Posts tagged amor

Pequena morte

A pequena morte

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Não nos provoca o riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntarmo-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.

(Eduardo Galeano, O livro dos abraços)

Karina

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Canção quase melancólica

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Parei as águas do meu sonho
Para teu rosto mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
Ficou por cima, a procurar… Os pássaros da madrugada
Não têm coragem de cantar,
Vendo o meu sonho interminável
E a esperança do meu olhar.

Procurei-te em vão pela terra,
Perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
Por que insisto em te imaginar?

Quando vierem fechar meus olhos,
Talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
E que vens, se o tempo voltar.

(Cecília Meireles)

 

Karina

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Bukowski

225 dias sob a grama
e você sabe mais do que eu.
há muito eles tiraram seu sangue,
você é um galho seco numa cesta.
é assim que funciona?
nesse quarto
as horas de amor ainda fazem sombras.

quando você partiu
você levou quase
tudo.
eu me ajoelho à noite
ante tigres
que não me deixarão ser.

o que você foi
não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não ligo.

(Charles Bukowski, Para Jane)

 

Karina

 

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Uma dedicatória à minha Esposa, por T.S. Eliot

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A quem devo o súbito prazer
Que me estimula os sentidos nas horas acordadas
E o ritmo que nos governa o repouso nas horas dormidas,
A respiração em uníssono

Dos amantes cujos corpos cheiram um ao outro
Que pensam os mesmo pensamentos sem precisar de palavras
E balbuciam as mesmas palavras sem precisar de sentido.

Nenhum vento de inverno impertinente vai gelar
Nenhum sol de trópico rabugento vai fazer murchar
As rosas no rosal que é nosso que é só nosso

Mas esta dedicatória é para outros lerem:
São palavras reservadas dirigidas a você em público.

 
 
(T.S.Eliot in Obras Completas – Volume I – Poesia – Tradução de Ivan Junqueira)
 Thomas Stearns Eliot foi poeta, dramaturgo e crítico literário. Nasceu em 26 de setembro de 1888 nos Estados Unidos, na cidade de St. Louis, no Missouri.  Transferiu-se para a Inglaterra em 1914, onde adquiriu a cidadania britânica. Sua obra recebeu influência de Charles Baudelaire.
Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1948.
Faleceu no ano de 1965, em Londres, deixando importante obra literária.
Karina

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O Pequeno Príncipe

O Pequeno Príncipe, Capítulo XXI

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E foi então que apareceu a raposa :

– Bom dia, disse a raposa.

– Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.

– Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…

– Quem és tu ? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…

– Sou uma raposa, disse a raposa.

– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…

– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

– Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou :

– Que quer dizer “cativar “?

– Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras ?

– Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer “cativar” ?

– Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo ! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem. Tu procuras galinhas ?

– Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”?

– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa  “criar laços”…

– Criar laços ?

– Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

– Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor… Eu creio que ela me cativou…

– É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra…

– Oh! Não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada :

– Num outro planeta ?

– Sim.

– Há caçadores nesse planeta ?

– Não.

– Que bom ! E galinhas ?

– Também não.

– Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua ideia.

– Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe :

– Por favor… Cativa-me! Disse ela.

– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me !

– Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.

– É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, cada dia, te sentará mais perto…

No dia seguinte o principezinho voltou.

– Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta a agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.

– Que é um rito ? Perguntou o principezinho.

– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias !

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou à hora da partida, a raposa disse :

– Ah ! Eu vou chorar.

– A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…

– Quis, disse a raposa.

– Mas tu vais chorar! Disse o principezinho.

– Vou, disse a raposa.

– Então, não sais lucrando nada !

– Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou :

– Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas :

– Vós não sois absolutamente iguais a minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

– Sois belas, mas vazias, disse ele ainda: Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o para vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa :

– Adeus, disse ele…

– Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

(O Pequeno Príncipe –  Antoine de Saint-Exupéry)

Karina

 

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Eduardo Galeano

O diagnóstico e a terapêutica

Helena Murphy

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um
reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos,
despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos
febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes. O
amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por
descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode
impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de
alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e
ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção
capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis
beberagens com garantia e tudo.

(do Livro dos Abraços, Eduardo Galeano)

Karina

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Belo trecho

Egon Schiele

Egon Schiele

 

Primeiro amo-a. Depois respiro.
E é esta a minha cadência. É esta a cadência que me mantém vivo.
Amá-la, inspirar, amá-la, expirar.

(Pedro Chagas Freitas)

 

 

Pedro Chagas Freitas é escritor português e possui diversas obras publicadas. Mais em http://www.pedrochagasfreitas.com/

Karina

 

 

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Tagore

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Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

(Rabindranath Tagore)

Karina

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Trecho de Torquato da Luz

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“Ainda um dia hei-de contar-te as espantosas
coisas de que me lembro quando fico à tua espera
horas e horas, cada vez mais vagarosas,
e tu não chegas, meu amor, e tu demoras
mais do que a minha paciência. Quem me dera
aquele tempo em que era sempre primavera
e assistia indiferente à passagem das horas.

Mas, quando chegas, só me ocorre esquecer tudo
e ter-te uma vez mais como quem tem o mundo.”

(Torquato da Luz)

Torquato da Luz foi poeta e jornalista português e teve vários livros publicados. Vale a pena conferir a obra deste notável escritor.

Karina

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Abraça-me

ABRAÇA-ME

Lovers with half moon - Marc Chagall

Lovers with half moon – Marc Chagall

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.

(Joaquim Pessoa)

Joaquim Maria Pessoa, nascido em 1948, é um poeta português.

Karina

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