Verissimo para relaxar

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Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, no ano de 1936. Filho do maravilhoso escritor Érico Verissimo, seguiu os passos do pai à altura, tendo publicado um sem-número de obras muito inteligentes e cheias de humor. Além de escritor, é cartunista e roteirista de televisão.

Um de seus livros mais famosos e festejados é “Novas Comédias da Vida Privada”. Trata-se de  uma coletânea de 123 crônicas que, de tão interessantes e engraçadas, podem ser lidas de sopetão, numa única noite.

Hoje presenteamos o leitor com uma dessas crônicas, intitulada “Cama, Mesa e Banho”. Em breve, certamente colocaremos outras, para satisfação dos frequentadores do blog.

Divirtam-se!

A tese da mãe da Julinha é a seguinte: qualquer casamento pode ser salvo até começarem a voar objetos. Um casamento sobrevive a tudo, menos ao açucareiro na cabeça. E a mãe da Julinha é contra a tese segundo a qual, se um casamento dá certo na cama, o resto se arranja. Ela acha que é justamente o contrário. Foi o que disse para a Julinha quando a filha anunciou que ia se casar com o Torres duas semanas depois de conhecê-lo.

 – É uma loucura! Vocês não sabem nada um do outro.

 – No que interessa, já nos conhecemos até demais.

Se dependesse da Julinha, nem haveria casamento. Mas a mãe insistiu. Não fazia questão de véu e grinalda, mas alguma cerimônia tinha que haver, nem que fosse só para terem o que fotografar.

 – Se seu pai não usar gravata prateada, morre – foi o argumento da mãe para convencer a filha única.

A Julinha cedeu. Aceitou a cerimônia civil, as famílias reunidas, os salgadinhos, os bolos, as fotos, a gravata prateada do pai, tudo. Mesmo porque 15 minutos depois de assinarem os papéis, ela e o Torres já estavam no hotel, inaugurando oficialmente a lua-de-mel, antes de viajarem para Cancún.

Os problemas começaram no dia seguinte.

Ao meio-dia, Julinha apareceu em casa de surpresa. A mãe levou um susto.

 – Vocês não viajaram?

 – Ele raspa a manteiga, mamãe.

 – O quê?

 – Descobri hoje no café da manhã. No hotel. Ainda bem que eles serviram a manteiga em tablete. Senão eu só ia descobrir depois.

 – Minha filha, eu não estou…

 – Ele raspa a manteiga! Não corta em segmentos, como eu. Como é normal, como é o certo. Raspa por cima. E outra coisa…

 – O quê?

 – A pasta de dente. Aperta no meio. Não começa a apertar por baixo. Aperta em qualquer lugar, mamãe. Eu não posso viver com um homem que aperta o tubo de pasta de dente no meio.

A mãe se sentiu justiçada. Tinha avisado, não tinha? Na cama, qualquer um se acerta. O problema era a mesa e o banho.

 – Pode-se dar um jeito, minha filha. Seu pai cortava a ponta do queijo. Eu ensinei a cortar ao comprido.

 – Não tem mais jeito, mamãe. Ele disse que é raspador e vai morrer raspador. E outra coisa…

 – O quê?

 – Já voaram objetos.

 – Meu Deus.

 – O casamento acabou.”

 

Telma

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