Miguel?

-Me passa a batatinha, filho?”

Karina

Comments (3) »